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Quanto à ocorrência de mudanças na forma de avaliar na escola, após a introdução dos ciclos, as opiniões dos sujeitos pesquisados se dividem. Para sete dos entrevistados houve mudanças, algumas positivas e outras não, enquanto três não acham que houve mudança na forma de avaliar.

Os gestores da escola e da SEDUC, além de considerarem que houve mudança na concepção da avaliação, que passou a ser vista como um instrumento de diagnostico, avaliam- na de forma positiva e com bastante otimismo. Essa postura justifica-se por se tratarem de pessoas responsáveis pela condução da reforma no âmbito central e escolar, sendo comum, nestes casos, a preocupação em preservar a imagem da instituição, bem como sua auto- imagem.

Entre as mudanças, ressaltam a valorização da avaliação qualitativa, uma maior diversidade nas formas de avaliar, extinção de um período específico para realização de provas e por considerar o aluno em todas as suas dimensões.

No entanto ressaltam o caráter parcial da mudança que atingiu mais o 1º e 2º ciclos e alguns professores. Retorna-se ao tema da prova e da nota, citadas como os aspectos mais problemáticos para a mudança na avaliação.

No ensino médio que no caso seria o 5º ciclo, alguns professores ainda têm essa visão da avaliação como um instrumento mesmo pra.... e a nota ou seja é uma medição. No ciclo I e II mudou um pouquinho, mas eles ainda cobram um pouquinho... Não sei se é porque os pais ficam cobrando e eles continuam naquela estória da provinha então os professores eles são orientados pra avaliar o aluno de uma forma bem abrangente, nas tarefas de classe, nas tarefas de casa, nos trabalhos em grupo, as provinhas também, agora mesmo assim a gente observe que alguns ainda se detêm muito nessas provas (diretora).

A concepção de avaliação eu acredito que sim. [...] Porque havia uma supervalorização da nota, de quantificar resultados. Agora eu acho que as pessoas têm mais... mudou esse conceito de avaliação e ela tem mais a noção da questão da qualidade da avaliação, da característica qualitativa da avaliação. E o resultado da avaliação não é apenas só do aluno envolve muitos fatores (coordenadora pedagógica).

Avaliação contínua, não tem semana de prova, o professor sabe que tem que avaliar tudo no aluno. Passou a utilizar vários instrumentos: prova só de texto, resumo, diário, cartaz. Em tudo o aluno é avaliado. O aluno que adoecia na semana de prova ficava sem nota (supervisora).

Há uma preocupação por parte dos professores em considerar vários aspectos da formação humana, rompendo com a idéia de avaliar apenas o aspecto cognitivo (orientadora da Célula de Desenvolvimento Curricular - SEDUC).

Alguns pontos dos depoimentos merecem ser comentados. Primeiro, questiona-se a mudança, mesmo que parcial, na concepção de avaliação. Como se demonstrou anteriormente pelos depoimentos das professoras, embora seus discursos incluam elementos inovadores, predomina a percepção da avaliação com sentido classificatório, relacionada à medida. A referência constante a prova e nota mostram a centralidade desses elementos na avaliação. Contrariamente afirmada pela gestora da SEDUC, observou-se a predominância da avaliação dos aspectos cognitivos, guardando coerência com as práticas de ensino observadas em sala de aula, inclusive priorizando o ensino das disciplinas Português e Matemática.

A mudança na relação professor/aluno foi citada pela professora do segundo ciclo T9, devido à liberdade de expressão concedida aos alunos. Para ela, a avaliação tornou-se mais flexível, o aluno passou a ter mais oportunidades. O professor tornou-se mais aberto, mais maleável e passou a conhecer melhor o aluno, trazendo uma maior aproximação entre ambos. Por outro lado, sua opinião oscila quando afirma a necessidade de o aluno expressar suas idéias e dúvidas, falar dos seus problemas, contribuir com discussões na aula, mas que essa liberdade de expressão tornou o aluno indisciplinado e com isso prejudicou o professor.

Houve muita abertura para o aluno, muito mesmo! E prejudicou muito o professor. [...] O aluno é mais aberto, chega e fala os seus problemas. Tem uma abertura. Você não vê aquele professor todo poderoso que você não chegava, não podia chegar próximo. [...] é mais flexível mais maleável. O aluno, por exemplo, não tem condição de fazer uma prova no outro dia vai e faz a avaliação tem essa flexibilidade (professora segundo ciclo t9).

