“...muitos lhe acompanha para rezar o rosário da santa virgem e muitos vão pelo seu pirão”.
“O direito à propriedade está na Bíblia” . “O sertão é como o mar, sertão de lonjuras”.
Estas são falas dos filmes O Caldeirão da Santa Cruz do Deserto, A
Saga do Guerreiro Alumioso e Corisco e Dadá, respectivamente, e trazem em
seu sentido um pouco do que as obras mostram como sendo os sertões, isto é, são descrições de espaços e relações que os sertanejos estabelecem uns com os outros e com a natureza, a terra, que os acolhe. Para entendermos que homem sertanejo esses filmes levam às telas é necessário antes compreendermos o espaço construído a partir do conhecimento de sertão, onde este homem vive. Quais os significados de sertão/sertões que a história apreendeu e atribuiu aos espaços rurais das regiões interioranas do Nordeste.
38DEBS, Sylvie. “Rosemberg Cariry volta à tragédia da caatinga” – In O Estado de São Paulo,
O sentido que é dado pelo dicionário à palavra sertão diz muito sobre o sentido social que o sertão ganhou ao longo dos anos.
O historiador Caio Prado Júnior na apresentação do livro de Manoel Correia de Andrade, “A Terra e o Homem no Nordeste” ,39 afirma não haver
nenhuma região brasileira sobre a qual se tenha escrito tanto quanto a região Nordeste.
Caio Prado não atribui este fato a uma questão especial, mas sem dúvida é uma constatação curiosa, principalmente, se nos lembrarmos de que o Nordeste só foi reconhecido enquanto uma região brasileira há menos de um século, apesar de as discussões acerca das diferenças encontradas entre Norte e Sul terem seu início ainda no Império.40
Falo aqui de Nordeste, mesmo tendo como eixo da discussão deste trabalho as construções de sertão, e explico por quê: não foi difícil observar que os livros consultados, propondo-se a discutir o Nordeste, a partir do século XX, traziam dentro de uma perspectiva cultural, historiográfica, sociológica, antropológica ou literária, via de regra, Os Sertões, de Euclides da Cunha, como uma das principais referências bibliográficas, obra aquela que trata da Campanha de Canudos, agrupando todos os elementos que compõem os sertões nordestinos.41 A partir disto é possível fazer a seguinte interrogação: é o Nordeste brasileiro lido a partir de suas características rurais?
Segundo Albuquerque Júnior, sim. O Nordeste, quando ainda era Norte, é percebido pelo Sul do país através de seus problemas: em primeira página, a seca, depois, juntam-se a ela o cangaço e o messianismo. Isso tudo amparado pelo discurso, não só externo à “região”, mas também interno, das oligarquias locais que, percebendo a impossibilidade de detenção do poder político nacional, buscam assegurar a manutenção de um poder regional.42
“O que podemos concluir é que o Nordeste será gestado em práticas que já cartografam lentamente o espaço regional como: 1) o combate à seca; 2) o combate violento ao messianismo e ao
39 ANDRADE, Manuel Correia de. A Terra e o Homem no Nordeste: contribuição ao estudo da
questão agrária no Nordeste. 5ª ed. São Paulo: Atlas, 1986.
40 ALBUQUERQUE Jr., Durval Muniz de. A Invenção do Nordeste – e outras artes. Recife: FJN,
Ed. Massangana; São Paulo: Cortez, 1999, pp. 68-69.
41
CUNHA, Euclides da. Os Sertões. 18ª ed. Rio de Janeiro: Ediouro, 1996.
cangaço; 3) os conchavos políticos das elites políticas para a manutenção de privilégios etc.” 43
As práticas compreendidas como sendo nordestinas, são, como podemos bem observar, ligadas diretamente ao campo e vinculadas de modo inseparável às manifestações de práticas, movimentos e comportamentos dos sertões.
Os argumentos que tornaram possível a construção de uma região chamada Nordeste foram fundamentados pelas mesmas características expostas por Cunha em sua obra, quando fala seqüencialmente dos sertões (a terra), do homem e dos seus conflitos (a luta).
