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Üçüncü Alt Probleme İlişkin Bulgular

BÖLÜM 3: BULGULAR

3.3. Üçüncü Alt Probleme İlişkin Bulgular

Fica claro que a formação do espaço hoje depende da carga de informação que nele circula. Para todas as ações e para a legitimação dos objetos do espaço, há a necessidade da circulação de informações a favor de fluxos mais objetivos, complexos e hegemônicos. H oje, o espaço é mais denso e complexo tal qual a carga de informações que nele circulam.

Com isso, há uma forte tendência à intencionalidade de todas as coisas. Na medida em que os objetos são cada vez mais direcionados a determinadas tarefas específicas, e com eles, juntamente as ações, essa intenção dos componentes da sociedade e do espaço se torna mais evidente, afinal tudo agora deve cumprir seu papel predeterminado, competindo no caminho de maiores lucros. E assim também reagem os espaços inteligentes.

Fazem vista, assim, grandes diferenças entre os espaços, já que nem todos podem participar ao mesmo tempo, ou já que nem todos têm o direito às melhores informações. Essas diferenças são responsáveis diretas por uma hierarquia global em nível espacial, econômico, político, social e cultural. O

fenômeno dos espaços inteligentes, assim como o das cidades da inteligência surgem em diferentes lugares de modos e intensidades diferenciados, da mesma forma como existem lugares onde a quantidade de espaços inteligentes é zero ou quase nula.

Essas diferenças entre a localização ou a intensidade de difusão dos espaços inteligentes se fazem notar em escalas distintas, isto é, podemos observar esse tipo de comportamento entre os espaços em um nível global - onde determinadas regiões privilegiadas detêm praticamente o controle completo do restante do planeta, tanto quanto em um nível regional e local - onde a informação e a criação também circulam diferentemente, gerando certos destaques, o que, como já mencionamos, contribui para a formação de regiões dinâmicas em inovação, pontos onde as relações atuais de determinação da configuração do espaço ligadas à tecnologia se fazem notar mais facilmente.

Com esse processo em andamento, cada vez é maior o número de lugares onde a informação chega depois, onde seus cidadãos também as desconhecem, não tendo consciência da importância de cada lugar na mecânica global (se é que se pode falar em uma mecânica). Isto é, essa consciência, necessária à emancipação, ao crescimento e ao desenvolvimento das regiões se perde quase que por completo, tornando os lugares puros consumidores de coisas e de idéias, cada vez mais distantes de sua própria importância e identidade. Com isso, vem à tona o que SANTOS (1997b) chama de “criação cotidiana do homem ignorante”, o homem que desconhece o próprio lugar onde vive, o que vale tanto para regiões dinâmicas em inovação quanto para aquelas que não participam ativamente das modificações impostas pelo meio técnico-científico-informacional.

na lógica global. Países do terceiro mundo como o Brasil apresentam regiões altamente desenvolvidas, com grandes concentrações de espaços inteligentes, mas sem um forte elo de identificação com o território nestas regiões.

Por outro lado, geralmente, os lugares excluídos da ‘ponta da lança’ das modificações globais apresentam maiores traços de identidade. O que se faz necessário é uma maior mobilização das regiões dinâmicas em inovação de países como o Brasil (que não se enquadram entre os líderes mundiais), para aliar estas novas configurações dos espaços inteligentes a movimentos de força sócio-cultural, num esforço de adquirir traços de identificação com as peculiaridades dos territórios e das sociedades que nele habitam.

O entendimento destas complexas relações espaciais, e das modificações no meio, hoje técnico-científico-informacional, passa pela história das chamadas relações entre sociedade e natureza. A sociedade, ao usar um meio natural que lhe era dado, passa também a artificializá-lo. A grosso modo, a história desse meio geográfico pode então ser dividida em três etapas: meio natural, meio técnico e meio técnico-científico-informacional. Ao longo dessa evolução desenvolveram-se uma crescente internacionalização da divisão do trabalho, uma divisão dos processos de produção e, com isso, maiores especializações.

