A idéia de um aluno são (saudável) e forte, tanto física quanto moralmente, preconizada por Rousseau, em Emílio, pode ser vislumbrada no artigo A Educação
Física publicado por Pedro Calmon, em abril de 1952.
Para Pedro Calmon “da Academia de Letras”,64 a formação da juventude, da época não seria compreendida sem a “[...] assistência de uma educação física integral” (CALMON, 1952, p. 1), sem a saúde do corpo “[...] nenhuma espécie de ensino poderá considerar-se adequada e promissora” (p. 1). A base do ensino seria, então, “[...] a organização saudável da pessoa, a sua estruturação ou sua firmeza física” (p. 1).
Para Pedro Calmon, o corpo saudável seria “[...] a base humana da pedagogia” (CALMON, 1952, p. 1) e, para ressaltar a importância de um corpo saudável para a educação, o autor recorre a Rousseau:
A este respeito voltamos [a] Rousseau, quando pleiteava para o aluno ideal uma higiene sábia e ativa: queria, antes do intelectual, o equilibrado, e antes da criatura capaz de dominar o mundo, o forte sujeito capaz de dirigir-se a si próprio. É nesse tipo hígido de moço vigoroso, ou seja, de organismo que superou as deficiências de um ambiente depressivo com a disciplina e tranqüilidade de suas energias educadas, que a Civilização encontra o modelo da vida digna; e sua segurança (CALMON, 1952, p. 1, grifo nosso).
Pedro Calmon explica o sentido dado à palavra força e, em suas explicações, também evidencia a presença de Rousseau:
O que a educação moderna pede, proclama é [...] a força como correção subjetiva, a força como restauração fisiológica, a força como complemento moral, a força modesta e necessária aos homens que degeneravam no abandono de suas carências, no desconforto da saúde comprometida, na sua escassez natural ou a crise de desenvolvimento (CALMON, 1952, p. 1).
A força, para Calmon, é física, no sentido de manter um corpo saudável, e é também moral, no sentido de estar ligada a uma disciplina interna, fundamental para o homem “[...] dirigir-se por si próprio” e alcançar seus objetivos (CALMON, 1952, p. 1).
64 Essa informação encontra-se em outro artigo publicado pelo autor na Revista n. 40 (1938),
É esse também o sentido dado por Rousseau à força. Ela é física, intelectual e moral, no sentido de que um corpo fraco, debilitado é que “manda” e um corpo forte, robusto e saudável é que obedece à “alma” – em outras palavras, um corpo “são” é disciplinado, capaz de dirigir-se a si próprio (de seguir “as ordens” do seu eu).65
É preciso que o corpo tenha vigor para obedecer a alma: um bom servidor deve ser robusto. Sei que a intemperança excita as paixões; extenua também o corpo com o tempo; as mascerações, os jejuns, produzem a miúde os mesmo efeitos por uma causa oposta. Quanto mais fraco o corpo, mais ele comanda; quanto mais forte mais ele obedece. Todas as paixões sensuais se abrigam em corpos afeminados; e estes tanto mais se irritam quanto menos podem satisfazer (ROUSSEAU, 1762-1992, p. 31).
A “educação física integral” era aquela que, segundo Calmon (1952, p. 1), integra corpo e alma:
[...] a qualidade de ser completamente homem, ‘mens sana in corpore sano’, se arrima aos métodos de formação escolar, destinados à preparação interior e concreta do indivíduo da idade plástica dos decisivos encontros com a existência e seus problemas. E mercê dessa aliança – do físico e do intelecto – surgirá o verdadeiro cidadão.
Em outro artigo de Idílio Alcântara Abade, publicado em setembro de 1941 (Revista n. 48), com o título A escola superior de educação física de São Paulo e
sua escola de aplicação ao ar livre, também é possível vislumbrar a utilização, pelo
autor, de algumas idéias de Rousseau, mesmo que esse autor não seja citado explicitamente.
Nesse artigo, Abade (1941) ressalta que a criação da Escola de Aplicação ao Ar Livre preencheria uma lacuna metodológica no ensino da Escola Superior de Educação Física de São Paulo. Segundo ele, unilateral e incompleta, ela iria “[...] assegurar ao futuro fisicultor um ensino teórico e prático nos moldes de uma racional educação física” (ABADE, 1941, p. 24).
As Escolas de Aplicação ao ar livre seriam “[...] as maiores oportunidades para o desenvolvimento físico, que é a base de todas as manifestações vitais,
físicas, e psicológicas [...]” (ABADE, 1941, p. 25, grifo nosso). Nelas, a criança,
além do íntimo contato com a natureza, teria uma “racional educação física” e
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Enfatiza Rousseau (1762-1992, p. 31): “Eu não me encarregaria de uma criança doentia e caquética, ainda que devesse viver oitenta anos. Não quero saber de um aluno sempre inútil a si mesmo e aos outros, que só se ocupe com se conservar e cujo corpo prejudique a educação da alma”.
também atividades educativas baseadas no interesse e que viriam a enriquecer o conteúdo de sua experiência. Segundo Abade (1941, p. 24, grifo nosso):
As escolas ao ar livre ajudam, de maneira feliz e agradável, a resolução do problema da educação física infantil, porque dão maiores oportunidades para o desenvolvimento físico e favorecem pelo ambiente, livre de quadros tradicionais, atividades altamente educativas.
