O saber relativo ao conceito de Letramento é divulgado em apenas 2 dos 31 blogs investigados, o que lhe atribui menos destaque no rol de saberes que compõem o discurso da alfabetização disponibilizado nos blogs sobre alfabetização investigados. O blog Diário da
Profa Glauce divulga 2 posts com o mesmo título – “O que é letramento”lxxxvi –, sendo que um traz um poema (Imagem 13) e o outro disponibiliza um texto sobre o letramento. O segundo traz ainda dois comentários de blogueiras visitantes – Obrigada por compartilhar
seu conhecimento. Me ajudou muito!; Estava precisando apresentar um trabalho oral sobre letramento e esta sua apresentação foi muito esclarecedora pra mim. Obrigada!– e uma resposta dada pela professora-blogueira que efetuou a postagem: fico feliz
em saber que o texto foi útil. Obrigada!
O QUE É LETRAMENTO?
LETRAMENTO NÃO É UM GANCHO EM QUE PENDURA CADA SOM ENUNCIADO,
NÃO É TREINAMENTO REPETITIVO DE UMA HABILIDADE,
NEM UM MARTELO
QUEBRANDO BLOCOS DE GRAMÁTICA. LETRAMENTO É DIVERSÃO É LEITURA À LUZ DA VELA OU LÁ FORA, À LUZ DO SOL. SÃO NOTÍCIAS SOBRE O PRESIDENTE
E MESMO MÔNICA E CEBOLINHA NOS JORNAIS DE DOMINGO. É UMA RECEITADE BISCOITO,
UMA LISTA DE COMPRAS, RECADOS COLADOS NA GELADEIRA,
UM BILHETE DE AMOR,
TELEGRAMAS DE PARABÉNS E CARTAS DE VELHOS AMIGOS.
É VIAJAR PARA PAÍSES DESCONHECIDOS SEM DEIXAR SUA CAMA,
É RIR E CHORAR
COM PERSONAGENS, HERÓIS E GRANDES AMIGOS. É UM ATLAS DO MUNDO,
SINAIS DE TRÂNSITO, CAÇAS AO TESOURO, MANUAIS, INSTRUÇÕES, GUIAS, E ORIENTAÇÕES EM BULAS DE REMÉDIOS,
PARA QUE VOCÊ NÃO FIQUE PERDIDO. LETRAMENTO É, SOBRETUDO, UM MAPA DO CORAÇÃO DO HOMEM,
UM MAPA DE QUEM VOCÊ É, E DE TUDO QUE VOCÊ PODE SER.
CHONG, Kate M. O que é letramento. In: Sores, Magda Letramento: um tema em três gêneros. Belo Horizonte: Autêntica, 2002. (p.410)
Imagem 13: Poema disponibilizado em um dos blogs investigados
O poema divulga uma ideia de letramento ligada à diversão, às diferentes formas de leitura, aos diferentes suportes, a uma viagem para países desconhecidos, a um atlas do mundo, a uma caça ao tesouro, a um mapa de si mesmo e de tudo o que podemos ser. Já o outro texto divulga tanto a definição de letramento desenvolvida por uma teórica da alfabetização – “Segundo Magda Soares, o desenvolvimento de habilidades de uso da
tecnologia da escrita, isto é, da apropriação do sistema alfabético e ortográfico, acontece por meio da inserção em práticas sociais que envolvem a leitura e escrita: letramento” – como também um uso mais prático desenvolvido pelas professoras-alfabetizadoras-blogueiras – “Letramento é: usar a leitura e a escrita para seguir instruções (receitas, bula de remédio,
manuais de jogo), apoiar à memória (lista), comunicar-se (recado, bilhete, telegrama), divertir e emocionar-se (conto, fábula, lenda), informar (notícia), orientar-se no mundo (o Atlas) e nas ruas (os sinais de trânsito)...”. Essa última definição de letramento proposta pelo
blog parece se aproximar daquilo que denominamos de Gêneros Textuais, que será abordado mais adiante.
Já o link “Letramento e Alfabetização”lxxxvii, divulgado no blog Saberes e Fazeres na
Educação, disponibiliza, no post “Letrar é mais que alfabetizar”lxxxviii, uma entrevista com a professora/teórica Magda Soares. Nessa entrevista, podemos observar a seguinte definição de letramento:
o estado em que vive o indivíduo que não só sabe ler e escrever, mas exerce as práticas sociais de leitura e escrita que circulam na sociedade em que vive: sabe ler e lê jornais, revistas, livros; sabe ler e interpretar tabelas, quadros, formulários, sua carteira de trabalho, suas contas de água, luz, telefone; sabe escrever e escreve cartas, bilhetes, telegramas sem dificuldade, sabe preencher um formulário, sabe redigir um ofício, um requerimento.
Nessa mesma entrevista, a professora Magda Soares expõe sua visão sobre a alfabetização e o letramento, expondo o princípio de que se deve alfabetizar letrando, ou seja, realizando as duas ações – de alfabetizar e de letrar – conjuntamente:
Alfabetização e letramento se somam. Ou melhor, a alfabetização é um componente do letramento. Considero que é um risco o que se vinha fazendo, ou se vem fazendo, repetindo-se que alfabetização não é apenas ensinar a ler e a escrever, desmerecendo assim, de certa forma, a importância de ensinar a ler e a escrever. É verdade que esta é uma maneira de reconhecer que não basta saber ler e escrever, mas, ao mesmo tempo, pode levar também a perder-se a especificidade do processo de aprender a ler e a escrever, entendido como aquisição do sistema de codificação de fonemas e decodificação de grafemas, apropriação do sistema alfabético e ortográfico da língua, aquisição que é necessária, mais que isso, é imprescindível para a entrada no mundo da escrita. Um processo complexo, difícil de ensinar e difícil de aprender, por isso é importante que seja considerado em sua especificidade. Mas isso não quer dizer que os dois processos, alfabetização e letramento, sejam processos distintos; na verdade, não se distinguem, deve-se alfabetizar letrando.
