O movimento filosófico-religioso que ora se está a estudar em contraposição ao
“gnosticismo”, por sua vez, foi cunhado em terras francesas, na centúria de 1700, para
designar, precipuamente, os sistemas gnósticos cristãos dos séculos II e III da nossa era.
Entretanto, a utilização de dois termos para qualificar, basicamente, o mesmo
objeto, teve o condão de causar confusões e problemas no âmbito da pesquisa
respectiva, de sorte que, modernamente, se buscou estabelecer, da forma mais nítida
possível, a diferença entre as duas denominações.
Em 1966, reuniram-se, vários estudiosos do tema, na cidade italiana de Messina,
no que ficou conhecido como o “Congresso de Messina, acerca das origens do
Gnosticismo”. Após o cotejo das diversas teses lá apresentadas, por diversos
especialistas, entendeu-se que, pelo termo “gnosis” dever-se-ia entender “um
conhecimento de segredos divinos, o qual é reservado a uma elite”, tendo, pois, um viés
esotérico, ao passo que o vocábulo “gnosticismo” poderia ser utilizado para se referir
aos sistemas gnósticos dos séculos II e III da era cristã. Segundo esta perspectiva, a
expressão “gnose”, mais ampla, englobaria o termo “gnosticismo”, mais restrito e
localizado; assim, o “gnosticismo” seria, apenas, uma forma particular da “gnose”.
Para Kurt Rudolf (1987, p. 57), entretanto, tal distinção não se afigura
suficientemente esclarecedora e significativa, já que ambas as denominações vêm
caminhando juntas no correr das pesquisas atinentes ao tema. Por esta razão, o grande
especialista alemão, prefere filiar-se à tradição germânica, que não distingue um termo
do outro. Neste diapasão, o vocábulo “gnose” seria a autodesignação de uma religião de
salvação da antiguidade tardia, enquanto que o “gnosticismo”, uma forma mais recente
daquela. “Gnose”, de todo modo, permanece como uma categoria histórica, utilizada
com vistas à compreensão de uma particular visão de mundo da antiguidade tardia.
Embora tenha havido diversos sistemas gnósticos, alguns elementos específicos
variadas tradições. Foi com base nestes elementos comuns que, no aludido Congresso
de Messina, logrou-se estabelecer o mito central do gnosticismo, qual seja, a crença na
existência, no ser humano, de uma centelha, que provém do âmbito do divino e que,
neste mundo, se encontra submetida ao destino, ao nascimento e à morte. Esta chispa
divina deve ser despertada pela contraparte divina do “eu” humano para ser, finalmente,
reintegrada ao local de onde procede. Esta idéia, segundo Rudolf (1987, p.57), baseia-
se, sob o prisma ontológico, na concepção de uma “descida” do divino rumo às esferas
abaixo, sendo que a periferia do Pleroma (a reunião dos diversos éons, ou emanações do
Primeiro Princípio), periferia, esta, denominada, geralmente, Sophia ou Ennoia, viu-se
vitimada por uma crise, o que a fez criar este mundo, que será o palco da descoberta e
da recondução, ao Alto, da divina centelha, o pneuma ou espírito.
Segundo Antonio Piñero, José Montserrat Torrents e Francisco García Bazán
(2000, p. 33-34), a precisão terminológica é importante quando se busca penetrar no
pensamento gnóstico. Assim, para eles, a gnose é, no âmbito técnico da história das
religiões, um movimento religioso sincrético, que tem suas primeiras manifestações no
século I da nossa era e que floresce, com esplendor, no século II, sobretudo naquelas
versões que se relacionam com o cristianismo e o judaísmo. Esclarecem, ainda, tais
estudiosos, que o vocábulo “gnosis” é de origem grega, sendo tributário do verbo
gignósko, “conhecer”, significando, pois, “conhecimento”. Malgrado no grego clássico e, em menor medida, na koiné, no grego vulgar, os vocábulos gnôsis e epistéme tenham
significado semelhante, no âmbito filosófico epistéme passou a designar o
conhecimento científico, oposto à simples opinião; o termo gnôsis, por sua vez, recebeu
o sentido de conhecimento enquanto oposição à ignorância, âgnoia. Já no cenário da
história das religiões, gnosis denota o conhecimento de algo divino que transcende toda
verdade absoluta; em síntese, a gnose seria o conhecimento perfeito, em contraposição
ao conhecimento ordinário. Da mesma raiz grega advém o termo gnóstikos, isto é,
aquele que conhece, o iniciado, e também o vocábulo gnostikói, utilizado para distinguir
