2. ÜNĐVERSĐTER DURUŞUN LAĐK BĐLĐNCĐ UYANDIRMA
2.2 Üniversiter Duruşun Laik Bilinci Zihinsel Düzlemde Uyandırma
Nesse mesmo ano, João Pinheiro da Silva assumiu o cargo de presidente do Estado de Minas Gerais, tendo nomeado Manoel Tomás Carvalho de Brito, titular da Secretaria do Interior, responsável pela instrução pública.
Atentas à precariedade da Instrução Pública primária que ainda persistia nas “Escolas Isoladas” em razão dos baixos investimentos, as autoridades percebiam a necessidade de transformação de um povo ignorante e sem cultura em instruídos e civilizados, garantia conseqüente do progresso da nação republicana. Somando-se a esses fatores, encontrava-se ainda a existência de um movimento que vinha exigindo reformas no sistema educacional desde a proclamação da República, em 1889, o que fez com que esse governo colocasse em marcha a reforma do ensino primário.
Com a Lei n. 439, de 28 de setembro de 1906, que autorizava “a reformar o ensino primário, o normal e o superior do Estado”15 e fixava as diretrizes genéricas, permitiu-se que se baixassem decretos que regulamentassem as mudanças na instrução primária. O Decreto n. 1.947, de 30 de setembro de 1906, aprovou o novo programa do ensino primário e o Decreto n. 1.960, de 16 de dezembro de 1906, aprovou outro regulamento para a instrução primária e normal de Minas Gerais.
A principal novidade trazida por essa Reforma foi a instituição dos grupos escolares como nova forma de organização do ensino primário. Em 11 de novembro daquele ano, instalou-se o primeiro Grupo Escolar de Minas, em Belo Horizonte, “com o qual o Sr. Dr.
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Carvalho de Brito [iniciou] a execução da reforma da instrução pública prometida no programa do atual governo” (apud MOURÃO, 1970, p. 106), formado a partir da agregação de escolas isoladas.16 Dessas escolas deveriam ser aproveitados os professores disponíveis que, formados na Escola Normal, seriam classificados em três categorias: efetivos, adjuntos e substitutos.
O Regimento Interno dos grupos escolares foi aprovado pelo Decreto n. 1.970, de 3 de janeiro de 1907, e a Lei de 28 de setembro de 1907 estabeleceu diretrizes para o ensino público em geral e normas especiais para os cursos primário e normal.
Dentre as principais novidades, encontrava-se a tentativa de impor a obrigatoriedade da matrícula e de freqüência da criança no ensino primário, que deveria ser gratuito e difundido em todas as regiões do Estado.
A Reforma propunha a criação facultativa de cursos técnicos no ensino primário, com proposta de auxílio aos alunos pobres que revelassem aptidões, possibilitando-lhes matrícula gratuita no Ginásio Mineiro ou em estabelecimentos equiparados.
Decretou-se, também, a criação de uma Escola Normal modelo, em Belo Horizonte, e de escolas normais regionais, que tinham como objetivo formar “bons professores”, com “qualidades pedagógicas indispensáveis”. Eles seriam fiscalizados por uma inspeção escolar em suas práticas pedagógicas, as quais deveriam ser baseadas no novo programa escolar, constituído de um método simples, prático e intuitivo.
16 Nas cidades que não tivessem número suficiente de habitantes para a abertura de um Grupo Escolar com quatro escolas, continuariam funcionando as escolas isoladas públicas regidas por um programa de ensino específico, elaborado a partir da reforma de 1906. As escolas isoladas particulares também continuaram funcionando nas pequenas localidades e nas fazendas. Um artigo do professor Jacintho de Almeida, professor do Grupo Escolar de Lavras, relata a situação dessas escolas particulares que não seguiam o programa de ensino, ministravam o ensino religioso, faziam ainda o uso da palmatória, sendo regidas por professores incompetentes. (Escolas particulares. Vida Escolar, p. 2-3, 15 set. 1908)
Na reforma do ensino de 1906, previu-se tanto a construção ou a adaptação e preparação dos prédios escolares, como a prescrição de um novo programa, com as “matérias” a serem ministradas e, ainda, as instruções de como seriam ensinadas e o método a ser utilizado para garantir o aprendizado dos alunos.
