Segundo Ronaldo Porto Macedo Júnior (2011),
Schmitt é certamente um dos mais instigantes e polêmicos pensadores políticos do século XX. [...] sem adentrar na polêmica sobre o caráter geral do pensamento jurídico de Schmitt, se foi ele um pensador original ou apenas um brilhante sistematizador, certo é que seu pensamento exerceu grande influência na Alemanha do século XX. (MACEDO JÚNIOR, 2011, p.09).
Carl Schmitt nasceu na cidade de Plettenberg, em 11 de julho de 1888, e faleceu em 7 de abril de 1985 no mesmo local. Seus pais, cuja influência religiosa marcou toda a sua obra intelectual, eram católicos fervorosos.
Em 1900 ingressou no Gymnasium, em Attendorn; em 1907 foi para a Universidade de Berlim, estudar Direito. Em 1901 transferiu-se para Munique e Estrasburgo, onde conclui sua graduação, em 1910. Durante seu período acadêmico em Estrasburgo, foi fortemente influenciado pela crítica ao positivismo, principalmente o kelseniano.
Macedo Júnior (2011, p.22) explica que “na primeira fase de seu pensamento, Carl Schmitt compartilhava o sentimento de exaltação do Estado.” [...] “a ideia de finalidade moral
do Estado nada tinha em comum com o individualismo liberal. Para Carl Schmitt, o Estado, ao estabelecer o direito, não poderia admitir oposição e nenhum indivíduo poderia dentro dele ter autonomia.” O autor situa Schmitt no contexto alemão da época:
Durante os anos 1917 e 1920, a Revolução Bolchevique de 1917 e os levantes comunistas alemães marcaram o debate político ideológico e revigoraram os receios de setores da burguesia quanto à possibilidade de ruptura da ordem civil em razão da Revolução. Os efeitos do Tratado de Versalhes e a perda territorial alemã para a França (inclusive de Estrasburgo, onde Schmitt estudara) marcaram de maneira profunda toda a geração alemã dos anos 1920, sendo posteriormente explorados pela propaganda nazista. O advento de Weimar e a mudança do regime autoritário para o parlamentarismo marcarão igualmente o universo das preocupações intelectuais de Schmitt. (MACEDO JÚNIOR, 2011, p.22).
Em 1919 são publicadas a Constituição de Weimar e a obra de Carl Schmitt, Romantismo Político (Politische Romantik). Para Macedo Júnior (2011, p.23), uma “obra que marca o seu distanciamento do romantismo político em direção a um realismo de matriz conservadora.”
A instabilidade política pós-Weimar, com a crescente divisão de forças no Parlamento, alemão, a incapacidade do Estado alemão em apontar soluções para a grave crise econômica e social vivida pela Alemanha e o estado de exceção vivido, influenciarão diretamente Carl Schmitt.
Durante 1919-1920, Carl Schmitt frequentou diversos seminários e em 1928 assumiu uma cadeira na Universidade de Bonn.
Em 1932 publicou Legalidade e legitimidade, alertando para os perigos da destruição através de mecanismos legais da própria Constituição de Weimar (estado de exceção), visto que o Estado de Direito para Carl Schmitt é o estado da legalidade:
A coerência e a harmonia problemáticas entre Direito e lei são a questão existencial do Estado legiferante parlamentar. Como direitos fundamentais podem ser suspensos devido ao estado de exceção, também se suspendem simultaneamente, por determinado período de tempo, a primazia da lei e, consequentemente, o Estado legiferante ou o próprio núcleo da Constituição: a liberdade e a propriedade. Ressalta-se, todavia, que não se deve introduzir um novo legislador extraordinário na organização de um Estado legiferante. Na verdade, com a prioridade e a primazia da lei, o Estado legiferante parlamentar conhece apenas um legislador, isto é, o seu legislador, o Parlamento, não suportando nenhum poder legislativo extraordinário e concorrente. Segundo esse sistema, as “medidas” da instância autorizada para atos extraordinários não são ilícitas, mas também possuem força de lei. Tal predicado elas não precisam nem podem ter, pois a revogação dos direitos fundamentais já se encontra prevista, deixando assim de existir as restrições ao Estado de Direito que teriam exigido uma lei para a consecução da revogação. (SCHMITT, 1932, p.78).
