Partindo do pressuposto de que o papel dos jovens na sociedade é de suma importância por atuarem na sociedade como agentes sociais e que no curso da história participam da crítica a concretização do projeto político elaborado pelas classes dirigentes contribuindo para reorientar seu curso, daí a importância dos processos educativos vividos por essa parcela de indivíduos, é que busco estudar esse segmento enquanto categoria social a partir de estudos sociológicos e de outras pesquisas realizadas com esses sujeitos.
Luís Antonio Groppo, em seu livro “Juventude: ensaios sobre Sociologia e História das Juventudes Modernas”, propõe discutir o conceito de juventude na sociedade moderna definindo-a, em primeiro lugar, como uma categoria social. A reflexão que segue em sua
obra é construída a partir das representações de juventude na sociedade. Para Groppo o entendimento de juventude “passeia por dois critérios principais, que nunca se conciliam realmente: o critério etário (herdeiro das primeiras definições fisiopsicológicas) e o critério sócio-cultural” (2000, p. 9).
Enquanto o critério etário unifica esse segmento social, estabelecendo uma identidade homogênea a esses indivíduos o que de fato não condiz com a realidade. Entretanto, enquanto categoria sócio-cultural a diversidade é entendida como caminho para a compreensão desse segmento: “outra saída da sociologia é a de enfatizar a relatividade do critério etário, pois a juventude, o jovem e seu comportamento mudam de acordo com a classe social, o grupo étnico, a nacionalidade, o gênero, o contexto histórico, nacional e regional, etc.” (Id.,Ibid., p.9-10).
Rezende (1989) identifica uma pluralidade de juventudes indicando a compreensão do termo pela pluralidade: juventudes. Ainda, identifica esses indivíduos como agentes sociais capazes de reinterpretar a sua maneira o que é ser jovem, a partir de sua experiência singular. Groppo complementa:
Ou seja, a multiplicidade das juventudes não se funda num vazio social ou num nada cultural, não emerge de uma realidade meramente diversa, ininteligível e esvaecida. Tem como base experiências sócio-culturais anteriores, paralelas ou posteriores que criaram e recriaram as faixas-etárias e institucionalizaram o curso da vida individual – projetos e ações que fazem parte do processo civilizador da modernidade (Id.,Ibid., p.19).
É preciso compreender o segmento juvenil como espelho para a compreensão da modernidade, visto que “a criação das instituições modernas do século XIX e XX – como a escola, o Estado, o direito, o mundo do trabalho individual etc. – também se baseou no reconhecimento das faixas etárias e na institucionalização do curso da vida”, assim como a modernidade é também um processo histórico que constrói a juventude que conhecemos (Id.,Ibid., p.12).
Outros autores fundamentam as discussões acerca da categoria juventude, tais como Melucci (1997; 2001) que percebe a juventude em sua forma não-linear e não-gradativa, mas dialética, pautada por rupturas; Spósito (1997) que discute a subordinação dessa fase à vida adulta; Giovanni & Schmitt (1996) que elaboraram um perfil histórico da construção da vida juvenil na sociedade; Abramo (1997) e Pais (1996) que discutem a juventude a partir da corrente geracional, influenciada pela sociologia funcionalista e a corrente classista, que diferente da corrente geracional que apresenta a juventude como unidade, essa a entende como diversidade, entre outros.
Propondo essas reflexões busco compreender essa categoria social para, a partir da junção com os referenciais teóricos descritos acima, montar um leque de categorias teóricas que possam contribuir para esclarecer o problema central desse estudo: a juventude e sua formação para o trabalho no centro da economia solidária.
Portanto, a tecitura teórica e empírica desenha-se a partir da necessidade de compreensão de como os grupos de produção estão se constituindo, como são organizados, sua ligação com o modelo capitalista de produção ou sua negação a essa forma de trabalho, o papel pedagógico implícito nas ações desses grupos e a formação para a reprodução de uma cultura posta ou para a construção de uma contra-cultura. O jovem é o principal agente da investigação, “aprendiz”15 dos fazeres coletivos, portanto, sujeito ativo no campo da ação
coletiva antagonista. Segundo Melucci (2001) é preciso discutir o potencial da ação juvenil a partir do campo do conflito, para em seguida, buscar os atores e não vice-versa.
Melucci faz uma reflexão acerca da identidade da juventude nas sociedades complexas e configura a categoria juvenil primeiro enfatizando-a como fase de passagem, não ligada a idade biológica, mas ligada às funções que precisa assumir ao deixar a escola (refere-se como tempo do não-trabalho). A escola, segundo o autor, é para esse segmento a possibilidade de “criação de um espaço de vida autônomo [...] que viabiliza o acesso às funções adultas, [...] ela cria também as condições espaço-temporais para a agregação de uma identidade coletiva definida pela necessidade dos modos de vida e linguagens próprias” (Id.,Ibid., p.101).
O desequilíbrio entre a escola e mercado de trabalho pode levar a juventude a prolongar sua situação de dependência. Esse prolongamento é mantido pela dificuldade de aproximação com a vida adulta sem que se tenha abertura para o trabalho, precarizando tanto sua condição enquanto jovem quanto a transposição para novos papéis. O autor explica:
[...] o reencaminhamento do ingresso nos papéis adultos não é só liberdade, mas marginalidade imposta e vivida, desocupação, impossibilidade de uma real autonomia econômica. A condição juvenil, homogênea sob muitos aspectos, mas também diferenciada pelo pertencimento social e territorial aparece marcada, nas sociedades complexas, por esta estável precariedade, por uma falta de limites que acaba por ser uma abertura sobre o vazio, por uma suspensão que se sabe fictícia e controlada (MELUCCI, 2001, p.101- 102).
São essas características que levam Melucci, assim como outros autores, a considerar a juventude como espelho da sociedade, como “paradigma dos problemas” gerados nas sociedades complexas. “Os jovens podem, portanto, tornarem-se atores de conflitos porque
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Aprendiz em sentido amplo: que experimenta e capta novas informações, mas que também ensina e
proporciona àqueles com quem se relaciona novos saberes. Atua como leitor e reelaborador dos conhecimentos divulgados.
falam a língua do possível; fundam-se na incompletude que lhes define para chamar a atenção da sociedade inteira para produzir sua própria existência ao invés de submetê-la [...]” (Id.,Ibid.,p.102).
Algumas categorias discutidas pelo referido autor são interessantes para se compreender essa identidade que considero original e identificadora de um tempo cultural próprio do segmento juvenil e que será aprofundada posteriormente, tais como: 1) a rejeição ou reinvenção da palavra; 2) como lida com as relações de poder; 3) a necessidade de autonomia, escolhas e comunicação; 4) os projetos e a provisoriedade dos interesses.