O novo programa prescrito (Decreto n. 1.947, de 30 de setembro de 1906) incluía Leitura, Escrita, Língua Pátria, Aritmética, Geografia e História do Brasil, Instrução Moral e Cívica, História Natural, Física e Higiene, Trabalhos Manuais, Exercícios Físicos e Música Vocal. O programa era dividido entre quatro séries (ou anos) e as disciplinas ou matérias17 eram distribuídas por semestre.
Iniciou-se também a execução do Programa do Ensino Público Primário que adotou os métodos intuitivo18 e simultâneo19 com um ensino concêntrico20 – como no Estado de São Paulo.
Ao analisar essa reforma, Faria Filho a caracteriza como um movimento de afirmação de uma nova forma de cultura escolar em que a reorganização da instrução primária com a criação dos grupos escolares significou,
17 A palavra “matéria”, às vezes, era utilizada para designar os conteúdos a serem ensinados, mas também tinha o mesmo sentido que “disciplina”, como conteúdo de estudo. Como a palavra disciplina pode também designar ordem, organização, optou-se pela palavra “matéria” para referir-se a determinado conjunto de estudo, mas deve-se ficar atento quando a palavra “disciplina” for expressa como “matéria” por Firmino Costa ou pelo Programa de Ensino.
18 Esse método foi criado na Alemanha (final do século XVIII) por Basedow, Campe e Pestalozzi, que sofreram forte influência das idéias e pedagogia de filósofos da época (Bacon, Locke, Hume, Rosseau, Rabelais, Comenius, Froebel e outros). Considerava como fundamento de todo conhecimento a intuição, faculdade pela qual se adquiria conhecimento pelos sentidos e pela observação do objeto, que deveria ser abordado de maneira indutiva, partindo do particular para o geral ou, desconhecido o objeto, passava-se a conhecê-lo, indo do concreto para o abstrato (cf. SOUZA; VALDEMARIN; ALMEIDA, 1998). Essa maneira de abordar encontrava no manual Lições de Coisas, que orientava os pais, professores e alunos como ensinar pelo Método Intuitivo (RESENDE; LOPES; GONÇALVES; FARIA FILHO; XAVIER, 2002. p. 442).
19 A criação desse método é atribuída a Jean-Baptiste de la Salle. Por esse método o ensino deveria ser ministrado coletivamente, para um grupo de quarenta ou até sessenta alunos num único momento, quando o professor era quem apresentava a matéria a ser estudada. Esse método tornou-se mais conhecido a partir do final do século XVII, diferenciando-se do método individual, que se ensinava a um único aluno. (FARIA FILHO; BASTOS; 1999)
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[...] fundamentalmente, uma estratégia de atuação no campo do educativo escolar, moldando práticas, legitimando competências, propondo metodologias, enfim, impondo uma outra prática pedagógica e social dos profissionais do ensino através da produção e divulgação de novas representações escolares. (FARIA FILHO, 2000, p. 37)
Tratava-se do resultado de um movimento que já ocorrera nos Estados Unidos (1860), França (1868), Inglaterra (1870), Espanha (1898). No Brasil, aconteceu primeiramente no Estado de São Paulo (1893) e, em seguida, no Rio de Janeiro (1896). O processo de instalação dos primeiros grupos escolares em São Paulo foi explorado por Rosa Fátima de Souza, que o denominou “a universalização do ensino primário”, quando “a escola primária foi ‘(re)inventada’: novas finalidades, uma outra concepção educacional e uma outra organização do ensino”. (SOUZA, 1998, p. 21)
Nesse contexto, apresento, a seguir, como a Reforma João Pinheiro repercutiu especificamente na cidade de Lavras, demonstrando as resistências, os conflitos e as aceitações criadas pela comunidade a essa nova forma escolar, e de como se processou a negociação para a instalação do Grupo Escolar.
