1. KIRMA ZEYTİN
1.3. Ürün Hazırlamada Dikkat Edilecek Hususlar
Segundo PAULO LUIZ NETTO LÔBO, “impõe-se a distinção entre
origem biológica e paternidade/maternidade. Em outros termos, a filiação não é um determinismo biológico, ainda que seja da natureza humana o impulso à procriação. Na maioria dos casos, a filiação deriva da relação
biológica; todavia, ela emerge da construção cultural e afetiva permanente, que se faz na convivência e na responsabilidade”.97
O fato é que, após a Constituição de 1988, houve uma busca frenética pelo reconhecimento da paternidade. Concomitante a isso, conforme dito anteriormente, o surgimento do exame de DNA, que trouxe para o campo jurídico a certeza, ou quase ela, da paternidade biológica, fez com que a paternidade passasse a ser vista, antes de mais nada, como um vínculo de sangue.
“A Constituição Federal de 1988 e as Leis nºs 8.069/90 (ECA) e 5.560/92 canonizaram a paternidade biológica, pelo que o filho, a qualquer tempo, já que imprescritível a demanda, pode investigar a paternidade contra o pai genético, não importando se é solteiro, viúvo, casado, divorciado ou convivente, não havendo mais qualquer discriminação entre os filhos, pois todos são legítimos, não importando a origem da filiação”98.
Ao estudarmos a filiação, poderíamos dizer que encontramos três verdades: verdade legal (ficção jurídica), verdade socioafetiva e verdade biológica.
97Paulo Luiz Netto Lobo. Princípio jurídico da afetividade na filiação. In: Anais do II Congresso
Conforme dito anteriormente, a verdade biológica imperou no final do século passado e continua a ser buscada com muita intensidade nos dias atuais, sendo, inclusive, o embasamento para a Ação Anulatória de Registro Civil, tema ora tratado.
Contudo, o direito de família tem passado por grandes mudanças e no que se refere à paternidade, parte da doutrina, mais modernamente, passa a defender a tese da desbiologização da paternidade, argumentando que ao argumento de que para além de um vínculo biológico, “a verdade que a Justiça tem de proclamar não é a que decorre do sangue, que corre nas veias, mas dos sentimentos, dos brados da alma, dos apelos do coração”.99
O fato é que iniciamos este milênio sem conseguir dar uma definição exata para o que seja um pai. Anteriormente, em decorrência da presunção
pater est, o pai era o marido da mãe, entretanto, diante de tantas mudanças na sociedade, na legislação e nos conceitos sobre paternidade, como podemos identificar o que seja pai atualmente? O pai continuaria sendo o marido da mãe, seria aquele que registra a criança como filho (a), seria aquele que cria ou, por fim, seria aquele que transmite o código genético?
98 WELTER, Belmiro Pedro. Investigação de Paternidade Socioafetiva. Revista Brasileira de
Direito de Família, Porto Alegre: Síntese, v. 2, nº 6, p. 50, jul.-set./2000.
A inquietude enfrentada pelos que militam na seara do direito de família no que se refere à paternidade tem razão de ser, uma vez que o pai e o que ele representa na vida do indivíduo confundem-se com sua própria identidade.
O tema é polêmico, posto que ao conceder ao filho o direito imprescritível de buscar a verdade quanto à sua filiação, a Magna Carta e o Estatuto da Criança e do Adolescente erigiram a verdade biológica da filiação como aquela a que deve ser buscada pela Justiça.
Por outro lado, estudos da área da psicologia têm dito que o pai traduz- se, na verdade, no lugar em que ele ocupa, ou seja, seu significado vai além de sua pessoa, o pai deve ser encarado pela função que exerce. Diante disso, a verdade biológica perde sentido e ganha corpo a paternidade socioafetiva, em que os laços de afeto preponderam sobre os de sangue.
Nesse sentir, mais uma vez, MARIA CRISTINA ALMEIDA profere:
“O reconhecimento de situações fáticas representadas por núcleos familiares recompostos vem trazer novos elementos sobre a concepção da paternidade, compreendendo, a partir deles, o papel social do pai e da mãe, desapegando-se do fator meramente biológico e ampliando-se o conceito de pai, realçando sua função psicossocial.