1902-2002, cem anos do lançamento de Os Sertões de Euclides da Cunha. Nesse intervalo de tempo muito se produziu sobre o(s) sertão(ões) nordestino(s). Percebemos que, quando falamos em Nordeste, nos vem à cabeça a imagem de campo/sertão, e quando falamos em nordestino, igualmente pensamos no sertanejo; e não é só isso, pensamos numa imagem única de sertanejo, imagem esta que, provavelmente, tem sua matriz intelectual a exatamente um século: “o sertanejo é, antes de tudo, um forte”.44 Esta frase
escrita por Euclides da Cunha poderia estar perdida entre tantas outras frases que compõem o seu livro de mais ou menos quinhentas páginas, mas não está. Está, sim, condicionada à origem daquele homem, suas raízes e, principalmente, ao espaço sertão do qual aquele homem é parte e de onde tira sua força.
Hoje vemos45 a frase de Euclides em muitas das produções sobre nordeste, nordestino, sertão ou sertanejo. Vemos a força do homem sertanejo ser defendida e ser negada, vemos essa força ser atribuída à ligação do homem com a terra, ao sofrimento que seu meio lhe submete, à fé incondicional que lhe é atribuída, à valentia que lhe permite lutar pela difícil
43
Id. Ibidem., p. 74.
44 CUNHA, Euclides da. Op. Cit., p. 64.
45 Leia-se “entendemos”. Refiro-me às obras que depois de Euclides da Cunha propuseram-se
a fazer conhecer o Nordeste e o povo que nele habita, destacando-se: Cangaceiros e Fanáticos, de Rui Facó (1963); O Outro Nordeste, de Djacir de Menezes (1937); O Mesmo Nordeste, de Alberto Tamer (1968); A Invenção do Nordeste, de Durval Muniz (1999); Sertão: um lugar incomum, de Ivone Cordeiro Barbosa (2000); A Terra e Homem no Nordeste, de Manoel Correia de Andrade (1973); dentre outras. Quanto ao trato com Os Sertões, dá-se não no âmbito da literatura, e sim como uma obra historiográfica.
sobrevivência e contra as precariedades de sua região que, por ser estreitamente ligada a ele, são suas precariedades também.
Percebendo os caminhos que Euclides percorre para chegar ao homem, na primeira parte de sua obra, a terra, vemos que o espaço onde o sertanejo vive, descrito por ele, é muito mais do que uma região limitada geograficamente, é uma região que define as possibilidades de construção e sobrevivência do ser que nela habita. Hoje já lemos Os Sertões sabendo que teremos de deparar com as descrições geográficas, questões climáticas, relevos, hidrografia, para entender qual é o homem que Euclides imortaliza. Mas na aliança construída por ele entre terra e homem, perdemo-nos no caminho das respostas, confundimo-nos se quem definiu o comportamento do homem foi realmente a terra, como querem muitos, provavelmente como quer o próprio Euclides da Cunha, ou a terra foi definida a partir do que viu Euclides sobre o comportamento que o homem já revelara, “tal como Euclides apresenta
os sertões, o homem começa antes que dele se trate”46. Para dar luz a essas
reflexões trago as palavras do próprio Euclides sobre o sertão que encontrava nas primeiras impressões da travessia – nelas vemos que o sertanejo não é um total subordinado do espaço, que também busca transformá-lo e mantê-lo modificado, quando encontra pequenas lagoas no meio da caatinga, que serve aos que ali caminham de reabastecimento de água,
“Algumas denotam o esforço dos filhos do sertão. Encontram-se, orlando-as, erguidos como represas entre as encostas, toscos muramentos de pedra seca. Lembram monumentos de uma sociedade obscura. Patrimônio comum dos que por ali se agitam nas aperturas do clima feroz, vêm, em geral, de remoto passado. Delinearam-nos os que se afoitaram primeiro como as vicissitudes de uma estrada naquelas bandas. E persistem indestrutíveis, porque o sertanejo, por mais escoteiro que siga, jamais deixa de levar uma pedra que calce as suas junturas vacilantes.” 47
Neste pequeno trecho vemos de que forma as descrições de espacialidades são apresentadas na obra. As frases aludem ao empobrecimento, à hostilidade do clima, a um tempo quase inerte onde as construções do passado são de igual serventia no presente, lembrando ainda
46LIMA, Luiz Costa. O Controle do Imaginário: razão e imaginação nos tempos modernos. Rio
de Janeiro : Forense Universitária, 1989, p. 226.
as astúcias usadas pelo sertanejo para sobreviver da melhor forma neste meio que tanto minimiza suas possibilidades de sucesso.
