Contrariamente a civilizaomo tradicional, a moderna, proclama o resultado de determinados eventos que se sucedem, considera-se constitutda pela histyria. O homem moderno acredita no universo abrindo caminho para as descobertas, uma nova era que p impulsionada pelo racionalismo, pelo empirismo, pelo pensamento cienttfico que marginaliza o mito por sin{nimo de superstio}es e ilus}es. O mundo sy poderia ser compreendido atravps dos mecanismos bisicos da razmo.
No cenirio das sociedades modernas, o desenvolvimento tecnolygico e cienttfico desponta como garantia do avanoo e do progresso. Os mitos tiveram sua importkncia significativamente reduzida, uma vez que a cultura moderna colocou seu interesse na religimo e na cirncia. Surge a modernidade como propulsora de um conjunto de transformao}es, acarretando ao mesmo tempo, uma sprie de conseqrncias dramiticas com riscos que imprimiram essa nova ordem social, diferenciando -se em muitos aspectos da tradiomo. Diante do que vimos, qualquer discussmo em torno da modernidade implica primeiramente em sua compreensmo, Na concepomo de Giddens, refere-se ³a uma dada organizaomo social, que se consubstancia em estilo, cost ume de vida, associada a um pertodo de tempo que imprimiu uma ordem nova´ (1991, p. 13).
As mudanoas se verificam em virios planos: polttico, econ{mico, social e cultural. Em linhas gerais, observamos no plano polttico, a distinomo entre p~blico e privado, a medida que as instituio}es antigas cediam espaoo as novas, o p~blico e o privado assumem novos sentidos. O p~blico comeoou a significar atividades relativas ao Estado e o privado referia-se js atividades ligadas js empresas, denominando-se os termos: Estado e Sociedade civil para nomini- las. No domtnio econ{mico, os principais traoos radicam no desenvolvimento de novas modalidades de produomo que implicaram em inusitados mptodos e tpcnicas voltadas para o princtpio da eficicia da cirncia.
Constitui - se um a crenoa absoluta no cienttfico, com distinomo de lemas fundamentais como: razmo e esclarecimento, ordem e progresso, evoluomo e racionalizaomo. A modernidade simboliza-se no predomtnio da reflexmo envolvendo a compreensmo e a explicaomo sob o signo da raz mo. Consideramos importantes alguns desses lemas que implicaram na ³luta de classes´ como lei geral da histyria, com a qual Marx desvenda as condio}es e as possibilidades da ³sociedade de classes´, a racionalizaomo do mundo diagnosticada por Weber, em suas pesquisas
sobre o capitalismo moderno, o id-ego -superego revelado por Freud, indicando o que existe de inconsciente em cada indivtduo.
No aspecto cultural ou simbylico, nmo podemos obscurecer o fato do desenvolvimento dos meios de comunicaomo que reordenaram as relao}es de tempo e espaoo, alterando considerave lmente nossas experirncias. Dessa dimensmo, destacamos como principais caractertsticas, a produomo, a transmissmo e a recepomo das formas simbylicas. Nesta fase, a crenoa se distancia das referrncias metaftsicas e transcendentais cada vez mais, para surgir circunscrita a uma vismo modernizada: A fp no progresso e naquilo que p novo.
Na constituiomo das sociedades modernas e na sua complexidade atual p imprescindtvel, na vismo de Giddens, levar em consideraomo ³a globalizaomo e as conseqrncias causadas aos indivtduos e a coletividade´ (2002, p. 45), visto que, esse fen{meno vem contribuir decisivamente para afetar os aspectos mais pessoais da existrncia humana. O autor circunscreve a modernidade considerando tanto as situao}es globais quanto as locais, o que denomina de ³dialptica global e dialptica local´ (GIDDENS , 2002, p.27). Nessa dialptica tanto a economia, como a cultura e as dimens}es sociais assumem papel preponderante.
As mudanoas provocadas acarretam riscos que ameaoam a seguranoa dos homens, contribuindo para a d~vida generalizada que permeia a vida desses indivtduos. Nesse sentido, Giddens considera a modernidade, ³uma cultura de riscos´ (2002, p. 25), compreendida na maneira como os especialistas e os leigos organizam o mundo social. Esses riscos exigem dos indivtduos novas formas de identidade para que possam lidar com as novas perspectivas que lhes apresentam e isso lhes causa perturbao}es e ansiedades, provocando grande ³tensmo no eu como tambpm no conjunto social´ (GIDDENS, 2002, p.26).
