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O primeiro capítulo da presente investigação é dedicado aos diversos quadros teóricos em que se sustenta a construção do modelo de análise a propor e que servirá de base à compreensão do processo de construção da identidade política internacional da União Europeia. Neste sentido, serão analisados os quadros analíticos que visam a compreensão da construção de ‘identidades coletivas’ na esfera internacional, designadamente através da definição de um corpo teórico sustentado na construção de comunidades políticas, cuja abordagem dominante tem sido a da aplicação às comunidades de base nacional. Tratam-se de pressupostos teóricos sustentados na Teoria da Identidade Social e na construção de identidades políticas, com particular destaque para aqueles que já incluem uma aplicação ao caso da União Europeia.

Tal como previamente referido, a presente investigação parte da premissa que existe uma identidade internacional da União Europeia. Esta decorre de um processo de construção contínuo, paralelo e complementar ao processo de integração europeia. Como tal, partilha o argumento de Wendt (1994), segundo o qual a União Europeia representa um exemplo de formação de ‘identidade coletiva’ em Relações Internacionais, já que se considera que os Estados-Membros começam a encarar-se não como ‘o Outro’ mas como parte de um mesmo grupo. Um grupo que inclui cidadãos e instituições, com a tarefa de sintetizar e promover um conjunto de princípios e valores comuns à comunidade política que sustenta a União Europeia. Dito de outra forma, um grupo que aspira à construção de uma identidade política europeia comum.

A questão da definição de uma identidade política europeia pode ser analisada sob uma perspetiva interna, ou seja, no que concerne à União Europeia enquanto comunidade política, bem como sob uma perspetiva externa, através da análise da expressão identitária da UE no contexto do sistema internacional. É esta segunda abordagem que se pretende explorar na presente tese.

Neste sentido, afigura-se fundamental começar por definir o que se entende por identidade política, considerando que esta não depende apenas da existência estruturas comuns (dimensão institucional), mas também de conteúdos partilhados (dimensão normativa).

Da identidade social à identidade política

O conceito de identidade tem sido amplamente analisado nas diversas disciplinas das Ciências Sociais24. Assumindo uma abordagem construtivista, o processo de construção identitária é intuitivo, sendo que os limites e conteúdos das identidades não são pré-atribuídos mas refletem as perceções, prioridades e aspirações daqueles que detêm o poder de as construir e categorizar (Penrose e Mole, 2008). Significa isto que as identidades são construções, primariamente forjadas pelas elites para alcançar objetivos sociopolíticos e económicos (Mole, 2007 : 5) por elas definidos. Este argumento, embora defendendo que as identidades são construídas pelas elites visando objetivos específicos e instrumentais, não explica porque é que estas são aceites e valorizadas pelos membros da comunidade mais alargada25. Assim, é importante considerar o contributo de Hobsbawn (1995 : 10), segundo o qual o processo de identificação deve também ser analisado a partir ‘de baixo’ – da comunidade ou grupo – em termos de pressupostos, expetativas, necessidades e interesses, que não são necessariamente partilhados por todos.

A abordagem construtivista interessa-se pelo processo de construção de identidades e promoção de interesses comuns, razão pela qual se opta por esta perspetiva teórica na presente investigação. Considera-se que as identidades não devem ser encaradas como algo fixo, mas sim como dinâmicas e constantemente negociadas no seio do grupo/comunidade que as partilham. Desta forma, o que pode ser considerado um aspeto fundamental de uma dada identidade, em determinada década, pode já não o ser na década seguinte.

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Ao analisar o conceito de identidade, uma das primeiras questões que se coloca é a capacidade material de a podermos observar. Brubaker (2004: 28–63), por exemplo, salienta que a identidade, enquanto conceito abrangente, não pode ser considerada como algo que alguém possua ou possa ‘ser’, pelo que não se constitui como real, tornando-se um conceito demasiado ambíguo e indiferenciado (Brubaker e Cooper 2000), o que impediria uma adequada categorização e valorização dos seus efeitos no comportamento dos indivíduos. No limite não teria utilidade enquanto instrumento analítico (Malesevic 2002, 2003). Contudo, tal como defendem outros autores (Cf. Ashton et al. 2004; Jenkins, 2008), abandonar o conceito de identidade enquanto ferramenta de análise social e do comportamento humano não se afigura como a solução mais adequada. Embora se possa considerar que a identidade não tem efeitos determinísticos no comportamento dos indivíduos, ela constituiu-se enquanto capacidade humana (Jenkins, 2008 : 5) com potencial de influenciar comportamentos individuais e grupais.

