Ainda antes da primeira oficina me perguntava como começar o trabalho de maneira a envolver os alunos na proposta.
Ansiava por saber se o grupo embarcaria na aventura (auto)biográfica (ABRAHÃO, 2004) e como eu poderia fazer para convidá-los a esta viagem. A oficina, com apenas 18 horas, por razões de calendário acadêmico foi colocada em dois sábados de 9 horas. Compreendo que esta disposição não permite uma experienciação ao longo do tempo, o que possibilita maior reflexão.
Diante do possível, comecei a preparar a oficina. Após ter realizado o curso com Josso13 sobre autoformação percebi que: 1) era necessário que eu falasse de mim, abrindo assim o convite a falar de si; 2) era necessário envolver não apenas o pensamento, mas o corpo nestas oficinas. Assim que propus aos alunos que separassem e trouxessem para o encontro, dez objetos (fotos, documentos ou quaisquer objetos) que representassem /simbolizassem/inspirassem a lembrança de momentos importantes de suas vidas e de sua formação. A tarefa foi entregue por escrito (Anexo B).
O primeiro encontro começou, então, antes da primeira hora de aula, mas no encontro de cada um com suas lembranças a partir da necessidade de separar,
13 Curso realizado na PUC-RS, em abril de 2008, para os grupos de pesquisa em Pesquisa- formação nos Programas de Pós-graduação da PUC-RS, UNISINOS, UFSM, UFPEL e UFRGS.
escolher e limitar em dez os elementos de sua história. Eu fiz o mesmo. Separei dez objetos de minha história e percebi o quanto era difícil a escolha dos mesmos, não só por remeter a reflexão sobre momentos difíceis, mas também à censura do que é ou não adequado. Também a questão da limitação em dez, faz da tarefa mais complicada.
No dia da aula, começamos com uma atividade de relaxamento e de atenção a respiração. Logo após, iniciei apresentando a proposta de pensar a história de nossa vida como pertencente à formação de professores, argumentei neste sentido, e também de pensar em o que era aprender em nossa vida, quando tínhamos aprendido, com quem, como e etc. Entreguei um roteiro que iria guiar nossa oficina (Anexo C). Neste roteiro pensei um pouco a questão do tempo. Como a questão da escuta já a esta altura me parecia bastante importante, tentei mediar o tempo de fala e de escuta de cada um, não deixando livre, já que há alunos que costumam monopolizar o tempo e ficam prejudicados na atividade da escuta e assim, aqueles que falam menos acabam não desenvolvendo a atividade da fala. Expliquei para eles a divisão do tempo e a questão pedagógica que estava pensada para além de uma simples divisão do tempo.
Assim, apresentei ao grupo meus objetos significativos, evidenciando como alguns momentos modificaram o curso de minha história. O perigo nisto seria o de criar modelos e pautas a seus relatos, no entanto como a escolha dos objetos já havia sido realizada, resolvi utilizar esta estratégia para encorajá-los. Logo após, pedi que se reunissem em grupos de seis pessoas e que cada um em vinte minutos falasse sobre os objetos por eles trazidos. Depois, escolhessem um único objeto para apresentar a todos os colegas e fizessem um relato do que aconteceu neste grupo. Durante o tempo eu pude escutar alguns alunos, e não todos, já que se constituiram quatro grupos de seis pessoas, trabalhando simultaneamente. Não ser a mediadora de todos os grupos foi a única forma que consegui pensar para trabalhar a atividade com trinta alunos14 em nove horas. Abri mão de estar no controle de todos os espaços. Confesso que isto gera uma certa insegurança e por isto o planejamento e explicação da atividade foram muito importantes.
Para minha enorme surpresa e alegria, percebi que os alunos entraram no trabalho com grande intensidade. Meu relato pareceu fazer com que ficassem
ansiosos para também eles relatarem suas vidas. Surgiram vários debates em torno de política, religião, escola, educação entre outros, o que evidenciou que diversos registros estavam sendo refletidos.
Logo abaixo estão os objetos escolhidos e uma síntese que coletei a partir da apresentação dos grupos. A foto da página noventa e nove retrata este momento.
Grupo 1 - Objeto escolhido: Dente de leite. O grupo apresentou um poema acerca de nossos dentes. “A escola não me marcou, só as relações que lá tive.”
Grupo 2 - Objeto escolhido: Boneca e dicionário. A infância e a vida adulta. A possibilidade de retorno ao mundo infantil. Não dissociar as coisas. A comunhão entre humanos. Não somos Ets (e somos). A dificuldade de escolher os objetos... Não é fácil abrir-se e perceber a dificuldade e a diferença.
Grupo 3 - Objeto escolhido: Livro do Dalai-Lama. A infância, a formação e a escola: de que maneira a formação interferiu naquilo que eu busco hoje (nas crenças, na busca de crescimento profissional, na prioridade de registros que estabeleço para a minha vida)? Compreender que estas coisas não são acidentes.
Grupo 4 - Objeto escolhido: Diário escrito para a mãe. O grupo se identificou como movido pela paixão – família, raiva, sentidos da vida, relógio, tempo, corrida, parada para olhar para si. Afinal, nossos valores são parecidos ou não? “Sonhar é acordar-se para dentro.” O valor do sonho e da utopia.
No início da tarde, voltamos a mais uma atividade de relaxamento, escutando o silêncio e relaxando cada parte do corpo. Propus a eles que fizessem uma primeira e breve escrita narrativa enfocando um professor que marcou sua vida. Poderia ser um professor, ou simplesmente uma pessoa que tenha marcado suas aprendizagens.
Logo após a escrita individual os alunos se reuniram novamente nos grupos, leram seu escrito e buscaram analisar o que nesta pessoa fazia dela tão importante em sua trajetória de formação.
Os grupos apresentaram ao grande grupo e pudemos observar que as características designadas como marcantes não estavam embasadas em saberes formais, mas em comportamentos, atitudes e valores que estas pessoas possuiam, boas ou más. A partir daí foi proposto um exercício reflexivo sobre que aprendizagens significativas estavam sendo realizadas neste momento de suas vidas e a questão de como nossos comportamentos são inconscientemente influenciados por vivências e, portanto, trabalhar com a dimensão de nossa própria
história é ampliar a consciência do que nos mobiliza. Com este olhar, os alunos receberam os memoriais escritos para o processo seletivo e puderam ler individualmente o que haviam escrito. Ficaram com a tarefa de escrever sua história de vida para o próximo encontro que seria daí a três meses.