Neste Capítulo, procuramos descrever o processo de elaboração da pesquisa e coleta de dados para sua posterior análise.
Na tentativa de alcançar os objetivos propostos, analisar os discursos que sustentam a prática pedagógica do professor das Séries Iniciais do Ensino Fundamental e sua relevância para a Prática de Ensino de Ciências, foi realizada uma pesquisa com professores-alunos do Projeto Institucional Unesp – Pedagogia Cidadã, que ensinam Ciências nas séries iniciais do Ensino Fundamental.
Como procedimento de coleta de dados foi utilizada entrevista. Pelo fato de a natureza do objeto do estudo exigir interação entre pesquisador e pesquisado para contextualizar as experiências, vivências, sentidos, utiliza-se a entrevista como uma técnica especial para a coleta de informações diretas dos sujeitos investigados. A entrevista fornece dados básicos para a compreensão das relações entre os atores sociais e o fenômeno, tendo como objetivo a compreensão das crenças, atitudes, valores e motivações, em relação aos comportamentos das pessoas em contextos específicos (CERVO, 1996; ALVES-MAZZOTTI, 1998).
Almeida (2007) relata que nas situações de entrevista há uma interação entre entrevistador e entrevistado de modo que ambos se influenciam mutuamente por suas manifestações não apenas gestuais como verbais, mesmo havendo esta influência, cita a autora que este método de coleta de dados fornece ao pesquisador o conhecimento das opiniões, crenças e atitudes dos entrevistados.
Além das entrevistas, foram utilizados dados de materiais produzidos pelos professores alunos, como os questionários e redações realizados no primeiro dia de aula e dados de documentos oficiais do projeto Institucional Unesp-Pedagogia Cidadã. Como já destacado no capítulo de apresentação desse trabalho, os sujeitos, o tema e o referencial teórico-metodológico dessa pesquisa foram definitivamente estabelecidos no segundo semestre do ano de 2004. A pesquisadora atuou como professora tutora dos sujeitos da pesquisa durante dois anos - de outubro de 2002 à outubro de 2004 - . As observações descritas pela pesquisadora fazem parte de seu acervo de memórias e dos relatórios mensais enviados à coordenação do curso. Nestes relatórios os detalhes relevantes da experiência diária com os alunos, do ponto de vista da professora tutora e também da perspectiva dos alunos, constituíram registros descritivos que informavam a coordenação o significado que estes sujeitos atribuíam à sua realidade cotidiana em sala de aula.
Durante o processo de observação a pesquisadora estava envolvida nas atividades com os alunos, não como pesquisadora, afastada de seus sujeitos, mas como professora dos mesmos. Lüdke e André (2001) afirmam que o contato direto e prolongado do pesquisador com a situação pesquisada leva a um maior envolvimento do pesquisador, o que pode ocasionar uma representação parcial da realidade. O exercício de recorte e afastamento dos dados e de construção do arcabouço teórico a partir do qual os dados observados em seus aspectos mais relevantes foram abordados a fim de serem compreendidos e interpretados, se deu apenas quando a pesquisadora não era mais a professora tutora dos sujeitos da pesquisa.
A explicação da realidade, a interação contínua entre os dados observados ao longo do processo ensino-aprendizagem, ocorrido entre professora tutora e seus alunos, e/ou
coletados através de entrevistas pela pesquisadora após seu desligamento do curso, e suas possíveis explicações teóricas, ocorreram através da estruturação de um quadro teórico dentro do qual os fenômenos pudessem ser analisados e discutidos.
4.1 - Procedimentos Metodológicos – As Entrevistas
Seis professores foram sujeitos nessa pesquisa (um professor e cinco professoras), selecionados em sala de aula, tendo como único critério estar lecionando à época das entrevistas, tendo em vista que como já dito, a classe continha não-professores. Os seis professores atuavam em classes de séries iniciais de ensino fundamental de escolas do interior do estado de São Paulo. As entrevistas semi-estruturadas foram desenvolvidas a partir de um roteiro elaborado com 10 perguntas, aplicado de modo flexível admitindo a possibilidade de adaptações que poderiam decorrer da própria resposta dos professores entrevistados. Neste roteiro encontram-se as seguintes questões norteadoras:
1- Você poderia falar como que é seu ensino de ciências, como você trabalha nas suas aulas e por que você trabalha desse jeito?
