No período de 1930 a 1964, o Brasil vivia o que se chamava de “Estado de Compromisso”, um “sistema de alianças de classes”. Weffort (1968) entendia esse momento como o período em que se sobressaíam o jogo de forças políticas que predominaram ao longo dessas décadas, em especial, o fenômeno do populismo, quer na Era Vargas quer nos governos seguintes (de Juscelino Kubitschek, Jânio Quadros e João Goulart). Esse “sistema de alianças de classes” resultava na união de várias frações da classe dominante em que
nenhuma delas assumia hegemonicamente o poder de Estado. Para Manfredi (1981, p. 29), o “Estado de Compromisso” se sustentou “enquanto os grupos políticos que detinham o poder conseguiram manter a expansão do sistema produtivo, mas se viu ameaçado a partir das crises econômicas e políticas do início da década de 1960”. Foi assim que aconteceu, portanto, com o populismo no Brasil.
Na trilha da história, os anos finais da década de 1950 e os anos iniciais de 1960, especificamente os anos que vão de 1958 a 1964, tinham como pano de fundo o “desenvolvimentismo”. Esta fase desenvolvimentista se constituiu em nossa sociedade como um período marcado por efervescentes processos sociais e históricos, assim mapeados por Marta Vieira Cruz (s/d, p. 01) em seu texto Brasil Nacional-Desenvolvimentista (1946-
1964):
[...] no plano mundial termina a 2ª Guerra (1945), o que representou para a humanidade uma nova fase nas relações internacionais e nas diversas esferas da vida societal. Elabora-se, a partir daí, a Carta das Nações Unidas na Conferência de São Francisco, além da expansão do Plano Marshall em amplas regiões do mundo subdesenvolvido, consolidando deste modo, as transformações efetivadas no nível estrutural do capitalismo mundial. É importante assinalar que em meados dos anos 50, entre 10 e 23 de abril de 1955, ocorreu a Conferência Ásia-África de Bandung/Indonésia, onde se reuniram 29 chefes de Estado e, tendo sido reconhecido na ocasião, o princípio da coexistência pacífica entre as diferentes partes do mundo. Nesse evento se definiu pela primeira vez a noção de 3º mundo.
A fase desenvolvimentista “permitiu a emergência, quase acelerada, de um movimento de expressão popular em cujo interior se inscreveram as mais diversas iniciativas de cunho educativo” (BEZERRA in BEZERRA e BRANDÃO, 1980, p. 17), nutrido pelo clima das liberdades democráticas, que caracterizou o governo de Juscelino Kubitschek. Contudo, é entre os anos de 1962 e 1964 que se acirraram as crises econômico-politicas.
A crise econômica se configurou com base nas contradições resultantes da combinação de modelos econômicos distintos, assim destacados por Manfredi (1981): o modelo exportador, o de substituição de importações e as tentativas de efetivação do modelo de desenvolvimento econômico autônomo. Continua a autora sobre essa crise:
[...] parecia revelar toda uma sintomatologia de uma ‘crise conjuntural’, expressão das contradições básicas do modelo capitalista de produção e agravada pelas características especificas do desenvolvimento desde modo de produção numa sociedade economicamente dependente (Idem ibidem, p. 29).
No Brasil, essa crise de conjuntura significou o resultado natural da anarquia de produção, característica do capitalismo. A prioridade, neste período, há que se ressaltar, era acelerar a ocupação do espaço produtivo nacional pelo recurso ao capital estrangeiro sem a preocupação com o aspecto do fortalecimento do empresariado nacional. Bezerra (1980, p. 18) também afirma que o populismo desenvolvimentista se nutria da promessa de um futuro melhor, uma vez que exaltava que o progresso da nação se estenderia a todos com a abundância de oportunidades e a geração de riquezas (empregos, melhores salários, mercadorias, estradas, escolas, etc.). Este elenco de melhorias englobava as grandes metas do desenvolvimento e, ainda, reforçava os aspectos de liberdade e representatividade da democracia liberal. Segundo a autora, isso tinha um significado muito específico para uma população que guardava a memória suficientemente fresca de restrições políticas, cuja crise, por sua vez, configurou-se a partir do momento em que os líderes populistas se veem na iminência de propor uma política econômica que pudesse garantir a retomada do crescimento econômico.
