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23. Özkaynaklar 1 Ödenmiş Sermaye

O final do século XX traz-nos de volta, após um período de retração, um novo interesse pelas histórias de vida e pela autobiografia. No bojo de um movimento de rupturas e mudanças no campo das ciências humanas, mais especificamente no campo da sociologia, na Alemanha, como alternativa à sociologia positivista, sendo aplicada pela primeira vez de forma sistemática pelos sociólogos americanos da Escola de Chicago, nos anos vinte e trinta do século passado. O método biográfico desencadeou importantes polêmicas epistemológicas e metodológicas, defendendo uma renovação metodológica face à crise generalizada dos instrumentos heurísticos da sociologia, e a necessidade de um novo conhecimento sobre o homem social (FERRAROTI, 1979). Contra a objetividade e a intencionalidade nomotética, o método biográfico surgiu mais ou menos como alternativo, porém, hoje, constitui um método consolidado em várias áreas do conhecimento, ciências humanas e sociais, e principalmente no domínio das ciências da educação, assumindo o status de instrumento de investigação e formação.

Gaston Pineau (2006) apresenta um panorama do movimento internacional das histórias de vida e formação, no período de 1980 a 2005, identificando três períodos: o de eclosão no mundo francófano (os anos de 1980), o de fundação (os anos de 1990) e, finalmente, o período de desenvolvimento diferenciador (os anos de 2000).

Essa dinâmica de pesquisa não ordinária impulsionou esse período das histórias de vida em formação, como práticas multiformes de ensaio de construção de sentido por meio de fatos temporais vividos pessoalmente. Práticas existenciais de pesquisa- ação-formação, nas fronteiras das organizações, disciplinas científicas, divisões sociais e técnicas do trabalho. Elas tentam articular o que está dividido, juntar e dar sentido a elementos e eventos interníveis de trajetos erráticos e caóticos (PINEAU, 2006, p. 334).

Pineau (2006) sublinha que este movimento de histórias de vida em formação é muito mais que uma simples técnica pedagógica nova, mas uma corrente de pesquisa-ação- formação existencial em que estão implícitas questões de fundo axiológicas, epistemológicas e éticas. É um movimento socioeducativo, uma arte formadora da existência, cuja biopolítica é a da reapropriação, pelos sujeitos sociais, da legitimidade de seu poder de refletir sobre a construção de sua vida. A força deste movimento manifesta-se na diversidade de correntes e contracorrentes e na diferenciação de modelos, os quais são considerados três principais: o modelo biográfico, “o qual prolonga a relação de lugar disciplinar, separando nitidamente o profissional do sujeito, de acordo com uma epistemologia do distanciamento do sujeito, para construir um saber objetivo”; o modelo autobiográfico que, ao contrário, elimina o profissional e o interlocutor tornando a expressão e a construção do sentido obra exclusiva do sujeito; e o modelo interativo ou dialógico, o qual trabalha uma nova relação de lugar entre profissionais e sujeitos por uma co-construção de sentido (PINEAU, 2006, p. 34).

Formenti (1998) realizou um trabalho de reconhecimento e mapeamento dos modelos biográficos como instrumentos de formação segundo uma subdivisão geográfica, os quais se desenvolvendo segundo peculiaridades locais refletem um mapa cultural em âmbito europeu. A área francófona (França, Canadá, Suiça e Bélgica) é apontada como ponto de origem das histórias de vida em educação, tendo Gaston Pineau como seu principal promotor. Desenvolvendo-se no campo da educação de adultos, tem no conceito de formação um termo chave de conotação ampla, global e subjetiva: “a formação é um processo permanente,

existencial, autopoiético”. À formação é atribuída uma função negentróprica4, um poder libertário e emancipador, principalmente com relação aos determinismos socioculturais que caracterizam as primeiras fases da vida, e vem realizado na apropriação do seu poder de formar a si mesmo. Refere-se também a um modelo de auto-eco-formação como uma “via que o adulto tem para transformar profundamente as suas relações com três mundos: o si mesmo (auto), os outros (hetero) e as coisas (eco). Este seria um processo de reapropriação que teria como consequência, além da autonomia, uma descoberta, fortalecimento, reestruturação ecológica de base, favorecendo a passagem de uma relação de uso a uma relação pessoal e íntima que atribui aos atos e eventos valores simbólicos e significativos invisíveis ao interno de uma “unidade existencial interativa” (PINEAU, apud FORMENTI, 1998). Assim, em Pineau, a autobiografia é definida como prática, para além de uma narração factual e objetiva dos conteúdos de uma vida, mas uma prática transformativa, uma via para a mudança radicada no sujeito e por este, gerida, percorrida e projetada, uma verdadeira arte da existência.

