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O mapeamento mostrado no esquema a seguir aponta para os modos de visibilidade conferidos às prostitutas Daspu e não-Daspu pelo destinador Folha de S.

Paulo. Dele é possível depreender que as prostitutas Daspu retratadas pelas

reportagens foram revestidas figurativamente de certas características, que lhes conferiram modos de presença específicos, e por sua vez, foram trabalhados na lógica da visibilidade instaurada pelo destinador dessa mídia.

Em última instancia, o poder de fazer-ver que o destinador possui contribui para o fazer-saber sobre essas figuras no social, isto é, os modos de presença tornados visíveis como eufóricos ou disfóricos no social estabelecem para essas figuras lugares sociais. Foi em busca dos sentidos produzidos para identificar esses lugares que se chegou ao esquema a seguir:

A posição “querer-ser-vista” é ocupada pelas prostitutas Daspu figurativizadas na coluna social de Mônica Bergamo, como consta no ítem 2.3 dessa pesquisa, nomeada “O mundinho fashion Daspu”. As prostitutas Daspu buscam obter visibilidade social por meio a visibilidade midiática e são mostradas pelo destinador da Folha de S. Paulo nessa performance em dois momentos no texto. No primeiro, a prostituta Jane é reconhecida como modelo da grife por uma “patricinha” em um espaço público, o da loja C&A. Em outro momento, Jane e outras prostitutas são reconhecidas também como modelos e exaltadas por uma repórter e uma secretária no momento que chegam em um bar próximo à sede da ONG Davida.

Em ambos os casos, as prostitutas Daspu são mostradas por esse destinador como querem ser-vistas: reconhecidas socialmente por atuarem nas profissão de prostituta-modelo. A visibilidade midiática que apresenta o reconhecimento efetivado por outros sujeitos sociais promove para elas uma forma de pleitear a euforia de estar no social, ou seja, por serem dadas a ver como reconhecidas por outros sujeitos na mídia criam um potencial de fazerem saber seu lugar entre eles, como grupo social.

No entanto, na dêixis contraditória a essa, o destinador apresenta as prostitutas na coluna social de José Simão, estudada no ítem 2.2 e intitulada “Socorro! Saiu a Daslu para quengas!”. Nessa posição do esquema, as prostitutas são tornadas visíveis como usurpadoras da identidade do grupo social das mulheres da elite paulistana, que possuíam visibilidades midiática e social prestigiosas junto ao meio. Identificadas pelo destinador Folha de S. Paulo como pertencentes a um grupo social marginalizado, são tidas nessa condição como não merecedoras de uma visibilidade midiática axiologizada positivamente para pleitearem um lugar eufórico no social.

A visibilidade disfórica no social é construída na posição conseguinte e mostra a figura da prostituta Daspu no “querer-não-ser-vista”. A reportagem intitulada “Daspu desfila moda antiaids”, estudada previamente no ítem 2.5 apresenta as prostitutas vinculadas à marca como modelos que desfilam pela causa da saúde, tema pertinente ao seu universo de atuação porque são grupo de risco transmissor do vírus HIV, que encontra grande potencial de contágio na prática sexual sem o uso de preservativo. No entanto, o enfoque conferido à matéria recai sobre o estigma que essas mulheres tentam evitar ao realizarem a performance como modelos: doentes, criminosas, discriminadas, alvo de preconceito social, isto é, tudo o que não querem ser socialmente é convocado no conteúdo dessa matéria. A embora sejam mostradas promovendo a saúde, é a origem dessa busca é exposta na visibilidade midiática que lhes é conferida e é, portanto, disfórica no social: elas são posicionadas, enquanto grupo, como párias, como sempre o foram.

A dêixis contraditória a essa indica o modo “não-querer-não-ser-vista” recuperado da matéria “Gravações de Camila Pitanga param o trânsito e ajudam ‘colegas’ de Bebel”, analisada no ítem 2.4, trazem a figura da ex-prostituta Gabriela Leite e das prostitutas que alegaram não querer serem identificadas ou usam codinomes, como Danielle. Essas mulheres não possuem visibilidade totalmente eufórica a partir de quem são socialmente sem o emprego mecanismos para alavancarem seu poder-serem-visíveis como a marca Daspu e a personagem Bebel, prostituta da novela global Paraíso Tropical.

É a visibilidade mídiatica emprestada das ações de Daspu e da personagem Bebel que edificam um modo de presença não-disfórico no social tanto para a figura de Gabriela Leite, que comparece como figura do saber sobre a prostituição, quanto para Bebel, personagem interpretada pela atriz Camila Pitanga, que recebe o saber-

parecer prostituta possuído por Gabriela. Sem o sucesso da personagem, as

prostitutas não-identificadas não teriam voz nem visibilidade junto ao destinador dessa mídia. Elas possuem uma pretensão de euforia no social a partir da visibilidade da personagem midiatizada.

É possível detectar, nesse esquema, o surgimento da prostituta midiatizada entre as posições “não-querer-não-ser-vista” e “não-querer-ser-vista”. Essa referência se volta para o potencial de midiatização da figura da prostituta em sua forma tradicional, em que ela comparece como insuficiente para ser notícia e ter um lugar, uma identidade eufórica com os outros grupos sociais. A prostituta midiatizada é a “mesma prostituta”, carente de condições de visibilidade e que, portanto, se apóia em outras construções já estabelecidas midiaticamente como a personagem da novela global ou o grupo das mulheres da elite para pleitearem um lugar de visibilidade.

Entre as posições “não-querer-ser-vista” e “querer-não-ser-vista” as prostitutas são mostradas como decadentes nas mídias, isto é, sob o prisma de uma visibilidade baseada em valores negativos, que as afastam do lugar de inclusão e euforia de estar no social, como pretendido pelo destinador do website Daspu. Elas são vistas pela Folha de S. Paulo como marginais que pleiteiam uma visibilidade eufórica no social, mas em nenhum momento o sucesso nessa busca é revelado, fazendo com que seu status tenda a manter para elas um lugar de exclusão social por meio da negativação de seus valores identitários, como a doença e a apropriação (imprópria) das identidades social e midiática de outro grupo.

A prostituta midiatizável é construída entre as posições “querer-ser-vista” e “querer-não-ser-vista”. São figuras meritocráticas, merecedoras de visibilidade midiática por serem mostradas como “outras”, que não são apenas prostitutas. São profissionais do sexo, da moda, como em “O mundinho fashion Daspu” ou desfilam como ativistas sociais pela saúde, em “Daspu desfila moda antiaids”. A condição que as afasta da visibilidade da prostituição em si, a busca por uma profissionalização diversa da sua de origem as torna atraentes aos olhos do destinador, que lhes confere visibilidade midiática como um potencial de visibilidade social.

A prostituta emergente nas mídias é, então, a construída entre as posições “não-querer-não-ser-vista” e “querer-ser-vista”. Sua valoração positiva parte de uma situação não disfórica no social, por estar vinculada a outra figura midiaticamente estabelecida e valorada positivamente (a personagem Bebel) ou de uma

caracterização como profissional do sexo e modelo da própria grife de moda. Essa prostituta pode, portanto, emergir de uma situação de invisibilidade para uma de visibilidade eufórica no social desde que se utilize de plataformas como outras construções midiáticas e sociais valoradas positivamente no contexto.

Benzer Belgeler