“No princípio a terra era sedenta e árida e fez-se a luz” (Gn, 1,1).
O trabalho com população em situação de rua na cidade de São Paulo teve seu início em 1955 com a fundação da Organização do Auxílio Fraterno (OAF) com a chegada das uruguaias que queriam ser monjas, mas, não queriam morar num mosteiro. O carisma estava voltado para viver o Ora et Labora (Oração e Trabalho), por isso a sua forma de inserção pastoral foi por meio do trabalho na fábrica junto aos operários.
A Irmã Dalva Ivete de Jesus33, popularmente chamada de Ir. Ivete que, ao falar sobre as primeiras monjas uruguaias que chegaram ao Brasil, destacou a preocupação com o presente perfil da população que estava morando na rua definido por Rosa (2005, p. 31):
“O desenvolvimento capitalista e as transformações sociais, na perspectiva da globalização, têm gerado segmentos de trabalhadores que, sem conseguir acompanhar as mudanças do perfil de emprego e da sociedade sofrem os efeitos de forte alijamento do mercado de trabalho”.
32 Doutrina que considera o mundo como um sistema de relações entre meios e fins. Estudo dos fins humanos (FERREIRA, 1999).
33 Entrevista concedida a Fernando Altemeyer Júnior, na Casa Cor da Rua, em 06.01.2004, por ocasião de sua Pesquisa para a Tese de Doutorado na PUC-SP.
A OAF foi fundada para atender uma população que não era caracterizada pelo mendigo tradicional da cidade como relata Altemeyer Júnior (2006, p. 32):
[...] Elas queriam a vida do Ora et Labora, fora dos muros do mosteiro [...] e fundaram uma fraternidade sabendo que os mais pobres de São Paulo naquela época eram os operários. Elas foram, portanto, ser operárias na Indústria Matarazzo e na Phillips [...] foram percebendo que apareciam nas ruas de São Paulo outras pessoas que não eram mendigos tradicionais e que já era fruto do desemprego, pois era a época em que se construiu muito prédio, muito viaduto e isto deixou depois uma mão-de-obra sobrante. A OAF foi fundada para atender esse pessoal mais jovem – que não eram muitos – e que não eram mais os mendigos tradicionais da cidade Esse relato nos traz à memória algumas características do contexto da década de 1950, no qual situamos essa realidade, ou seja, o processo de migração vigente no país, a presença marcante de nordestinos em busca de trabalho na cidade de São Paulo; o Governo Juscelino Kubitschek, marcado pelo plano desenvolvimentista no qual sua meta era “50 anos em 5 (cinco)” provocando a saída a migração do campo para a cidade. Esse processo de urbanização gerou uma série de problemas socioeconômicos criando desafios à governabilidade.
Dois aspectos merecem aqui ser destacados em relação à iniciativa das uruguaias: o primeiro é a preocupação da Igreja com uma experiência pioneira com o povo da rua e com o modo e as condições de vida dessas pessoas já na década de 1950; o segundo aspecto, é a percepção com clareza da situação dessa população, que se apresenta como algo não natural, mas fruto de um processo excludente quando se percebe uma diferença no perfil daqueles que aumentam o número de moradores nas ruas da cidade.
Ao mesmo tempo, faz uma leitura da conjuntura e, logo, são identificadas as causas e consequências refletidas nessa situação – desemprego e massa sobrante - que não é uma realidade exclusiva do Brasil, mas, que começa a apontar para um futuro, conforme descrição abaixo:
Quanto à pobreza e à miséria, na década de 1980 muitos dos países mais ricos e desenvolvidos se viram outra vez acostumando-se com a visão diária de mendigos nas ruas, e mesmo com o espetáculo mais chocante de desabrigados protegendo-se em vãos de portas e caixas de papelão, quando não eram recolhidos pela polícia. Em qualquer noite de 1993, em Nova York 23 mil mulheres e homens dormiam na rua ou em abrigos públicos, uma pequena parte dos 3% da população da cidade que não tinha tido, num ou noutro momento dos últimos cinco anos, um teto sobre a cabeça (New York Times, 16/11/93). No Reino Unido (1989), 400 mil pessoas foram oficialmente classificadas como “sem teto” (Human Development, 1992, p. 31). Quem na década de 1950, ou mesmo no início da de 1970, teria esperado isso? (HOBSBAWM, 1995 apud ROSA, 2005, p. 31).
