A prática da EaD é, sobretudo, educativa à medida que envolve diferentes personagens em situação de ensino e aprendizagem, localizados num contexto histórico, político, econômico, social e cultural. No Brasil, a EaD acompanha as mudanças vividas por esta modalidade em outros países, estando o seu desenvolvimento intrinsecamente relacionado às evoluções tecnológicas ocorridas com os meios de comunicação no mundo. Desta forma, para entendê-la, corroboramos com a fala de Moore e Kearsley (2007, p.25), ao afirmarem que “[...] somente pode compreender os métodos e as questões da educação a distância na atualidade, se conhecer seu pano de fundo histórico”.
Em termos mundiais, segundo Nunes (2009), as primeiras ações individuais de educação a distância de que se têm registro ocorreram nos EUA, em Boston, em 1728, mediante a oferta de um curso por correspondência, em que o professor Calleb Philips remetia, semanalmente, lições aos alunos inscritos. Em termos institucionais, somente no ano de 1880, cursos de preparação para concursos públicos foram ofertados pelo Sherry’s College. Quanto às universidades, por volta da metade do século XX, as pioneiras foram Oxford e Cambridge, na Inglaterra; seguidas pelas Universidades de Wisconsin e de Chicago, com a oferta de cursos de extensão. No caso da América do Sul, a Venezuela foi o primeiro país a ofertar cursos à distância sob forma de universidade aberta, em 1976.
Freitas [s.d.] argumenta que os primeiros cursos de EaD surgiram para atender a uma fatia da população dos Estados Unidos e da Rússia, que não era adequadamente contemplada pela escola tradicional. Mesmo assim, a autora informa que poucas foram as iniciativas duradouras desta forma de ensino para o nível superior nos países mais desenvolvidos, pois nessa fase, havia uma resistência por parte das pessoas em relação à oferta da EaD no ensino superior, havendo, em contrapartida, uma popularização rápida dos cursos de extensão universitária ou técnicos. Outro fator que elenca como decisivo para o aumento da oferta de cursos nesta modalidade foi a Segunda Guerra Mundial, pois países como a França criaram diversos cursos por correspondência para atender a crianças oriundas de famílias que não tinham residência fixa.
No Brasil, segundo Alves (2009), em jornais do Rio de Janeiro, havia registros de anúncios de cursos de datilografia por correspondência, nas proximidades do início do século XIX. Além disso, segundo o mesmo autor, as Escolas Internacionais no país, em 1904, começaram a ofertar cursos de educação por correspondência, “voltados para as pessoas que
estavam em busca de empregos, especialmente nos setores de comércio e serviços” (ALVES, 2009, p. 9).
Já os cursos por correspondência ministrados pelos Institutos Monitor e Universal Brasileiro6, na década de 1940, contribuíram efetivamente para a difusão dessa modalidade no país, assim como para a formação profissional de nível básico de diversos brasileiros, em um período em que o acesso de adultos à escolarização ainda era escasso.
Desta forma, o que percebemos é que as demais experiências de educação à distância aqui pautadas, em diferentes períodos e épocas, estão associadas para além das variáveis contextuais, indubitavelmente, ao aparato tecnológico da época, a exemplo do uso educativo do rádio e da tevê, mas também, ao humano, representado pela figura do estudante e do professor, os quais são agentes atuantes na modalidade, embora com um maior ou menor grau de autonomia, relacionada também ao modelo educacional vigente no período.
No entanto, no que diz respeito ao professor, não se encontraram registros relacionados às condições do trabalho docente desenvolvido nessa modalidade de ensino, durante os seus primórdios, em específico, àquele desempenhado pela professora, o que nos sugere pensar que a ausência de discussões acerca deste fato é o reflexo da invisibilidade ou da irrelevância creditada que acompanhou a modalidade por muito tempo, fator que contribui para a configuração da problemática deste estudo.
O ensino por correspondência, de acordo com Alves (2009), atuou majoritariamente no campo da EaD em nosso país durante vinte anos, sendo a remessa dos materiais impressos que subsidiavam este ensino realizada por intermédio dos correios, que, por sua vez, utilizavam o transporte ferroviário para abastecer todo o território nacional. Este modelo, característico da primeira geração de EAD, ainda perdura até os dias atuais e se justifica por razões territoriais e sócio-culturais do perfil de publico alvo, sendo agora mediado por tecnologias digitais e auxiliado por tutoria humana.
