• Sonuç bulunamadı

4. BULGULAR

4.2. Kırıkkale Üniversitesi Tıp Fakültesi Verilerinin Değerlendirilmesi

4.2.3. Özkıyıma etki eden faktörler

Como eu te disse, eu voltei pro crime depois de uma recaída. Eu trabalhava na Funap e houve um roubo de passes de ônibus dentro do escritório. Eu era o único egresso ali, então os olhos todos se voltaram pra mim. Só o J.A. [gerente regional da Funap] acreditou e mim e a gente sabia quem tinha feito aquilo. Mas a desconfiança e a acusação geral caíam em cima de mim. Nessa época eu

193 Considero o termo segundo a concepção bachelardiana, em que homem e mundo, intimidade e externalidade, são realidades familiares. O homem não é uma realidade em si, ele é uma realidade no mundo. Daí a ideia do pertencimento, como realidade fenomenológica.

179 frequentava a casa de um amigo e a gente sempre tomava uma taça de vinho. Só que eu fui aumentando a quantidade, uma, duas, três garrafas cada vez que ia lá. E eu ia percebendo que ficava faltando alguma coisa: era aquele ardido na garganta que a gente sente quando dá uns tiros [usa cocaína]. Aí eu voltei pra boca (Anderson, Entrevista, outubro de 2012).

Outra categoria comumente apontada como referencial para o processo de “reintegração social” de egressos prisionais é a família. No plano normativo, surgem ainda a religião, as políticas públicas (qualificação profissional, educação, saúde), a assistência jurídica e psicológica, as medidas assistenciais (Madeira, 2008; Espinosa, 2003).

Organizadas enquanto programas de atendimento a egressos prisionais, essas categorias, se eficientemente providas ao público a que se destinam, e distribuídas em sistemas de redes de atendimento, “se apresentam como a única alternativa de garantir sobrevivência para essas populações [os egressos prisionais] em vulnerabilidade” (Madeira, 2008: 332). No plano empírico, porém, mais que questionar a “eficiência” dos programas, como o fazem Madeira e Espinosa, cumpre compreender como cada uma daquelas categorias, assim como o “trabalho”, também está longe de possuir qualquer neutralidade axiológica que justifique a compreensão naturalista194 da oposição “reintegração” X “reincidência”.

Anderson expressa, no depoimento acima descrito, as ambivalências de cada uma destas categorias. Quando volta para o crime, Anderson está inserido em toda a rede de atendimento que se postula como necessária à “reintegração social” dos egressos prisionais: trabalho, estudos, assistências psicológica e social, igreja. Se a recaída nas drogas o reaproxima da boca, é lá que a família, o trabalho e o potencial de uso de seus conhecimentos se ressignificam:

Sabe Felipe, o crime é sujo, mas não admite falhas. Eu já estava frequentando a

quebrada, já tinha sido identificado, era o Big Boy de novo que tava ali, tinha de andar com a família, tinha de mostrar que eu não tava contra o crime. Um dia a gente chegou num bar e deu de cara com um coisa. Aí começou o debate: “porra, tem um coisa ali, o que a gente faz com ele?”. Os caras queriam me testar, porque eu tinha me afastado pra ser da igreja, pra ser professor. Agora eu tava com eles de

194 O uso do termo é proposital. Até o momento, venho abordando o binômio enquanto categoria normativa. Porém, tal normatividade se reforça quando passamos a desconstruir as bases sobre as quais ele se assenta, no caso, uma visão naturalista dos conflitos de condições materiais, que justificaria olhar distintamente os “bons” e os “maus”, “trabalhadores” e bandidos”.

180 novo, mas sempre tem aquela desconfiança pra saber se você tá junto mesmo. Então a gente recebeu o sumário, os caras ligaram nas torre e passaram a fita: “aê, mata o vacilão”. Então o vacilão podia ser tanto o coisa que tinha invadido a área, como eu, que tava sendo observado. Eu me pronunciei na hora: me dá as

ferramentas. Entrei no bar e dei três tiros no cara (Anderson, Entrevista outubro de 2012)195.