E, despertará, em anos posteriores, a preocupação de pesquisadores, cientistas sociais, organizações da sociedade civil e poder público com o fenômeno população em situação de rua e os desafios inerentes a ela na promoção de políticas públicas de atendimento a esse segmento social.
As intensas mudanças causadas pelo impacto de novos processos produtivos e tecnológicos atingem o mundo do trabalho não apenas nos países capitalistas centrais, mas se refletem intensamente também nos países da periferia do capitalismo. A automação, a robótica, a microeletrônica entram nas fábricas, liberando mão-de-obra e introduzindo alterações no processo produtivo, tendo em vista as necessidades e a lógica do mercado. Começam a aparecer formas de desconcentração industrial que dominam o capitalismo globalizado, com o objetivo de obter novos padrões de gestão da força de trabalho em substituição ao padrão fordista. (ANTUNES, 1995 apud ROSA, 2005, p. 30).
No Brasil, se por um lado houve avanços tecnológicos e aumento de investimento do capital internacional, por outro lado, o país ficou numa situação de dependência estrangeira comprometendo a sua autonomia. Se por um lado o país sinalizava para um avanço econômico e na modernização, por outro, crescia internamente a situação de desigualdade social expondo o quadro de carência e miserabilidade de uma parcela cada vez maior da população que se amontoava nos grandes centros urbanos, principalmente, a cidade de São Paulo.
Realmente, o período da ditadura militar foi marcado pelo enfraquecimento do Poder Legislativo, a hiperinflação, a falta de investimentos, a violência, a concentração de renda, aumento da dívida externa e dependência financeira expondo a população brasileira a um estado de desesperança e ausência completa do Estado no que diz respeito ao bem-estar da população.
Nesse contexto, a Igreja Católica é chamada a reassumir uma nova postura diante do poder público e da sociedade carente. De fato, nesse período, fins dos anos 1960 e década de 1970, certamente, parte da Igreja Institucional já buscava viver e inserir na sua prática pastoral as orientações do Concílio Vaticano II (1961-1965) que trazia consigo a Doutrina Social da Igreja, como também, a recente Conferência Episcopal Latino Americana de Medellin/Colômbia (1968) e em vias de realização da Conferência de Puebla/México (1979), cuja centralidade era a opção preferencial pelos pobres.
A formação e o desenvolvimento das CEB’s no Brasil estão intimamente relacionadas a essas conferências. Os bispos em Medellin e em Puebla perceberam que a pobreza não era um fenômeno social acidental ou episódico, mas sim a chave
do arranjo estrutural da organização social da América Latina. (PUNTEL, 1994 apud COSTA; SILVEIRA COSTA)34
A partir de então, a Igreja do Brasil assume uma nova postura e reorganiza sua ação evangelizadora que olha e passa a dar ouvidos aos apelos da população mais empobrecida. O método Ver, Julgar e Agir – próprio das Pastorais Sociais da Igreja Católica - se integrou à teoria educacional de Paulo Freire – foi adotado para orientar os trabalhos e as ações da Igreja, de modo especial, as Comunidades Eclesiais de Base – CEBs – e outros segmentos, também, ligados à Igreja.
A preocupação com a situação de exclusão social leva diversos grupos a se reunirem para tratar de temas comuns que permeiam a realidade de presos, menores, migrantes, pessoas que vivem na rua dentre outros e, congregarem ações conjuntas.
Em relação à população em situação de rua, são vários os personagens presentes no trabalho pioneiro com esse grupo, porém, na cidade de São Paulo, cabe mencionar o apoio de Dom Paulo Evaristo Arns ao grupo das uruguaias , quando da sua chegada em 1966, como bispo auxiliar da Arquidiocese de São Paulo e, posteriormente, em 1970 como Arcebispo, juntando-se a essa causa e, aos poucos, foi descobrindo junto a essa população formas e alternativas de não permanecerem no anonimato, mas alimentarem as raízes de suas identidades. Dom Paulo diz35:
Quando cheguei a São Paulo, eu vi que não estava bem organizado. Havia a OAF, que me convidava e eu ia junto muitas noites com eles, para as vigílias da noite [...]. Não estavam organizados, nem eles e nem os presos.[...] Eu ia toda semana visitar a Penitenciária [...]. Para os pobres, nós fazíamos todo dia Sete de Setembro uma marcha, pois eu nunca fui para a parada militar.[...] Nós fazíamos uma marcha paralela, por vielas e Ruas36 , enquanto o Exército marchava do outro lado [...]. Isto tudo foi de fato um trabalho preparatório muito bom[...]. (ALTEMEYER JÚNIOR, 2006, p. 35).