As iniciativas de utilizar o rádio no Brasil, como instrumento facilitador da educação à distância, com o aporte do material impresso, começaram a despontar na década de 20 do
6 O Instituto Monitor e o Instituto Universal Brasileiro foram instituições pioneiras na oferta de cursos a
distância no Brasil. Segundo o Dicionário Interativo de Educação Brasileira, o Instituto Monitor foi a “Primeira empresa de difusão de cursos a distância no Brasil, criada em 1939 para a oferta de aulas profissionalizantes na modalidade de ensino por correspondência. Os primeiros cursos oferecidos relacionavam-se à eletrônica e à formação de radiotécnicos. A experiência do Instituto Monitor foi seguida pelo Instituto Universal Brasileiro, fundado em 1941 e que se tornou o maior difusor de cursos profissionalizantes a distância do país. [...].” Fonte: MENEZES, Ebenezer Takuno de; SANTOS, Thais Helena dos. "Instituto Monitor" (verbete). In: Dicionário
Interativo da Educação Brasileira - EducaBrasil. São Paulo: Midiamix Editora, 2002. Disponível em:
século passado. Os registros oficiais de educação pelo rádio, de acordo com Saraiva (1996, p. 19), estão relacionados com “a criação, por Roquete-Pinto, entre 1922 e 1925, da Rádio Sociedade do Rio de Janeiro e de um plano sistemático de utilização educacional da radiodifusão como forma de ampliar o acesso à educação”.
Além da atuação da Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, diversas ações de radiodifusão educativa foram desencadeadas neste período e intensificadas em todo o país, muitas delas ligadas à educação de adultos e à educação popular, com a criação do Serviço de Radiodifusão Educativa do Ministério da Educação7, em 1937; essas, porém, foram reprimidas pela censura instaurada pelo regime militar (ALVES, 2009). Dentre as ações desenvolvidas na época, muitos autores destacam a Escola Rádio Postal “A voz da Profecia” (1943), a Universidade do Ar (1950), entre outras. Há ainda um projeto radiofônico estatal, digno de destaque, o Projeto Minerva, criado em 1973, que foi responsável por ofertar Educação Básica às pessoas de baixa renda, sendo veiculado pela Rádio MEC.
Apesar dos fatos ora relatados, o ensino por rádio no Brasil, a partir das décadas de 1960 e 1970, passa a assumir um caráter exclusivamente instrucional, com o advento do regime militar, ocasionando altos índices de evasão, conforme pontua Del Bianco (2009, p. 56), porque “[...] pouco se exploravam os recursos de linguagem radiofônica, além da abordagem do conteúdo estar acima da possibilidade de acompanhamento por parte da audiência. Faltava, sobretudo, o caráter pessoal da comunicação pelo rádio”. O que acontecia, então, era uma sistemática de ensino em que o aluno ouvinte ficava passivo e que, por não utilizar recursos expressivos adequados ao suporte radiofônico, não estabelecia a empatia necessária junto ao público jovem e adulto que dele fazia uso com o intuito de se escolarizar.
Na década de 1960, se dá a criação das TVs educativas, conforme ressaltam Lopes et al. [s.d.], utilizadas em diversos experimentos, incluindo os voltados para a formação de professores. E na década de 1970, segundo estes autores, se institucionalizam as primeiras experiências do telecurso: “[...] Em 1978 é criado o Telecurso 2º grau, através de uma parceria da Fundação Padre Anchieta e Fundação Roberto Marinho. Seu foco era a preparação de alunos para exames supletivos de 2º grau.” (LOPES et al., [s.d.], p.3).
