O exercício da função parental remete para a definição de um modelo educativo. Para a nova família, cada um dos pais traz consigo o modelo de parentalidade construído da sua família de origem. Este condensa e organiza dois modelos parentais, o maternal e o paternal, aprendidos na infância (Alarcão, 2006).
As mudanças na relação entre pais e filhos, decorrentes das transformações pelas quais a família vem passando, têm levado a um constante questionamento sobre o papel dos pais na educação dos seus filhos. As especificidades parentais, ou seja, as possíveis diferenças existentes entre os sujeitos, residirão na forma como as tarefas parentais são interiorizadas (emocional e cognitivamente) e desempenhadas, não desmerecendo também as características da criança e as especificidades ambientais que a envolvem (Brites, 2010).
De acordo com Darling e Steinberg (1993), os estilos educativos parentais compreendem as atitudes dos pais para com a criança, incluindo os comportamentos correspondentes às práticas educativas em particular, mas também a atitude afetiva, ou seja, a dimensão emocional presente na relação e no modo como essas atitudes são comunicadas aos filhos. Gomes e Ribeiro (2010) acrescentam ainda que estes são determinados pelas características das figuras parentais, da fratria e pelo contexto envolvente na relação com estes.
Em termos concetuais, os estilos educativos parentais podem ser definidos como um conjunto de atitudes e práticas relacionadas com as questões de poder, hierarquia, apoio emocional e estímulo à autonomia que os pais têm para com os seus filhos e que
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refletem, em grande parte, os valores que estes consideram importantes e que tentam transmitir através das suas práticas educativas (Darling & Steinberg, 1993).
O estilo educativo parental influencia, assim, a eficácia de práticas educativas específicas e resulta tradicionalmente da combinação de duas dimensões de análise básicas: a sensibilidade dos pais face às necessidades da criança, a aceitação da sua individualidade e o afeto que lhes expressam e o tipo de disciplina e as estratégias de controlo utilizadas (Palacios, Hidalgo & Moreno, 2008 cit. in Simões 2011).
Nos anos 60, os estudos longitudinais desenvolvidos por Diana Baumrind contribuíram para a definição de três estilos educativos parentais (autoritário, permissivo e democrático) associados a padrões diferenciais de comportamento e de desenvolvimento por parte das crianças (Borges, 2010; Simões, 2011).
No estilo autoritário, os pais valorizam o controlo e a obediência inquestionável a partir do uso de poder e da exigência de respeito pela ordem e pela autoridade. Tendem a modelar o comportamento da criança em função de critérios absolutos e quando a norma é infringida, os castigos (verbais ou físicos) são automáticos. Estes pais excessivamente controladores, pouco calorosos e tolerantes e muito punitivos, recorrem a críticas e ameaças para desvalorizar e ridicularizar a criança, reagindo com reprovação aos seus questionamentos e opiniões. Por sua vez, os filhos de pais autoritários tendem a ser mais descontentes, inseguros, submissos ou revoltados. Estes apresentam dificuldades acrescidas no desenvolvimento adequado da autonomia, autoestima, autoconfiança e autoafirmação e do sentido de responsabilidade social (Baumrind, 1966; Borges, 2010; Cassoni, 2013).
Por sua vez, no estilo permissivo, os pais são encarados como recursos na satisfação dos desejos da criança e não como modelos de comportamento. Evitam o exercício da autoridade e a imposição de regras e limites, permitindo aos filhos controlar as suas próprias atividades e decisões sem consultarem uma das figuras parentais. Estes pais, que valorizam a autoexpressão, têm em consideração a opinião dos filhos na tomada de decisões familiares e evitam o recurso a medidas punitivas, por considerarem que interferem com o natural desenvolvimento da criança. São afetuosos, tolerantes e comunicativos mas, simultaneamente, pouco controladores e exigentes. Os
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filhos de pais permissivos tendem a ser mais imaturos, inseguros e ansiosos e a apresentar um défice de competências sociais, conducentes com o aparecimento de problemas de comportamento na adolescência (Baumrind, 1966; Borges, 2010; Monteiro, 2012).
O estilo democrático é caraterizado pela existência de uma reciprocidade entre as expetativas e exigências que os pais demonstram relativamente aos comportamentos e atitudes dos filhos e a sua compreensão no que se refere aos sentimentos, necessidades e pontos de vistas dos mesmos. São pais que respeitam a individualidade da criança e que têm em consideração as suas opiniões e interesses, proporcionando oportunidades para o desenvolvimento das suas competências e autonomia. A explicação do raciocínio implícito na tomada de decisões e no estabelecimento de regras e limites (claros e consistentes) favorece a internalização das normas parentais e dos valores sociais. São pais que não abdicam de exercer a autoridade e o controlo, nos pontos divergentes, mas que permitem aos seus filhos, explicar o motivo da não-aceitação ou incumprimento das regras estabelecidas. Utilizam de forma sensata as recompensas, o reforço negativo e os castigos. A comunicação entre pais e filhos é clara e aberta e assenta na responsividade e no respeito mútuo. Os filhos de pais democráticos tendem a ser mais seguros, autoconfiantes, empreendedores e assertivos. São crianças que demonstram maior autonomia, maturidade, responsabilidade social e aptidão para lidar com os problemas (Baumrind, 1966; Chitas, 1998; Borges, 2010).