Neste espírito e, conforme relato de Dom Paulo Evaristo Arns, uma mudança de lugar social da Igreja por uma parcela de seus representantes já era, também, uma prática que nascia da experiência e da convivência com o povo sofrido, excluído e marginalizado, através da
34 COSTA, Cloves Reis; SILVEIRA COSTA, Marlise da. As Igrejas e um trecho da história do povo da rua, p.1. Disponível em:
<https://www.google.com.br/#q=As+igreja+e+um+trecho+da+hist%C3%B3ria+do+povo+da+rua>.
Destaque para Griselda Marina Castelvecchi, na época, conhecida como Nenuca, cuja vida dedicou por três décadas ao trabalho com população em situação de rua. Morreu em 1984, aos 56 anos. Escreveu dois livros: “Somos um povo que quer viver” e “Quantas vidas eu tivesse, tantas vidas eu daria”.
35 Entrevista concedida a Fernando Altemeyer Júnior por ocasião de sua pesquisa para a Tese de Doutorado na PUC-SP, em 07.01.2004.
qual, era possível identificar as reais demandas e necessidades presentes dentro de um grupo ou população.
Essa concepção de estar junto, no meio do povo, participando da vida e conhecendo sua realidade, é um dado que vai ao encontro do que Martinelli (1999) afirma sobre a importância de participar da vida do sujeito, ou seja, que é na prática da escuta ativa que somos capazes de perceber a subjetividade e, se queremos conhecer modos de vida, temos que conhecer as pessoas, participar da vida delas, conhecer suas histórias de vida.
Simbolicamente, na pessoa de Dom Paulo Evaristo Arns e demais envolvidos com a causa dos excluídos, a Igreja, foi marcando sua presença junto às pessoas que estavam em situação de rua. E a situação vivida por esse grupo já era uma expressão da Questão Social, pois, nesse período – década de 1970 -, o Brasil já sofria as repercussões da crise econômica juntamente com as crises políticas no mundo, o que provocou a necessidade de repensar a economia de maneira global e estabelecer uma nova divisão internacional do trabalho, para atender as necessidades do mercado mundial.
A população que ora se apresentava excluída, no cenário da rua, estava marcada também por esse contexto das grandes crises econômicas e seus rebatimentos na classe trabalhadora, pois, em função de um tipo de crescimento e expansão econômica, no final da década de 1970, pode-se fazer a seguinte leitura:
Um processo dilapidador [...] na medida em que tem depredado parte da mão-de obra, que leva adiante os processos produtivos. Assim, frisa-se, de um lado, que no período por muitos denominados de “milagre brasileiro” os salários mínimos e medianos dos trabalhadores urbanos decresceram e termos reais em contraste do que ocorreu em períodos anteriores. [...] Para levar a cabo um modelo de crescimento que acirrou a deterioração dos níveis de vida , tornou-se necessários desarticular e reprimir as iniciativas dos múltiplos e numerosos grupos que foram alijados dos benefícios do desenvolvimento. (KOWARICK, 1979 apud ROSA, 2005, p. 56). Nesse contexto de crises econômicas, cria-se o espaço para que os economistas, representados por Milton Freedman e Frederich Von Hayek elaborassem uma teoria liberal, cujo objetivo era defender os interesses de mercado e propagar o individualismo na sociedade (SILVEIRA, 2010).
Essa doutrina liberal ganhou espaço em países como a Inglaterra, no final dos anos 1970 e nos Estados Unidos, nos anos 1980. Margareth Thatcher à frente do governo inglês na época, foi responsável por difundir o neoliberalismo no seu sentido mais puro, influenciando e repercutindo em muitos países do mundo, inclusive, no Brasil. “[...] com a crise do Estado, sua parcela de responsabilidade vem se reduzindo. Isso faz com que parte da Questão Social
passe a ser enfrentada pela sociedade civil, por meio das organizações não-governamentais e fundações, entre outras”. (ROSA, 2005, p. 38).
A presença de um Estado autoritário no período de 1964 a 1988 era caracterizada pela filantropia clientelista e de apadrinhamento e, nesse período, houve um aumento do número de congregações católicas e de outras denominações religiosas, como também, organizações de apoio que vinham da Europa com demandas específicas para trabalhar junto às classes subalternas. (MEDEIROS, 2010).