Seguindo o pensamento de Giddens, buscamos entender melhor a modernidade atravps das fontes de dinamismo que se inter-relacionam e
que nos mostram claramente a dinkmica que caracteriza essa nova ordem socia l. Vejamos inicialmente a separaomo entre o tempo e o espaoo que com o advento dos meios de comunicaomo sofre modificao}es significativas, alterando substancialmente as relao}es e criando novas formas de aomo e interaomo. O desenvolvimento de uma variedade de instituio}es de comunicaomo facilita e agiliza a produomo, o armazenamento e a veiculaomo das informao}es, transformando, portanto a natureza do interckmbio simbylico do mundo moderno.
Esse fen{meno de comunicaomo criou situao}es interativas mediadas pelos meios, os quais implicam no uso de instrumento tpcnico (papel, fios elptricos, ondas eletromagnpticas), o que significa a transmissmo de informao}es para um p~blico situado remotamente no tempo e no espaoo. A interaomo mediada se diferencia da primeira que se caracterizou pela comunicaomo face a face, assumindo um cariter de diilogo, o que implicava num fluxo de informaomo direto. Nele os participantes compartilham o mesmo referencial de tempo e espaoo.
As novas tpcnicas surgem para mostrar a humanidade o seu grande poder, aparecem com grandes inveno}es, caracterizadas como ³novas tecnologias´, que se prop}em a aumentar quase ao infinito as nossas capacidades de produzir e de reproduzir, de pensar e de se divertir.
Um mundo novo se desenha. A sociedade, com o desenvolvimento tecnolygico aparece como um imenso holograma cheio de simulacros e, portanto, vazio. Essa profusmo geral instala em nossa mente a ilusmo do domtnio do universo, graoas js informao}es. As novas tpcnicas propiciam o desenvolvimento das ind~strias da mtdia, surgem as primeiras miquinas impressoras que impulsionam cada vez mais a produomo de informao}es. As primeiras formas de papel facilitam a produomo de materiais impressos, graoas js tpcnicas de impressmo.
Com o advento da imprensa, distingui - se a formaomo do ³comprcio de nottcias´ (THOMPSON, 2001, p. 63) com o estabelecimento dos servioos postais que em seguida estende-se numa rede integrada de
comunicaomo postal. A partir dat, verifica-se a consolidaomo da ind~stria grifica que possibilitou a expansmo do mercado editorial e a produomo comeoa a crescer assustadoramente. Percebemos, no entanto, a formaomo de uma teia complexa que se interliga com os poderes econ{micos, polttico, cultural que acabam fornecendo as bases institucionais para a produomo industrial de informao}es. Essas transformao}es criaram um cenirio tpcnico mais sofisticado capaz de acelerar o trifego e converter o conte~do simbylico em formas diferentes, dada a maior flexibilidade em suas produo}es e transmiss}es.
Os meios encarregam -se de intermediar as relao}es, transmitindo informao}es. Dessa maneira demonstram a capacidade de se relacionar com o complexo sistema de crenoas e ideologias dos indivtduos, atravps da manipulaomo de mecanismos como a identificaomo, a projeomo e a fantasia.
Canais de comunicaomo mediados por imagens proliferam -se, mudando o perfil da sociedade que assume um ³cariter espetacular´ (DEBORD, 1988, p. 30). Isso ocorre quando o espectador passa a consumir ilus}es tendo-as como ³mercadoria real e o espeticulo como manifestaomo´ (DEBORD, 1988, p. 32). Com isso, os traoos narctsicos dos indivtduos aparecem de forma aguda e se revelam como uma reaomo defensiva, contra um posstvel abandono em relaomo j natureza ameaoadora da vida moderna. A histyria de Narciso diz respeito j atraomo por si pryprio, p a admiraomo por sua aparrncia corporal.
Desencadeia -se nessa fase, o culto ao corpo, significando a expressmo da beleza, no qual o corpo nmo p apenas uma unidade ftsica, mas detpm um poder de aomo vistvel pelo indivtduo e pelos outros. Apresenta -se como instrumento de significados, permitindo a interpretaomo das ao}es. Nesse sentido vimos aparecer nessa ppoca, certos tipos de aparrncias e posturas corporais que contributram na definiomo do comportamento individual e social. O corpo vem constituir - se num dos elementos de estratpgia, compondo a gramitica de
uma estptica que passa a ditar as regras de como devem se desenvolver as ao}es priticas para a obtenomo da grande conquista do homem. Neste contexto, percebemos que a sociedade moderna esti desafiada por um enigma. A figura do indivtduo. Ele ocupa nessa fase, o centro dos principais dilemas da vida social, podendo ser visto como um ser singular e coletivo, mas essencialmente p ele que esti em questmo.