Com similar intenção de unir pesquisa e formação, o grupo de Genebra, fundado por Pierre Dominicé, Matthias Finger e Christine Josso, idealizou e pôs em prática um modelo de intervenção educativo como dispositivo de “pesquisa-formação” denominado “Percurso Histórias de Vida”, em que adultos de várias procedências e necessidades formativas diversas reelaboram em grupo as suas trajetórias biográficas atravessando algumas fases de trabalho: fase informativa, de trocas e de negociação, narração oral individual, escrita de um texto biográfico e interpretação/apresentação cruzada dos textos. Tomar a palavra é uma ação fundamental neste modelo de Histórias de Vida que implica uma situação social de compartilhamento/escuta, uma espécie de micro-laboratório mirado a uma compreensão existencial e intelectual da trajetória biográfica. O “Percurso Histórias de Vida” se torna assim um lugar de compreensão das trajetórias de formação dos participantes, de conhecimento da subjetividade e de emergência de um projeto de si auto-orientado, terreno de indagação sobre a sabedoria de vida, e um caminho para si mesmo.

A experiência de vida é considerada a fonte mais preciosa da formação autobiográfica, um modo imediato para cultivar a capacidade de aprender da experiência, de si mesmo, no percurso de vida entre o passado, presente e o futuro, da própria história. O

4 Conceito antagônico à entropia utilizado no campo da física e no enfoque Sistêmico Ecológico Cibernético. Negentropia ou entropia negativa significa o movimento da energia no sentido de mais informação, mais organi- zação, mais vida, mais saúde, mais progresso, mais complexificação, de um determinado sistema.

“movimento biográfico”, através de práticas reflexivas, narrativas, interiores, integra o conjunto das abordagens das histórias de vida, e insere-se na emergência de um novo paradigma não causal, não determinista, não linear, que reabilita o sujeito e o ator na contemporaneidade (JOSSO, 2004). Este movimento contribui para a transformação do conceito de educação quando introduz a subjetividade no discurso pedagógico e

coloca o sujeito aprendente como protagonista ao qual são finalmente reconhecidas uma série de dimensões intrigantes e problemáticas: como o sujeito da educação é capaz de automotivar-se e aprender, de atribuir autonomamente significados às propostas dos educadores, de assumir e interpretar o próprio papel, de agir segundo um projeto (com níveis diversos de consciência) etc. (FORMENTI, 1998, p. 34).

Na Alemanha, o movimento biográfico tem Peter Alheit como um dos principais estudiosos no campo da formação de adultos. Apoiado nos conceitos de estrutura e subjetividade indica a necessidade de a formação de adultos superar uma certa visão terapêutica que, focada em carências e reparações, se consideram organizadora de eventos terapêuticos, de apoio, emancipadores ou de fortalecimento do eu, para uma visão apoiada no conceito de processos de aprendizagens transacionais. Esta abordagem busca uma transformação com consciência na auto-referência do sujeito e de sua visão de mundo, abarcando uma transformação da estrutura da própria vida (hábitos, tradições, rotinas, modelos interpretativos, linguagem corporal). A descoberta do potencial de vida não vivida, um saber qualitativamente diverso construído dentro do processo de autobiografização abre o caminho para o reconhecimento e liberação de competências latentes no adulto, a superação de crises e reconhecimento de si como protagonista e organizador da própria vida, sujeito ativo da própria biografia.

