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A capela representava uma parte indispensável no engenho. Local de reuniões sociais, era palco de nascimentos, casamentos, cerimônias indicativas do

35 Laus Deo, a 13 de maio de 1548 em Santos na ilha de São Vicente, costa do Brasil apud STOLS,

Eddy. Um dos primeiros documentos sobre o Engenho dos Schetz em São Vicente. Op. cit., p.417-8.

36 CORDEIRO, Silvio Luiz. A paisagem histórica do Engenho São Jorge dos Erasmos. Op. cit.,

p.61-2.

37 Segundo a professora Maria Regina da Cunha Rodrigues, em sua visita ao local (1969), podia-se

notar uma vegetação mais escura no morro que indicava a canaleta responsável por conduzir água até o engenho, porém um deslize das terras destruiu esse indício – Êsse engenho pode mudar nossa História. A Tribuna, Santos, janeiro 1969. 2º Caderno, p.14, c.1-4.

início da safra e funerais. Atraía toda a sociedade do complexo e dos arredores nos domingos e dias santos38.

Um aspecto fundamental se refere ao fato que o Engenho São Jorge, como todo seu contexto, foge às regras gerais: a construção da capela dedicada a São Jorge é de um período posterior à posse portuguesa do local, suas paredes são também compostas por tijolos, diferente das paredes de arrimo presentes no restante do complexo. Provavelmente ela tenha sido erguida na segunda geração dos Schetz, sob as ordens de Gaspar, devido a sua proximidade com os padres.

Ao tratar do mapa feito por Albernás em 1631, Silvio Cordeiro reconstituiu a estrutura arquitetônica do engenho, interpretando a parte frontal da figura como uma representação da capela - o complexo estava construído sobre um patamar elevado em relação ao rio São Jorge. Em comparação a outros engenhos representados, a torre do Engenho dos Erasmos seria maior, similar aos engenhos das ilhas atlânticas39.

Fonte: João Teixeira Albernás, Mapas Históricos Brasileiros.

38 FERLINI, Vera Lúcia Amaral. Terra, Trabalho e Poder: o mundo dos Engenhos no Nordeste

colonial. Bauru: EDUSC, 2003, p.139.

39 CORDEIRO, Silvio Luiz. A paisagem histórica do Engenho São Jorge dos Erasmos. Op. cit.,

Fonte: Silvio Luiz Cordeiro. A paisagem histórica do Engenho São Jorge dos Erasmos.

A partir da análise da planta baixa das ruínas, Silvio Cordeiro reconstituiu a estrutura da capela:

Fonte: Silvio Luiz Cordeiro. A paisagem histórica do Engenho São Jorge dos Erasmos.

A ermida40 foi um importante centro de reuniões sociais e religiosas. No local se decidiam questões sobre entradas predatórias a serem realizadas no interior – sob o artifício da Guerra Justa, medida utilizada para solucionar a falta de mão de obra, inúmeras expedições escravistas foram determinadas. Reuniões que envolvessem assuntos de justiça eram comumente realizadas nestes locais.

40 Denominação utilizada para se referir à capela do Engenho São Jorge por Silvio Luiz Cordeiro -

José de Anchieta atuou no engenho por quase uma década, ministrou diversas missas no local como atesta a carta, por ele redigida, a Gaspar Schetz, em 1579, na qual demonstra pesar com o falecimento de Melchior:

Todo o tempo que residi em S. Vicente procurei de socorrer a casa de V. M. com os ministerios de nossa Companhia, como também agora fazem os Padres que lá estão. Resido agora nesta cidade da Baía porque me deitaram ás costas o cargo de Provincial, mas, para Outubro, espero lá volver e visitar aquela terra, com a graça de Nosso Senhor.

Jesidro e Luiz, filho de João Batista, aportam aqui o ano passado e já chegaram a S. Vicente. Deram-me notícia que era falecido o sr. Melchior Schet, no tempo daquelas turbulências de Antuérpia. A dôr que todos cá sentimos Nosso Senhor sabe, por faltar lá uma cabeça tão católica em tal ocasião; e por não faltar de nossa parte a nosso ofício e á muita caridade que tem V. M. á nossa Companhia, muitas missas lhe dissemos por toda esta casa, como nos obriga a razão41.