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Hansen (2002 : 5) salienta que o facto de o eleitorado poder ter visões significativamente distintas das elites políticas e financeiras, no quadro de um regime democrático, pode condicionar a prossecução das estratégias definidas pelas elites. Neste caso, a elite política procurará afirmar a sua interpretação do que é o interesse próprio, por forma a que este seja aceite pelo eleitorado.

Assim, e procurando responder à problematização previamente elaborada, esta secção da investigação procurará analisar os quadros teóricos que visam a compreensão da construção de ‘identidades coletivas’, designadamente através da definição de um corpo concetual baseado na construção de comunidades políticas, cuja abordagem dominante tem sido a da aplicação às comunidades nacionais.

Da identidade social

A identidade social é aqui entendida como um sentimento de pertença a um grupo26. Este sentimento parte de uma concetualização própria do indivíduo, que decorre de um conhecimento particular sobre a sua filiação a um determinado grupo (ou grupos) social, em conjunto com o valor e significado que atribuí a essa filiação (Tajfel, 1978 : 63). Assim, à medida que o indivíduo se torna parte do grupo, também este se torna parte do indivíduo. Esta identificação pode ser feita de forma mais ou menos anónima através, entre outras demonstrações, de discursos e narrativas públicas (Brubaker e Cooper, 2000 : 16). Isto porque se considera que o discurso “constitui e organiza as relações sociais em torno de uma estrutura particular de significados” (Doty, 1996 : 239), o que garante que certos significados assumem uma posição dominante face a outros e passem a condicionar a formulação de uma interpretação comum.

Numa perspetiva sociológica, e entre as inúmeras obras que versam sobre a importância da identidade no mundo social, destacam-se, entre outras, a de Jenkins (2008) que debate, de forma abrangente, o conceito de identidade na atualidade. A concetualização de Jenkins (2008) sobre ‘identidade social’ assume a importância do sentimento de pertença dos indivíduos a um determinado grupo, enquanto fator estruturante da sua inserção social. Isto acontece através de uma categorização própria, sustentada na identificação de características comuns e partilhadas – dimensão interna –, mas também pela comparação com o que lhe é diferente, através da confrontação de atitudes, convicções, valores, normas ou discursos (Hogg e Abrams, 1988) – dimensão externa. Numa perspetiva individual trata-se da diferenciação entre o ‘eu’ e o ‘outro’, numa perspetiva coletiva na distinção entre o ‘nós’ e ‘eles’. O conceito de identidade pretende, assim, incluir quem somos e como somos percecionados pelos outros, bem

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O conceito de ‘grupo’ é aqui entendido enquanto uma colectividade humana que reconhece a sua existência e filiação dos seus membros, o que, porém, não implica a existência de uma homogeneidade ou limites pré-definidos. (Jenkins, 2008 : 9)

como a forma como ‘nós’ – indivíduos ou grupos – nos posicionamos, e posicionamos os outros, no mundo social. Trata-se, assim, de um processo, que não deve ser entendido de forma singular, mas plural, e enquanto questão permanentemente aberta e dinâmica Jenkins (2008 : 5)

Em estudos sobre a raça, etnicidade e nacionalismo, por exemplo, a identidade27 é utilizada para referir as semelhanças, objetivas ou subjetivas, dentro de uma mesma comunidade, esperando-se que se manifeste através de mecanismos de solidariedade, consciência ou disposições comuns, ou em ações coletivas. Já na ciência política e no estudo dos movimentos sociais, a identidade é utilizada para sublinhar a forma como uma determinada ação, individual ou coletiva, pode ser determinada por interpretações próprias àqueles que partilham uma mesma identidade, mais do que por “putativos interesses universais” (Brubaker, 2004 : 33-34). Jenkins (2008 : 7-8) salienta, aliás, que a identificação dos indivíduos com um mesmo grupo não é, facilmente, dissociável dos seus interesses. Isto porque a identificação surge como uma consequência do reconhecimento de características comuns e implica, de forma recíproca, a especificação e a procura de interesses individuais e coletivos partilhados.