No tocante ao Ceará, de acordo com Farias (1998), o tele-ensino é inaugurado com a
7 O Serviço de Radiodifusão Educativa do Ministério da Educação está intimamente ligado a Roquete Pinto. No
ano de 1936, [...] “O Ministério da Educação e Saúde recebe, de Roquette Pinto, a doação dos aparelhos e estatutos da Radio Sociedade do Rio de Janeiro. Surge a Rádio Ministério da Educação, possibilitando a criação, através da Lei n.º 378, de 13/01/1937, do SER [Serviço de Radiodifusão Educativo]. Só em 1943, o Regimento do SER é aprovado pelo Decreto n.º 11491 (já previsto pelo Decreto 20.047)” (MENDONÇA, 2007, p. 36).
criação da TV Educativa, em 1974, objetivando oferecer formação para o antigo 1º Grau maior, nível de ensino que apresentava carência de docentes para o ensino presencial, principalmente para o interior do estado, como complementa Saraiva (1996). Este projeto, segundo Saraiva (1996, p. 21), no estado, “atendeu [, em 1995,] 195.559 alunos de 5ª a 8ª séries, em 7.322 telessalas, localizadas em 161 municípios”.
Cabe ainda destacar que, quanto à presença feminina na atuação docente na década de 1960, no tele-ensino, não tivemos acesso a dados concretos que a apresentassem. No entanto, podemos deduzir, pelo contexto histórico-social da época, que mulheres atuaram nesta modalidade de ensino, uma vez que, historicamente, o ensino tem tido uma acentuada ocupação feminina e, além disto, o requisito para participar da seleção a fim de atuar como orientador de aprendizagem8 exigia uma formação a partir do ensino médio e idade entre 18 e 35 anos.
Cumpre comentar ainda que, nesse período, a mulher passou a ter maiores oportunidades de acesso ao trabalho e ao nível superior, uma vez que as décadas de 1960 e 1970 assinalaram uma fase de expansão da Educação Superior no país, além disso, a década de 1960 foi marcada pelas reivindicações feministas, em âmbito mundial. Certamente, o ensino e, incluindo neste bojo, a função de orientador de aprendizagem, foi uma opção ou a única oportunidade que muitas mulheres trabalhadoras tiveram de inserção na população economicamente ativa.
No tocante ao arcabouço legal do tele-ensino, no período da ditadura militar, houve a criação do Código Brasileiro de Comunicações, em 1967. Este código foi responsável pela fundação da televisão educativa e pela criação da Lei 5692/71, a Lei da Reforma do Ensino de 1º e 2º Graus, que dedicava um capítulo completo ao Ensino Supletivo, vinculado à utilização educativa da correspondência, do rádio e da TV para atingir muitos educandos no país.
A respeito da ideologia que motivou a criação da EaD, no período ditatorial, Haddad e Di Pierro (2000, p. 117) afirmam que “se propunha a recuperar o atraso, reciclar o presente, formando uma mão-de-obra que contribuísse no esforço para o desenvolvimento nacional, através de um novo modelo de escola”. Esta formação à distância, ao procurar resolver, de uma só vez e de forma rápida, o grande déficit educacional, conforme pontua Soares (apud
8 De acordo com Campos (1983, p. 57), o orientador de aprendizagem (OA): “[...] coordena o trabalho da
recepção com os alunos. [...] É o profissional que orienta, dinamiza e acompanha a aprendizagem na recepção. O orientador de aprendizagem presente à sala de aula, catalisador como regente de orquestra e consciente como um educador que sabe e não sabe, e jamais como um instrutor polivalente que sabe tudo, não permitirá que se caia numa espécie de espontaneísmo pedagógico a que o ensino pela televisão como muitos pensam conduz necessariamente.”
HADDAD, 1991), buscava diminuir os custos da educação e democratizar o acesso à escola. Assim, tal tecnologia vislumbrava disseminar uma educação do futuro, via meio de comunicação, com a finalidade de adestramento. No caso do Ceará, inclusive, Farias (1998, p. 79) nos alerta para o fato de que o pretenso discurso de emancipação política, que se apresentava na concepção filosófica do tele-ensino cearense, esbarrava na constatação de que “[...] este sistema apresenta uma dupla face: por um lado, postula uma ação educativa integrada, crítica e criadora; por outro, estrutura o ensino de modo fixo, estável, definido, a priori em todas as instâncias”. Nesse sentido, o tele-ensino acabava por cumprir, muitas das vezes, uma função meramente instrucional, ao mesmo tempo em que estruturava o ensino em padrões fixos de tempos, desconsiderando as especificidades do ensino e da aprendizagem.