A vinculação socioafetiva prescinde da paternidade biológica. No sentido da paternidade de afeto, o pai é muito mais importante como função do que, propriamente, como genitor”100.
Se considerarmos sob este último prisma, a Ação Anulatória de Registro Civil, a fim de desconstituir a paternidade erroneamente declarada, não teria sentido, uma vez que, via de regra, a verdade sobre a paternidade da criança só vem à tona quando suposto pai e suposto filho já conviveram nesta condição por muitos anos.
Ao chegarmos neste ponto, cumpre ser feita uma reflexão sobre o preconceito existente por parte de alguns doutrinadores e julgados quanto ao fato de o pai declarante ingressar com a Ação Anulatória de Registro Civil, visando desconstituir uma paternidade que declarou induzido em erro.
Usando o conceito de desbiologização da paternidade e ao argumento de que deve prevalecer a paternidade declarada, posto que o suposto pai reconheceu a paternidade livremente e que, por isso, seria inclusive parte ilegítima para ingressar com a referida ação, esses doutrinadores e julgados adotam uma posição que, a nosso entender, fere o princípio constitucional da igualdade.
Entendemos que assim como é garantido ao filho o direito de conhecer sua origem biológica, mesmo que para isso seja necessário desconstituir uma paternidade anteriormente declarada, da mesma forma ao pai declarante que, de posse da verdade, demonstra o desejo de desconstituir essa falsa paternidade que, sendo induzido a erro, reconheceu, a Justiça tem o dever de conceder-lhes o direito a ingressar com a ação.
Até porque o próprio desejo de desconstituir a paternidade prova que o laço de afeto não era tão forte assim, tornando-se a manutenção da paternidade algo ofensivo aos próprios interesses da criança.
Assim, entendemos que vieram em boa hora as modificações previstas no Código Civil de 2002, que torna imprescritível a ação que poderá ser intentada pelo marido a fim de contestar a paternidade do filho advindo do casamento, que era outra dificuldade enfrentada por aqueles que conheciam a verdade após esse prazo, ou seja, o exíguo prazo previsto no atual Código Civil, muitas vezes, perpetuava uma relação paterno-filial indesejada.
As palavras do Min. EDUARDO RIBEIRO da 3ª Turma Julgadora do Superior Tribunal de Justiça, em entrevista concedida ao jornal Tribuna do
Direito, refletem o que o Novo Código Civil normatizou:
“O ministro afirmou, ainda, que não percebe a quem possa interessar a situação de falsidade, porque a criança não
receberá carinho e apoio de alguém que sabe não ser seu pai, não deseja ser tido como tal e se vê, injustamente, compelido a sustentar o filho de outro, filho de infidelidade conjugal”.101
Comungando do entendimento do ilustre Ministro, entendemos que impor ao indivíduo que se declarou pai da criança o ônus de arcar com uma paternidade que este passou a rejeitar a partir do momento em que, de posse da verdade, soube ser filho de outro, não condiz com o que prescreve o ordenamento jurídico e, sobretudo, agride e deteriora a relação paterno-filial, podendo gerar danos irreparáveis à criança.
É sobretudo por isso que nos insurgimos contra o posicionamento desses doutrinadores e julgados e que consideramos positiva a mudança ocorrida na novel Lei Civil, uma vez que “conquanto o processo, em si
mesmo, seja um sofrimento, pelas apreensões, vexames e incômodos que acarreta, a lei deve esmerar-se por trazer a toda sede um copo de água fresca e para toda lágrima um lenço de enxugar”.102
Assim, quando posta à apreciação do Judiciário questão tão delicada, necessário se faz que o direito se valha de um intercâmbio interdisciplinar
101 RIBEIRO, Eduardo Ribeiro, em entrevista concedida ao jornal Tribuna do Direito, set./1999, p.
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com outros ramos da ciência, a fim de tentar, para além de solucionar a lide, estabelecer a verdade daquela relação paterno-filial.