II. BÖLÜM
2. OTOMOTİV SEKTÖRÜNE YÖNELİK VERGİLER
2.8. AKARYAKIT ÜZERİNDEKİ VERGİLER
Machado, pelo ensino, pela alfabetização, quer congregar o povo para que esse possa compartilhar da palavra, para ele um símbolo de libertação e extinção de mazelas:
Todas as coisas estão em gérmen na palavra, diz um poeta oriental. Não é assim? O verbo é a origem de todas as reformas.
Os hebreus, narrando a lenda do Gênesis, dão à criação da luz a precedência da palavra de Deus. É palpitante o símbolo. O fiat repetiu-se em todos os caos, e, coisa admirável! sempre nasceu dele alguma luz.
A história é a crônica da palavra. Moisés, no deserto; Demóstenes, nas guerras helênicas; Cristo, nas sinagogas da Galiléia; Huss, no púlpito cristão; Mirabeau, na tribuna republicana; todas essas bocas eloqüentes, todas essas cabeças salientes do passado, não são senão o fiat multiplicado levantado em todas as confusões da humanidade. A história não é um simples quadro de acontecimentos; é mais, é o verbo feito livro.
Ora pois, a palavra, esse dom divino que fez do homem simples matéria organizada, um ente superior na criação, a palavra foi sempre uma reforma. Falada na tribuna é prodigiosa, é criadora, mas é o monólogo; escrita no livro, é ainda criadora, é ainda prodigiosa, mas é ainda o monólogo; esculpida no jornal, é prodigiosa e criadora, mas não é o monólogo, é a discussão.
E o que é a discussão?
A sentença de morte de todo o status quo, de todos os falsos princípios dominantes. Desde que uma coisa é trazida à discussão, não tem legitimidade evidente, e nesse caso o choque da argumentação é uma probabilidade de queda. (ASSIS, 2008b: 1035)
É pela palavra, segundo crônica de 20 de abril de 1889, que dizemos quem somos e o que pensamos. A palavra distingue culturas:
Bons dias!
A principal vantagem dos estudos de língua, é que com eles não perdemos a pele, nem a paciência, nem, finalmente, as ilusões, como acontece aos que se empenham na política, essa fatal Dalila (deixem-me ser banal), a cujos pés Sansão perdeu o cabelo, e André Roswein a vida.
— André, tu ainda hás de fazer com que eu acabe os dias num convento, diz Carnioli ao infeliz Roswein.
Nunca repetirei isto ao ilustre latinista, que ultimamente emprega os seus lazeres em expelir barbarismos e compor novas locuções. Língua, tanto não é Dalila, que é o contrário; não sei se me explico. Podemos errar; mas, ainda errando, a gente aprende.
Agora mesmo, ao sair da cama, enfiei um chambre. Cuidei estar composto, sem escândalo. Não ignorava (tanto que já o disse aqui mesmo) que aquele vestido, antes de passar a fronteira, era robe de chambre; ficou só chambre. Mas como vinha de trás, os velhos que conheci não usavam outra coisa, e o próprio Nicolau Tolentino, posto que mestre-escola, já o enfiou nos seus versos, pensei que não era caso de o desbatizar. Nunca mandei embora uma caleça só por vir de calèche; o mais que faço, é não dar gorjeta ao automedonte, vulgo cocheiro.
Imaginem agora o meu assombro, ao ler o artigo em que o nosso ilustre professor mostra, a todas as luzes, que chambre é vocábulo condenável, por ser francês. Antes de acabar o artigo, atirei para longe a fatal estrangeirice, e meti- me num paletó velho, sem advertir que era da mesma fábrica. A ignorância é a mãe de todos os vícios.
Continuei a ler, e vi que o autor permite o uso da coisa, mas com outro nome, o nome é rocló, "segundo diziam (acrescenta) os nossos maiores".
Com efeito, se os nossos maiores chamavam de rocló ao chambre, melhor é empregar o termo de casa, em vez de ir pedi-lo aos vizinhos. O contrário é desmazelo. Chamei então o meu criado — que é velho e minhoto — e disse-lhe que daqui em diante, quando lhe pedisse o rocló, devia trazer-me o chambre. O criado pôs as mãos às ilhargas, e entrou a rir como um perdido. Perguntei-lhe por que se ria, e repeti-lhe a minha ordem.
— Mas o patrão há de me perdoar se lhe digo que não entendo. Então o chambre agora é rocló?
— Sim, que tem?
— É que lá na terra rocló é outra coisa; é um capote curto, estreito e de mangas. Parece-me tanto com chambre, como eu me pareço com o patrão, e mais não sou feio...