Em sua opinião, mudou também o tipo de prova que passou a ser subjetiva, valorizando mais as respostas dos alunos e envolvendo questões contextualizadas.

Parte dos depoimentos aponta mudanças pontuais, como esse da professora do segundo ciclo t10: “Eu acho que mudou quando saiu de AS/ANS”.

Partindo do principio de que já avaliava de acordo com a proposta do ciclo, a professora do primeiro ciclo T8 entende que não houve mudança. Entretanto sua fala evidencia a não incorporação na prática dos pressupostos da avaliação proposta:

Eu já fazia assim, eu avaliava no dia-a-dia. Nunca eu fui professora de prova. Também eu junto com a prova o exercício já trabalhado, o que eles ganharam de nota. Às vezes eu faço uma

rodinha e eles fazem trabalho de equipe. Então eu já acho que aquilo já vai enriquecer pra eu dar uma nota (professora primeiro ciclo t8).

Persiste, como em tantos outros depoimentos já mostrados, a ênfase na nota e, por conseguinte, na classificação dos alunos.

O depoimento da professora do segundo ciclo t10 é relevante na medida em que revela claramente um dos obstáculos que impede os professores de realizarem uma avaliação formativa, como propõe a concepção do ciclo de formação. Destaca o aspecto que mudou na avaliação da seguinte forma:

Em relação à avaliação eu acho que mudou quando saiu de AS/ANS e passou pra nota. Aí você pode avaliar com mais precisão se a criança sabe ou não sabe. Eu acho que houve uma mudança favorável. Porque você vai dar uma transferência [...] e tem escola que não sabe o que é AS/ANS. E quando passou a ser nota melhorou. Você já sabe em que nível a criança está. [...] na parte da nota foi favorável, foi melhor (professora segundo ciclo t10).

A representação da professora sobre a avaliação é de uma medida contínua, viva, sendo a nota a expressão justa dessa medida. Para Hadji (2001), essa forma de pensar a avaliação “como atividade de triagem científica” são representações inibidoras, uma vez que sua presença dificulta a emergência da avaliação formativa, pois se torna um obstáculo à construção dos conceitos científicos. Dito de outra forma, essas representações que são reforçadas pelo uso social dominante da avaliação, numa perspectiva administrativa, só é possível de ser superada através de uma concepção cientificamente fundamentada da atividade de avaliação. O referido autor considera que a primeira maneira de superar as representações inadequadas é voltar-se para o saber, fazendo de modo sistemático o balanço do que foi cientificamente estabelecido pela pesquisa. Considerando os fatores sociais que interferem na avaliação, afirma: “De fato, a mudança nas práticas implica, entre outras coisas, mudanças das mentalidades, condicionadas por fatores de ordem ideológica e social” (HADJI,2001:23).

A ex-diretora do Núcleo de Desenvolvimento Curricular da SEDUC, que contribuiu na implementação da proposta do ciclo no Ceará considera, que:

infelizmente não houve mudança na forma de avaliar dos professores. Havia uma resistência bastante significativa por parte da escola, sobretudo dos professores em adotar a concepção da avaliação proposta na implantação dos ciclos. (ex-diretora do Núcleo de Desenvolvimento Curricular da SEDUC período 1998-/2002).

O argumento da resistência dos professores, como se pode ver neste último depoimento, para justificar o distanciamento entre a proposta oficial de avaliação e as práticas efetivamente desenvolvidas na escola, foi um aspecto comum na fala dos gestores da escola e da SEDUC. Isso mostra a ausência de uma visão de totalidade, levando-os, equivocadamente, a perceberem como causa o que de fato é conseqüência. Como foi demonstrada anteriormente, a implantação da proposta não envolveu os pais e professores, não levando em conta que “o envolvimento desses atores tem de ocorrer no próprio momento de adoção do ciclo na escola, e não como um jogo de marketing montado para convencer os professores e pais a aceitarem a posteriori os ciclos” (FREITAS, 2003, p.70).

Benzer Belgeler