Ainda na Alemanha e em Brema, Wilhelm Mader desenvolveu um interessante modelo de “autobiografia guiada” inspirada nos trabalhos do americano Birren (FORMENTI, 1998). Inspirada na fenomenologia, vê a prática da autobiografia como uma tarefa vital de cada adulto, um modo de encontrar e construir histórias nas quais se podem redescobrir-se, um processo de construção da identidade que prossegue por toda a vida. O seu método denominado “Autobiografia temática guiada” é um trabalho estruturado e intencional que coloca em relevo dois elementos: a auto-reflexão e o tema central. A escrita de uma autobiografia educativa é um trabalho em grupos, o qual é organizado em ciclos seguindo um procedimento fixo que é vinculado a temas que são sugeridos e assumem o papel de dirigir o processo de leitura-escrita-discussão-reflexão. Os temas propostos funcionam como

organizadores biográficos, temas geradores de nossas vidas, como: pontos de mudança, os encontros formativos, a gestão do tempo, a relação com o corpo, o aprender, o dinheiro, a alimentação, os valores, o trabalho e outros. Para Mader (apud FORMENTI, 1998), “trabalhar com temas é como abrir uma janela de cada vez na autobiografia: quanto mais janelas são abertas, mais se compreende a vida, mesmo que não seja possível abarcar a totalidade da existência” (p. 65).

Hermenêutica e narrativa são duas características centrais do modelo biográfico na Inglaterra: a vida é como um texto, e, como tal, a autobiografia torna-se o método mais legítimo de interpretação de uma vida. Duas tradições britânicas contribuem para esta abordagem biográfica: a história oral e as filosofias da linguagem e da interpretação, tão desenvolvidas naquele país. A visão dramática da fragmentação do ser em formação é um motivo recorrente nas pesquisas que objetivam reconstruir o modo que o adulto dá sentido e significado à própria existência através do seu modo de ser em formação. No campo metodológico é dada grande atenção ao objetivo primário de obter um reconto biográfico o mais autêntico possível, que possua características de qualidade, profundidade, significado subjetivo. Também é dado um grande valor à reflexão, isto é, à possibilidade que o sujeito estabelece conexões entre o passado e o presente, entre as declarações ligadas a estereótipos e outros significados possíveis, mas latentes.

Na Suécia se constituiu um modelo autobiográfico num contexto cultural educativo e político que sob a influência de Paulo Freire e Negt a educação de adultos assumiu uma concepção de educação popular voltada para a transformação social e a emancipação dos trabalhadores e do proletariado. O método autobiográfico se liga à tomada de consciência de pertencer a uma classe social marginalizada, mas detentora de uma cultura. O objetivo é alcançar a emancipação através da reconstrução da própria história, o qual é visto como um processo coletivo, além de individual e subjetivo (FORMENTI, 1998).

Em território italiano destaca-se como movimento biográfico mais articulado aquele elaborado por Duccio Demetrio e colaboradores. De inspiração biossistêmica, “compartilha de uma visão eco-sistêmica do mundo e do ser humano, colhe e reelabora ao seu interno a lição da complexidade, dos construtivismos, do paradigma sistêmico-relacional, conjugados à fenomenologia, enquanto filosofia” (FORMENTI, 1998, p. 76-77). Este modelo biográfico, de fato, integra a micropedagogia de Demetrio, que se interessa pelo mundo da formação, da educação e da pesquisa na educação de adultos, e que se coloca como desafio mais importante a incorporação de um espírito de pesquisa na cotidianidade da educação e conjuntamente vivificar o âmbito da teorização acadêmica graças ao confronto com a vida,

com a experiência, com as vivências individuais assim como são narradas. No plano educativo, a auto-educação está no centro da formação à idade adulta que se baseia no aprender a refletir antes de tudo sobre si mesmo, a promover os próprios talentos, a adquirir o mais cedo possível uma independência intelectual e criativa. Autobiografia é um verdadeiro espaço para o ser, para a cura de si mesmo, uma forma de liberação e de reencontro do si mesmo essencial.

Espaço para si enquanto institui uma cisão, um vazio institucional, um silêncio distante dos ritmos despersonalizantes da vida hetero-direta, criando possibilidades de novo crescimento, de mudança, ou ao menos de um contato com partes de nós. Cura di si porque este silêncio reencontrado, unido à reminiscência, à imaginação, à escrita intimista que muitas vezes é a via escolhida pelo adulto para recontar-se, representam formidáveis instrumentos autoterapêuticos, modo para ocupar-se do próprio crescimento, “de sentir que já se viveu e se está vivendo ainda,” de buscar um bemestar que é ligado à capacidade de reconciliar-se com tudo que se foi, ante de tornar-se “o que somos” (FORMENTI, 1998, p. 78).

