O estabelecimento virtual, como se pôde observar anteriormente, é mais um fruto da sociedade técnica, uma inovação advinda de várias combinações técnicas e que permitiu um grande avanço para a humanidade.
Ao se observar que tal instituto se aflorou como instrumento necessário para o comércio eletrônico, várias técnicas se desenvolveram sobre este e vem se desenvolvendo, por estar no curso de seu crescimento.
Mas visto o que foi tratado no item passado, será possível compreender o estabelecimento virtual como um avanço benéfico para a sociedade? Será este apenas mais uma técnica desenvolvida pelo homem, que está tomando espaço e somente seguirá suas regras, não permitindo obstáculos?
Pelo que se pode observar o estabelecimento virtual realmente vem se tornando uma técnica que não permite óbices, como se percebe da própria situação em que não se quer respeitar, por exemplo, a Lei estadual paulista n. 13.747 de 7 de outubro de 2009 referente aos transportes e realmente não se vem fazendo. Essa técnica vem se agigantando cada vez mais perante a sociedade, aproveitando-se da inércia e da falta crítica desta, que busca se amoldar às mudanças, ao invés de discutir se tal fenômeno técnico deve realmente fazer parte de sua vida e se deve ser regulado.
Porém, a técnica cada vez mais, não somente uma, mas várias, vem tomando conta do ser humano e, por conseguinte, da sociedade, fazendo com que se tenha apenas a noção do que se tem que fazer, sem refletir sobre a real necessidade, e isto é justamente o que vem ocorrendo com o estabelecimento virtual e com toda a cadeia que o antecede, bem como com a que dele provier. Assim, o homem se viu na necessidade de utilizar a Internet, depois viu a necessidade de comercializar por ela e para isso teve de instalar as lojas virtuais, que por sua vez tiveram de se ramificar. Mas será que todas essas necessidades realmente existiram? Será que permitir que o ser humano tenha acesso vinte e quatro horas à compra é benéfico? O homem pode se sentir igual em todo o mundo, somente porque esse tipo de comércio é o mesmo para todo o globo?
Questionamentos como estes são difíceis de se responder sem antes haver um estudo aprofundado da relação da técnica com as suas características modernas, pois somente através delas é que se permite avaliar o grau da influência técnica no ser humano e quanto este teve e terá de se amoldar à técnica. Assim, analisar-se-á abaixo a relação do estabelecimento virtual com cada característica moderna da técnica.
Com relação ao automatismo, se percebe claramente que o estabelecimento virtual vem se mostrando o melhor caminho na atualidade para o desenvolvimento das empresas, principalmente as de pequeno porte, sendo que, inclusive as grandes empresas também aderiram a este modelo de estabelecimento, demonstrando a força desse tipo de negócio.
Assim, percebe-se ser este modelo de negócio irreversível, inclusive pelo crescimento do número de transações realizadas, que são muito expressivas, ainda mais se pensando em um período de dez anos.
É um método totalmente racional e eficaz, que necessita de uma mínima estrutura e atinge um público mundial, diferentemente do estabelecimento tradicional, que necessita de uma estrutura maior, com mais funcionários e que inversamente atinge um público restrito, de uma municipalidade ou apenas o entorno destes.
Consequentemente, entende-se que, como os resultados são satisfatórios, matematicamente comprovados, a escolha pelo estabelecimento virtual se fará por si mesma, não havendo dúvidas na escolha entre os dois métodos, pois se imagine um pequeno ou micro empreendedor que irá começar a vender produtos, até de fabricação própria, o que será mais fácil para este: alugar um estabelecimento no centro da cidade, ou em um shopping, com valor de aluguel alto, comprar mobiliário para expor os produtos, funcionários, sistema de segurança, etc. ou apenas pagar um valor mínimo de um domínio na internet, onde ele mesmo controlará de sua residência, sem ter de pagar aluguel, sem pagar funcionários, sem gastar com mobiliário, montando apenas o site e fazendo o controle logístico. Realmente esta situação parece não ter escolha, sendo uma imposição técnica.
Portanto, o automatismo é uma característica presente no estabelecimento virtual de forma nítida, dando-lhe o caráter de método técnico de vendas mais eficaz na atualidade.
Com relação à característica do autocrescimento, se percebe que claramente, em todas as áreas, talvez no Direito de forma mais conservadora, se estuda o fenômeno do comércio eletrônico e, por conseguinte, do estabelecimento virtual, buscando seu aperfeiçoamento, o que é justamente um dos objetivos do presente trabalho, obtendo assim o progresso desta técnica, em virtude dessa conjunção de pesquisas.