Nas palavras do autor, percebe-se a ênfase dada ao desenvolvimento físico que seria “[...] a base de todas as manifestações vitais, físicas e psicológicas” (ABADE, 1941, p. 24). Podemos dizer que são uma tradução da idéia de Rousseau.
É possível, também, vislumbrar, nas propostas educacionais que do plano de organização da Escola de Aplicação ao Ar Livre, outras concepções educacionais presentes em Rousseau.
A própria idéia de deixar a criança em íntimo contato com a natureza pode ser relacionada com a concepção de que a vida nas cidades em contanto com “o ar malsão dos lugares demasiado povoados” seria prejudicial à criança (ROUSSEAU, 1762-1992, p. 38).
A simples permanência ao ar livre à luz do sol, isto é, a vida no seu íntimo contato com a natureza, é elemento que por si só, vem beneficiar
o organismo infantil. A respiração em um meio puro é uma necessidade e uma exigência para os organismos infantis em pleno desenvolvimento e que [...] nos centros urbanos, são obrigadas a permanecer em lugares confinados e pouco higiênicos (ABADE, 1941, p. 25, grifo nosso).
A idéia do contato com a natureza, com aulas ao ar livre, está representada também em imagens presentes no artigo, como pode ser visto na Figura 3, a seguir:
Figura 3 - Aula na Escola de Aplicação ao Ar Livre da Escola Superior de Educação Física de São Paulo Fonte: Revista de Educação Física, n. 48, 1941
As atividades a serem desenvolvidas pelas crianças deveriam ser baseadas no seu interesse. Dessa forma, à professora caberia a tarefa de orientá-las e estimulá-las, “[...] interessando-as e fazendo-as obter, através da observação e
experiência, conhecimentos compatíveis com sua idade [...]” (ABADE, 1941, p.
26, grifos nossos). As crianças ficariam, então, “[...] livres para o trabalho na carpintaria, no tanque de areia, para que possam construir, elas próprias (com o mínimo de orientação da professora), presépios, arcas de Noé, casa da boneca, etc.” (ABADE, 1941, p. 26, grifo nosso).
Interesse, experiência, ensino de conhecimentos compatíveis com a idade e liberdade são questões amplamente discutidas por Rousseau em Emílio.
Rousseau salienta que o interesse imediato é que move as atividades infantis “[...] não pode aprender nada cuja vantagem imediata não sinta, ou de prazer ou de utilidade; de outro modo, que motivo a levaria a aprender?”, indaga Rousseau (1762- 1992, p. 110). Os trabalhos manuais de carpintaria ou as brincadeiras no tanque de areia despertam o interesse imediato da criança e proporcionam um aprendizado por meio da experiência, importantíssimo, uma vez que “[...] as crianças esquecem mais facilmente o que se lhes diz, ou o que dizem, do que o que fazem ou o que lhe fazem [...]” (ROUSSEAU, 1762-1992, p. 88).
A aprendizagem de conhecimentos compatíveis com a sua idade pode ser relacionada com a educação negativa presente em Emílio. Segundo as recomendações de Rousseau (1762-1992), na infância a criança não está apta a aprender idéias muito abstratas, certos conceitos morais ou religiosos; portanto, deve-se trabalhar a única razão que ela é suscetível de aprender, a razão sensitiva, por meio do exercício do corpo e dos sentidos.
Em Emílio, já no Livro I, Rousseau (1762-1992) comenta a perda de liberdade de movimentos pela criança que, numa prática comum à época, eram enroladas em faixas, com o objetivo de enrijecer os músculos. Para o autor, essa prática, assim como o hábito de vestir a criança com muitas roupas, toucas, a impedem de movimentar-se, dificultam-lhe a respiração, impedem-na de crescer e de se fortalecer e, conseqüentemente, de alterar sua constituição.
A liberdade, aqui, encontra-se relacionada com o corpo; ter maior liberdade significa poder movimentar-se livremente, crescer e fortalecer-se; é uma liberdade
necessária à alteração de sua constituição corporal, com o objetivo de fortalecê-la.66 A liberdade pode ser, então, associada à força. Rousseau (1762-1992) afirma que a felicidade das crianças e, também dos homens, consiste no emprego de sua liberdade; mas essa liberdade, nas crianças, é limitada por sua fraqueza. É uma liberdade imperfeita, uma vez que ela não pode prescindir dos outros (dos adultos).