os indivíduos portadores da gnose. Já o termo “gnosticismo” é moderno, tendo sido
cunhado, no século XVIII, para designar, de um modo especial, os sistemas gnósticos
cristãos que floresceram durante os séculos II e III da nossa era. Segundo os citados
autores, tal vocábulo pode ser equívoco, no âmbito das línguas européias, já que
passível de ser confundido com o termo “gnose”, que como já se pontuou, designa um
conjunto de idéias ou concepções religiosas que mantiveram, entre si, certa coerência, e
que aparecem como elementos constitutivos de certas religiões específicas do mundo
antigo, qualificadas de “gnósticas” ou “gnosticizantes”, conforme o grau de assimilação,
das mesmas, a tal conjunto de idéias. Do ponto de vista sociológico, a gnose
representaria um grupo minoritário, distinto do conjunto da sociedade à qual pertencia,
pelo fato de possuir um conhecimento superior, sobre conteúdos de matiz religioso. Em
suma, a gnose seria um conhecimento religioso reservado a uma elite, já que advindo de
uma revelação específica outorgada, pela divindade, ao chefe do grupo, ou através de
um sistema exclusivo de interpretação de certos livros tidos, previamente, como
sagrados, ou, ainda, como uma mescla dos dois casos. Neste contexto, a salvação estaria
reservada para poucos, os pneumatikói, ou homens espirituais, aos quais fora dado ter
acesso ao verdadeiro conhecimento; por sua vez, os psíquicos, isto é, aqueles ligados ao
mundo da psyché (elemento superior à matéria, mas não divino) e os hílicos ou ligados à
terra (da palavra hylé que, em grego, designa a matéria) estariam à margem da redenção.
Hans Jonas (1963, p. 32) aduz que o nome “gnosticismo” foi cunhado para
designar uma multiplicidade de doutrinas sectárias surgidas no interior do Cristianismo
“gnosis”, que, em língua helênica, quer dizer conhecimento. A ênfase em tal
conhecimento como requisito para o alcance da salvação individual e, por conseguinte,
na necessidade de se vir a possuir referido conhecimento, é um traço comum a todos os
grupos gnósticos. É neste sentido que é possível falar-se em grupos, escolas, seita,
mitos, escritos, ensinamentos gnósticos e, por conseguinte, em religião gnóstica, em
geral.
Por sua vez, Henri-Charles Puech (1982, p. 214) não faz distinção entre os dois
termos, asseverando, todavia que, em grego, o termo “gnosis” reclama sempre um
genitivo, que explicite qual o objeto da “gnosis”, ou do conhecimento. Este objeto, nos
textos gnósticos, ora é Deus, ora um dos poderes de Deus, às vezes o verdadeiro nome
de Deus, ou, também, os mistérios de Deus. A gnose é, portanto, o conhecimento de
algo, vale dizer, de Deus ou de alguma propriedade divina, conhecimento tal que, uma
vez dado ao adepto, é imediato e absoluto, transcendente com relação à simples fé
(pistis). Além disso, não é qualquer conhecimento, mas o conhecimento verdadeiro e
profundo, adquirido por uma visão, pela revelação, pela graça e pelo kharisma,
apreendido por um ato místico e confiado a um hiéroslogos, um conhecedor do sagrado.
A gnose, portanto, se vincula a uma thea, uma visão ou contemplação, por si mesma
apoteótica, divinizante; complementarmente, é a um só tempo, consciência de nossa
natureza superior e, por conseguinte de nosso destino, além de ciência de salvação e
visão de Deus.
Nada obstante, de acordo com as conclusões a que chegaram os estudiosos, no
referido Colóquio de Messina, de 1966, o termo “gnose” deveria ser utilizado,
exclusivamente, quando para referir ao núcleo doutrinário do movimento gnóstico, ao
passo que o vocábulo “gnosticismo” estaria reservado para os sistemas gnósticos ou às
nossa era, que tivessem, como base, tal núcleo doutrinário. Por esta esteira, inobstante a
divergência temporal, a ponderação de König e Waldenfels (1998, p. 249):
Para evitar confusão de conceitos, revela-se confiável a regulamentação lingüística de Messina, baseada no método histórico e tipológico (1966): Gnôsis...assinala um conhecimento de mistérios divinos reservado a uma elite; gnosticismo...designa um grupo de sistemas do séc. II/III d.C. Gnóstico deveria permitir que se reconhecesse a relação com um dos substantivos ou então deveria ser substituído por termos precisos.