Segundo Medeiros (2010:), o governo do Estado de São Paulo, em 1972, por meio de um Decreto 52.897 de 17 de março de 1972, também criou a Central de Triagem e Encaminhamento da Coordenadoria dos Estabelecimentos Sociais do Estado – CETREN – e disponibilizou serviços de atendimento e fazer a triagem das pessoas que necessitavam de recursos econômico-financeiros para que fossem atendidas em suas necessidades:
Artigo 1.º - Fica criada a Central de Triagem e Encaminhamento (CETREN), subordinada à Divisão de Atendimento Geral, do Departamento de Acolhimento e Triagem, da Coordenadoria dos Estabelecimentos Sociais do Estado, da Secretaria da Promoção Social. (dados da Secretaria de Promoção Social, 1978 apud MEDEIROS, 2010, p. 81).
O CETREN foi a primeira alternativa de abrigo para aqueles que chegavam à cidade, cujo objetivo era adaptar e reabilitar o indivíduo socialmente. Entretanto, não resolvia o problema. Esse caráter paliativo dos serviços não penetrava profundamente nas causas das estruturas do problema e desafios vigentes.
Ao longo da década de 1970, a OAF, instituição vinculada à Igreja Católica, ampliou sua atuação junto à população em situação de rua. E a OAF se torna uma grande entidade assistencial em São Paulo e em Recife. Em 1975, segundo a Irmã Ivete, tinha os melhores albergues de São Paulo. Entretanto, com a morte do diretor espiritual das uruguaias, instala-se uma crise no interior do trabalho e resolvem fechar a OAF e vivenciar a experiência de voltar às ruas, ir para perto da população, para conhecer o novo perfil.
Essas mudanças na forma do trabalho social junto à população de rua tiveram consequências profundas na vida da Igreja e na presença católica no centro urbano da cidade.
Para vinho novo, odres novos (Mc. 2,22).
A Organização de Auxílio Fraterno (OAF) por sua estrutura organizacional tinha estabelecido convênios em âmbito federal, estadual e municipal. Organizaram instituições de
qualidade no âmbito da assistência social, no entanto, a crise sentida pelos desafios causados com a morte do diretor espiritual, o peso de levar adiante aquela estrutura de trabalho com todos os albergues e casas que foram criados para atender esse público, tornou-se um desafio.
Diante disso, Dom Paulo, em conversa íntima e informal, propôs para Nenuca: “Coloca Puebla na Rua. [...] Não era bom colocar Puebla na Rua?” (ALTEMEYER JÚNIOR, 2006, p. 42).
Segundo Castelvecchi (1985) as palavras de Dom Paulo ecoavam em seus ouvidos, mas, como agrupar o povo da rua em comunidade? Aceitar viver essa experiência como um desafio, com o povo da rua, com homens explorados, sem esperança, sem projeto de vida, entregues ao alcoolismo e à violência, seria demasiada utopia distante da realidade?
E assim relata Irmã Ivete:
[...] as oblatas vão voltar para as Ruas para conhecer o novo perfil da população de Rua e nós vamos assumir a Teologia da Libertação como estilo de vida [...] organizar a população, restaurar a cultura, restaurar a religiosidade, então, nós começamos isso no viaduto. A criar comunidades, celebrar, organizar as cooperativas, as moradias, as festas religiosas, isto tudo embaixo do viaduto ou em praças’. (Idem, p. 43) Idem refere-se a quem?
Entretanto, o Pe. Júlio Lancellotti37 apresenta outra visão sobre essa mudança institucional da presença da Igreja junto à população de rua:
[...] Dom Paulo pediu, quando surgiu a Conferência (1979) que elas levassem as conclusões para a rua. [...] E isto trouxe uma reformulação de toda a prática. Elas fecharam todas as casas, que eram casas de acolhimento e, passaram a viver muito mais próximas da população de rua e também fazer a experiência dessa população [...]. Todo mundo quer dar algo para o povo da rua: comida, roupas. [...] Nem sempre quer conviver com ele. E construir alguma possibilidade. Ou rezar com ele, celebrar com eles. Vivenciar uma experiência eclesial. Uma experiência de fé a partir deles e com eles.
As duas Conferências Episcopais Latino-americanas realizadas em Medellin (1968) e Puebla (1979) colocaram na ordem do dia a emergência dos pobres como opção preferencial; provocou um pensar crítico da realidade de empobrecimento latino-americano, como também, uma crise no modelo de atendimento a esses povos e a mudança de práticas sociais (Idem).