H oje, o que provoca essas profundas distinções de que vimos falando, são as diferentes densidades territoriais de conhecimento, um poderoso recurso inerente ao meio geográfico atual.

“... imaginando duas regiões com as mesmas virtualidades físicas, aquela mais bem equipada cientificamente será capaz de oferecer uma melhor relação entre investimento e produto, graças ao uso just in tim e dos recursos materiais e humanos.” (SANTOS, 1997b)

Diante da nossa realidade local, são exatamente essas relações que geram os fatores que determinam as diferenças tecnológicas no recorte do meio técnico-científico-informacional que estamos estudando. Neste recorte, e inseridos nas chamadas regiões dinâmicas em inovação, surgem casos como o da cidade de São Carlos, com fluidez das informações, com o privilégio da criação científica, o que faz muitas empresas ali se instalarem em busca da proximidade e da facilidade de adquirir e fazer circular um maior número de informações e conhecimentos, com o fim último da acumulação.

O que faz o espaço adquirir certas características sistêmicas (como as estudadas na parte II, em ‘repensando o espaço’), e funcionar em certos momentos como redes e se comportar hierarquicamente, é a própria constituição do meio técnico-científico-informacional onde, como já vimos, a técnica, a ciência e a informação conferem dinâmica ao espaço geográfico e fazem parte de sua organização atual. A essa tecnicidade do espaço comparece uma racionalidade. U ma racionalidade dos objetos e ações que fazem parte da configuração espacial.

A racionalização diz respeito às atividades da globalização, às atividades para a manutenção e expansão do capitalismo. Mas mesmo com relação à racionalidade, podem-se distinguir duas maneiras de realização: a racionalidade intencional e a racionalidade não-intencional (SANTOS, 1997b).

Com o advento do meio técnico-científico-informacional, onde o espaço depende da racionalidade, fala-se em uma racionalidade do espaço, um espaço racional. Mas a dúvida que persiste é se há uma racionalidade do espaço ou no espaço.

A racionalidade do meio faz surgir conceitos semelhantes aos de regiões luminosas, regiões opacas (SANTOS, 1994), e aos de espaços da reflexão ou

espaços da razão, também chamados de espaços do saber, tendo como complemento os espaços do fazer (SANTOS, 1997b). E stes termos estão intimamente relacionados com os conceitos de espaços inteligentes e de regiões dinâmicas em inovação, pois distinguem os lugares privilegiados com a produção e o pensar da tecnologia, dos lugares consumidores e usuários dessa mesma tecnologia.

“H á os espaços do mandar e os espaços do obedecer. Todavia, essa racionalidade sistêmica não se dá de maneira total e homogênea, pois permanecem zonas onde ela é menor e, mesmo, inexistente e onde cabem outras formas de expressão que têm sua própria lógica.” (SANTOS, 1997b)

As diferentes densidades técnicas e informacionais distinguem os lugares e os diferentes graus de racionalidade opõem os lugares. Mas, segundo Santos, é também a partir das racionalidades do espaço que nascem as esperanças de resistência, as esperanças de uma manifestação local contra o global. Paralela à racionalidade existe uma ‘contra-racionalidade’. A idéia é que a partir da exclusão surjam as raízes da resistência e do renascimento da supremacia das relações cotidianas.

Antagonicamente, o aumento progressivo do processo de exclusão social, a progressão geométrica com que se desenvolvem os índices de miséria, podem culminar num processo de emancipação, uma ‘contra-clivagem’. E esse processo se acentua à medida que o E stado praticamente abre mão das políticas de provedor, deixando num segundo plano os projetos que satisfazem o bem-estar social.

