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De acordo com o ACNUDH (ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS, 2006b, p. iii), a pobreza representa o maior desafio que o mundo enfrenta atualmente no campo dos direitos humanos. Muitos governos ao redor do mundo expressaram um forte compromisso para erradicar a pobreza, compromisso este inserido nos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio. O desafio, agora, é transformar esse compromisso em ações concretas.
Além de vislumbrar uma nítida relação entre direitos humanos e pobreza, o ACNUDH relaciona inúmeras razões que justificam a utilização de uma abordagem de direitos humanos para as estratégias de redução da pobreza. Entre tais razões, destacam-se as seguintes (ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS, 2006b):
a) Estrutura normativa explícita – Além de expressar valores universalmente reconhecidos, os direitos humanos geram obrigações jurídicas para os Estados que integram os tratados internacionais de direitos humanos, fornecendo uma estrutura capaz de influenciar fortemente na formulação de políticas públicas, incluindo as relacionadas à redução da pobreza;
b) Empoderamento (empowerment)21 dos pobres – a própria introdução do conceito de direitos humanos no contexto das estratégias de redução da pobreza tem o potencial de empoderar os pobres, na medida em que suas postulações deixam de ser baseadas meramente em necessidades e passam a se fundamentar em direitos;
c) Aplicação dos princípios da igualdade e não-discriminação – partindo da
21 Na concepção do ACNUDH o termo empowerment é usado “[...] para descrever um processo de aumento das capacidades de indivíduos pobres ou grupos para fazer escolhas e transformar essas escolhas em ações e resultados desejados, bem como de participar, negociar, influenciar, controlar e responsabilizar as instituições que afetam suas vidas.” (ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS, 2006b, p. 4, tradução nossa). No original: […] to describe a process of increasing the capabilities of poor individuals or groups to make choices and to transform those choices into desired actions and outcomes, and to participate in, negotiate with, influence, control and hold accountable the institutions that affect their lives.
premissa de que grande parte da pobreza deriva de estruturas sociais e práticas discriminatórias, o aporte teórico dos direitos humanos tem muito a acrescentar ao desenvolvimento de estratégias de redução da pobreza a partir da aplicação dos princípios correlatos da igualdade e não-discriminação, que trazem à tona a necessidade de se focar em questões e instituições políticas, econômicas e sociais que dão suporte à estrutura de desigualdade.
d) A proibição de retrocesso – em que pese a reconhecida importância das restrições de recursos, circunstância que tem considerável peso também no contexto dos direitos humanos, estes impõem certos limites às possiblidades de ação, notadamente a proibição de retrocesso. Isto é, o arcabouço dos direitos humanos não se coaduna com políticas que gerem um retrocesso no nível de observância de capacidades básicas, a pretexto de atender a contingenciamentos ocasionados por restrição de recursos;
e) Foco tanto no processo, como no resultado – para os direitos humanos, não importa apenas os resultados alcançados, mas também a maneira como se chega tais resultados. Nessa perspectiva, ressalta-se a importância da participação ativa dos pobres em todo o processo de formulação, implementação e monitoramento das estratégias de redução da pobreza, não apenas como algo útil, mas como um direito em si mesmo;
f) Responsabilização – direitos implicam em deveres e deveres ensejam responsabilização. Essa característica dos direitos humanos impõe a criação de mecanismos transparentes e efetivos para responsabilização daqueles que tem como dever o respeito, a proteção e a promoção dos direitos humanos;
g) Responsabilidade compartilhada – na perspectiva dos direitos humanos, embora sejam os Estados os obrigados primários pela realização dos direitos humanos no âmbito de suas respectivas jurisdições, os indivíduos, as organizações não- governamentais e os outros Estados também possuem responsabilidades que envolvem, pelo menos, o dever de não violar os direitos humanos;
h) Ampliação do escopo das estratégias de redução da pobreza – na concepção atual dos direitos humanos, todos os direitos, sejam eles econômicos e sociais ou políticos e civis, são interdependentes e correlacionados, de modo que uma abordagem da redução da pobreza nessa perspectiva envolve, necessariamente, todas as espécies de direitos humanos;
arcabouço apropriado para a formulação de estratégias de redução da pobreza, o ACNUDH afirma o seguinte:
Uma vez que este conceito [direitos humanos] é introduzido no contexto de formulação de políticas, a justificativa para a redução da pobreza não deriva apenas do fato de que as pessoas em situação de pobreza têm necessidades, mas também do fato de terem direitos que dão origem a obrigações legais por parte de outros. Assim, a perspectiva de direitos humanos acrescenta legitimidade à demanda para fazer da redução da pobreza o principal objetivo da formulação de políticas. A perspectiva dos direitos humanos chama a atenção para o fato de que a pobreza significa a não- realização dos direitos humanos, de modo que a adoção de uma estratégia de redução da pobreza não é apenas desejável, mas obrigatória para os Estados que ratificaram instrumentos internacionais de direitos humanos. (ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS, 2006b, p. 4-5, tradução nossa).22
A partir dessas considerações, pode-se concluir que, para o Alto Comissariado, a utilização dos direitos humanos na definição de estratégias para redução da pobreza é muito mais do que útil: é necessária. Além disso, na medida em que o ACNUDH adota a premissa de que a pobreza corresponde a violação de vários direitos humanos, o enquadramento das políticas de combate à pobreza no arcabouço dos direitos humanos não é apenas uma possibilidade, mas uma postura obrigatória para os países que ratificaram tratados de direitos humanos. Diante disso, o ACNUDH elaborou uma série de orientações para que os países observem quando da elaboração e implementação de políticas contra a pobreza, as quais serão abordadas no tópico seguinte.
4.3.2 O processo de formulação, implantação e monitoramento de uma estratégia de redução