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Três entrevistados demonstraram perceber diretamente nos dados abertos e na atuação junto à transparência governamental uma oportunidade de agir sobre problemas da sociedade e, assim, efetuar ou possibilitar ações. A motivação principal está relacionada a uma agenda de transparência e ao significado político disto, que pode trazer benefícios à sociedade de um modo em geral. Coleman (2012) é clara quando destaca que não se pode afirmar que os hackers sejam majoritariamente políticos, mas que algumas correntes se direcionaram para o lado político da atuação. Com relação aos dados públicos, isto parecer acontecer em consonância com a ideia de liberdade da informação e colaboração. Este interesse pode ser vislumbrado principalmente na fala do entrevistado Everton Alvarenga, gerente de projetos e um dos criadores do Queremos Saber.

A trajetória do desenvolvedor está associada ao ideal da informação livre e à transparência. Ele descreve intenções assemelhadas através de outros projetos anteriores.

O primeiro projeto que eu queria era fazer algo tipo o What Do They Know50, já que eu estava muito envolvido com a aprovação da Lei de Acesso à Informação. Isso seria útil. Depois eu pensava no Open Spending51, que é outro projeto que eu vinha

conhecendo em 2010, que foi quando conheci a Open Knowledge Foundation. E uma coisa que me motivou muito foi um paper de uns professores de Princeton52 em

que eles argumentavam da importância do papel do governo de publicar os dados abertos para que terceiros, cidadãos, empresas, organizações usassem esses dados. (ALVARENGA, 2013)

Ele foi também um dos organizadores da Maratona Hacker da CMSP. De fato, seu envolvimento aparece inclusive em sua atuação profissional direta. Ele é um dos que está fundando uma representação da Open Knowledge Foundation no Brasil, atuando como diretor executivo. “Estou criando um capítulo, um representante legal, da Open Knowledge Foundation aqui no Brasil, a OKF Brasil. Já temos na lista de e-mails umas 200 pessoas ativas. Temos um conselho consultivo com 10 pessoas, o deliberativo com quatro, e eu como diretor executivo” (ALVARENGA, 2013). Portanto, um comprometimento direto com a

50 Projeto britânico que se utiliza do mesmo sistema de fundo do Queremos Saber e também é focado em reunir e

mediar requisições de acesso à informação. https://www.whatdotheyknow.com/.

51 Mapa para rastrear gastos de governos em diferentes países. http://openspending.org/

transparência e projetos que buscam avançá-la. Este é um envolvimento que já vem de momentos anteriores, que no caso dele aconteceu em projetos colaborativos na época da faculdade. A intenção aparece sempre dentro da lógica da colaboração: “Como estava envolvido muito nesse movimento Wikimedia e muito empolgado com a Wikipédia, estava pensando em como aplicar isso pra outros projetos. Não só pra criar conhecimento, mas também pra resolver alguns problemas da sociedade” (ALVARENGA, 2013).

Percebe-se uma preocupação social nos entrevistados deste perfil, assim como uma importância do impacto social de seu trabalho. Os dados abertos não são um fim em si, mas parecem possibilitar o entendimento de uma realidade para possíveis e consequentes ações no mundo em seu entorno. Percebe-se também no discurso a confiança hacker na liberdade da informação (LEVY, 2010; COLEMAN, 2012), materializada na preocupação com a divulgação dos dados e adequação dos seus formatos. Se não estiverem em um formato adequado, não podem ser retrabalhados e resignificados, reduzindo assim o potencial da informação de ser aberta e recombinável por outros hackers. Alvarenga liga esta necessidade às ações que podem ser geradas a partir da transformação de dados.

É o que a Open Knowledge Foundation faz, ela tenta transformar os dados, mostrar como eles podem ser úteis e usáveis. Se ele está fechado, está inútil. Se está num formato em que você pode criar uma visualização para transformar numa informação, seja através de uma visualização, seja de alguma outra forma que você possa interpretar, aí você pode ter impacto, por exemplo, em mudanças de políticas públicas. Por exemplo, você pode pegar de dados de segurança e, colocando isso num gráfico, você vai poder chegar a mudanças concretas. „Está ocorrendo nesse horário e nessa região muito estupro ou roubo de carro‟, por exemplo. Então há várias coisas que podem ser feitas. Medir eficiência de órgãos públicos, por exemplo (ALVARENGA, 2013).