Ji vimos portanto, que a vida social moderna estava organizada de forma racional. O grande valor era a razmo, tudo era previstvel. O modelo se apoiava numa grande obsessmo: O progresso, com rnfase no futuro. E como conseqrncia disso, o surgimento de novos mitos, foi praticamente nulo. Como situar o mito dessa ppoca que privilegiava o pensamento racional e condenava seriamente a mitologia por entendr-la como sin{nimo de ilusmo e superstiomo?
Foi, entretanto, Sigmund Freud estudioso da psique humana, que no intcio do spculo XX, retomou e explicou a relaomo dos mitos com a personalidade do homem, alertando para a importkncia que eles exerciam na vida humana. E posteriormente baseados nos estudos desenvolvidos por Carl Jung e Joseph Campbell podemos dizer, que os mi tos smo uma forma do ser humano exteriorizar o seu inconsciente, tentando atravps dele, buscar respostas para as quest}es universais como: Quem sou? De onde vim? Como seri o futuro? O que aconteceu no passado? Que a cirncia por mais desenvolvida que seja ainda nmo pode explicar, mas que a mitologia ao seu modo explica.
Porpm, com o surgimento do cinema, os mitos ganharam novamente seu espaoo e smo difundidos ao redor do mundo. Na dpcada de 70, o cineasta americano George Lucas, lanoa o filme guerra nas Estr elas, uma trilogia baseada na obra de Joseph Campbell ³O Heryi de Mil Faces´, criador de uma nova mitologia. O filme registra um grande sucesso, graoas aos efeitos especiais utilizados que estabeleceram um novo padrmo de filme de ficomo cienttfica. Uma outra razmo que contribuiu na repercussmo do filme foi j composiomo da histyria e dos
personagens, repleta de simbologia e ligao}es com aspectos psicolygicos.
Talvez, a utilizaomo dos stmbolos universais que facilitam a compreensmo dos personagens e conseqentemente das histyrias veiculadas pelos meios de comunicaomo, facilitadas para que haja uma empatia entre elas e o p~blico, seja a justificativa para a retomada do mito na era moderna. O mito moderno apresenta-nos um mundo de imensa superioridade tecnolygica em que a cirncia resolve as crises e os problemas smo enfrentados com determinaomo e habilidade. Mostra- nos um mundo atraente em que os homens se tornam, de fato iguais aos ³Deuses´. A inteligrncia assume predominkncia, tornando o mundo melhor, governado pelo conhecimento, passtvel de soluomo cienttfica.
Trata - se por certo da substituiomo da imagem do rei divino contido nos mitos antigos, pelo heryi confiante, o cientista, que se interessava, sobretudo pela missmo que a si mesmo imp{s de triunfar e preservar a humanidade. Nmo faz alusmo a poder algum maior que o homem. Uma crenoa que se alimenta na onipotrncia da cirncia. O novo ³Deus´ tem poder de criar e sustentar, mas de destruir.
A particularidade da mitologia moderna p o seu cariter industrial e intei ramente impessoal. Na modernidade o sujeito era entendido como aquele que p}e marcha ao processo de reproduomo do capital. Ele p o pryprio capital, agindo como pode se chamar de sujeito automitico. Com a expansmo do processo produtivo industrial, o papel da informaomo torna - se de tal forma relevante, que arriscamos destaci- la como o grande mito da modernidade. Atravps dela (informaomo), surgem os grandes desafios dessa sociedade, provenientes do paradigma da globalizaomo, transformao}es culturais e das novas modalidades de simbolizaomo.
Ocorre, porpm, que o mundo tem sido e continua a ser um emaranhado de tradio}es, magias, superstio}es impregnando os modos de ser, pensar, sentir, agir, imaginar e fabular de indivtduos e
coletividades. Nesse sentido, os mitos sobrevivem com sua linguagem cifrada para deliciar os homens, aos lhes contar fantisticas histyrias, explicando - lhes o fundamento da vida humana e das coisas, possibilitando assim, sentido j existrncia das sociedades humanas, principalmente a moderna. Os mitos sempre existiram e existirmo na cultura humana. Surgem da nossa necessidade de buscar outra realidade para, atravps dela entendermos a nossa. Hoje, os maiores criadores de mitos smo o cinema e a televismo, que trazem na estrutura de suas histyrias todos os elementos mitolygicos necessirios j ilustraomo do mais antigo conflito do homem, o bem contra o mal.