2.1 Kuşlara Öykünmek
2.1.2 Ötmek
Procuramos nesta pesquisa refletir, a partir das Ciências da Religião, a respeito da práxis reformada e o desenvolvimento educacional do Brasil na segunda metade do século XIX. O objetivo geral foi mostrar que a práxis religiosa protestante contribuiu para o desenvolvimento social do país no período mencionado tendo destacado alguns dos empreendimentos sociais que serviram de fatos comprobatórios para a hipótese levantada como a fundação da Escola Americana e do Colégio Internacional.
No primeiro capítulo, vimos a chegada dos missionários inacianos com seu ideal fortalecido pelas idéias de Ignácio de Loyola e a utilização desta presença pelo governo português para a contribuição na colonização de suas novas terras. Foram verificadas também, suas ações em prol do desenvolvimento sócio educacional brasileiro no período que vai da chegada dos primeiros jesuítas ao Brasil até sua expulsão em 1760, e as novas diretrizes pombalinas para educação no Reino português.Verificamos alguns avanços ocorridos com a vinda da família Real para o Brasil em 1808 e com a proclamação da República em 1859. Neste período, destacamos a criação das escolas fundadas pelos jesuítas, como o Colégio da Bahia, o Colégio de São Vicente, o Colégio do Rio de Janeiro e o Colégio de Olinda.
Os jesuítas, quase exclusivamente, por dois séculos, mantiveram o ensino público no Brasil, no qual a implantação das escolas decorreu, de um lado, dos propósitos missionários da Companhia de Jesus, e, de outro, da política colonizadora organizada por D. João III. O sustento das ações jesuíticas foi dispendioso para o Estado, pois atingiu um número ínfimo de alunos: cerca de 300, por volta de 1585; 1% na segunda metade do século XVIII (RIZZINI, 1988, p. 205-207).Os relatórios dos ministros da educação ao longo do século XIX são claros quanto ao estágio da educação da nação brasileira neste período. Os ministros defendem a instrução e o conhecimento para o povo, pois são indispensáveis para o aumento de riqueza e prosperidade da Nação; reconhecem a necessidade de que em cada província haja cursos de Medicina teórica e prática, Cirurgia, Veterinária, Matemática, Física, Química, Botânica, Zoologia, Mineração, e criticam a formação do próprio clero romano ao afirmarem que faltam no Brasil sacerdotes doutos e capazes.
Pretendeu-se mostrar,no capítulo dois, os fundamentos teóricos que integram a práxis reformada com respeito à educação e instrução. Os reformadores entenderam que a instrução era fundamental elemento na batalha para a preservação dos fundamentos da fé apostólica, tão negligenciada em seus dias. Os elementos teóricos foram estabelecidos a partir do pensamento de João Calvino, o reformador genebrino, e seus pressupostos quanto à defesa do movimento reformado, a instrução e a revelação natural, a instrução e a revelação especial, o uso da lei e a vida em sociedade e a esfera de ação da igreja.
O fundamento da soteriologia calvinista, calcada na ideia da soberania de Deus, concebe que os homens são totalmente inaptos para cooperar para a sua salvação, distanciando-se da formulação católica romana quanto a este tema. Apregoa a crença no pecado original, que encerrou o homem num estado de total depravação, daí, estruturalmente, não poder cooperar e ainda mostrar o reflexo da graça recebida, pela qual deve manifestar pela gratidão. Esta graça induz a uma nova conduta que legada aos cristãos reformados pelos valores pessoais fundamentais presentes na formação do caráter e da sociedade, dos quais decorre a preocupação com o social, motivadora da fundação das diversas escolas protestantes.
No capítulo três, procuramos demonstrar que os pioneiros protestantes brasileiros e seus esforços missionários ligados a ações da pregação do evangelho e da promoção de meios para a alfabetização trouxeram às terras brasileiras não conhecimento meramente especulativo e contemplativo, mas, fizeram a ponte entre a Pastoral e a Teologia, entre a teoria e a prática, permitindo um ir e vir fecundo exemplificado no trabalho missionário e educacional; uma práxis evidenciada por uma Teologia fundamentada nas Escrituras e comprometida com os desafios observados na sociedade. A alfabetização, por várias, razões, era uma tarefa impostergável.
O objetivo último da educação, não foi uma questão superficial para a estratégia missionária, mas, sob a égide protestante a educação visou tornar o aluno o que ele deve ser, um filho de Deus, e, desta forma prepará-lo para viver em sociedade. A educação, desde os reformadores,visava à formação de caracteres cristãos, proporcionando seu alunos, em todos os departamentos, instrução sólida, cultivando, esmeradamente, suas atividades intelectuais, incutindo-lhes no espírito princípios sãos e elevados, fazendo-os, destarte, cidadãos úteis e eficientes para o serviço da família e da Pátria, e estes foram lemas empregados pelos educadores e missionários que chegaram à nossa terra a partir da segunda metade do século XIX.
No discurso do Prof. Dr. Alberto Deodato, paraninfo dos diplomandos de 1948 do curso científico do Colégio Municipal de Lavras, pertencente ao Instituto Presbiteriano Gammon, lemos:
Vós, lavrenses, tivestes uma originalidade. Se fostes pouso de tropa, e tivestes a venda no caminho e a beira da estrada, crescentes em torno da escola, este Instituto de onde vos falo. Fundastes uma escola onde acaba o oeste e começa o sul do Estado, no encontro dos que vem de dentro de Minas e os que vão para lá [...]. Foi aqui, entre as duas paisagens, que os apóstolos americanos ergueram, em 1892, o Instituto Evangélico. A febre amarela que flagelou tantos homens, expulsou de Campinas evangelizadores. Deus os guiou para estes sítios. Para a sombra das árvores amigas destes descampados mineiros, transplantaram a semente que germinou, cresceu e frutifica a sessenta anos, sob a proteção divina, a vigília permanente de Gammon e a ronda eterna de Carlota Kemper, a grande Carlota, anjo de amor e de sacrifício, de sabedoria e de ternura [...] em ronda da vossa fundação, Lavras prosperou e criastes esse município, que cresceu mais por influencia das letras que pelas riquezas e conquistas materiais. Sois um município praticamente sem analfabetos [...]. A ciência agrária que ensinastes multiplicou a fecundidade das terras e por toda a terra brasileira, no Norte e no Sul, os agrônomos da vossa escola dirigem a produção levando para os mais remotos sertões os vossos ensinamentos. Do vosso Colégio Carlota Kemper todos os anos sai aflorada para a volta ao lar, para a instituição de novos lares brasileiros ou para transmitir a infância o alfabeto e o sentido da Pátria.
Não se pode olvidar que a práxis reformada contribuiu significativamente para o processo educacional brasileiro na segunda metade do século XIX, e esta contribuição permanece até os nossos dias, haja vista a vitalidade tanto do Instituto Presbiteriano Mackenzie quanto do Instituto Presbiteriano Gammon. Tendo em vista que estas instituições foram fundadas e inicialmente administradas pelos missionários americanos, certamente, seria muito interessante refletir acerca da influencia americana na cultura onde originalmente foram inseridos estes institutos: a influência na mentalidade do povo, no culto, na forma litúrgica; a recepção dos habitantes destas cidades às praticas e costumes americanos. Mas, este deve ser o objeto de outras pesquisas.