1.3 REPERCUSSÕES DA REFORMA DO ENSINO DE 1906 EM LAVRAS
Um mês depois da criação do primeiro Grupo Escolar21 na cidade de Belo Horizonte, o jornal Folha de Lavras, em um artigo sem autoria, informava que seria criado também um em Lavras: “Brevemente será installado nesta cidade um grupo escolar. Por esse
21 O Jornal Minas Geraes noticiou em 11 de novembro de 1906 a fundação do primeiro Grupo Escolar em Belo Horizonte – denominado “Barão do Rio Branco” – que só se instalou a 1º de fevereiro de 1907, notificando: “[...] com o qual o Sr. Dr. Carvalho de Brito inicia a execução da reforma da instrução pública prometida no programa do atual governo”. (Cf. DIAS, 1986, p. 153)
melhoramento que vem ainda mais impulsionar o nosso movimento intellectual damos parabens á Lavras”. (FOLHA DE LAVRAS, 16 dez. 1906)
Ao mesmo tempo em que o autor do artigo noticiou a criação do Grupo e a cidade, abaixo desse informe, uma carta publicada na mesma edição do jornal Folha de Lavras, escrita entre aspas indicando uma transcrição, houve outra interpretação para o fato e desta vez com críticas:
Causou descontentamento nesta cidade a noticia da proxima creação de um Grupo Escolar ao envez de ser mantida pelo Estado a Escola Normal.Esta continuaria a prestar a Lavras o bem que lhe grangeou nome e reputação, ao passo que o Grupo pouco ou nada valerá á instrucção primaria, attendendo ser essa instrucção muito bem distribuida pelas excellentes escolas publicas e particulares aqui installadas. (FOLHA DE LAVRAS, 16 dez. 1906)
Se o autor da carta foi deixado no anonimato pelo redator do jornal, Azarias Ribeiro Filho,22 a resistência à criação de uma nova instituição escolar ficou explícita. É uma evidência do que escreve Cynthia Greive Veiga, ao ponderar que as reformas educacionais provocam conflitos que mostram que “a história da escola e a dos projetos pedagógicos não pode ser separada do redimensionamento cultural maior da sociedade enquanto relações de mercado, realização da propriedade e das individualidades”. (VEIGA, 2003, p. 235) As duas interpretações que circularam na mesma página do jornal indicam a tensão que ocorria entre as pessoas e as outras instituições educacionais.
Alguns dados indicaram que o professor Azarias Ribeiro estaria passando por dificuldades financeiras para manter a Escola Normal em Lavras, pois o que se depreende do
texto acima era que havia um desejo de que a Escola Normal de Lavras fosse mantida pelo governo.23
De um lado, a presença de um Grupo Escolar na cidade criaria uma demanda por professores que seria suprida pela Escola Normal, que também teria um local específico para a prática profissional das normalistas24. Nesse caso, outra edição do dia 23 de dezembro de 1906, do mesmo jornal, Folha de Lavras, confirmou a criação do Grupo Escolar na cidade, expondo: “Tem a nossa cidade a fortuna de ser uma das primeiras contempladas com um grupo escolar modelado pelo de Bello Horizonte”. (FOLHA DE LAVRAS, 23 dez. 1906) Percebem-se, aqui, os interesses individuais que circularam num primeiro momento, seguidos também por uma noção de prejuízo: o desvio da aplicação de verbas da Escola Normal para o funcionamento do Grupo Escolar.