Porém, há de ser anotado que o desenvolvimento técnico ocorrerá melhor nos países ricos, vez que estes possuem melhores condições técnicas, que dão sustento para o desenvolvimento de novas técnicas, sendo justamente isso também observável no caso do estabelecimento virtual, pois como se sabe a Internet surgiu nos Estados Unidos e neste país também se criou o comércio eletrônico, e por consequência o estabelecimento virtual. Indo mais além, todos os tipos de estabelecimentos virtuais estudados neste trabalho, também surgiram lá previamente, desde o estatal até o de compras coletivas, passando pelo de leilões e o de amostras grátis.
Saliente-se também, que os problemas técnicos trazidos pelo estabelecimento virtual somente poderão ser resolvidos por mais técnicas, o que se observa também neste trabalho em um pensamento superficial, pois aqui se busca tecnicamente, na base jurídica, aperfeiçoar os problemas trazidos por esse tipo de estabelecimento.
Assim, o autocrescimento se mostra um caráter presente no estabelecimento virtual, sendo seu avanço fruto de todas as áreas científicas, se desenvolvendo melhor em países com situação técnica anterior mais acelerada e permitindo que somente técnicas resolvam os problemas que gerou.
Por sua vez, no relacionamento da unicidade ou insecabilidade, se observa a impossibilidade da distinção entre o que é a técnica e o uso que se faz desta, pois a técnica se entrelaça de tal modo que não é possível distingui-la de seus aspectos negativos e isolá-los. Muitas vezes aparenta ser isso o que se busca, como neste trabalho, pois se tenta entender quais pontos são falhos na técnica do estabelecimento virtual, buscando uma melhora, porém isto se complica, quando se pensa que se alterando determinada questão legal, por exemplo, se tentará através de outra técnica a solução aparente.
Assim, pode se entender que se tenta na realidade o aperfeiçoamento da técnica e não isolar o seu aspecto negativo, mesmo que se busque este último. Assim, a característica do autocrescimento e da unicidade se mostram juntas nesta situação.
Além disso, é possível entender que como os elementos da técnica são inseparáveis, não se permite, por exemplo, separar a possibilidade do estabelecimento virtual ser visitado por apenas pessoas de determinada região, pois é um elemento do estabelecimento virtual, do fenômeno técnico deste, não possibilitando seu isolamento, ou sua redução.
A característica do universalismo também é perfeitamente observável no estabelecimento virtual, pois ele realmente penetrou em todos os países, através da internet, anotando-se não ser necessário que se encontre instalado no país de acesso para que seja utilizado, bastando apenas o acesso do consumidor em seu país de um estabelecimento de outro local completamente diferente, diminuindo mais uma vez as barreiras culturais.
Neste momento histórico se percebe que mais uma vez a técnica, em virtude do comércio, tende a se expandir sem freios e de forma qualitativa, pois quebra as barreiras da comunicação, se impondo, neste caso, através de um simples clique e de um número de cartão de crédito. Assim, mais uma vez se percebe a técnica avançando.
O comércio eletrônico se realiza da mesma forma em todos os continentes, o que impede regionalismos ou diversidades culturais para tanto, ainda mais em um tipo de comércio que se pretende expansível para todo o mundo. Isso faz com que não se respeitem as diferenças culturais, pois estas são derrubadas ainda mais facilmente do que tempos atrás, uma vez que não há mais necessidade de o homem se locomover até determinado local para impor tal técnica, fazendo-o através da internet, que facilita o acesso.
Assim, mais uma vez e desta vez de forma mais particular ainda, a técnica avança sobre as diversidades, pois atinge o cidadão em sua casa, em seu quarto, onde não há a penetração da crítica social, estando somente o homem, a máquina e uma técnica que é utilizada em todo o mundo da mesma forma. Assim, o estabelecimento virtual, além de ultrapassar as barreiras do globo como instituto, traz embutido os itens que vende, os quais
são os mesmos no mundo inteiro, como livros, CDs e que se mostram dominantes em todas as civilizações, justamente pelo avanço dessa técnica.
Com relação à autonomia se percebe que o estabelecimento virtual vem se desenvolvendo justamente dessa forma, criando suas próprias regras, desrespeitando todas aquelas que lhe são impostas de forma contrária. Observa-se isso de forma clara em relação à lei estadual paulista, explicitada no item anterior, que determina os períodos de entrega a serem escolhidos pelo consumidor, a qual é desrespeitada há mais de dois anos pelos estabelecimentos virtuais, sendo que estes ainda discutem em juízo a validade de tal diploma, por não conseguirem se adaptar a ele.
