• Sonuç bulunamadı

A Facção 03 funcionava na casa da costureira líder: Maria. Assim como nas outras facções, esta funciona com quatro costureiras principais, onde as três trabalham diariamente: ela, Mariana e Biatriz. E mais uma, chamada no momento final para revisar e fazer os pequenos acabamentos nas peças montadas: Joana. Além delas, a líder coordena duas costureiras que trabalham em suas casas e são acompanhadas pessoalmente, todos os dias. Essas costureiras só entram em determinadas remessas, dependendo do modelo. Por exemplo, há um grupo de costureiras que só trabalha com bordados.

Elas fornecem para a marca S., como a líder da facção 01 já havia relatado. Este fornecedor costuma trazer tudo já cortado. Trabalham com moda feminina em algodão. A maioria das peças é bordada, mas Maria também possui clientes individuais, das quais recebe remuneração extra, como explica: “não dá pra ficar só com um fornecedor, pois eles podem ficar um mês ou mais, sem trazer nenhum material”. Desse modo, elas não ficam sem receber. Possuem 06 máquinas: 02 interlock, 01 goleira, 03 retas (03 próprias e 03 da Empresa S., do fornecedor).

A facção funciona em um cômodo da casa de Maria, depois da garagem e da sala, em um quarto virando à esquerda, que media aproximadamente 3,0 x 4,0 m, onde, assim, as máquinas estavam distribuídas: duas máquinas junto à única janela e uma mesa, logo à esquerda da porta de entrada e as outras máquinas (04) estão emprestadas com os grupos de costura e bordado. As costureiras estocavam o material recebido do fornecedor em um pequeno cômodo ao lado, onde armazenavam as peças prontas para serem conferidas e devolvidas ao fornecedor. O espaço possui telhado forrado, sem ventiladores. A casa é situada no lado do nascente, onde a ventilação entra pela janela da frente do cômodo e segue em direção ao portão principal da casa.

Durante a entrevista individual com Maria, outros detalhes do funcionamento de sua facção foram mencionados, como identificamos neste trecho: “A gente recebia quinzenal, mas agora tá muito ruim, a gente tá entregando por mês. Recebo mensalmente, mas antigamente era quinzenal”.

Fomos fazendo indagações e percebemos, aos poucos, que elas estavam vivendo exatamente a instabilidade própria das implicações da informalidade e precarização das relações de trabalho em facção. Ficamos atônitos com a veracidade dos fatos.

Maria nos revelou sua principal dificuldade naquele momento, a partir dos contratempos vivenciados para manter as ‘boas’ costureiras em sua facção, como vimos neste trecho de seu relato:

E a S. (dona da marca S.), pra mim, ela é uma patroa maravilhosa, o seu H. Também… só assim, que ela me supre de peça, aí ,de repente falta, entendeu? Fica aquele quadro de costureira que diminui, eu perco costureira por causa disso (8:59), entendeu? E a dificuldade… não tem um fluxo assim total, não tem uma matéria prima que seja aquele ponto, por exemplo, agora, tá falhando direto, né? O mercado de trabalho, eu acho que pra ela deve tá ruim. Então,, é por isso que as vezes, há desorganização, aí, a desorganização vai mexer… vai mexer com o seu salário… mexe com tudo. Por que se eu ganho 1.000 reais, aí vou ganhar 500 reais, aí vai diminuindo, então, o que acontece, tudo vai desorganizando, quer dizer, eu tenho que pagar energia, tem que pagar linha, aí, vai juntando aquele negócio, aí cê tem que pedir dnheiro emprestado, cê tem que pegar dinheiro com agiota, aí vai até o final do ano desse jeito, e isso é a dificuldade.

Assim, sem o fluxo de produção estável, mantido em níveis mínimos, como Maria vivenciava no começo, a instabilidade marca o contexto do trabalho de costura em facção, como em outras ocupações estruturadas sob a vulnerabilização dos direitos e garantias do trabalhador. Em principal, respondendo à lógica contemporânea do capital, onde parte das cadeias produtivas são externalizadas e terceirizadas, quando o mercado se expande, embora os contratos com terceirizados se reduzem rapidamente, diante de uma retração do mercado.