Entre resistências, tensões e interesses, nesse mesmo artigo, o redator creditou a criação do Grupo Escolar a representantes da cidade, que ele não deixa explícito quem são, mas que, “não medindo sacrificios, foram á Capital Mineira advogar seus interesses perante o governo.” (FOLHA DE LAVRAS, 23 dez. 1906) A cidade de Lavras possuía, nessa época, alguns políticos de influência no cenário mineiro, como Francisco Sales, que fora presidente da província de Minas na chamada Primeira República (1902-1906) e depois desse mandato, senador federal; seu irmão, Pedro Sales, presidente da Câmara Municipal de Lavras, e
23 Nas oportunidades em que Firmino da Costa Pereira referiu-se à Escola Normal no boletim Vida Escolar, ele ressaltou que era com muitas dificuldades financeiras que ela era mantida pelo seu proprietário e membros da direção. Em 1907, o deputado mineiro Nelson de Senna propunha, na Câmara Estadual, a distribuição da Escola Normal de Belo Horizonte pelas seis zonas geográficas em que estava dividido o Estado, sendo que a Escola Normal equiparada de Lavras seria igualada à da Capital, chegando a oferecer um prédio para sua sede. Mas o desenrolar dos fatos mostra-nos que isso não aconteceu e que outra Escola Normal equiparada foi fundada em Lavras pelos presbiterianos em 1910. Em 1918, as Irmãs do Colégio N. Sra. de Lourdes compraram a Escola Normal que era de propriedade de Azarias Ribeiro e aprovada pelo Decreto Estadual n. 4.931 de 19 de fevereiro de 1918.
24 Em 6 de dezembro de 1913, na formatura dos alunos, Firmino Costa lembrou que foi da Escola Normal de Lavras que saiu a maior parte do corpo docente do Grupo Escolar. (COSTA, 1914). Vários relatórios de inspetores encontrados na Secretaria do Interior referem-se a professores na região diplomados pela Escola Normal de Lavras. (Cf. SECRETARIA DO INTERIOR, SI 3582)
também Zoroastro Alvarenga, eleito deputado estadual no mesmo ano em que o Grupo Escolar foi inaugurado. Ao referir-se a uma possível disputa entre as cidades mineiras para possuírem Grupo Escolar, Faria Filho escreve que outras cidades eram preteridas ao requerê- lo, caracterizando a “importância e centralidade dos grupos escolares nas cidades mineiras”, (FARIA FILHO, 2000, p. 46). Isso leva a crer que se o movimento de afirmação dos Grupos Escolares precisou de alguns anos para se consolidar, essa disputa se fez presente desde os momentos iniciais da reforma do ensino de 1906. Tomando como exemplo a cidade de Lavras, cuja imprensa propagava a importância da reforma educacional, houve também influência política25 traduzida no poder de negociação de políticos da cidade perante o governo mineiro. Essa situação exemplifica o que Vincent, Lahire e Thin analisaram sobre a
forma escolar, escrevendo sobre a constituição da escola: “a forma escolar está ligada a outras
formas, notadamente políticas”.26
Uma das exigências do governo do Estado de Minas Gerais, prescritas no regulamento (MINAS GERAES, p. 17, 1906), para preferir uma cidade a outra na instalação de um Grupo Escolar, era um auxílio eficaz em dinheiro, com doação do prédio, de terrenos e materiais, o que certamente os representantes da cidade de Lavras apresentaram ao secretário do Interior, Carvalho Brito, “pondo em evidencia as [...] condições [da cidade] para sede de uma escola normal e de um grupo escolar”.27
25 O diretor Firmino da Costa Pereira, no seu discurso de inauguração do Grupo Escolar de Lavras, em 13 de maio de 1907, fez um agradecimento especial ao senador Francisco Salles (seu primo em primeiro grau, pois o senador era filho de Firmino Antônio Sales, irmão de Custódia Maria do Carmo, mãe de Firmino Costa, como era popularmente mais conhecido) nos seguintes termos: “Releva, porém, não esquecer um nome tão illustre como o desses, e que, estou certo, grandemente concorreu para a fundação deste Grupo – o sr. dr. Francisco Salles, sempre cooperando para o progresso de sua terra, mas sempre envolto no manto de sua modestia e despretenção”. (Cf. Vida Escolar, p. 2, 15 maio 1907)
26 Cf. VINCENT; LAHIRE; THIN. Sobre a história e a teoria da forma escolar. Educação em Revista , Belo Horizonte, Faculdade de Educação da UFMG, n. 1, p. 12, jul. 85.
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1.4 UM DIRETOR PARA O GRUPO ESCOLAR DE LAVRAS: FIRMINO DA COSTA