Nas diversas abordagens à identidade social, a dimensão grupal assume, assim, uma importância fundamental. Tal como defende Jenkins (2008 : 5), as identidades de grupo são muitas vezes tratadas como uma das mais poderosas formas de identificação, no que diz respeito à capacidade para mobilizar os indivíduos, já que se sustentam em mecanismos de socialização, pressão pelos pares e perceção de interesses partilhados. O autor considera, invocando um dos princípios do construtivismo social, que os grupos se tornam reais se os indivíduos assumirem que assim é, ou seja, ao fazê-lo constroem a realidade.

É, porém, importante salientar a distinção entre o sentimento de pertença a um determinado grupo e a interiorização do significado da filiação a esse grupo. Ou seja, a diferença entre os indivíduos fazerem parte de um grupo porque partilham um conjunto de características – visíveis, em particular, aos que lhe são externos – e terem a consciência das semelhanças que os unem e definirem-se com essa base. Esta consciencialização só é possível quando existe uma interpretação partilhada dos

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Na psicologia, a identidade é entendida como um aspecto central, individual ou colectivo, de uma consciência própria ou uma condição essencial do ser social que é invocada para apontar algo alegadamente profundo, enquadrador ou fundacional. (Brubaker, 2004 : 34)

significados – relativos aos princípios, valores e normas organizadoras do grupo –, muitas vezes limitada pela existência, dentro do mesmo grupo, de diferentes subgrupos ou subculturas, de carácter local, regional ou nacional. Estas diferentes interpretações da pertença têm, naturalmente, impacto na formulação da identidade (Huddy, 2001 : 141).

Sustentado numa elaboração assente na Teoria da Identidade Social, e por forma a aferir a pertença a um determinado grupo, Huddy (2001) identifica quatro fatores fundamentais. Em primeiro lugar, a valorização que cada membro atribuí à pertença ao grupo. Desde logo, porque se assume que cada indivíduo não pertence, de forma exclusiva, a um só grupo, mas sim a vários e de forma cumulativa, pelo que possui várias identidades, estruturadas através de organização hierárquica tendo em conta a importância do grupo para o indivíduo (Stets e Burke 2000 : 231). O grau de identificação depende, assim, do contexto em que esta é estimulada e desenvolvida, podendo assumir intensidades variáveis em diferentes momentos (Wendt 1987, 1994). Um segundo fator consiste na definição das características comuns, isto é, a identificação de um padrão a partir do qual se encontram semelhanças entre os membros do grupo e com base nas quais se promove uma identidade partilhada. Estas características são, tendencialmente, entendidas como positivas pelos membros do grupo, razão pela qual se destacam e assumem superioridade face aos que são externos (Cf. Tajfel, 1981). Acresce a identificação com os princípios e valores básicos matriciais que sustentam o grupo, que partem de uma dimensão individual para a esfera coletiva. Nesta dimensão, assume particular importância não só a identificação dos princípios valores, mas também a interpretação que os membros do grupo dão ao seu significado. É o grau de partilha desta interpretação que sustenta uma identidade verdadeiramente comum. Finalmente, o nível de pertença a um determinado grupo é também influenciado pelas características daqueles que lhe são externos e ajudam a definir o grupo não é. Dito de outra forma, a diferenciação face ao exterior (ao ‘outro’). Barth (1981) defende que a noção do ‘outro’ assume uma importância fundamental na formulação da identidade, já que contribui para a definir das fronteiras do grupo, em interação com aqueles que são externos. De acordo com o autor, uma consequência notória desta dinâmica é que a identidade do grupo se torna mais difusa se não existir uma definição clara do que é externo, que aprofunde o sentimento de pertença e identifique aqueles que estão dentro e fora do grupo. Neste sentido, também as diferentes interpretações daqueles que são externos ao grupo, os ‘outros’, contribuem

para a compreensão da identidade partilhada. O que significa que a análise de uma determinada identidade deve incluir a dimensão interna – perceção dos membros – e dimensão externa – perceção dos ‘outros’ (Huddy, 2001 : 143).