A metodologia autobiográfica da escola milanesa está aberta a todos as vias de pesquisa e formação que permitem multiplicar os olhares, os estilos, as operações cognitivas, em uma mistura de estilos e instrumentos, sem, no entanto, cair nas leis da extemporaneidade e da livre associação, evitando o desabafo gratuito, a apologia, a prática da consolação. De fato, esta abertura epistemológica e metodológica deu asas a um projeto autobiográfico fundado por Duccio Demetrio e Saverio Tutino, em 1998, La Líbera Università dell’Autobiografia (Livre Universidade da Autobiografia – LUA) em Anghiari, província de Arezzo, uma comunidade de pesquisa, de formação, de difusão da cultura da memória em vários âmbitos, única do gênero, que se encarrega de formar e difundir a paixão pela escrita em si e pela cultura da memória, e acolher adultos de várias proveniências que conduzem juntos um pesquisa pessoal sobre o valor extrinsecamente formativo e terapêutico do narrar-se (DEMETRIO, 1995). A arte da escrita de si reúne centenas de pessoas que movidas pela necessidade de rememorar e contar de si tem contribuído para a expansão e difusão da autobiografia nas escolas, nos serviços sociais e educativos, nos territórios, nas atividades de acompanhamento personalizado, de cura, de aprendizagem. São constituídos grupos de trabalho que se dedicam a diversas atividades de promoção e difusão da escrita pessoal. A escrita autobiográfica vai assim sendo reafirmada como um meio insubstituível para a valorização de si mesmo, para o desenvolvimento das capacidades cognitivas e das diversas formas de pensamento, para a criação de uma sensibilidade voltada para a leitura de testemunhos dos outros e à escuta para depois escrever a própria história. As diversas práticas

nos vários âmbitos formativos da Libera Università (a escola, os seminários de base ou avançados) colocam ênfase principalmente na dimensão autopedagógica, autoanalítica e introspectiva que a escrita de memórias, de diários, de biografias induz a quem faz experiência independente da idade. Anghiari, uma pequena e belíssima cidade medieval na Toscana, tornou-se um laboratório, um lugar de encontro para todos aqueles que desejam experimentar as transformações provocadas pela capacidade de leitura e escrita autobiográfica. É trocando as próprias histórias de vida que crianças, jovens, adultos e anciãos descobrem novos modos de pensar, sentir e ver o mundo.

Em âmbito brasileiro, as histórias de vida e os estudos autobiográficos como metodologias de investigação e de formação no campo educativo ganharam impulso a partir dos anos noventa, atingindo recentemente uma abrangência e diversidade de estudos, principalmente no campo da formação docente. Bueno et all (2006) analisando a produção brasileira de 1985 a 2003, identificou uma grande dispersão, tanto temática quanto metodológica, decorrente, dentre outros fatores, da multiplicidade de referenciais teóricos utilizados nas pesquisas (p.388). As maiores influências vêm da Europa, principalmente de autores portugueses, franceses, suíços e italianos, tendo sido Antonio Nóvoa um dos primeiros a ganharem repercussão no Brasil. O modelo fracófano liderado por Gaston Pineau também exerce alguma influência, ganhando maior repercussão nos últimos anos. Por ocasião do III Congresso Internacional sobre Pesquisa (Auto)Biográfica no Brasil, Delory-Momberger (2008) refere-se à “extrema vitalidade e florescimento de questionamentos e de pesquisas teóricas e práticas que caracterizam a pesquisa (auto)biográfica no Brasil e na Europa” (p. 9). Também em território brasileiro temas já pesquisados, como o das memórias, o da escrita autobiográfica e o das práticas formativas, são investigados sob um olhar renovado, outros trabalhos criam novas margens de investigação. É o caso dos estudos sobre o corpo, a saúde, o cuidado de si, a experiência de imigração ou apresentação de procedimentos clínicos, práticas de intervenção e renovação metodológica. Entre essas tendências inovadoras destacam-se “os estudos que consideram outras dimensões do biográfico, abrindo-o para além da pessoa, como a dimensão do espaço e do território, das temporalidades históricas, dos modelos intergeracionais e da escrita de si no mundo da infância e da adolescência” (DELORY- MOMBERGER, 2008, p. 9).

