Estudar o passado tem demonstrado ser interessante para se evitar erros, embora nem sempre, os avisos sejam evidentes o suficiente para convencer populações inteiras das melhores estratégias para o futuro, ou a possibilidade dele. O retorno ao passado também revela que as questões ambientais não se iniciaram somente nesse último século, há anos existe a noção da importância do meio ambiente como base para a possibilidade de uma sociedade, mas poucas ações, isto é, efetividade ambiental, ocorreram quanto a isso. Infelizmente, o peso econômico e político, em muitas das sociedades tiveram prioridade,
5
Avaliar sustentabilidade do desenvolvimento tem como pressuposto que não existe e nem existirá um estado de sustentabilidade, mas de uma busca permanente do mesmo. Portanto, o que se avalia é um processo, e não um estado final (SIENA, 2002, p. 21).
deixando a base – o ambiental, em segundo ou terceiro plano, fragilizando-se e chegando ao colapso.
Jared Diamond (2005) traz um relato bem interessante sobre o caminho errôneo que as sociedades, em diversas épocas, tomaram, seja por conta da ignorância quanto às conseqüências dos impactos ambientais, seja por escolhas de prioridade. Para Diamond (2005, p. 18), oito foram as categorias que minaram as sociedades antigas e danificaram o meio ambiente ao longo da história da humanidade:
1. Desmatamento; 2. Destruição do habitat;
3. Problemas com o solo (erosão, salinização e perda de fertilidade); 4. Problemas com o controle de água;
5. Sobrecaça; 6. Sobrepesca;
7. Efeitos da introdução de outras espécies nativas e
8. Aumento per capita do impacto do crescimento demográfico.
No mundo de hoje, globalizado, Diamond (2005) acrescenta mais quatro categorias entraram devido ao melhor nível tecnológico e a sua enorme população humana:
9. Mudanças climáticas provocadas pelo Homem; 10. Acúmulo de produtos químicos tóxicos no ambiente; 11. Carência de energia e
12. Utilização total da capacidade fotossintética do planeta.
O risco atual de colapso, embora seja questionado, devido ao quadro catastrófico pintado por inúmeros autores, tais como Diamond (2005), mesmo sem data marcada, exige seriedade e preocupação. O ecocídio pode vir a matar mais do que guerras ou pandemias, por simplesmente não se ter entendido os seus avisos (DIAMOND, 2005). A população mundial cresceu e com ela uma ética de consumo, além das transformações ambientais induzidas pelo Homem ocorrerem numa escala maior e gerando implicações mais severas seja de ordem material, espiritual ou estética jamais vista na história da humanidade (HARVEY, 2004a). Isso pode ser percebido no valor do “ter”, que é entendido como qualidade de vida. A mudança, ou entrada de novos valores, levará tempo a ser reintroduzida numa sociedade que devora os seus recursos, ignora a vida, briga pelo “seu” e se multiplica, seja em números ou pensamentos.
O manejo de recursos ambientais de modo sustentado sempre foi difícil, desde que o Homo sapiens desenvolveu a inventividade, a eficiência e as habilidades de caçador há uns 50 mil anos. [...] Qualquer povo pode cair numa armadilha de sobreexplorar recursos ambientais, devido a problemas universais: [...] os recursos pareciam inesgotavelmente abundantes; [...] os sinais iniciais de sua extinção foram mascarados por variações normais nos níveis daqueles recursos ao longo dos anos ou das décadas; [...] foi difícil fazer as pessoas concordarem em ser parcimoniosas na coleta de um recurso compartilhado; [...] a complexidade dos ecossistemas frequentemente torna as conseqüências de alguma perturbação causada pelo homem virtualmente impossível de serem previstas [...]. Os problemas ambientais que hoje são difíceis de administrar certamente eram ainda mais difíceis no passado. As sociedades que entraram em colapso (como os maias) e as mais avançadas de seus tempos, e nada tinham de estúpidas ou primitivas. (DIAMOND, 2005, p. 25).
O sistema capitalista não foi o causador dos problemas ambientais, mas sim um grande contribuidor para o aumento do consumo e a propagação de consumir sempre e mais. Marx (1973 apud HARVEY, 2005, p. 45) afirma que:
A produção não é apenas imediatamente consumo e consumo não é apenas imediatamente produção, a produção não é apenas meio para o consumo e o consumo não é apenas o objetivo da produção [...] mas também, tanto a produção quanto o consumo [...] criam o outro, complementando-se e criando-se enquanto o outro.