Considerando as possíveis implicações que a adoção de diferentes estilos parentais pode ter no desenvolvimento da criança, são muitos os estudos que têm procurado analisar o seu impacto ao nível das competências sociais, do desempenho escolar, do desenvolvimento psicossocial e dos problemas de comportamento da criança e do adolescente (Borges, 2010). A revisão da literatura demonstra que, de uma maneira geral, o estilo democrático tem sido apontado como o mais vantajoso e o que melhor promove um desenvolvimento equilibrado da criança (Baumrind, 1971; Lamborn et al., 1991; Mandara & Murray, 2002; Cassoni, 2013).
Rodrigues (2008, p. 18) afirma que os filhos de pais democráticos são: “(…) socialmente mais competentes e esta caraterística tende a manifestar-se nos primeiros anos de vida e a manter-se durante a adolescência e a idade adulta”. Segundo este autor,
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o estilo democrático apresenta um nível elevado de segurança emocional, transmitindo aos filhos um sentido de conforto e independência, importantes para o sucesso escolar.
Estudos desenvolvidos por Darling e Steinberg (1993) indicam que o estilo democrático promove uma maior integridade do ego e uma maior competência e disponibilidade para apoiar os outros. As crianças apresentam um melhor ajustamento psicológico e comportamental e são mais confiantes nas suas capacidades, apresentando uma autoestima mais elevada e uma maior competência social (Lamborn et al., 1991). Outros autores reforçam que o controlo dos pais sobre o comportamento da criança causa menos problemas de internalização e externalização e que a afetividade parental facilita o ajustamento das crianças (Aunola & Numi, 2005). Segundo Lamborn et al. (1991), o estilo democrático está ainda associado a melhores resultados escolares e a atitudes mais positivas relativamente à educação e aspirações académicas.
Um estudo realizado por Marin e Levandowski (2008) com jovens mães permitiu concluir que a idade materna é identificada como um fator que pode influenciar as práticas educativas. Os autores constataram ainda que a maioria das jovens da sua amostra recorriam ao uso de práticas coercivas, mas que com a existência de uma rede de apoio adequada, poderiam utilizar práticas menos coercivas na educação dos seus filhos.
Em contrapartida, os estilos parentais autoritários e permissivos não parecem ser tão adaptativos e potenciadores de um desenvolvimento psicossocial saudável (Baumrind, 1971; Maccoby, 1992; Mandara & Murray, 2002). De acordo com Borges (2010), estes estilos assentam em escassas competências educativas e revelam uma eficácia diminuta no que refere à aprendizagem e resolução de problemas, além de fragilizarem os laços afetivos através do uso de uma disciplina inadequada e intolerante.
Assim, na perspetiva de Borges (2010), os estilos parentais autoritários e permissivos, estão associados a comportamentos agressivos por parte dos filhos devido à ausência de reforços do comportamento pró-social e das competências de resolução de problemas, assim como, à ausência de punição adequada e eficaz dos comportamentos anti-sociais.
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A literatura indica que o nível socioeconómico é um bom preditor das crenças e dos comportamentos parentais (Brooks-Gunn & Markman, 2005). A pobreza e a pressão económica constituem assim fatores de stress na parentalidade, que agravam as características parentais negativas existentes e contribuem, simultaneamente, para um aumento da hostilidade (Bem & Wagner, 2006; Montandon, 2005), controlo excessivo e menor responsividade parental (Kotchick, Dorsey, & Heller, 2005; Bronte-Tinkew et al., 2010 cit. in Simões, 2011).
Por conseguinte, os estudos empíricos salientam que os estilos educativos parentais variam consoante o nível socioeconómico da família. Deste modo, os pais pertencentes a um nível socioeconómico mais baixo adotam estilos educativos mais autoritários, usam mais o controlo e as estratégias baseadas na afirmação do poder (e.g. restrição e castigo) e demonstram menos afeto (Bem & Wagner, 2006; Montandon, 2005). Por outro lado, temos estudos que nos referem que pais com um nível socioeconómico mais elevado, são mais democráticos e permissivos e usam estratégias mais indutivas, com clara explicação para os factos (Bem & Wagner, 2006; Kobarg et al., 2006; Kobarg & Vieira, 2008; Montandon, 2005), proporcionado também aos filhos mais atividades lúdicas e culturais (Ceballos & Rodrigo, 2008 cit. in Simões, 2011; Pereira, 2007; Scaramella et al., 2008).
Nesta sequência, Pereira (2007) aponta ainda para a existência de uma correlação entre a variável escolaridade e os estilos parentais. Cruz (1996, cit. in Cruz, 2005) concluiu que as mães com um nível de educação superior utilizam predominantemente estratégias disciplinares indutivas, enquanto as mães com um menor nível de educação usam mais estratégias punitivas.
É de salientar, contudo, que alguns investigadores têm sugerido que os estilos parentais adotados, por si só, não determinam as consequências para o desenvolvimento das crianças. Além de que, a “adequação” dos estilos é variável em função de contextos sociais, culturais e históricos mais abrangentes (Darling & Steinberg, 1997, cit. in Pereira, 2007).
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