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No Brasil, as idéias liberais e a concepção moderna do contrato alcançaram a verdadeira consolidação com a edição do Código Civil de 1916, elaborado por Clóvis Bevilacqua. O Código Civil de 1916, gestado durante longos 17 (dezessete) anos, foi a grande síntese do movimento de manutenção do poder pela elite brasileira414.

413 TABOADA, Lizardo. La Teoria General del Contrato frente a la del Negocio Jurídico. Revista de Direito Civil. Ano 18. Nº 70. Outubro-dezembro de 1994, pág. 42.

414 Orlando Gomes sintetiza os bastidores históricos da época da elaboração e da entrada em vigor do Código Civil de 1916 nos seguintes termos: “Ao tempo em que Clóvis Beviláqua apresentou o Projeto do Código Civil brasileiro, éramos, na precisa observação de Sílvio Romero, uma nação embrionária, cuja indústria mais importante consistia em uma lavoura rudimentar, extensiva, servida ontem por dois milhões de escravos e, àquele tempo, abolida a escravatura, isto é, na última década do século XIX, por trabalhadores nacionais e algumas dezenas de milhares de colonos de procedência européia; a população em geral era pobre, na sua maioria, mas eram os pobres da inércia e não os proletários no sentido socialista, porque não eram operários rurais ou fabris. (...) A esse tempo não se iniciara o processo de transformação da economia brasileira, que a guerra mundial de 14 viria desencadear. A estrutura agrária mantinha no país o sistema colonial, que reduzia a sua vida econômica ao binômio da exportação de matérias-primas e gêneros alimentares e da importação de artigos fabricados. A indústria nacional não ensaiara os primeiros passos. Predominavam os interesses dos fazendeiros e dos comerciantes, aqueles produzindo para o mercado internacional e estes importando para o comércio interno. Esses interesses eram coincidentes. Não havia, em conseqüência, descontentamentos que suscitassem grandes agitações sociais. A preservação e a defesa desses interesses estavam confiadas a uma classe média escassa, cujo marginalismo econômico se compensava no exercício dos cargos burocráticos, dos quais se assenhoreava em conseqüência da urbanização prematura de alguns pontos do país. Para a organização social do país, a racionalização dos interesses dos fazendeiros e comerciantes se processou por intermédio dessa classe, que os matizou com os pigmentos de seus preconceitos. Ajustada, então, material e espiritualmente, à situação econômico-social do país, pelo apoio que recebia da burguesia rural e mercantil, transfundiu na ordem jurídica a seiva de sua ilustração, organizando uma legislação inspirada no Direito estrangeiro, que, embora estivesse, por vezes, acima da realidade nacional, correspondia, em verdade, aos interesses a cuja guarda e desenvolvimento se devotava” (Raízes Históricas e Sociológicas do Código Civil Brasileiro. São Paulo: Martins Fontes, 2003, págs. 24/25).

O Código Civil brasileiro de 1916415, quando em vigor, apresentava essas características ínsitas ao modelo liberal ou clássico da doutrina contratual, já que, para que o contrato fosse válido e produzisse efeitos na relação, bastava a presença, como se extrai do disposto no art. 145, da manifestação da vontade das partes, do objeto lícito ou possível, do agente capaz, da observância da forma e da solenidade essencial prescrita em lei - praticamente reproduzido pelo Código Civil de 2002, no art. 166.

O Estatuto de 1916, bem se sabe, é fruto da doutrina individualista e voluntarista que, consagrada pelo Código de Napoleão e incorporada pelas codificações posteriores, inspiraram o legislador brasileiro quando, na virada do século, redigiu o primeiro Código brasileiro. Àquela altura, o valor fundamental era o indivíduo, cuidando o direito privado de regular a atuação dos sujeitos de direito, notadamente o contratante e o proprietário, que almejavam poder contratar, fazer circular as riquezas, adquirir bens como expansão da própria inteligência e personalidade, sem restrições ou entraves legais. Eis aí a filosofia do século XIX que marcou a elaboração do tecido normativo consubstanciado no Código Civil de 1916416.

Esse papel do Código Civil e a crença do individualismo como verdadeira religião marcam as codificações do século XIX e, portanto, o Estatuto de 1916, fruto de uma época em que um dos valores mais importantes da sociedade era a segurança, que se traduzia, mais propriamente, na estabilidade das regras jurídicas dos negócios. Eventuais riscos do negócio, advindos do sucesso ou do insucesso das transações, expressariam a maior ou menor inteligência, a maior ou menor capacidade de cada indivíduo417.

415 Hoje não mais em vigor, em face do advento do Novo Código Civil de 2002 (Lei 10.406/2002).

416 TEPEDINO, Gustavo. Premissas Metodológicas para a Constitucionalização do Direito Civil. In: Temas de Direito Civil. 3ª Edição. Rio de Janeiro: Renovar, 2004, pág. 2.