Ao mesmo tempo, a professora Magda Soares faz, durante a entrevista, uma distinção entre o que é alfabetizar e o que é letrar:
Se alfabetizar significa orientar a criança para o domínio da tecnologia da escrita, letrar significa levá-la ao exercício das práticas sociais de leitura e de escrita. Uma criança alfabetizada é uma criança que sabe ler e escrever; uma criança letrada (tomando este adjetivo no campo semântico de letramento e de letrar, e não com o sentido que tem tradicionalmente na língua, este dicionarizado) é uma criança que tem o hábito, as habilidades e até mesmo o prazer de leitura e de escrita de diferentes gêneros de textos, em diferentes suportes ou portadores, em diferentes contextos e circunstâncias.
Resguardando as especificidades de cada um desses processos, vale destacar que “uma pessoa alfabetizada conhece o código alfabético, domina as relações grafofônicas, em outras palavras, sabe que sons as letras representam, é capaz de ler palavras e textos simples mas não necessariamente é usuário da leitura e da escrita na vida social" (CARVALHO, 2010, p. 66), tendo pouca familiaridade com a escrita dos jornais, livros, revistas, documentos e outros tipos de texto. Já uma pessoa letrada “é alguém que se apropriou suficientemente da escrita e
da leitura ao ponto de usá-las com desenvoltura, com propriedade, para dar conta de suas atribuições sociais e profissionais” (CARVALHO, 2010, p. 66). Soares (2012, p. 47) apresenta, ainda, as duas ações – de alfabetizar e letrar – como “distintas, mas não inseparáveis”. Para a autora, o ideal seria “alfabetizar letrando, ou seja: ensinar a ler e a escrever no contexto das práticas sociais da leitura e da escrita, de modo que o indivíduo se tornasse, ao mesmo tempo, alfabetizado e letrado” (SOARES, 2012, p. 47). Do mesmo modo, Morais (2012) defende que é preciso “alfabetizar letrando, isto é, praticando a leitura e produção de textos reais” (MORAIS, 2012, p. 16).
Um dado interessante é que o post citado não recebeu nenhum comentário das blogueiras-visitantes. Uma hipótese é a de que esse é ainda um tema de pouco domínio por parte das professoras-alfabetizadoras. Uma outra hipótese é a de que tudo o que foi dito, tanto pela professora no poema quanto pela especialista no assunto durante a entrevista, parece incontestável. A primeira hipótese talvez se explique pelo fato de que a noção de letramento surgiu na segunda metade dos anos 1980, mas foi somente há cerca de 10 anos que esse termo apareceu no discurso dos/as especialistas (SOARES, 2012)71. A palavra letramento surgiu no Brasil como uma tradução do termo inglês Literacy, assumindo o significado de “o estado ou condição que assume aquele que aprende a ler e escrever” (SOARES, 2012, p. 17). Seu surgimento se deu, segundo Soares (2012), “porque apareceu um fato novo para o qual precisávamos de um nome, um fenômeno que não existia antes, ou, se existia, não nos dávamos conta dele” (SOARES, 2012, p. 34-35). Assim, o letramento é entendido como um processo no qual o indivíduo não apenas sabe ler e escrever, mas “usa socialmente a leitura e a escrita, pratica a leitura e a escrita, responde adequadamente às demandas sociais de leitura e escrita” (SOARES, 2012, p. 40). A segunda hipótese pode ser entendida pelo lugar assumido pelos especialistas ou experts no discurso da alfabetização. Conforme aponta Rose (1999, p. 42), a expertise age por meio da “persuasão inerente às suas verdades”. É ela que nos incita a seguir “o conselho dos experts”. É ela que nos faz tornar válidos os conhecimentos oferecidos por eles e desvalidar outros.
Magda Soares costuma afirmar, ainda, que “talvez a palavra letramento não fosse necessária se se pudesse atribuir, como pretendem alguns, um sentido ampliado à palavra
alfabetização” (SOARES, 2014, p. 180). Esse talvez seja o motivo para o pouco investimento
dos blogs em desenvolver essa temática. Afinal, “na tradição da língua, no senso comum, no uso corrente, e mesmo nos dicionários, alfabetização é compreendida como, restritamente, a
71 Uma das primeiras ocorrências está no livro de Mary Kato, intitulado “No mundo da escrita: uma perspectiva
aprendizagem do sistema alfabético-ortográfico e das convenções para seu uso: a aprendizagem do ler e do escrever” (SOARES, 2014, p. 180). Em contrapartida, a ampliação desse significado seria “infrutífera, pela dificuldade, ou mesmo impossibilidade, do ponto de vista linguístico, de intervir artificialmente em um significado já consolidado na língua” (SOARES, 2014, p. 180). Isso justifica o “surgimento de um termo” que nomeie “esta outra faceta da aprendizagem da língua escrita – o letramento: o desenvolvimento das habilidades que possibilitam ler e escrever de forma adequada e eficiente, nas diversas situações pessoais, sociais e escolares” (SOARES, 2014, p. 180-181). O termo letramento, ao ser utilizado pelas professoras-alfabetizadoras-blogueiras, passa a fazer parte da tecnologia da formação docente em funcionamento nos blogs investigados. A seguir, trato do saber dos Gêneros Textuais, também importante no discurso da alfabetização.