Estamos querendo chegar, nas mesmas discussões de onde partimos, no sentido que é dado ao sertão. Fernando Cristóvão48 defende que a
literatura, depois do romantismo, fez do sertão das várias regiões do país “um mesmo” em suas características, atribuindo-lhe três descrições de paisagens, nas quais figuram o “paraíso”, o “inferno” e o “purgatório”. O autor afirma que nos romances,
“por mais diversificadas que sejam estas três formas de tratamento, a realidade de base que lhes empresta a legitimidade de transfigurações-simbolizações do referente é uma só, e importa defini-la desde já: há um só sertão, concretizado em muitos sertões. Porque o sertão, tal como outras referências geográficas, tem, nos escritos de criação literária, uma amplitude que não se compadece com os dados da geografia nem com os da antropologia cultural. É diferente e outro, tanto na quantidade como na qualidade, porque projeta o próprio homem através da simbolização estética.”49
Não é de forma diferente que compreendemos a construção de sertão neste trabalho. Um espaço de sentidos múltiplos, que como todo espaço é composto por dualidades, por formas ambíguas, “um lugar incomum”50, mas
que por causa de sua formação dentro dos interesses políticos, econômicos e culturais é lido de maneira universalizante, congelado em formas discursivas que denotam como elementos de composição deste espaço fatores já expostos neste texto: a seca, e com ela a pobreza; o sofrimento e a “animalização”; o cangaço e o messianismo que, em certa medida, são vistos como causadores da brutalização e do fanatismo; o poder local que sustenta a fartura de uns em detrimento da miséria de outros; e, por fim, a união disso tudo que desemboca na falta de civilização.
A não-civilização é atribuída principalmente à condição de distanciamento da qual sofre o lugar sertão. Ivone Cordeiro Barbosa aponta para essa discussão quando lembra que o uso da palavra sertão teve seus primeiros registros em Portugal, servindo para designar terras distantes de
48 CRISTÓVÃO, Fernando. “A transfiguração da realidade sertaneja e a sua passagem a mito
(A Divina Comédia do Sertão)”. Revista USP – Dossiê Canudos – São Paulo: Edusp, Nº 20. 1993/1994, pp. 43-53.
49 CRISTÓVÃO, Fernando. Op. Cit., p. 45.
50 BARBOSA, Ivone Cordeiro. Sertão: um lugar-incomum: o sertão do Ceará na literatura do
século XIX, Rio de Janeiro: Relume Dumará; Fortaleza, CE: Secretaria de Cultura e Desporto do Estado, 2000.
Lisboa. Com o processo de expansão marítima do Império Português, esse sentido alarga-se, passando a se chamar sertão também as terras conquistadas pelos portugueses em outros continentes. Já existindo para Portugal desde o século XII, no Brasil o significado de sertão se amplia, ”vão
agregando-se-lhe o sentido de espaços vastos, desconhecidos, vazios ou pouco habitados, inacessíveis”.51
O mote do distanciamento serve tanto para a localização espacial, quanto temporal dos conflitos apresentados nas obras. Nos filmes sobre os quais detemos nossa análise, percebemos a presença dos elementos citados acima como características primeiras do sertanejo e do sertão. É intrigante que um século depois de Os Sertões, encontremos lugares parecidos transcritos nos filmes de Rosemberg Cariry. Um sertão visto através do cinema, dentro de uma obra que traz filmes de vários gêneros para ampliar a produção de textos sobre o vasto universo sertanejo, onde seu realizador afirma que o mais relevante foi quando compreendeu “que a arte é um saber, um mergulho mais
profundo no espírito do homem e do mundo; um saber mais abrangente e tão necessário quanto o saber científico”52.