2- Para você quais seriam as finalidades do ensino de Ciências? 3- O conteúdo de ciências é difícil pra faixa etária que você trabalha? 4- Seus alunos gostam de ciências?
5- Seus alunos entendem com facilidade ciências?
Estas questões buscavam explicitar como o professor desenvolvia suas atividades em sala de aula, sua prática pedagógica, sua visão de aluno, de ensino de Ciências (facilidades, dificuldades, finalidades e/ou funções), sua visão do processo ensino-aprendizagem e sua visão de si mesmo – profissional professor – em sala de aula. As entrevistas foram gravadas em áudio e, posteriormente, transcritas.
Na análise das entrevistas buscou-se determinar as condições de produção dos dizeres e os efeitos de sentido produzidos, ou seja as posições imaginárias que subsidiam analisar quem disse e para quem disse, quando disse e onde disse. As narrativas são tomadas como um componente da expressão coletiva, produções discursivas que ligam presente, passado e futuro, nas quais as (re)descrições dos narradores/ouvintes são constantemente criadas, recriadas e interpretadas na e pela linguagem; a maneira como a pesquisadora interferiu na situação discursiva dos professores entrevistados, seja pelo modo através do qual a pergunta foi formulada, seja por um corte brusco na fala do professor feito através de uma pergunta fora de hora, que ocasionou a mudança de toda a trajetória discursiva adotada por ele, seja com um gesto facial/corporal que possa ter sido traduzido pelo professor como censura ou condescendência, podem ter induzido o entrevistado a responder não aquilo no qual ele pensa e crê, mas aquilo que ele pensa e crê que o entrevistador deseja ouvir dele.
Os professores-alunos, conhecidos de agora em diante como professor 1, professor 2, professor 3, professor 4, professor 5 e professor 6, responderam questões baseadas em um roteiro semi-estruturado num encontro de aproximadamente uma hora com cada um dos mesmos, sem interrupções, em uma sala de aula na escola na qual cursavam o curso de Pedagogia, durante o período letivo, no mês de outubro de 2004.
Foram suprimidos, além dos nomes dos referidos professores, quaisquer indicações que possam permitir sua identificação. O nome das escolas e da cidade na qual atuam foi suprimido do texto a fim de permitir o anonimato dos docentes.
4.2 - A Análise dos Dados
Procurando responder às questões da pesquisa os dados coletados nas entrevistas com as professoras foram analisados em busca de elementos representativos que nos auxiliasse a atingir os objetivos desta investigação.
Encontrar respostas para as questões propostas nos objetivos do trabalho, supõe a construção de um plano metodológico e de um dispositivo analítico que lhe dê suporte e que demarque de que lugar teórico estamos falando.
Não existe um método da AD, como se ele fosse descartável da teoria e pudesse circular com autonomia. Não existe um ‘modelo’ para a compreensão e interpretação dos discursos; ele não existe pronto, pré-fabricado, nem aceita ‘encomendas’. Ele precisa ser a cada procedimento de análise, construído, trabalhado, em parceria indissociável com a teoria na qual é forjado. Esse cuidado - quase vigilância - com a apropriação imprópria da teoria é uma tarefa que cabe a cada analista assumir, sob pena do barateamento e da diluição do campo teórico, reduzido a uma visada metodológica. E isso se faz pela força do exemplo, com o trabalho consistente, qualificado de cada analista de discurso.
Todo discurso é parte de um processo discursivo mais amplo que recortamos e a forma do recorte determina o modo da análise e o dispositivo teórico da interpretação que construímos. Por isso o dispositivo analítico pode ser diferente nas diferentes tomadas que fazemos do corpus, relativamente à questão posta pelo analista em seus objetivos. Isto conduz a resultados diferentes (ORLANDI, 2002, p.64).