Anchieta enaltece os serviços espirituais prestados ao engenho, condição determinante no entendimento da relação próxima da Companhia com a família antuerpiana. Adicionado a este fato, há demonstração de uma constante fiscalização sobre as ações dos administradores locais. O citado “João Batista” trata-se, provavelmente, de João Batista Maglio, então administrador do engenho. As turbulências referidas podem ser decorrentes do contexto calvinista revoltoso que perduraram de fins da década de 1560 até 1580 na Antuérpia. No trecho seguinte, o pároco demonstra mais precisamente sua função fiscalizadora sobre o empreendimento:

Sempre trabalhei por que os feitores de V. M. vivessem conformes, mas, como um se havia casado, não quis o outro sossegar, e já havia alguns dias que não combinavam bem, até que João Martins42, depois de muitas voltas

se casou, com a licença que tinha de V. M., depois de minha partida daquela terra. Como soube por cartas, logo se apartou do engenho, e tomou a casa, e ainda que a V. M. possa aí parecer outra cousa, eu o tenho pelo melhor, para o mesmo engenho, e ainda que ele sempre serviu com muita fidelidade e amor, contudo duas cabeças em um corpo é monstro. João Batista agora me escreveu que estava bem a toda família, dizendo também como V. M. lhe havia escrito que não podia escrever, pelos muitos trabalhos que o cercavam. Eu o compreendo muito bem, aqui onde estou, e ainda que de uma parte muito me compadeço de V. M., por outra contudo me alegro in Domino pois tão particularmente ama a V. M. que o toma por caudilho dos seus e tantos trabalhos lhe comunica, por sua Igreja e pela Republica, aos quais certo está haver-se de seguir muito estimada glória. Todos cá fazemos preces por essa terra e eu especialmente em meus sacrifícios faço memória de V. M., pedindo a Nosso Senhor gaste seus

41 ANCHIETA, Joshep de. Cartas, informações, fragmentos Históricos e Sermões do Padre

Joshep de Anchieta, S. J. (1554 – 1594). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira S. A., 1933, p.265.

trabalhos em grande triunfo sobre os inimigos de sua Santa fé e coroa de vida eterna.

Desta cidade da Baía de Todos os Santos do Brasil, a 7 de Julho de 1578.43

Apesar de recomendar os serviços de João Martins, afirma que o mesmo apresenta comportamentos nem sempre considerados regulares. Contudo, se supõe que fosse a melhor pessoa que poderia desempenhar a função de feitor no engenho. Este trecho do documento comprova as dificuldades no trato com os administradores, questão já explorada anteriormente. Outro aspecto importante a se destacar é a estreita relação entre os jesuítas e os Schetz, devoção esta enaltecida pelo inaciano; exemplo disto é o fato de os filhos de Erasmos Schetz se chamarem, respectivamente, Gaspar, Baltasar e Melchior, o mesmo nome dos três reis magos que presenciaram o nascimento de Jesus Cristo44.

Ao se empreender o estudo da capela presente no Engenho São Jorge dos Erasmos, se torna preponderante destacar o aspecto singular que se refere à ausência de um capelão fixo, fato presente na maioria de outros engenhos. A carta de Anchieta acima descrita demonstra que os serviços espirituais eram ministrados por vários padres, em situação itinerante, provavelmente provenientes do colégio santista. Este aspecto elucida a data aproximada da construção da capela dedicada ao santo guerreiro; em consonância com a carta do padre inaciano (1579), que disserta a respeito da observância religiosa no engenho, e os documentos analisados por Carl Laga – a fatura de bens enviados ao Brasil em 1579 que descrevia artigos religiosos, e a carta de 1612 que se refere ao complexo como “engenho S. Jorge”45-, podemos apontar a construção da ermida entre 1550 e 1579.