Assim, Rousseau (1762-1992) recomenda que pule, que grite, que corra, que exercite sua liberdade natural. É isso que deve ser feito na infância, para que a criança cresça e se fortaleça fisicamente. Mesmo fortalecida constitucionalmente (com relação ao corpo), a criança nunca terá uma autonomia completa, pois sempre dependerá de um adulto. Ao que parece, então, para Rousseau (1762-1992), no que se refere à liberdade da criança, recomenda que, com relação ao corpo, ela tenha a liberdade necessária ao seu fortalecimento. Por outro lado, reconhece que a liberdade nas crianças não é completa, pois elas não podem prescindir dos adultos.
Remetendo essas observações para a relação professor-aluno, Rousseau (1762-1992, p. 114) recomenda:
Segui um caminho diferente com vosso aluno; que ele imagine sempre ser o mestre e que vós o sejais sempre. Não há sujeição mais perfeita do que aquela que conserva a aparência da liberdade: cativa-se assim a própria vontade. A pobre criança que não sabe nada, que não pode nada, que não conhece nada, não está a vossa mercê? Não dispondes em relação a ela de tudo que a cerca? Seus trabalhos, seus jogos, seus prazeres, suas penas, não esta tudo em vossas mãos sem que ela o saiba? Sem dúvida não deve ela fazer senão o que quer, mas o que deve querer senão o que quiserdes que ela faça; não deve dar um passo que não tenhais previsto.
Pode-se dizer que, nas propostas registradas no artigo de Abade (1941), a liberdade das crianças também seria imperfeita, uma vez que, nas atividades escolares, por mais que pudessem ter maior liberdade de movimentos, nas brincadeiras, por exemplo, elas seriam direcionadas segundo as orientações de um professor. Assim, Abade (1941) afirma que as crianças ficariam “livres” para o trabalho na carpintaria, no tanque de areia, para que elas próprias pudessem construir diferentes artefatos.
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“A natureza tem para fortalecer o corpo de fazê-lo crescer, meios que nunca devemos contrariar [...] é preciso que pule, que corra, que grite quando tiver vontade [...] os movimentos são necessidades de sua constituição que busca fortalecer-se” (ROUSSEAU, 1762-1992, p. 69).
A Escola de Aplicação ao Ar Livre67 seria, segundo Abade (1941), além de um campo de observação e experiência para os alunos da Escola Superior de Educação Física, um Centro onde a Educação Física seria a base da “educação integral”.
A “racional educação física” como base da “educação integral” era o tipo de educação que se pretendia nesse estabelecimento, que, segundo Abade (1941), deveria servir de modelo para criação de outras escolas ao ar livre no País, uma vez que elas ajudariam na “[...] resolução do problema da educação física infantil, porque dão maiores oportunidades para o desenvolvimento físico e favorecem pelo ambiente, livre de quadros tradicionais, atividades altamente educativas” (ABADE, 1941, p. 24).
Como pode ser observado, as concepções educativas de Rousseau foram apropriadas pelos autores dos artigos aqui tratados para enfatizar a importância da Educação Física nas escolas. A ênfase na educação, por meio do corpo, dos sentidos, encontra-se articulada à idéia do ensino prático, “ativo”, ao invés do “passivo”, de acordo com os preceitos da educação (escola) “moderna”, “nova”, para a “educação integral” do indivíduo: física, intelectual e moral.
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A idéia das Escolas de Aplicação ao Ar Livre parece familiar à idéia que nasceu na Alemanha relativa às Escolas ao ar Livre (Waldschule), onde as classes eram organizadas ao ar livre, à sombra das árvores. A primeira foi criada em Charlottenburgo, em 1904 (CLAPARÈDE, 1905-1956, p. 82).
4 EDOUARD CLAPARÈDE: A PSICOLOGIA E A EDUCAÇÃO FÍSICA
A presença de Edouard Claparède68 na Revista evidencia-se principalmente nos artigos que apresentavam orientações ou recomendações de programas de ensino para a Educação Física escolar.
Nesses artigos, é possível perceber a utilização, pelos autores, de determinadas concepções ou idéias que Edouard Claparède apresenta em algumas de suas obras, como A educação funcional (original publicada em 1931), A Escola
sob medida (original publicada em 1920) e Psicologia da criança e Pedagogia experimental (original publicada em 1905)69 O que se pretende é analisar os artigos a partir da leitura dessas três obras e detectar fios existentes entre algumas concepções teóricas de Edouard Claparéde e as discussões postas em circulação na Revista, nos artigos sobre Educação Física escolar, no período investigado.
As principais idéias apropriadas nesses artigos, quando das discussões sobre a Educação Física escolar, foram: as concepções educativas desenvolvidas por Claparède sobre as relações entre crescimento físico e desenvolvimento mental e suas repercussões para o trabalho escolar; a função da imitação na vida da criança, a utilização do jogo na educação, a função do brinquedo, as relações entre jogo e trabalho, a evolução dos interesses no desenvolvimento da criança e do adolescente e a necessidade de adequar o ensino a essas diferentes fases.