No quadro da concetualização sobre ‘identidade social’ considera-se que existem quatro contributos relevantes no quadro da presente investigação sobre a identidade política internacional da União Europeia.

Em primeiro lugar, e considerando a complexidade do mundo social, cada indivíduo não dispõe apenas de uma, mas de várias identidades que se apresentam de forma cumulativa e organizadas hierarquicamente, tendo em conta i) o contexto em que se promovem e são desenvolvidas e ii) a valorização e sentimento de pertença que os membros do grupo demonstram. Esta estruturação das identidades tende a variar no tempo – dadas as variações de contexto e da valorização/sentimento de pertença – ao que acresce o carácter dinâmico da construção da(s) identidade(s). Isto significa que a construção das múltiplas identidades é um processo permanentemente aberto, constante e dinâmico. Aplicado ao contexto da identidade internacional da UE, o seu processo de construção estará, assim, dependente da evolução do contexto internacional e do papel dos diferentes atores que o compõem, em diferentes momentos do tempo. Para além disso, pode considerar-se que a valorização/sentimento de pertença dos membros do grupo – neste caso, a União Europeia – é também condicionada pela filiação a outros grupos sociais, designadamente de carácter geográfico (local, regional e nacional), político e cultural. Neste sentido, argumenta-se que a construção da identidade internacional da União resulta da conjugação da pertença aos diferentes grupos referidos, de uma forma complementar e não exclusiva, e cuja valorização da pertença depende do grau de identificação com as características e valores partilhados pelos seus membros (indivíduos, comunidades subnacionais e Estados).

Em segundo lugar, a concetualização da identidade social salienta a importância da identificação dos membros do grupo face às características e valores partilhados. Esta constitui, aliás, a base de definição das fronteiras do grupo face àqueles que lhe são externos, assente, tendencialmente, numa valorização positiva face ao ‘outro’. Para esta definição contribui, ainda, a especificação e procura de interesses individuais e coletivos partilhados, que passam a fazer parte dos elementos constitutivos da identidade do grupo. No que concerne à compreensão da identidade internacional da União Europeia, a definição de características e valores próprios – em particular na dimensão normativa

– e a sua valorização positiva pelos membros do grupo reputa-se de especialmente relevante face à comparação com outros atores internacionais. Acresce que a UE determina o cumprimento de critérios28 específicos como condição para a filiação ao grupo, podendo, contudo, variar a interpretação dos mesmos pelos seus membros.

Em terceiro lugar, a Teoria da Identidade Social destaca a importância da interpretação dos significados pelos membros do grupo. Isto significa que, por um lado, se admite a possibilidade dos diferentes membros do grupos terem interpretações distintas dos mesmos significados e, por outro, que essa mesma interpretação determina a importância que uns assumem em relação aos outros. Para esta interpretação muito contribui a formulação de discursos e narrativas por parte dos membros do grupo, bem como as perceções internas – dos membros – e externas – dos ‘outros’ – face ao seu conteúdo. No que diz respeito à aplicação face à identidade internacional da União, considera-se fundamental a existência de diferentes interpretações e perceções por parte dos membros do grupo – indivíduos, comunidades subnacionais e Estados –, designadamente como resultado de diferentes experiências históricas, bem como estruturas sociais e políticas diferenciadas. Por maioria de razão, o mesmo se aplica àqueles que são externos ao grupo.

Finalmente, um último contributo da concetualização sobre a identidade social para a compreensão do objeto de estudo da presente investigação consiste na afirmação do ‘grupo’ enquanto instrumento mais eficaz face à capacidade de motivação dos indivíduos para a construção de uma identidade partilhada. Esta capacidade assenta na existência de mecanismos de socialização, pressão pelos pares e perceção de interesses partilhados, mais facilmente promovidos através de dinâmicas e experiências grupais.