43 ANCHIETA, Joshep de. Cartas, informações, fragmentos Históricos e Sermões do Padre

Joshep de Anchieta, S. J. (1554 – 1594). Op. cit., p.265-6, grifo do autor.

44 Os nomes dos três reis magos constam em textos considerados Apócrifos; embora de contraditória

definição – Apócrifas são consideradas tradições orais e escritas referentes ao Novo Testamento que sofreram alterações ou foram criados com o intuito de preencher algumas supostas lacunas dos evangelhos canônicos; acredita-se que alguns textos incluídos nessa categoria se refiram à produções literárias anteriores à formulação dos cânones – dada a indefinição teórica, concebemos Apócrifos como o conjunto textual ausente e rejeitado pela autoridade canônica na formulação neotestamentária no século IV. KLAUCK, Hans-Josef. Evangelhos Apócrifos. Trad. Irineu J. Rabuske. São Paulo: Loyola, 2007, p.7-10; OTERO, Aurelio de Santos (ed.). Los Evangelios Apócrifos. Madrid: Biblioteca de Autores Cristinanos, 2006, p. XI-XVII. Os três reis magos são pormenorizadamente descritos no denominado Evangelho Armênio da infância: “Y lós reyes de lós magos eran tres hermanos: Melkon, el primero, que reinaba sobre los persas; después Baltasar, que reinaba sobre los índios, y el tercero Gaspar, que tenía em posesión el país de los árabes” - OTERO, Aurelio de Santos (ed.). Los Evangelios Apócrifos. Op. cit., p.188.

45

Na tentativa de demonstrar a singularidade do espaço religioso de um engenho, destaca-se a referência que Fernão Cardim faz a respeito das capelas dos engenhos do recôncavo baiano durante a visitação de Cristóvão Gouveia:

O padre Quiricio Caxa e eu prégamos algumas vezes em as ermidas, que quase todos os senhores de engenhos têm em suas fazendas, e alguns sustentam capellão á sua custa, dando-lhes quarenta ou cincoenta mil réis cada anno, e de comer á sua mesa. E as capellas têm bem concertadas, e providas de bons ornamentos (...)46.

Tal situação não ocorria no espaço religioso do engenho dos Erasmos: além da já citada ausência de um capelão fixo, a capela, apesar de ser um território

cristão, pode ser considerada como propriedade privada, parte do complexo.

Conforme se verifica nas imagens a seguir, a capela em questão não tinha espaço físico para conceber um ambiente conforme explicitado no excerto de Cardim.

Capela visão frontal. Fonte: Acervo Pessoal, 2006.

Capela visão lateral. Fonte: Acervo Pessoal, 2006.

Capela, fundos. Fonte: Acervo Pessoal, 2006.

Elemento presente em todo engenho, os templos católicos eram de fundamental importância. Com relação ao reconhecimento arqueológico da ermida, Silvio Cordeiro afirma: “Por enquanto, pode-se dizer [que] dos vestígios que

resistiram alteados em relação ao rio, apenas as estruturas na área chamada capela certamente serviram como tal”47.

A capela se desenvolve por um eixo transversal à parede do fundo. No que se refere ao espaço, o que se considera altar está delimitado entre três paredes, tendo um fundo que outrora foi utilizado como local de defesa (posto que contem uma seteira); duas muretas baixas o separam da nave e definem a entrada do templo. Na parede lateral direita, ao se observar o altar de frente, encontra-se um nicho48.

A edificação de uma igreja, além de provocar o assentamento permanente do grupo, acabava por nomear o local ou até mesmo a cidade. O Engenho São Jorge dos Erasmos é um exemplo deste fato: a propriedade recebeu este nome devido ao fato de ter sido erguido em seu interior uma capela dedicada a São Jorge.

Emblemática em sua estrutura e evocando relações peculiares conforme as descritas, outro fator que chama a atenção é a devoção do santo no local: São Jorge. Opção não casual, que um estudo aprofundado pode revelar as formulações de sentido empreendidas a partir do espaço sagrado49.

Feita a análise do contexto histórico e social do engenho, passaremos à apreciação do cemitério e sua relação ritualística.

Benzer Belgeler