A situação é, no entendimento de Anderson, limiar: “ladrão vive de pontos”, ele completa, concluindo depois o significado que aquele crime passa a ocupar na sua trajetória:

A partir dali os caras viram que eu tava junto mesmo, que se fosse pra eu ficar no

crime, era com a família que eu corria. Então eu pude traçar outro caminho. Eu caí fora da Funap pra mostrar que não tinha nada a ver com o roubo dos passes e saí da faculdade, porque eu não tava conseguindo estudar mesmo. Aí eu fui embora, fui me internar numa clínica de tratamento. Só que pra isso eu sabia que não podia

pedir benção. Os caras viam que eu tinha voltado, como é que eu ia querer sair de novo? Eu me joguei.

Então você fugiu do PCC?

É, mais ou menos. Eu sabia que iam me achar, então eu não podia dizer que tava fugindo. Por isso eu fui pra clínica. Quando um primo me achou, eu falei: “porra, eu corri porque eu tava precisando me tratar. Olha só onde eu tô, você acha que eu escolhi isso aqui?”. Só aí que eu liguei pro meu padrinho, eu pedi um sumário, falei pros caras que não tava fora, que eu precisava me tratar, que quando eles precisaram de mim eu não vacilei, minha caminhada tava em dia, nunca tive puxão

de orelha. Eu fiquei na clínica por um ano e durante seis meses, pelo menos, os caras ficaram sumariando. Aí eu arrumei um trabalho num comércio, de ajudante. Um irmão apareceu lá um dia, “aê Big Boy, fica de boa que a gente tá entendendo teu lado. Ninguém tá dando aval procê afastar não, mas a rapaziada entendeu teu caminho”. Desde então ficou assim: eu não tomei gancho, não afastei e, melhor, não fui decretado [expulso]. Eu só to na minha, seguindo minha vida. É isso que segura!

Como assim, é isso que segura?

195 “Big Boy” é nome fictício, em referência ao nome pelo qual Anderson é identificado no PCC. Na fala de meu interlocutor, “família” e “crime” referem-se ao PCC, ao passo que “ferramentas” significa “armas”. Os demais termos nativos já foram identificados anteriormente.

181 Você tem que ter sua responsa reconhecida, não tenho micha nenhuma, nenhum

puxão de orelha, nada. Meu padrinho não deu aval da minha saída, porque senão prejudica a caminhada dele. Mas ninguém tem nada contra mim. Então eu seguro minha onda, o que segura é isso: os pontos que você tem (Anderson, Entrevista, outubro de 2012).

O relato de Anderson remeteu-me, novamente e em sentido oposto, a Diego, que afirmara: “que cacete de preso de artigo que nada” (Diego, Entrevista, julho de 2012). São os pontos mencionados por Anderson, ou seja, a identificação que lhes atribuem aqueles que, com eles, compartilham as vivências no mundo do crime. Por um lado, é o “dispositivo do crime” regulando a vida dos egressos prisionais; por outro, são esses egressos construindo seus trajetos num equilíbrio sutil entre diversas lógicas aparentemente contrárias, mas que, ao se cruzarem, os permitem vivenciar as diversas esferas do mundo social, seja o trabalho, seja a família, a educação, etc.

É este equilíbrio, estabelecido na convergência entre o crime e o modelo contratual da sociedade contemporânea, que marca a forma de pertencimento dos indivíduos que, por motivos variados, tiveram suas vidas ligadas ao aprisionamento nas prisões paulistas. Em termos normativos, Anderson e Diego são “reincidentes”. A “reincidência” de Anderson o permitiu viver em liberdade civil, com a vigilância do crime, mas podendo inserir-se no mundo do trabalho, na escola, na família. Para Diego, a “reincidência” significou sua “reintegração” no mundo do crime, espaço de sociabilidade onde ele conquista seu reconhecimento e sua inserção nas esferas de participação social.

E se Mário não “reincidiu”, ela tampouco esteve “integrado” no crime, de modo que, ao ganhar a liberdade, necessitasse se “reintegrar à sociedade”:

Fala Felipe, aqui ta bombando, passando umas dificuldades, mas vai melhorar. Ttrabalhando muito e muita conta rsss aqui to numa gandaia só, trabalhar pra

cacete e não comer ninguém é querer demais rsss fechando agora mais uma parceria com o shopping da cidade pra eu dar aulas para os funcionários

meu nome ja ta muito falado na cidade rsss só falta ter grana KKKK (Mário, mensagem eletrônica, 03 de abril de 2012).

Mário saiu da cadeia, e continuou tocando sua vida, o que demonstra como as relações internas à prisão implicam em feixes específicos na vida pós-soltura.

182

CAPÍTULO V