Assim, fica claro nesta situação, que as regras que os estabelecimentos virtuais obedecem são apenas as técnicas, e não as justas ou injustas. Pode-se observar que esta situação tem levado a desenvolvimentos sociais, políticos e econômicos, vez que está refletindo em todas as áreas, tudo em virtude do desenvolvimento técnico, como foi observado no estudo realizado no item anterior.
Neste caso pode-se observar a troca do homem pela máquina, pois não é mais o vendedor com margem para negociação que realizará a venda, mas sim um sistema especificamente montado para isso, que a partir do clique do consumidor, com condições predeterminadas e que não aceitam negociação, se dará realizada a venda.
Portanto, se observa a presença da característica da autonomia no estabelecimento virtual, principalmente por este se mostrar sobreposto a qualquer tipo de regra que contrarie seu desenvolvimento pensado de forma intrínseca.
Por fim, tem-se a característica da ambivalência, perfeitamente relacionável com o estabelecimento virtual, pois ao mesmo tempo em que este demonstra ter trazido certa independência, também alienou, pois não se deixa mostrar os efeitos negativos e os positivos, que se encontram de tal forma ligados que pouco se parou para refletir sobre esses problemas.
A análise da técnica neste caso será feita com base nas quatro propostas dadas por Ellul. Com relação à proposta de que todo progresso técnico se paga, toda a evolução trazida pelos estabelecimentos virtuais acaba por gerar problemas dos mais variados, entre estes se encontrando o estresse, pois as máquinas não param e o homem tem que acompanhar, e isto
ocorre justamente com o estabelecimento virtual, pois, diferentemente do tradicional, ele não fecha, ficando aberto vinte e quatro horas por dia para realizar suas vendas.
Com relação à proposta de que a cada etapa o progresso técnico levanta mais problemas (e maiores) que aqueles que resolve, pode se perceber de forma bem nítida no caso do estabelecimento virtual, pois ele trouxe reflexos na área trabalhista, consumerista e econômica, gerando desafios enormes a serem desenvolvidos, como desemprego, insegurança
jurídica, novos tipos de crimes, necessidade de políticas públicas amplas, enquanto o avanço que trouxe diz respeito apenas à comodidade que o consumidor pode ter de comprar em casa e da possibilidade de micro e pequenas empresas se inserirem no mercado de forma mais competitiva, o que não tem se mostrado uma grande vantagem, vez que as grandes redes entram nesse mercado com maior capital e maior publicidade.
Pela terceira proposta, na qual os efeitos nefastos do progresso técnico são inseparáveis dos efeitos benéficos, se pode observar claramente, que ao mesmo tempo que o estabelecimento virtual traz novas possibilidades de inserção no mercado, traz também desemprego. Ao mesmo tempo em que gera segurança por não ser necessário sair de casa com dinheiro, por exemplo, também se gera insegurança com relação ao furto de dados.
A quarta proposta, baseada em que todo progresso técnico compreende um grande número de efeitos imprevisíveis, nos leva a observar que o estabelecimento virtual tem gerado problemas que não foram possíveis de se prever, como a questão logística, o desrespeito a legislações, o crescimento espantoso, dentre vários outros que poderiam ser listados, mas isso não é necessário.
Assim, observada a presença de todas as características da técnica moderna no estabelecimento virtual, percebe-se que o estudo da técnica é de grande importância para se entender um novo fenômeno técnico, permitindo uma maior regulação deste, dando mais segurança para o desenvolvimento da sociedade como um todo.
Somente com esse estudo crítico seria capaz de se desenvolver um trabalho técnico em que se busca regular a técnica, fazendo com que o homem a faça compreensível e criticável. Muitas vezes, em virtude da velocidade dos avanços da tecnologia informacional, o homem chega a perder certos estágios de desenvolvimento, tamanha a rapidez desta, se
amoldando no que pode. Mas, por óbvio que isto causa danos, pois o homem não é mais capaz de repousar, tem que estar atento a tudo o que ocorre ao seu redor, se sentindo diminuído caso não consiga acompanhar esta ou aquela evolução, que muitas vezes é completamente desnecessária para sua real felicidade. A técnica tem chegado a tal ponto na vida humana, que ele tem preferido a máquina ao ser humano que está ao seu lado. Mas, existirá algo capaz de regular isto? É o que se tentará demonstrar no próximo capítulo.