E, naquele mesmo ano, com a crise da República de Weimar, Schmitt defendeu a ditadura comissária, na qual o Presidente do Reich, utilizando-se do artigo 48 da Constituição de Weimar, deveria suspender a Constituição, a fim de normalizar a situação da República
para, na sequência, restabelecer a própria Constituição. (AMORIM MACHADO, 2013, p.14- 17).
Sobre o tema, Giorgio Agamben observa (2012):
A história do artigo 48 da Constituição de Weimar é tão estreitamente entrelaçada com a história da Alemanha entre as duas guerras, que não é possível compreender a ascensão de Hitler ao poder sem uma análise preliminar dos usos e abusos desse artigo no anos que vão de 1919 a 1933. Seu precedente imediato era o artigo 68 da Constituição bismarkiana, o qual, caso “a segurança pública estivesse ameaçada no território do Reich, atribuía ao imperador a faculdade de declarar uma parte do território em estado de guerra (Kriegszustand) e remetia, para a definição de suas modalidades, à lei prussiana sobre estado de sítio, de 4 de junho de 1851. Na situação de desordem e de rebeliões que se seguiu ao fim da guerra, os deputados da Assembleia Nacional que deveriam votar a nova Constituição, assistidos por juristas, entre os quais se destacava o nome de Hugo Preuss, introduziram no texto um artigo que conferia ao presidente do Reich poderes excepcionais extremamente amplos. De fato, o texto do artigo 48 estabelecia:
“Se, no Reich alemão, a segurança e ordem pública estiverem seriamente (erheblich) conturbadas ou ameaçadas, o presidente do Reich pode tomar as medidas necessárias para o restabelecimento da segurança e da ordem pública, eventualmente com a ajuda das forças armadas. Para esse fim, ele pode suspender total ou parcialmente os direitos fundamentais (Grundrechte) estabelecidos nos artigos 114, 115, 117, 118, 123, 124 e 153”.
O artigo acrescentava que uma lei definiria, nos aspectos particulares, as modalidades do exercício desse poder presidencial. Dado que essa lei nunca foi votada, os poderes excepcionais do presidente permaneceram de tal forma indeterminados que não só a expressão “ditadura presidencial” foi usada correntemente na doutrina em referência ao artigo 48, como também Schmitt pôde escrever, em 1925 (Schmitt, 1995, p.25), que “nenhuma Constituição do mundo havia, com a de Weimar, legalizado tão facilmente um golpe de Estado”. (AGAMBEN, 2012, p.28-33).
O autor conclui (2012):
o estado de exceção em que a Alemanha se encontrou sob a presidência de Hindenburg foi justificado por Schmitt no plano constitucional a partir da ideia de que o presidente agia como guardião da Constituição” (Schmitt, 2007, p.137); mas o fim da República de Weimar mostra, ao contrário e de modo claro, que uma democracia protegida não é uma democracia e que o paradigma da ditadura constitucional funcional, sobretudo como uma fase de transição, leva fatalmente à instauração de um regime totalitário. (AGAMBEN, 2012, p.29).
Para Carl Schmitt, a ditadura instaurando a exceção ignora o direito tão só para realizá-lo. Portanto, a distinção entre norma de direito e norma de realização do direito é fundamental ao seu conceito de ditadura. Entretanto, para a realização da norma de direito, deve-se suspender a norma de realização daquele direito que, aos olhos do ditador, se revele como um obstáculo.
Em novembro de 1933 Schmitt tornou-se membro do grupo dos professores universitários da liga nacional-socialista de juristas alemães. Nesse período, Carl Schmitt eliminou de suas referências Marx e Lukács. Em 1934 publicou o texto O Fuhrer protege o
Direito, defendendo a legalidade dos atos praticados por Hitler. Em 1935 defendeu a legalidade do antissemitismo biológico-racial dos nazistas. (MACEDO JÚNIOR, 2011).