A situação vivida pela Facção 03 nos fez lembrar Antunes (2010a), ao abordar a questão do estranhamento e sua complexificação nas atividades da ponta dos arranjos produtivos, quando declara que:

Se o estranhamento permanece e mesmo se complexifica nas atividades da ponta do ciclo produtivo, naquela parcela aparentemente mais “estável” e inserida na força de trabalho que exerce o trabalho intelectual abstrato, o quadro é ainda mais intenso nos estratos precarizados da força humana de trabalho, que vivenciam as condições mais desprovidas de direitos e em condições de instabilidade cotidiana, dada pelo trabalho part-time, temporário, precarizado, para não falar nos crescentes contingentes que vivenciam o desemprego estrutural. (p. 34-35)

Apesar das diversas precariedades relatadas pelas 08 costureiras participantes acerca da organização do trabalho em facção, apontaremos mais alguns dos trechos das entrevistas com estas funcionárias, que traduzem outras facetas ainda não abordadas:

Depois que eu peguei a facção com ela (Marca S.), eu perdi as minhas cliente todas, eu não tenho mais, então, porque, eu só tinha a facção. Então agora, pra mim começar é difícil, né? E outra coisa, eu tenho 52 anos e eu não tenho carteira assinada e pra mim é difícil, né, porque eu preciso pagar INPS, né? E então agora com 52, aí fica mais difícil ainda. (Maria)

Maria traz aqui a real situação de sua facção (Facção 03) naquele momento. Ela foi ficando só com o fornecimento das peças para a marca S. e foi deixando sua clientela individual. Quando havia muitos pedidos da marca S., tudo parecia bem, mas quando os pedidos começaram a decair, o recebimento e, consequentemente, a renda caía também. Portanto, identificamos aqui uma conotação de instabilidade do formato de facção.

Laura destaca, ainda, a falta da carteira assinada como uma dificuldade, mas gosta de trabalhar em facção, como nos disse nesta parte da entrevista: “as dificuldades seriam só essas mesmo e a questão da falta da carteira assinada, que em questão de salário, dependendo da facção, você ganha melhor.” “Eu gosto de trabalhar em facção. É tanto que tô pensando em montar a minha. Trabalhar em casa”.

Concluímos nossa discussão sobre a organização do trabalho em facção com esta passagem da entrevista de Marta, quando ela afirma que:

Todas as faccionistas têm sua história pra contar e são sofredoras. Vive na máquina, mas não queria trabalhar nisso não. Tem que trabalhar muito pra ganhar. Tem muita faccionista que ganha muito em cima das outras. Paga 0,20 por peça. Tenho muita amiga assim. Tem uma que já construiu até casa duplex. Conheço muita gente que costura porque precisa, não é porque ela quer. (Marta)

Inspirados nas proposições de Castel (1998) sobre o trabalho e cidadania, concordamos com Matsuo (2010) quando afirma que “os efeitos da reestruturação produtiva e da precarização estão instalados entre nós, com a diferença de que na França, a nova questão social apareceu, como afirmou o autor, em uma época de “pós-proteções” universais produzidas pela “sociedade salarial” (p.103) (Grifo do autor).

No caso brasileiro, nota-se que não chegamos a possuir esta proteção. Talvez, apenas

um estado de “pré-proteção”, regulado por políticas públicas pouco eficientes e uma cobertura

previdenciária parcial, como diria Matsuo (2009). Na verdade, a informalidade consistiria “na forma mais típica de vínculo ao mercado de trabalho”, onde a ausência de direitos previdenciários e trabalhistas e a precariedade são as regras.

Conforme Marx (1983), se a única mercadoria que produz valor é a força de trabalho quando consumida, concluímos que o capital inexistiria sem o trabalho. Desta forma, acreditamos que hoje se está apenas assumindo papéis diferentes no contexto histórico definido pela dualidade do formal e do informal. Sabemos que estamos diante de mais uma estratégia do capital e sua contínua expansão. Assim, entendemos que a ampliação do trabalho informal, promovida pela crise da sociedade salarial e pelos novos arranjos produtivos ou as chamadas terceirizações, é marcada pelo caráter expansionista do capital.

Precisamos relembrar Prandi (1978), parte de nosso aporte teórico, quando explicita que a aparência de autonomia no trabalho informal inibe ou oculta a relação capital e trabalho, que se encontra numa ‘forma disfarçada de assalariamento’. Destaca, também, a supervalorização do individualismo, personificado nesta ideia de autonomia do trabalhador por conta própria, que no limite da sobrevivência, impede ou dificulta ações coletivas. Sua forma de evitar o conflito de classes e manter o status quo (grifo nosso).

Nesta perspectiva, percebemos que o trabalho de costura em facção se insere no mercado de trabalho brasileiro como uma relação atípica de assalariamento fundada na contradição de que, ao tempo que resulta em um trabalhador desprotegido, ou seja, sem a cobertura mesmo parcial das leis trabalhistas e previdenciárias; e aparentemente ‘autônomo’, é também sustentação, meio, instrumento de manutenção do poder do capital. Especificamente, sustentam as cadeias produtivas do setor de confecções e do vestuário, provavelmente sua estratégia central de enfrentamento da competitividade no mercado global e nacional.

Discutiremos agora como o modo de trabalhar se entrelaça com o modo de viver das costureiras participantes desta pesquisa, de forma a debatermos as relações que elas expressam entre o trabalho e suas vidas.

Benzer Belgeler