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O Tratado da União Europeia define, no seu art. 2º, que a União “funda-se nos valores do respeito pela dignidade humana, da liberdade, da democracia, da igualdade, do Estado de direito e do respeito pelos direitos do Homem, incluindo os direitos das pessoas pertencentes a minorias. Estes valores são comuns aos Estados-Membros, numa sociedade caraterizada pelo pluralismo, a não discriminação, a tolerância, a justiça, a solidariedade e a igualdade entre homens e mulheres” (TUE, 2010 : C 83/17); no seu art. 49º determina que “qualquer Estado europeu que respeite os valores referidos no artigo 2º e esteja empenhado em promovê-los pode pedir para se tornar membro da União” (TUE, 2010 : C 83/43);. Acresce que para que um Estado se torne membro da União Europeia deverá cumprir os critérios aprovados no Conselho Europeu de Copenhaga (realizado em 1993) e reforçados no Conselho Europeu de Madrid (em 1995): critério político (existência de instituições estáveis que garantam a democracia, o Estado de direito, os direitos do Homem, o respeito pelas minorias e a sua proteção); critério económico (existência de uma economia de mercado que funcione efetivamente e capacidade de fazer face às forças de mercado e à concorrência da União) e critério do acervo comunitário (capacidade para assumir as obrigações decorrentes da adesão, incluindo a adesão aos objetivos de união política, económica e monetária). (Cf. Portal da União Europeia - Critérios de adesão (critérios de Copenhaga, disponível em http://europa.eu/legislation_summaries/glossary/accession_criteria_copenhague_pt.htm, consultado pela última vez a 14 de Agosto de 2013).

Este argumento é particularmente relevante para a compreensão do processo de integração europeia, na sua dimensão mais abrangente, mas também na construção da identidade internacional da UE. Para além disso, reflete-se não só nas dinâmicas internas à União – na construção de uma política externa comum – mas também na relação com os parceiros do sistema internacional.

Da identidade política

No seguimento de uma primeira abordagem ao conceito de identidade, de base sociológica, considera-se igualmente relevante analisar, embora de forma breve, a aplicação deste conceito à dimensão política. Se na primeira abordagem se assume que a identidade social consiste na existência de um sentimento de pertença a um grupo; da aplicação à esfera política decorre a existência de um sentimento de pertença, individual ou coletivo, a uma comunidade política29. Sendo o objeto de estudo da presente investigação a União Europeia, e assumindo que esta se constitui enquanto uma comunidade política autónoma, embora multinível, esta concetualização pretende contribuir para a compreensão do processo de construção identitária na UE, na esfera internacional, na sua dimensão interna e externa.

No sentido de clarificar o conceito de identidade política recorre-se ao contributo de Mole (2007 : 3), segundo o qual este procura concetualizar “uma ação social e política com referencia à posição social do agente, a uma categoria social específica – como o género, raça ou etnia – ou a uma estrutura social mais geral”. Assim, a identidade política é vista como um produto contingente da ação social e política, constituindo a base para novas ações do agente30. Já Cerutti considera que a identidade política é “primeiro, um conjunto de valores políticos e sociais que reconhecemos como nossos, ou cuja partilha dos quais nos faz sentir como ‘nós’, como um grupo ou entidade política” (2003 : 27). O mesmo autor acrescenta que a identidade política consiste num “processo de autoidentificação” já que se consubstancia na forma como

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Por ‘comunidade política’ entende-se a associação de um conjunto atores, individuais ou coletivos, através da identificação com uma série de princípios ético-políticos e regras de organização próprias das relações civis (respublica), cuja construção é conjunta e orientada para o interesse público. Trata-se, portanto, de uma comunidade sem forma definida e em contínua reconstituição. (Cf. Mouffe, 1991).

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Entende-se por ‘agente’ aquele que detém capacidade para realizar uma ação intencional ou exercer poder. O papel dos ‘agentes’ na vida social contrasta, tradicionalmente, com o papel das ‘estruturas’, sejam instituições ou normas. O debate ‘agente-estrutura’ refere-se à discussão sobre a prioridade fixada entre os ‘agentes’ (indivíduos ou Estados), por oposição às ‘estruturas’ na definição da vida social. (Dunne, Kurki e Smith, 2010 : 342)

“os cidadãos e as elites percecionam valores e princípios partilhados” (Cerutti 2008 : 3). Este processo de autoidentificação é produzido através de uma série de hábitos (Hopf, 2002 : 10-11), experiências de vida diária (Berger e Luckmann, 1966 : 23), bem como normas e papéis que estão profundamente enraizados na sociedade e são definidos