Ruy Rosado de Aguiar Júnior sintetiza que, dentre as principais características, o Código elaborado por Clóvis Beviláqua ostentava nítida feição individualista, sendo o homem o centro do mundo e capaz, com a sua vontade e a sua razão, de ordená-lo e submetê-lo às intenções das partes. Além disso, no Código, quase não existem cláusulas gerais, o que dificulta a judicialização dos contratos. E, por fim, ainda destaca que o Código de 1916 foi confeccionado em uma época de estabilidade econômica, com relações civis centradas na propriedade imobiliária418.

Porém, esta era de estabilidade e segurança, retratada pelo Código Civil brasileiro de 1916, entra em declínio na Europa já na segunda metade do século XIX, com reflexos na política legislativa brasileira a partir dos anos 20 do século XX. Os movimentos sociais e o processo de industrialização crescentes do século XIX, aliados às vicissitudes do fornecimento de mercadorias e à agitação popular, intensificadas pela eclosão da Primeira Grande Guerra, atingiriam profundamente o direito civil europeu, e também, na sua esteira, o ordenamento brasileiro, quando se tornou inevitável a necessidade de intervenção estatal cada vez mais acentuada na economia419.

O Código Civil de 1916 foi elaborado pela classe média com a preocupação de dar ao Brasil um sistema de normas de Direito privado que refletisse às aspirações de uma sociedade sintonizada com os interesses do regime capitalista de produção. Entretanto, essa doutrina inspiradora da burguesia mercantil encontrou obstáculos na estrutura agrária do país e na falta estímulos de uma organização industrial que desse impulso ao liberalismo, tal como ocorreu na Europa continental. A classe burguesa liberal e progressista, que tentava se fortalecer, estava presa aos interesses dos fazendeiros, que, embora se mostrassem

418As Obrigações e os Contratos. Revista do CEJ/Conselho da Justiça Federal. Centro de Estudos Judiciários. N. 1. Brasília: CJF, 1997, pág. 32.

imediatamente coincidentes, não tolerava certas ousadias. E, como não poderia deixar de ser, esse desajustamento interno entre os interesses da classe dominante influenciou a construção de vários institutos na fase de elaboração do Código Civil420.

O art. 85 do Estatuto Civil de 1916421 nada mais fez do que desenhar em linhas escritas a concepção liberal do contrato, ao dispor que, nas manifestações de vontade, a interpretação deve dá preponderância mais à intenção (elemento subjetivo) do que o sentido literal da linguagem utilizada das cláusulas negociais.

Consoante Paulo Luiz Neto Lôbo, o art. 85 do Código de 1916 reflete o ambiente político-social de uma época de ascensão do liberalismo jurídico, da visão do Estado mínimo e da liberdade contratual quase absoluta, o que o tornava refratário a qualquer intervenção legislativa ou jurisdicional422.

No entanto, por vários motivos que serão explorados no próximo capítulo, a concepção estritamente liberal dos contratos de teor excessivamente individualista entra em crise, provocando nítido descompasso entre os ditames estabelecidos no Código Civil de 1916 e as novas necessidades de uma sociedade, que, além de se encontrar mergulhada num

420 GOMES, Orlando. Raízes Históricas e Sociológicas do Código Civil Brasileiro. São Paulo: Martins Fontes, 2003, pág. 30/31. Aliás, Orlando Gomes alerta, porém, que dois fatos, em relação ao momento histórico vivido na época da confecção e da entrada em vigor do Código Civil de 1916, “devem ser destacados para melhor compreensão de certos fenômenos superestruturais, notadamente o jurídico. O primeiro é a contradição ideológica entre os setores predominantes da camada superior. Enquanto a burguesia mercantil aspirava a um regime político e jurídico que lhe assegurasse a mais ampla liberdade de ação, tal como preconizava a ortodoxia liberal, a burguesia agrária temia as conseqüências da aplicação, ao pé da letra, dos princípios dessa filosofia política, consciente, como classe, de que a democratização de fundo liberal se faria ao preço do seu sacrifício. Essa contradição não provocou o antagonismo entre os dois setores, não só porque seus interesses econômicos imediatos coincidam, mas também porque a superestrutura política era, em verdade, de fachada. O regime representativo, por sua desfiguração através do coronelismo, permitia ao proprietário da terra resguardar-se de investidas contra seus interesses fundamentais. Por outro lado, o sistema de franquias liberais aproveitava, tão- somente, a reduzido número, sendo estranho à grande maioria da população miserável e inculta. E, desse modo, sem grandes abalos, arrastava-se o país pelos corredores da História” (Ibid., pág. 29).

421 A redação desse dispositivo legal foi reproduzida no atual Código Civil de 2002 (art. 112), o que demonstra que, mesmo na concepção contemporânea do contrato, ainda se mantém alguns resquícios da teoria tradicional. 422Condições Gerais dos Contratos e Cláusulas Abusivas. São Paulo: Saraiva, 1991, pág. 127.

modelo econômico de consumo de massa, cada vez mais se apresenta desigual do ponto de vista social e econômico.

Benzer Belgeler