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Repetição, do latim repetere, “fazer de novo” (re – outra vez - mais petere – procurar, demandar, atacar), significa, de acordo com o dicionário Aurélio Online, a atividade de enunciar as mesmas palavras, as mesmas ideias, de reiterar um ato, de redizer o que foi dito. Nesse sentido, o procedimento da repetição consiste em retomar uma informação já apresentada por meio dos mesmos elementos linguísticos, ou seja, “fazer reaparecer uma unidade que já ocorreu previamente” (ANTUNES, 2005, p.70).

Considerando que todo texto necessita apresentar uma continuidade/sequência para ser considerado um todo coerente, o procedimento da repetição representa um recurso significativo na organização textual, visto que desempenha várias funções, como por exemplo: marcar ênfase, contraste e continuidade temática. Como afirma Antunes (2005, p.75), “a repetição da palavra funciona no texto como uma espécie de nó que une as pontas da linha que sustenta a continuidade exigida pela própria coerência”.

Vejamos alguns exemplos6 de como esse recurso pode contribuir para a estruturação de um texto.

4 Embora saibamos que a coesão nominal pode ser realizada tanto por unidades lexicais, quanto por unidades

gramaticais, aqui nos referimos apenas às unidades lexicais, a fim de mostrar ao nosso leitor o papel desempenhado pelo léxico no processo de textualização.

5 Ressaltamos, mais uma vez, que reconhecemos que a repetição é realizada por unidades lexicais e por unidades

gramaticais, no entanto, consideraremos aqui apenas a repetição por unidades do léxico.

Texto 01 Conceito e preconceito

Preconceito e campanhas antipreconceito são o tema da moda. Porque tudo é moda, mania, às vezes,

obsessão passageira. Sempre, também em meus romances e contos combati preconceito: contra os de pele diferente ou outros olhos, cabelo assim ou assado, baixinhos, gordos, menos inteligentes, com qualquer dificuldade física ou lesão mental, ou jeito de amar. Preconceito é inato no ser humano, nasce do medo do diferente, exige lucidez e esforço para ser vencido.

(Lya Luft, Veja, 8 de junho, 2011) Fonte: (ANTUNES, 2012, p.59, grifos da autora).

O trecho acima foi retirado de um artigo no qual Lya Luft discorre a respeito da temática preconceito. Desde o título a autora deixa claro o assunto do texto ao utilizar o termo preconceito. Para enfatizar a questão, promover a continuidade da temática e, consequentemente, proporcionar a progressão, essa palavra é repetida quatro vezes ao longo do primeiro parágrafo. Se observarmos o artigo completo7, encontraremos um total de oito ocorrências do termo em questão, uma no título, quatro no primeiro parágrafo e três no último.

Nesse caso, longe de representar a falta de conhecimento de vocabulário por parte da autora, a repetição é um recurso utilizado para marcar a continuidade do tema que está sendo abordado, possibilitando assim o estabelecimento de nexos de equivalência, visto que em todas as ocorrências de preconceito o elemento de referência é o mesmo. Dessa forma, percebemos como a repetição pode ser utilizada para marcar a continuidade temática, reiterando algo dito anteriormente.

Texto 02

“Nada se revela mais nocivo, mais perigoso do que a pretensão do Estado de reprimir a liberdade de expressão. O pensamento deve ser livre. Sempre livre. Permanentemente livre. Essencialmente livre.” (Ministro Celso Mello)

Fonte: (ANTUNES, 2012, p. 70, grifos da autora).

Esse outro trecho faz parte do discurso do Ministro Celso Mello, quando, numa sessão do Supremo Tribunal Federal, em junho de 2011, discutia-se a respeito da proibição das manifestações públicas em favor da descriminalização da maconha, mais conhecidas como ‘marchas da maconha’. A passagem acima constitui um dos argumentos utilizados pelo ministro para defender que as referidas manifestações não podiam ser proibidas devido ao

direito à liberdade de expressão. Nesse caso, a repetição de livre não ocorre despretensiosamente ou por um mero descuido, mas para reforçar o argumento proferido, ou seja, é uma estratégia argumentativa, visto que enfatiza a importância de se ter liberdade/ser livre.

O recurso da repetição ainda pode ser utilizado para realizar a introdução de informações novas no texto, como uma explicação, uma enumeração, uma correção ou para estabelecer contraste. No texto abaixo, tal mecanismo funciona no estabelecimento de um contraste entre o que pode e o que não pode ser feito nas férias.

Texto 03

Férias não é tempo de economizar na diversão. Economizar nas passagens pode.

(Veja, 15 de junho de 2011) Fonte: (ANTUNES, 2012, p. 70, grifos da autora).