As táticas políticas dos governos populistas expressam a necessidade de garantir a legimitidade de seu poder através da ampliação das bases ‘populares’ de sustentação. Apesar de ocuparem uma posição intermediária entre as classes dominantes e dominadas e assumirem uma posição vacilante entre ‘a defesa das reivindicações populares’ e a manutenção do ‘status quo’, os líderes populistas em geral e, principalmente, Goulart no Brasil, criaram um clima favorável a uma maior participação política e consequente politização das populações urbanas e rurais (MANFREDI, 1981, p. 30).
Contraditoriamente, duas posições podem ser analisadas nesta época no Brasil: se de um lado as formas de mobilização permitidas ou incentivadas pelos líderes populistas são convenientes do ponto de vista tático para os próprios líderes populistas; por outro lado, oferecem oportunidade para que as “massas manipuladas” manifestem seus interesses, afirma a autora supracitada. As mobilizações que ocorreram no último período do governo de Goulart possibilitaram que alguns setores da “classe média21” se empenhassem em atuar junto
aos trabalhadores do meio rural e urbano a fim de organizá-los para uma possível participação política.
Grupos de intelectuais, organizações de esquerda, entidades estudantis e algumas organizações vinculadas à Igreja vinham tendo, portanto, junto a alguns setores das classes
21 Em se tratando da especificidade diferenciada que as classes médias assumem nesse período, retomamos a discussão de sua importância para os movimentos populares de massa. Em especial, porque os monitores da experiência de Angicos se enquadram nessa categoria, o que sugere nossa retomada para ampliar tal discussão.
trabalhadoras, efetiva participação em alguns “movimentos de massa”, cujos objetivos e ações se pautavam na adoção da educação de adultos ou, mais especificamente, da “educação de base” como forma de atuação.
A efetiva articulação de tais movimentos deveu-se, em parte, às condições objetivas de mobilização que vinha se delineando desde o inicio da década de 1960. Contudo, convém ainda assinalar que as possibilidades de atuação educacional se definiriam também em virtude do caráter seletivo do sistema educacional brasileiro (MANFREDI, 1980, p. 31).
Seletivo, porque a taxa de atendimento não evoluiu de acordo com a demanda potencial. O sistema educacional era incapaz de garantir a universalização da instrução primária obrigatória. Lutava-se contra o analfabetismo desde 1947. Contudo, o montante de analfabetos em vez de decrescer, aumentava. De fato, vinculando o problema do analfabetismo às condições políticas e ideológicas da época, percebe-se que a possibilidade de utilizar a educação como um instrumento de mobilização está também condicionada pelas condições específicas do sistema escolar brasileiro. Na realidade, “à medida que o sistema não tinha condições de absorver toda a demanda potencial, a ‘bandeira de luta contra o analfabetismo’ pôde ser facilmente levantada pelos líderes populistas” (Idem ibidem, p. 35).
Mas, esse arcabouço político-econômico que respinga no “sistema educacional” vai conduzindo, progressivamente, nosso país a entender que a fase monopolista do capitalismo internacional supunha uma racionalidade diferente daquela anunciada no Brasil, o que impossibilitou sua gerência pelos mesmos mecanismos políticos, financeiros e administrativos que aqui foram implantados. Isto porque “as instituições do regime populista se revelavam antiquadas e inadaptadas ao sistema em sua nova fase. Os governos de Jânio Quadros e de João Goulart são os que vão enfrentar os sinais da crise e a crise propriamente dita” (BEZERRA in BEZERRA e BRANDÃO, 1980, p. 18).
Depois da eufórica fase “desenvolvimentista”, como já anunciada, segue-se uma forte crise econômica e política no Brasil. Mas, enfim, o que se sobressai, a partir daí, em nosso país?