“Os novos objetos custam caro. Chamado a implantá-los, em nome da modernidade e das necessidades da globalização da economia, o poder público acaba aceitando uma ordem de prioridades que

privilegia alguns poucos atores, relegando a um segundo plano todo o resto: empresas menores, instituições menos estruturadas, pessoas, agravando a problemática social. Assim, enquanto alguns atores, graças aos recursos públicos, encontram as condições de sua plena realização (fluidez, adequação às novas necessidades técnicas da produção), os demais, isto é, a maioria, não têm resposta adequada para as suas necessidades essenciais. H á, desse modo, uma produção limitada de racionalidade, associada a uma produção ampla de escassez.” (SANTOS, 1997b)

Isto quer dizer que todos esses aspectos do espaço a que vimos nos referindo correspondem à realidade da configuração espacial, o modo com que o espaço vem se caracterizando ao longo da história e se intensificando recentemente.

Mas essa não se mostra ser a maneira como as questões relativas principalmente à exclusão social devam ser resolvidas. Ao contrário, atualmente, a formação não só do espaço geográfico como a própria reprodução da sociedade, se faz em favor das hegemonias, intensificando as diferenças e alargando as condições de desenvolvimento de um capitalismo cada vez mais racional e mais alinhado às lógicas da competição e do lucro. A exclusão e a miséria aumentam incontrolavelmente e cada vez mais rapidamente segundo essa forma de reprodução da sociedade contemporânea.

Tudo isso faz parte dos ciclos de ajuste do capitalismo para a expansão da acumulação e perseverança da lógica do ‘lucro acima de tudo’, e tudo, perfeitamente previsto por Karl Marx. Todos estes movimentos de expansão da economia global e conseqüente acirramento das relações e problemas sociais já estavam descritos, especialmente no livro prim eiro em o capital.

“A manufatura, portanto, ora introduz a divisão do trabalho num processo de produção ou a aperfeiçoa, ora combina ofícios anteriormente distintos. Q ualquer que seja, entretanto, seu ponto de partida, seu resultado final é o mesmo: um mecanismo de produção cujos órgãos são seres humanos.” (MAR X, 1982)

Nosso trabalho não visa à construção de alternativas aos modelos atuais de constituição do espaço, mas colaborar na criação de condições para que futuramente isso seja feito. Apesar da emergência dessas alternativas, devemos ter a consciência de que antes de indicá-las deve-se entender profundamente as formas atuais de movimento do mundo, e, aí, numa pequena parte desta realidade atual, inserirmos nossas preocupações. Ao entendermos as implicações dos avanços tecnológicos na configuração do espaço atual, passamos a um entendimento dessa lógica, capaz de afetar substancialmente lugares e regiões, e é desse entendimento, dessa realidade cotidiana, de como o global afeta as relações locais, que poderemos no futuro ter condições de propor novas situações.

Assim como Santos, acreditamos estar no próprio lugar, no local das realizações cotidianas, no local onde se regem as relações de horizontalidade, na proximidade, na contigüidade, onde estejam as fontes ou os potenciais para a emancipação da sociedade excluída, da maioria da população.

Porém, exige-se uma tarefa árdua dessa população. É imprescindível que haja uma consciência e maturidade da realidade local inserida na lógica global, isto é, cada cidadão deve ter noção do seu próprio papel na sociedade, o lugar, deve saber quais são seus níveis de relações regionais e como estas se realizam no mundo. E essa não é uma simples questão de marketing regional. Essa necessária conscientização vem de projetos

profundos de educação, articulando política, cultural e economicamente toda uma sociedade local.

A proximidade é a dica para a prosperidade. A proximidade pode criar solidariedades e laços culturais que se traduziriam em uma identidade regional. Valorizam-se a contigüidade e as relações horizontais. Assim, o lugar é tido como a peça central para a resistência às lógicas desestruturadoras do capitalismo global atual.

“... se constituem, paralelamente, uma razão global e uma razão local que em cada lugar se superpõem e, num processo dialético, tanto se associam, quanto se contrariam. É nesse sentido que o lugar defronta o Mundo, mas, também, o confronta, graças à sua própria ordem.” (SANTOS, 1997b)

Benzer Belgeler