Não passa pela cabeça do povo da rua que possa haver um lugar para ele participar, pois, na Igreja esse lugar significa dormir nos últimos bancos e receber uma pequena esmola antes de serem enxotados para não molestar os fiéis e na sociedade, significa “um canto” despersonalizado e humilhante nas poucas e sujas instituições de assistência social. (CASTELVECCHI, 1985, p. 119).
37 Padre Julio Renato Lacellotti em entrevista concedida a Fernando Fernando Altemeyer Júnior, na Casa Vida em 27.12.2003, por ocasião de sua pesquisa para a Tese de Doutorado na PUC-SP.
“Trazer Puebla para as Ruas” significou, na prática, alterar profundamente o modelo de ação social, de um trabalho assistencial realizado com o povo da rua, desenvolvido até então, e a partir de 1978 as oblatas (uruguaias) passaram a morar no Glicério.
Altemeyer Júnior (2006) ressalta que os conceitos da Teologia da Libertação foram gestados inicialmente por “Rubem Alves (1969), Gustavo Gutierrez (1971), Leonardo Boff (1972) e Hugo Assmann (1976)”.
A Irmã Ivete38 traz em seus relatos que, a partir daquele momento, a experiência de viver com o povo na rua passa a ser uma opção de vivenciar a mística numa relação mais profunda com o sofrimento daquelas pessoas; poder criar relações e ampliar os espaços de solidariedade; despertar a esperança de ter sua dignidade de volta; resgatar sua identidade através dos vínculos que se formariam nesses pequenos grupos de sofredores de rua. (ALTEMEYER JÚNIOR, 2006).
A expressão “Sofredor de rua”39 é utilizada para referir-se à desproteção e à falta de perspectivas das famílias moradoras debaixo de viadutos e que se tornavam cada vez mais numerosas, vivendo em estado de miséria, enfrentando um sofrimento muito grande por causa da falta de emprego, moradia e de perspectivas de um futuro melhor. (ROSA, 2005). Segundo Altemeyer Júnior (2006), foi o Padre Freddy Künz, mais conhecido como Alfredinho, quem difundiu essa expressão ‘sofredor de rua’.
Em entrevista concedida ao autor citado anteriormente (2006, p. 46-49), assim, relata a Ir. Ivete sobre a experiência de conviver com o grupo de pessoas que estava em situação de rua.
Nós ocupamos nove casas abandonadas que tinham por aqui, todas estragadas, e começamos [...] a organizar a comunidade e, ao mesmo tempo, a sopa.
[...]
[...] convidava Alfredinho para pregar retiro na praça pública com as oblatas, os voluntários e o povo da rua. Retiros misturados, grupos, como uma vida nômade mesmo.
Um projeto que tinha definição institucional como o da OAF passa literalmente para as ruas e assume como missão acompanhar a população em seu cotidiano de sofrimento. A noção de comunidade, nos anos 1970, na América Latina e especialmente no Brasil foi a expressão mais atuante como princípio organizativo das comunidades populares na luta por
38 Entrevista concedida a Fernando Altemeyer Júnior (2004, p. 46 e 49).
39 Termo politicamente correto pelas entidades ligadas à Igreja Católica, utilizado pelo Padre Alfredinho Kunz da Congregação Filhos da Caridade, fundador da Irmandade Servo Sofredor.
seus direitos civis, sociais, econômicos, culturais e, nessa fase histórico-social, o conceito empírico forte era povo organizado (SADER, 1988).
Certamente, a Teologia apresentada por Medellín e Puebla provocou mudanças nas estruturas, ações religiosas e práticas sociais no continente latino-americano. A linha pastoral da Igreja em algumas dioceses do Brasil passou a se fundamentar na ética social e na libertação de todas as formas de opressão.
Na Arquidiocese de São Paulo, em 1975, algumas pastorais foram criadas com esse viés, a Pastoral do Mundo do Trabalho cuja prioridade era voltada para a classe dos trabalhadores e operários das fábricas; Pastoral dos Direitos Humanos, tendo como princípios básicos a dignidade humana e o combate a toda e qualquer violação dos direitos fundamentais das pessoas, principalmente as camadas oprimidas e marginalizadas na sociedade; a Pastoral nas periferias com a formação de pequenas comunidades eclesiais de base pautada na formação bíblico-teológico-pastoral numa dimensão de fé e vida, na sociabilidade e nos relacionamentos humanos como motivadores para a organização e engajamento na luta por melhores condições de vida.
No final da década de 1970, algumas formas de organizações já eram pensadas como espaço de participação dessa população manifestar a sua presença na rua e despertar a