Esta crise, já com suas tensões transferidas para a área política, foi determinante para a evolução de uma fase de intensa mobilização no país, quando o governo já se encontrava sob o comando de João Goulart, presidente de Estado. Vários setores sociais se manifestam e dotam o momento de profundo significado, mas pontualmente contraditório, como é possível
perceber: de um lado, alguns setores de “resistência22” – representados pelo governo e
determinados grupos do empresariado nacional – se posicionavam contra as transformações que previam uma perda maior da autonomia econômica e política do país, de maneira que o acordo de classes que mantinha o poder já não servia como base do contrato social. De outro lado, os setores caracterizados por frações das camadas médias da sociedade – instituições representativas e grupos, em especial, de profissionais liberais e estudantis – entendiam que a mobilização para as reformas propostas pela “resistência” já incorporava a convocação para uma mudança das estruturas. Por isso, defendiam um conteúdo de caráter revolucionário às pressões do movimento popular.
Todavia, em meio a esses setores que, tendenciosamente, definiam-se por suas “escolhas”, qual o posicionamento do movimento popular (MP) nos anos iniciais de 1960? O movimento, na verdade, “(...) não chegava a delinear uma proposta alternativa à crise. Era ao mesmo tempo palco e audiência daqueles setores que nele buscavam força e justificativa para as suas respectivas propostas” (BEZERRA, 1980, p. 20). Isto porque o primeiro grupo sabia exatamente o que requerer e obter com o apoio das massas; já o segundo grupo, buscava viabilizar uma proposta de transformação, embora sem projeto definido e mantendo a “ingênua” característica dos não afeitos ao jogo de afrontamento com o poder. De qualquer modo, em ambos os grupos:
[...] eram marcantes a inspiração e a prática populista: a barganha pelo apoio das camadas populares para uma proposta que tinha a sua origem em outros interesses em jogo na sociedade e não aqueles explicitamente revelados pelas camadas populares. Em caso de êxito da campanha, na melhor das hipóteses, muitos dos benefícios seriam distribuídos com os setores ditos populares, mas o poder de decisão continuaria nas mãos dos patrocinadores da mobilização, quer do governo, quer da representação das camadas médias (Idem ibidem, p. 20).
Apesar desse “Populismo” entranhado nos projetos das duas tendências que, na realidade, atuavam numa mesma frente, havia uma diferença significativa que as individualizava: numa, seus participantes já se consideravam representantes do povo, mesmo que sustentando a hegemonia capitalista; na outra, seus integrantes se declaravam, em função de sua proposta, solidários com os interesses e a luta das camadas populares pela mudança das
22 Aída Bezerra (1980, p. 19) afirma que, em 1963 já eram muito claras as manobras para canalizar as forças do movimento popular para essa resistência e, nessa direção, o governo empunhou a bandeira das reformas de base – agrária, politica, bancária, etc. – como reação às propositivas reivindicações de várias camadas sociais. “Se, num certo sentido, esse seria o campo onde se negociaria o novo pacto populista, não deixava de, por outro lado, suscitar a sanha dos setores conservadores da sociedade, ameaçados com a ‘desestabilização da ordem’”.
condições sociais vividas. Além disso, importa destacar que havia as “forças ocultas” atuando em outra frente, contrariamente. Estas se posicionavam a favor do acordo entre os interesses internacionais e o empresariado brasileiro internacionalizado. No cerne dessas composições, entretanto, interessa-nos a participação e o posicionamento engajado dos setores das camadas médias no MP, uma vez que, a partir deles, encontramos pistas, informações sobre a história da educação popular no inicio dos anos de 1960.
Contudo, esta é uma discussão que será levantada mais adiante, em outro capítulo. Por hora, tratamos apenas de recapitular o tempo e o espaço em que se situa a história política em que a educação popular concebia, entre as diversas formas de manifestação coletiva, uma ação prática, cujo propósito era alfabetizar homens e mulheres – adolescentes e adultos – em uma perspectiva crítica, ou seja, política. Em outras palavras, cabe-nos, aqui, apenas situar, através das informações levantadas, o contexto socioeconômico e político das 40 Horas.
2.2 A campanha pela democratização do ensino ante o anúncio dos Movimentos