Isso demonstra o poder do consumo nessa lógica capitalista e a sua indução a permanência de produtos descartáveis, além do acúmulo de capital se manifestar na produção quanto no consumo por meio da expansão das mercadorias, maximização dos lucros e achatamento dos salários. Isso gera crescimento econômico, mas não desenvolvimento.
Vendo isso num planeta no qual a tecnologia pode (quando lhe é viável) barrar grandes epidemias, explorar os recursos com mais eficiência e num curto período de tempo - tempo esse bem menor do que a reposição da maioria desses recursos - torná-los finitos e não renováveis. Tudo devido a um a ótica reinante de que as necessidades de uma população crescente são ilimitadas e precisam ser supridas mesmo diante de recursos, cada vez mais limitados. Como se vê, não é um quadro de um futuro catastrófico, mas um retrato de um presente real.
A visão do consumismo exagerado também pode ser vista em sociedades antigas, que exploraram os seus recursos a extremos, por intermédio de uma cultura do inesgotável ou por uma cegueira “consciente”, mas com prioridades mais econômicas ou políticas – caso esse visto na Ilha de Páscoa ou no Brasil colônia, com a super exploração do Pau-Brasil.
Diamond (2005) revela esse passado, exemplarmente, na Ilha de Páscoa, hoje, local conhecido pelas enormes estátuas de pedras (moai) e considerada um dos pontos mais isolados do planeta. A ilha foi colonizada por polinésios, provavelmente, entre 300-400 d.C. e, atualmente, são visíveis os efeitos impactantes sofridos pela mão da sociedade local. Apesar dos pascoenses possuírem boas técnicas para a agricultura e excelente conhecimento em engenharia (afinal era preciso conhecimento para erguer as estátuas sem guindastes), haviam esquecido de calcular o preço da manutenção dessa prática que sobrexplorava os poucos recursos disponíveis.
O isolamento de Páscoa a torna mais claro exemplo de uma sociedade que se destruiu pelo abuso de seus recursos (DIAMOND, 2005). O desmatamento devastou a ilha e a população de aves; tendo como conseqüência imediata a perda de matéria-prima, de fontes de caça e a diminuição das colheitas e a longo prazo, a fome e o declínio de sua população. Os fatores políticos, sociais e religiosos permitiam esses impactos ambientais e o seu declínio como sociedade.
Pádua (2002) traz essa mesma reflexão, mas em um cenário diferente – Brasil, 1786 a 1888 – época de exploração intensa e com um detalhamento sobre a “consciência ambiental”, da época, dos que praticavam essa exploração. É interessante saber que essa “consciência ambiental” não lutava por uma nova ética, mas por motivos utilitários e políticos. Afinal, como fundar uma base no Brasil sem recursos para se manterem social e economicamente? A consciência ambiental existia, mas não a ponto de efetivar mudanças, o poder econômico, também, falava mais alto.
O Brasil, comparando-se a Páscoa, possuía uma vasta extensão territorial, uma maior abundância de recursos e uma população, na época, muito pequena de “brasileiros” e tudo isso pode ter evitado um colapso.
Hoje, a realidade mudou. O Brasil continua tendo uma vasta extensão territorial, sua quantidade de recursos diminuiu bastante e sua população aumentou, além de estar inserido num panorama, agora, global. As exportações e as explorações continuam, em alguns pontos com a mesma voracidade, embora, se fale abertamente de consciência ambiental e pouco se faça de efetividade ambiental.
Ao longo dos seus 506 anos de “civilização”, o Brasil continua cobiçado, mas agora não somente por Portugal, mas todos os países que possam, direta ou indiretamente, levar os seus recursos. Siena (2002) aponta que o DS é uma construção social referente à avaliação de longo prazo de uma grande sistema. E embora se tenha como subsistemas o social, o ambiental e o econômico não se pode escolher um para ser o causador isolado de
novos acontecimentos devido a própria estrutura de rede no qual estão inseridos os subsistemas. Mas é possível acionar um que consequentemente influenciarão os demais, porém, talvez não na mesma intensidade. Nesse contexto, a Educação Ambiental (EA) é aqui visualizada como ponto inicial de mudanças nos demais subsistemas, sendo considerada como um dos passos para se possibilitar o DS.