Por fim, a repetição pode desempenhar ainda uma função resumitiva (conclusão, fechamento), quando é utilizada como estratégia para marcar o final do texto, como ocorre no último parágrafo da crônica Brinquedos incendiados, de Cecília Meirelles, em que uma mesma expressão é repetida algumas vezes, evidenciando o desfecho da narrativa.

Texto 04 Brinquedos incendiados

Felizmente, ninguém tinha morrido – diziam em redor. Como não tinha morrido ninguém? – pensavam as crianças. Tinha morrido um mundo e, dentro dele, os olhos amorosos das crianças, ali deixados. E começávamos a pressentir que viriam outros incêndios. Em outras idades. De outros brinquedos. Até que um dia também desaparecêssemos sem socorro, nós, brinquedos que somos, talvez, de anjos distantes.

Fonte: (Cecília Meirelles. Escolha o seu sonho. Rio de Janeiro: Record, 26ª ed. 2005:121-122). A análise do trecho acima nos permite perceber que a expressão ninguém tinha morrido, repetida três vezes, embora em ordens diferentes, sinaliza o final do texto e evidencia o desfecho da narrativa. Mais que isso, essa repetição marca a presença de vozes distintas e suas respectivas opiniões a respeito do desfecho da trama: a primeira ocorrência corresponde à visão dos adultos e denota a satisfação deles pelo incêndio não ter deixado nenhuma vítima fatal; a segunda e a terceira marcam a visão das crianças, para quem o ocorrido devastara um mundo de sonhos, os seus sonhos, e fora, portanto, um acontecimento

trágico e arrasador. Assim, além de marcar o fechamento do texto, a repetição aparece novamente para apontar um contraste de ideias. Temos ainda nessa passagem a repetição de brinquedos como recurso de estabelecimento da continuidade temática.

Através da análise dos exemplos ora apresentados, comprovamos que o procedimento em questão atua no processo de textualização estabelecendo nexos/vínculos entre os termos que contribuem para a constituição de textos coesos. De tal forma, cabe a nós, professores de língua materna, levar os alunos a perceberem que a repetição é um dos recursos coesivos e, portanto, um dos elementos que contribui para a compreensão e interpretação dos textos. Dessa maneira, interessa-nos mostrar que, independentemente da quantidade de vezes em que uma palavra ocorre em uma produção, se elas estiverem bem distribuídas e tiverem sido intencionalmente utilizadas, elas podem contribuir para a construção do sentido de nossas produções verbais.

Entretanto, vale ressaltar que muitas vezes tal recurso, longe de desempenhar a função estruturante, revela-se como um problema que evidencia tanto a falta de conhecimento de vocabulário, como a falta de habilidade do autor em desenvolver ideias e/ou discorrer sobre a temática em questão, como podemos evidenciar no trecho abaixo:

Texto 05

Diga não ao trafico de drogas

[...] as escolas eram para ser mais rigorosa no sentido de ter mais segurança em torno da escola, dentro e também fora da escola uns dos problemas sério nas escolas e o aluno entra portando armas drogas e não ser revistado.8

W.K.N.O. – aluno do 2º ano do E.M9 Fonte: (Corpus desta pesquisa)

Como é possível perceber, nesse caso, a repetição não pode ser considerada um recurso funcional que contribui para o estabelecimento da coesão, pois as ocorrências do termo escola são, em sua maioria, desnecessárias e contribuem para que o texto seja considerado repetitivo, inexpressivo, desinteressante e pouco informativo. Nesse exemplo, a repetição compromete a qualidade do texto, precisando, portanto, ser considerada como um

8 Embora esse texto apresente problemas de outras ordens, como concordância nominal, conjugação verbal,

acentuação e pontuação, observaremos apenas a repetição de termos.

dos problemas da produção que necessita ser explorado e melhorado ao longo do trabalho com a escrita.

Mediante o exposto, evidenciamos que, por muito tempo, a escola equivocadamente nos ensinou (e nós ensinamos a nossos alunos) que ‘não se devem repetir palavras num texto’, quando, na verdade, o que precisamos fazer é mostrar aos alunos que esse é um recurso que pode auxiliar na elaboração de um texto. Não se trata de começar a dizer que os alunos podem repetir os termos indiscriminadamente e por quantas vezes desejarem, mas de levá-los a perceber (e percebermos também) que, de acordo com o gênero, com a intenção do autor, com a temática abordada e com os pontos de ocorrência no texto, a repetição pode contribuir para o estabelecimento do sentido, da coerência temática e possibilita-nos atingir determinados efeitos de sentido pretendidos. Enfim, é preciso instruir os alunos a não fazerem uso da repetição não funcional, mas para isso é preciso também dar-lhes a oportunidade de conhecer, de fato, quando esse recurso pode ser funcional.

É necessário, também, ajudá-los a perceber quando a repetição representa um problema para o texto, como é o caso do exemplo acima, e orientá-los a fazerem uso de outros recursos, como o da substituição, conforme veremos a seguir.