No Brasil, a realização do I, II e III Congresso Internacional de Pesquisa (Auto)Biográfica (CIPA), em 2004, 2006 e 2008, respectivamente, deram o impulso necessário para a expansão, a diversificação e a legitimação do (auto)biográfico como método de investigação, prática de formação e intervenção social. A tendência de consolidação como

um campo inter(trans)disciplinar adequado para a abordagem de fenômenos biológicos, psicológicos, sociais e culturais se afirma também em nossas plagas, estimulando os debates epistemológicos, teóricos e metodológicos em torno do (auto)biográfico. Segundo Passeggi e Souza (2008), a realização do I CIPA, em 2004, em Porto Alegre, com o tema A Aventura (Auto)biográfica: teoria e empiria aproximou os grupos de pesquisa, criou um importante espaço para debate sobre a pesquisa e deu visibilidade a uma área em plena expansão nas pós- graduações brasileiras. Foi a sua repercussão nacional e internacional que permitiu a realização de encontros bianuais em forma de cooperação científica entre universidades brasileiras. O II CIPA, em Salvador, em 2006, elegeu o tema Tempos, narrativas e ficções: a invenção de si, o qual ampliou os horizontes da reflexão sobre o biográfico e favoreceu aproximações da Educação com a Literatura, as Artes e outros campos disciplinares. Em 2008, novamente em Natal, o III CIPA afirma-se como um importante evento científico em nível nacional, inter-regional e internacional, atestado pelas dezesseis universidades que co- realizaram o evento, o apoio de cinco associações científicas e principalmente pelo grande interesse demonstrado entre os pesquisadores que se inscreveram e compareceram ao evento. A escolha do tema (Auto)Biografia: formação, territórios e saberes contempla e aprofundas as discussões iniciadas nos eventos anteriores, e põe em evidências as relações dialéticas que se estabelecem entre a formação e os territórios onde esta se realiza e os saberes que se produzem nessa interação (PASSEGGI & SOUZA, 2008).

Desde as primeiras experiências de autobiografias educativas este campo se diversificou e foi enriquecido, configurando-se hoje não como um método único, ou como uma disciplina de referência, nem um tipo de material específico sobre o qual trabalhar. São múltiplos os objetivos, as perspectivas, modos e referências teórico-epistemológicas. Apresenta-se como “uma abordagem complexa e de fronteira, localizada na zona de confim entre o ser e o outro, passado, presente e futuro, facticidade e ficção, que permite a superação de uma visão da mente dividida em compartimentos, para conjugar diversos tipos de interpretação e de registros (FORMENTI, 2002, p.64).

2.3 (Auto)Biografia é (Auto)Formação

Os vínculos entre histórias de vida, autobiografia e educação estão presentes desde a emergência do movimento biográfico, sendo o título Biographie et Éducation, de Pierre Dominicé, um dos pioneiros deste movimento socioeducativo. A biografia tornou-se um componente e um horizonte da formação e da educação. Aprender da experiência e a

partir de si mesmo é a concepção de base sobre a qual se assenta o surgimento e a posterior expansão, diversificação e multiplicação dos diversos caminhos biográficos e de história de vida. O recurso mais precioso para educar o sujeito, independente da sua idade é a experiência. A abordagem biográfica nestes poucos anos de vida adquiriu um sentido de redescoberta e reinvenção do projeto de aprendizagem e crescimento pessoal, tornando-se uma espécie de terceira via voltada para a construção de modos diversos de aprender e conhecer através da memória, de práticas narrativas e reflexivas.

A potencialidade formadora não se origina de uma narrativa simples, natural ou espontânea, é necessário ir além, indagar sobre o que produziu em nossas vidas, identificar vínculos, dar um sentido, encontrar significados, descobrir conexões com os saberes. É necessário que a reflexão ilumine os fatos para que a narrativa transforme a consciência e torne-se formação (JOSSO, 1988).

Formenti (1998) define como autobiográfico:

Todos os métodos voltados a colher a subjetividade, a unicidade, a vitalidade do adulto e das suas trajetórias de aprendizagem e expressão de si, de atribuição de senso às próprias práticas. Método que pode exprimir-se através da narração espontânea ou estimulada, continuada ou ocasional, feita para si ou para os outros, de micro-eventos significativos e bem focados, ou do curso inteiro da própria vida, composta não só de fatos ou episódios, mas de sensações, reflexões, avaliações,

Benzer Belgeler