Aparece também a quantificação do poder público como o caminho para uma maior eficiência. Toda esta motivação e a atuação junto aos dados acontecem de tal forma que se estabelecem como um ativismo, da onde a denominação do perfil. A ação de Alvarenga se dá desde, em uma ponta, a liberação das informações por parte do governo, exigindo que isto aconteça da forma correta, até a outra, junto à sociedade, estimulando que esta informação seja demandada e utilizada (por meio do aplicativo Queremos Saber). Na fala de Thiago Rondon, um dos criadores do projeto Para Onde foi Meu Dinheiro? e também identificado com este perfil, se visualiza o pensamentos dos dados abertos como uma ferramenta através da qual se possibilita conhecimento e ações sociais. Esta é uma tônica do perfil ativista. Quando perguntado sobre o que o chama a atenção em eventos como hackathons, ele afirma:

Na realidade, o que é interessante é que os dados abertos são um assunto que é um meio. Eles não são um fim. Só olhando para os dados abertos, você não faz nada. Mas na realidade, quando você tem um contexto, um objetivo final, eles são uma excelente ferramenta, um excelente meio. Então, geralmente nesses eventos quem a gente encontra são pessoas com interesses no final. Às vezes tem algum problema real, são ONGs, empresas que tem problemas de fato para resolver e no qual dados abertos podem ajudar (RONDON, 2013).

Com as contribuições de Coleman (2012) em mente, avalia-se que os aplicativos de dados públicos podem constituir uma atuação através da prática, como a autora descreve a agência dos hackers em áreas como a propriedade intelectual. Eles argumentam através de ações, demonstrando como alternativas a algum modelo podem ser construídas.

Em vez disso, ele efetivamente funciona como uma política de crítica, proporcionando um contra-exemplo vivo, ou, nas palavras do mais famoso advogado do software livre, Eben Moglen: „revolução prática baseia-se em duas coisas: prova de conceito e rodar código.‟ Voltando à terminologia oferecida por Bruno Latour (1993, 87), a produção de software livre e de código aberto funciona como um „teatro de prova‟ de que incentivos econômicos são desnecessários para garantir a produção criativa – uma mensagem que alcançou visibilidade uma vez que vários grupos foram inspirados a seguir os passos do software livre e estender a lógica legal de software livre em outros domínios da produção artística, acadêmica, jornalística, e econômica (COLEMAN, 2012, p. 185, tradução nossa).

Os aplicativos podem ser vistos como construções nestas intenções de prova. É criando e publicando contra-exemplos vivos que eles projetam afirmações sobre como a transparência pode existir e quais seriam os benefícios de uma sociedade e de governos mais responsáveis. O ativismo hacker, nesses casos, se dá demandando que os dados sejam abertos e manuseáveis. Os exemplos práticos do que pode ser realizado com a transparência atuam como evidências que podem ajudar a provocar modelos para organização de esforços similares.

Se percebe também a proximidade entre as ideias de transparência governamental, ativismo hacker e software livre. Primeiro porque uma parcela dos hackers envolvidos com software livre tem se dedicado ao ativismo político, como Coleman (2012) destaca, e em segundo lugar porque os dois acontecem dentro da mesma retórica de transparência e de criação colaborativa. Rondon comenta sobre isto quando questionado sobre a origem de seu interesse em dados abertos governamentais.

Bom, eu participo de comunidades de software livre há muitos anos. E de certa maneira o movimento de dados abertos é muito próximo das pessoas que trabalham com software livre também. Na realidade, acho que quase todos que hoje trabalham com dados abertos principalmente na área de tecnologia são pessoas que convivem na área de software livre. Então, era curiosidade e também pelo movimento que

começou a ser criado, enfim, surgiram várias comunidades no Brasil relacionadas a dados abertos, e de diversas áreas, não só de orçamento (RONDON, 2013).

