Durante meus encontros com Metamórfus, não pude deixar de questionar algo que ficava o tempo inteiro imerso em meus pensamentos. O que realmente aconteceu em sua trajetória de vida profissional que o fez mudar tão rapidamente, de um ano para outro, proporcionando um espaço de atuação bipolar? E, mais uma vez Metamórfus consegue buscar em sua história de vida as respostas para isto e, belamente, expõe as condições sociais como grandes permeadoras de sua atuação.
“Esta coisa de coordenar me diz muito respeito, me satisfaz muito. Mesmo que depois eu tenha aprendido que eu estou coordenando, eu não estou mandando. Eu não estou
colocando ninguém a minha submissão. Não necessariamente alguém tenha de submeter-se as minhas idéias, a mim”.
A narrativa apresenta um professor que consegue estabelecer uma reflexão sobre sua atuação, mas que, ao mesmo tempo, impõe as características de sua infância. Características estas já trazidas anteriormente, de uma criança que introjeta e se identifica com as figuras parentais. Esta introjeção, em um primeiro momento aparece como comando, autoritarismo e, posteriormente, ao começar a analisar as crianças que estão em sua volta e, como um espelho, começa a enxergar-se em seus próprios alunos. Este movimento, somado ao processo de investimento profissional e a colaboração dos elementos da coordenação da escola em que Metamórfus trabalhava, proporcionou um rico espaço de reflexão e mudança.
Em muitos momentos da narrativa, o professor faz referência à equipe técnica, orientação e supervisão, que apontavam e favoreciam os elementos para esta análise. Entretanto, como disse anteriormente, os aspectos fundamentais relacionados à estabilidade no trabalho foram fundamentais para um espaço mais tranqüilo de atuação.
Neste sentido, o professor começa a ver a sala de aula como um espaço de atuação mais flexível e sua visão dos alunos deixa de ser aquela em que estes devem obedecer para àquela em que os alunos podem atuar de forma coordenada.
O lado laissez-faire apresentado pelo professor no segundo ano era apenas uma forma de corresponder aos anseios de alguns pais de alunos (que haviam realizado reclamações sobre o autoritarismo do professor), e às solicitações da coordenação. Entretanto, a mudança ocorreu tão bruscamente que não havia uma reflexão, apenas uma maneira de manter-se no emprego, acabando por gerir outras dificuldades.
Se por um lado a escola particular oferece uma estrutura de trabalho que favorece o cotidiano docente em relação aos recursos didáticos, ao espaço físico, aos materiais e ao apoio de pessoal, por outro lado, esta mesma escola cobra um retorno do professor em termos de produção com os alunos e condutas que digam respeito à filosofia escolar e às crenças estabelecidas no Projeto-político Pedagógico. Entretanto, existem crenças veladas que não estão registradas em documentos. Em se tratando de uma escola mantida por uma ordem religiosa, esta crença envolve ordem, silêncio e disciplina. Um bom professor é aquele que consegue “dar” uma aula em “ordem” total. Caso contrário, ele não serve para esta escola.
Como este ideário foi recebido por Metamórfus, ele acaba por atuar de forma a não perder seu rendimento, colaborando, então, com a presença de um autoritarismo necessário para esta ordem. Este tema está profundamente desenvolvido em meu trabalho de mestrado quando falo das relações de poder e do panóptipo, em que o poder é um dos grandes causadores da
indisciplina escolar, já que os professores se vêem pressionados a corresponder as exigências da direção.
Entretanto, Metamórfus apresenta um outro aspecto que é “a fraqueza, de acharem que eu não conseguiria”. Metamórfus necessitava mostrar para as pessoas que ele conseguiria corresponder a estas exigências, mas que estas exigências eram internas, como uma luta, um estabelecimento de poder que o levava a um ringue, um desafio constante em que ele necessitava ser o melhor. É bem provável que esta característica esteja ligada às fraturas existentes quanto à sua sexualidade, pois conforme desenvolverei posteriormente, a homossexualidade prevê uma luta constante do sujeito com seus semelhantes. Esta luta diz respeito à conquista de espaço e de méritos que envolvem mostrar competência de forma a sobrepor a imagem sexual construída socialmente e que coloca o ator como “pervertido”, “divertido”, “corruptor de valores”.
Quanto a isto, diz Metamórfus: “Eu não enxergava. Então eu fazia assim: não tem outro jeito. É assim que eu quero e pronto”.
Somente no terceiro ano, mais tranqüilo, é que ele consegue uma reavaliação da conduta. “Eu aprendi o que era coordenar em uma sala de aula. Trabalhei, trabalhei, comecei a estudar”. O trabalho a que Metamórfus se refere é uma etapa bastante complexa que envolve a leitura dos textos que eram indicados pela coordenação e colegas mais próximos, a leitura constante e avaliativa de sua forma de trabalho, a reflexão constante sobre os temas que eram levados para discussões com colegas e coordenação, a observação constante de seus alunos como seres presentes e inconstantes em sua vida cotidiana (espelhados em sua própria criança interior), e uma leitura desta criança que estava presente constantemente.
Quanto a isso, diz o professor: “Acho que num primeiro momento tu tens que estabelecer um contato com teu aluno, estabelecer uma relação”. Depois, o professor complementa: “Eu não enxergava o ser humano. O aluno que tem neste ser humano. Que veio de casa. Que é uma criança. Que necessita de uma outra fala com ele. Que necessita de um outro olhar. Eu enxergava os alunos como coisas”.
Bem, apenas a última fração da narrativa já apresenta um espaço enorme de mutação na história de vida do professor, “Eu enxergava os alunos como coisas”. Hoje, os alunos já estão sobre um novo olhar, não mais humano, pois a rudeza também é uma característica do humano. Espaços de expressão onde cada um é entendido como um ser individualizado e constrói seu conhecimento na construção e (re)construção social, na vivência coletiva com seus pares e que o professor é um elemento facilitador.
O “tem de ser assim. Tem que fazer”, que encobria fraquezas e medos, além de uma estrutura infantil em que os pais apenas queriam ver o trabalho e não o processo, foi substituído
pelo estar ao lado, pela compreensão e por uma visão mais flexível para com a criança presente no papel de aluno.
Então, em minha análise, o que impulsionou a mudança de Metamórfus para uma maior segurança na questão econômica foi: o apoio da coordenação da escola e dos colegas professores, a formação intelectual e uma reflexão de sua conduta como professor.