Braga (1997) apresenta uma pesquisa detalhada a respeito do tele-ensino no estado do Ceará e a sua relação com a democratização do ensino e a qualidade desta oferta. Em seus estudos, a autora ainda contempla a atuação do professor orientador de aprendizagem, diante do trabalho docente polivalente em disciplinas para as quais não tinha formação. Sua pesquisa revela as dificuldades de atuação deste profissional em sala de aula e os reflexos disto na formação do alunado cearense da época, atestando, por sua vez, a necessidade de repensar esta forma de ensino no tocante a sua organização pedagógica e metodológica.
Apesar das críticas relacionadas à concepção de EaD no período supracitado, o Telecurso de 2º Grau, fruto da parceria entre as Fundações Padre Anchieta e Roberto Marinho9, assim como o Projeto Saci (Sistema Avançado de Comunicações Interdisciplinares), o qual funcionou de 1967 a 1974, atenderam a mais de dez mil alunos; e as séries televisivas em formato de novelas didáticas, tais como João da Silva e Conquista, criadas e produzidas pelo Centro Brasileiro de Televisão Educativa (SARAIVA, 1996), demarcaram mais ainda a trilha galgada pela EaD em nosso país, abrindo caminho para o cenário da modalidade nos anos a seguir, com o advento das TDIC.
O Telecurso 2000, fundado em 1995, surge para substituir o Telecurso de 1º e 2º Graus, tendo como inovação principal a ideia das telessalas, criadas em igrejas, escolas ou
9 A Fundação Padre Anchieta, composta pelo “[...] Centro Paulista de Rádio e TV Educativas, instituída pelo governo do Estado de São Paulo em 1967, é uma entidade de direito privado que goza de autonomia intelectual, política e administrativa. Custeada por dotações orçamentárias legalmente estabelecidas e recursos próprios obtidos junto à iniciativa privada, a Fundação Padre Anchieta mantém uma emissora de televisão de sinal aberto, a TV Cultura; uma emissora de TV a cabo por assinatura, a TV Rá-Tim-Bum; e duas emissoras de rádio: a Cultura AM e a Cultura FM” (FUNDAÇÃO PADRE ANCHIETA, 2014). Disponível em: <http://www2.tvcultura.com.br/fpa/institucional/quemsomos.aspx>. Acesso em: 05 mar. 2014. Já a Fundação Roberto Marinho, é uma entidade sem fins lucrativos, criada em 1977, pelo jornalista Roberto Marinho. Conforme as informações obtidas em seu site, tem a finalidade de promover a cidadania, através da educação e do conhecimento. Trecho adaptado a partir de informações obtidas no endereço: <http://www.robertomarinho.com.br/obra/fundacao-roberto-marinho.htm>. Acesso em: 05 mar. 2014.
associações, com apoio da Fundação Roberto Marinho e em parceria com governos ou instituições públicas e privadas, as quais passavam a dispor de vídeo, DVDs e materiais didáticos, tendo ainda o professor como mediador do processo de ensino e aprendizagem. (FUNDAÇÃO ROBERTO MARINHO, [s.d.]).
No tocante aos canais abertos de televisão, sabemos que a sua atuação quanto à oferta de programas educativos foi, e ainda tem sido, muito incipiente, uma vez que aqueles direcionados a este fim, geralmente ofertados em horários pouco atraentes, foram e continuam sendo concebidos de modo a não comprometer a grade televisiva das emissoras nos períodos de maior audiência.
Já em relação aos canais fechados merece ser citado o canal educativo Futura, fundado em 1997 e mantido por diversas instituições, como Bradesco, TV Globo, entre outras, o qual desenvolve parcerias também com diversas universidades, tomando como responsabilidade a exibição de seus programas através das TVs universitárias. Ressalta em suas ações que “[...] propaga valores e informações úteis ao cotidiano da população, 24 horas por dia, todos os dias. Alcança crianças, jovens, famílias e trabalhadores. [...]” (FUTURA, [s.d.]).