Para descrever, analisar e atestar o trabalho metalinguístico da criança, é preciso, pois, explicitar, dentro do arcabouço aqui apresentado, em que postulados nos apoiamos.
Por estarmos lidando com questões relacionadas ao processamento da linguagem em sua modalidade cognitiva, metacognitiva e textual, optamos, em primeiro lugar, por apoiarmo-nos em teóricos os quais entendem que o desenvolvimento metalinguístico da criança é parte integrante de seu próprio desenvolvimento linguístico. Assim sendo, as contribuições de Karmiloff Smith (1993) e Gombert (1999) são bastante esclarecedoras no campo em que estamos atuando. Apesar de estes autores não sugerirem modelos didáticos para o tratamento de fenômeno da atividade metalinguística na escrita infantil, eles apresentam conjecturas acerca de como é processada a linguagem pela criança, em termos cognitivo e metacognitivo.
Mas não devemos considerar apenas as contribuições de Karmiloff Smith (1993) e Gombert (1999) como base formal para explicar o caráter reflexivo da língua pelos aprendizes, na verdade, estudar o fenômeno a que nos propusemos requer abordar a língua escrita como algo que se encontra dentro dos limites não apenas do cognitivo, mas, sobretudo, dentro dos limites do discursivo, já que a tarefa de escrever demanda, além do processamento mental, um entrosamento contextual, social, linguístico e pragmático.
de se vislumbrar a aprendizagem e o processamento da leitura, da escrita e da fala pelo aprendiz enquanto modalidades permeadas pelo poder discursivo e reflexivo da própria língua. Com as contribuições da autora, é possível empreender um debate muito esclarecedor acerca dos fenômenos emergentes na linguagem infantil, mesmo sem utilizar modelos ou técnicas descritivas de mensuração linguística. Como já se viu (cf. seção 1.7.), ela propõe um quadro de análise linguística destas emergências a partir das tomadas reflexivas do escritor em relação às necessidades de melhor aprimorar seus textos.
Para a análise e interpretação da língua escrita pelos aprendizes, a autora, conforme vimos em seções anteriores, desenvolve suas discussões pautada em algumas operações linguísticas aplicadas em diversos elementos ou modalidades da língua, que representam um trabalho reflexivo, motivado e discursivo do aprendiz em sua relação com a linguagem. Também sob este ponto de vista estão pautadas nossas análises.
2.1. O tratamento metalinguístico na escrita infantil
Percebemos que, ao reelaborar seu texto, a criança busca uma maneira de dizer mais ou dizer melhor determinada informação. Para isso, realiza diversas manobras, aplica em sua produção linguística as mais diferentes estratégias. Estratégias do tipo substituir, subtrair, adicionar ou deslocar por meio dos quais as crianças demonstram, desde cedo, têm noção das unidades formais e funcionais da língua e que, ao escrever, elas precisam combinar diversos elementos da língua para que seu interlocutor possa depreender uma significação.
Como sugerem Fabre-Cols (2000) e Zanini (1986), a criança parece usar um conhecimento implícito sobre a língua para refletir sobre as próprias nuanças da língua, interferindo muitas vezes na forma e na função dos componentes da língua a fim de melhor
adequá-los às necessidades discursivas com as quais precisar lidar. Esta interferência se dá a partir de uma habilidade multidimensional que envolve vários aspectos linguísticos como, o trabalho com as palavras, com a sintaxe, com a semântica e com a pragmática.
Na oportunidade da análise geral destas habilidades, em nossa pesquisa de Mestrado, Oliveira (2005), quando discutimos os casos das retificações na escrita infantil, chegamos à conclusão de que em cada marca deixada pelas crianças em seus textos havia provas de um processo de passagem do pensamento para a linguagem escrita, caracterizado por uma tomada de reflexão acerca de alguma irregularidade textual. Cada rasura e posterior cuidado em melhorar o texto estavam imbricados por valores idiossincráticos e heterogêneos no universo da escrita infantil.
Os dados analisados naquela oportunidade nos deixaram muitas indagações e, por isso, eles também se constituem agora objeto de nossa investigação, já que um olhar aprofundado não fora dado aos fenômenos que encontramos às escondidas em seu permeio.
Um dos postulados teóricos que nos serviu de base para analisar as marcas retificativas das crianças foi o conjunto de operações linguísticas proposto por Fabre (1986), o qual precisamos ampliar a fim de melhor discutir suas ocorrências, mas, ainda assim, acreditamos que haveria muito mais sobre o que nos debruçar, como por exemplo, o fato de considerarmos enquanto forte tese a idéia de que por trás destas rasuras encontravam-se reflexões acerca da própria língua, daí termos tido a necessidade de empreender algumas entrevistas para reforçar nossas hipóteses e verificar em quais categorias da língua estas rasuras eram mais latentes.
Assim, na análise realizada durante a pesquisa de Mestrado, a partir de uma tipologia de operações linguísticas postuladas por Fabre (1986) e de outros aportes teóricos, de suboperações sugeridas no decorrer da investigação e de níveis comumente
empregados nos estudos linguísticos, foi realizado o estudo quantitativo e o qualitativo das marcas detectadas nos textos das crianças, cujo panorama geral, apresentamos a seguir:
Panorama do uso das operações e suboperações linguísticas utilizadas pelos sujeitos no processo de retificação textual em todos os níveis
Operações Linguísticas!
Adição Supressão Substituição Casos
especiais Sub-
operações! Nível "
ADP ADSP ADRE SUPP SUPR SUPREE SUPIN SUBP OPC