A função do analista do discurso é compreender e não interpretar discursos. Compreensão, na perspectiva de Orlandi (2004) consiste na explicitação do modo como
os discursos fazem sentido e esta compreensão, na AD, é política. Os próprios dados, na AD, não existem enquanto tal, uma vez que resultam de um gesto teórico do analista. O analista olha o texto na tentativa de compreender seu funcionamento enquanto objeto simbólico.
Análise de Discurso, na busca de um dispositivo analítico, tem como questionamento a constitutividade do funcionamento textual, como, distinto de o quê. O olhar da leitura se dará a partir de uma forma de entrada na formação discursiva, entre muitas possíveis, buscando as relações produtivas representadas a partir das marcas. Estas marcas são as formas de entradas que se fazem em cada recorte da formação discursiva. Em decorrência da importância das marcas para este procedimento analítico é fundamental, para a leitura, a tranqüilidade de um olhar aberto aos sentidos.
“(...) analisar o maior número de marcas e de dados não significa compreender melhor o processo discursivo em questão. A relação entre um e outro é indireta, passa por mediações de diferentes naturezas e que são passíveis de explicações diversas.
Dado um fato discursivo, um certo objetivo, o corpus será constituído através da reflexão sobre conceitos pertinentes para os objetivos da análise e pela sua sustentação em certos parâmetros metodológicos que visam garantir uma leitura não-subjetiva dos dados.
O que se exige é essa sustentação teórica e a compatibilidade entre o recorte dos dados com os objetivos a que a análise se propõe”. (ORLANDI, 1989, p. 32-33)
A AD traz em seu dispositivo analítico um conjunto de conceitos que permitem a um só tempo engendrar a análise, dando conta da interpretação - lugar do analista -, e da historicidade inscrita no próprio objeto enfocado. Daí se chegar ao conceito de condições de produção definido tanto como o contexto imediato, as circunstâncias da enunciação (sentido estrito), quanto como contexto sócio-histórico, ideológico (Orlandi, 1999). Dado que cada material exige de seu analista a atualização de conceitos pertinentes às questões que formule e ao seu encaminhamento pretendido, os
primeiros que a nós parecem essenciais são os de condição de produção do discurso, memória discursiva (interdiscurso), formação ideológica e formação discursiva.
Dispomos, então, de um aparato téorico complexo, composto por conceitos que se articulam engenhosamente numa ‘rede’ do discurso, composta de fios e furos operando com igual relevo; contamos com um dispositivo analítico, e tentaremos conseguir, assim, a partir dos recortes selecionados das entrevistas, produzir gestos de leitura muito particulares.
Nardi (2005) afirma que a construção do dispositivo analítico
é feita a partir da definição da questão colocada pelo analista diante dos materiais de análise que constituirão o corpus a ser compreendido, tendo em vista o domínio científico a que o analista está vinculando seu trabalho. É com o auxílio deste dispositivo que o analista conduz sua análise e propõe uma forma de compreender seus dados (NARDI, 2005, p. 91).
Segundo Orlandi (2001), a análise pressupõe ainda duas etapas no contato do analista com o objeto. A primeira etapa constitui-se da passagem da superfície lingüística (o texto) para o objeto discursivo (a formação discursiva a ser observada). Em uma segunda etapa, o analista passa do objeto discursivo para o processo discursivo, observando a formação ideológica do discurso.
A fala das professoras, supostamente pautada pela objetividade, pretende ser uma narração fiel dos fatos vividos, sem a emissão de opiniões ou a formação de juízos de valores. Orlandi (2001) afirma, entretanto, que o discurso de forma geral não passa de uma intermediação entre o homem e a realidade. Sendo intermediação, o discurso é determinado pelas suas condições de produção, é a representação de dado momento histórico, sob a interpretação do sujeito.