O entrevistado destaca as filosofias assemelhadas de ambos os movimentos. Quando questionado sobre a semelhança entre o movimento do software livre e dos dados abertos, ele aproxima ambos.

A filosofia é muito semelhante. Existe uma filosofia „openness‟, que deve ser uma base das duas. O que digo é que tem aderência, tração, esse conceito de dados abertos na comunidade de software livre, porque por ser um movimento recipiente também as pessoas estão mais, digamos, culturalmente com esse termo de liberdade de acesso, enfim. Talvez seja uma barreira menor pra ingressar nesse mundo (RONDON, 2013).

A mesma preocupação com a abertura do código é exposta na fala do entrevistado Trento, que afirma: “nós somos da filosofia de que o código sendo aberto, isto contribui para que outras pessoas possam verificar, encontrar erros, melhorar, enfim” (TRENTO, 2013). Estes hackers envolvidos com software livre e colaboração estão muito acostumados a trabalhar com transparência, tanto dos códigos em si quanto dentro da própria comunidade. A transparência e abertura do código fonte é justamente o que os separa de corporações com software proprietário. Quando passam a se dedicar a dados abertos governamentais, então, é natural o apoio e defesa das informações abertas: ele está relacionada a uma relação prévia com a transparência e ambientes abertos. Isto também aparece na fala de Lucas Nemeth, criador do aplicativo Fala, Câmara e identificado sob o perfil ativista, em que ele liga a transparência ao software livre e à sua experiência pessoal.

Acho que [o dado público] é uma ferramenta muito importante para a transparência. Eu trabalhei um tempo com projetos que eram da prefeitura de Porto Velho, e os dados sempre eram fechados, pelo menos naquela época. E realmente era uma coisa que eu pensava „poxa, não faz sentido, são informações públicas, deviam ter alguma forma aberta disso‟. Justamente por uma questão de transparência. Foi por isto que eu comecei a achar importante esta questão dos dados abertos. E eu sempre estive muito ligado à questão do software livre, do conhecimento livre, então são grupos que fazem geralmente um ativismo juntos (NEMETH, 2013).

Pode-se traçar um paralelo também com o que Coleman (2011) aborda sobre o coletivo Anonymous. Através do grupo, muitos hackers tem ingresso em seus primeiros atos políticos, por meio de micro-ações mais acessíveis. Os criadores de aplicativos também parecem estar sujeitos ao mesmo padrão, uma vez que o envolvimento com os dados abertos pode começar mais lateral, mas se configurar como uma porta de entrada para um pensamento político mais continuo e uma tomada de posição mais crítica.

Castells (2012), ao pensar nos movimentos sociais contemporâneos, destaca que a figura da ocupação física teve presença forte e acaba por assumir uma importância cultural. “Movimentos sociais precisam cavar um novo espaço público que não está limitado à internet, mas se faz visível nos lugares da vida social” (CASTELLS, 2012, p. 10, tradução nossa). Esta preocupação está incorporada nas encarnações políticas e nos eventos físicos da atuação com dados públicos. Ao criar e participar de eventos, hackathons e competições de dados abertos, hackers ocupam um espaço físico, muitas vezes público, como no caso da Maratona da CMSP, estendendo seus valores do ambiente virtual para um outro espaço. Ao fazer isto eles estimulam o senso de comunidade, dão significado a um espaço em que acontece deliberação e que vai se refletir, justamente, em construções digitais. Uma prática e um espaço verdadeiramente híbridos. A própria prática digital, através dos aplicativos, se dá muitas vezes sobre o espaço físico, ao se realizar algum tipo de mapeamento de questões físicas relativas ao governo. Então também é uma forma de ocupar o espaço físico, aproximar-se dele, mapeando-o e adicionando camadas informacionais. É uma outra maneira em que se apropria o espaço público, evidenciando ainda mais a ligação entre as duas esferas.

Benzer Belgeler