— Não; é impossível.
— Mas se lhe digo que é assim mesmo; é um capote. Eu até servi a um homem, lá em Lisboa (Deus lhe fale n’alma!) que usava as duas coisas, — o chambre em casa, de manhã; e, à noite, quando saía a namorar, ia com o seu rocló às costas, manguinhas enfiadas.
— Inácio, bradei levantando-me, juras-me, pelas cinzas de teu pai, que isso é verdade?
— Juro, sim, senhor. O patrão até ofende com isso ao seu velho criado. Pois então é preciso que jure? Ouviu nunca de mim alguma mentira... Tudo por
causa de um rocló e de um chambre... Isto no fim da vida... Adeus! Faça as minhas contas. Vou-me embora...
Deixei-o ir chorando, e fiquei a cogitar, no modo de emendar a mão ao nome,a fim de que a gente menos advertida não pegasse logo no rocló, que não é chambre. É coisa certa que a ignorância da língua e o amor da novidade dão certo sabor a vocábulos inventados ou descabidos. Mas como fazê-los, sem citar o depoimento do meu velho minhoto, que não tem autoridade? Estava nisso, quando dei um grito, assim:
— Ah!
Dei o grito. Tinha achado o segredo da substituição do nome. Com efeito, rocló vem do francês roquelaure, designação de um capote. Portugal recebeu de França o capote e o nome, e ficou com ambos, mas foi modificando o nome. Tal qual aconteceu com robe de chambre. A mudança proposta agora no artigo a que me refiro, ficaria sem sentido, se não fosse intenção do autor, suponho eu, curar a dentada do cão com o pêlo do mesmo cão. Similia similibus curantur.
Boas noites. (ASSIS, 2008c: 865-6)
Machado, ainda tratando da “palavra”, leva em conta o grau de desenvolvimento da cidade: os tempos mudam, as coisas mudam, as necessidades mudam, então, a palavra também deve mudar, a fim de acompanhar o que é moderno. No trecho abaixo, da crônica de 14 de outubro de 1894, ele fala do bonde puxado a cavalo que dá lugar ao bonde elétrico, porém sua intenção é discutir os efeitos linguísticos dessa evolução.
Um cabograma... Por que não adotaremos esta palavra? A rigor não preciso dela; para transmitir as poucas notícias que tenho, basta-me o velho telegrama. Mas as necessidades gerais crescem, e a alteração da coisa traz naturalmente a alteração do nome. Vede o homem que vai na frente do bonde elétrico. Tendo a seu cargo o motor, deixou de ser cocheiro, como os que regem bestas, e chamamos-lhe motorneiro em vez de motoreiro, por uma razão de eufonia. Há quem diga que o próprio nome de cocheiro não cabe aos outros, mas é ir longe de mais, e em matéria de língua, quem quer tudo muito explicado, arrisca-se a não explicar nada. (ASSIS, 2008c: 1110)
É ainda a palavra que dá o mote para uma brincadeira linguística que Machado faz com a cultura japonesa. A imigração japonesa não era permitida no Brasil, somente a partir de 1892 é que se admitiu a entrada de asiáticos no país. Nos anos seguintes, então, a vinda de japoneses para cá seria frequente, tanto que em 5 de novembro de 1895, o Governo Brasileiro assina um Tratado de Amizade, Comércio e Navegação entre Brasil e Japão, permitindo assim que muitos japoneses se instalem em nossas terras, para que deem novo ânimo à lavoura. Machado, então, escreve uma longa crônica comentando a imigração nipônica, em 28 de outubro de 1894, e, no final da crônica, a brincadeira linguística:
O momento é japonês. Que esses braços venham lavrar a terra, e plantar, não só o café, mas também o chá, se quiserem. Se forem muitos e trouxerem os seus jornais, livros e revistas de clubes, e até as suas moças, alguma necessidade haverá de aprender a língua deles. O padre Lucena escreveu, há três séculos, que é língua superior à latina, e tal opinião, em boca de padre, vale por vinte academias. Tenho pena de não estar em idade de a aprender também. Estudaria com o próprio comissário Sho Nemotre, que esteve agora em S. Paulo; ensinar-lhe-ia a nossa língua, e chegaríamos à convicção de que o almirante Ito é descendente de uma família de Itu, e que os japoneses foram os primeiros povoadores do Brasil, tanto que aqui deixaram a japona. Ruim trocadilho; mas o melhor escrito deve parecer-se com a vida, e a vida é, muitas vezes, um trocadilho ordinário. (ASSIS, 2008c: 1116)