Este trabalho de pesquisa interliga o passado e o presente. Algumas questões se apresentaram nessa trama e fazem parte da violência simbólica de gênero, entre elas a questão da propriedade e da sexualidade. Por essa razão viu- se a necessidade de fazer algumas observações sobre o processo de instalação das religiões afro-brasileiras, em Porto Velho, e comentar esses nós, que nos parecem fundamentais para se entender as transformações ocorridas e o campo estabelecido.
Seguiu-se o caminho das anotações que registravam a instalação dos cultos afro-brasileiros na cidade de Porto Velho. Como se pode observar pelos trabalhos de pesquisa consultados e fartamente citados (TEIXEIRA, 1994; LIMA 2000/2005), que mostram inicialmente a liderança feminina e a projeção das mulheres nas lideranças, e depois o processo de ocupação das lideranças por homens. Apesar das observações feitas por Marta Valéria de Lima (2005) que analisa como liderança compartilhada as práticas de tradição mina na cidade de Porto Velho, por sua característica dual na direção, o que move, é que embora Mãe Esperança Rita
tenha como auxiliar ou Pai do Terreiro da irmandade um homem, no caso Pai Irineu, ela é reverenciada como a fundadora e esteve por praticamente seis décadas na liderança da casa. Sempre esteve cercada de mulheres e conforme informações do atual dirigente, Pai Beto de Ogum, ela buscou preparar uma substituta mulher, a sua filha Guita, que não conseguiu o carisma suficiente para o exercício da função. Também é importante ressaltar que o nome feminino aparecia como a referência do Terreiro, como já frisado anteriormente. Assim, foi o nome dela que ficou na Memória como portadora do Axé, assim como o nome de Chica Macaxeira é a referência para o Terreiro de São Benedito.
Nessa revisão da instalação e presença das práticas religiosas de matriz africana, na cidade de Porto Velho, a nossa pergunta é: quais as razões da passagem da liderança de uma mulher para um homem numa tradição cujas lideranças e organizações foram de mulheres? O importante é perceber que esse é o movimento causador das transformações e o que se irá analisar.
Primeiro a instalação dos cultos afro-brasileiros, no início do século XX, com direção feminina e com a consequente evolução e transformações da irmandade que passa a ser dirigida por homens e, segundo, o grande fluxo migratório com a chegada de diversos sacerdotes trazendo outros modelos religiosos que alteram o campo religioso, e estabelecem um campo com maioria do sexo masculino.
Tanto nos terreiros de direção feminina o número de mulheres é maior e a presença dos homens é solicitada, apenas, para tarefas pesadas em dias especiais e, nos terreiros dirigidos por homens a presença das mulheres é
solicitada com maior assiduidade e maior número para a limpeza e organização da casa religiosa, geralmente também casa do sacerdote.
Como forma de visualizar esse processo sucessório em que a ordem é invertida, conforme fluxograma apresentado no capítulo anterior, os nomes femininos começam a aparecer em segundo lugar e não mais com o título de Mãe, que é de suma importância nas religiões afro-brasileiras. Quando os homens assumiram como dirigentes e detentores do título de Pai e chefes das casas, as mulheres, na condição de auxiliares, são referenciadas pelo seu nome. Não trazem o título de Mãe, ou ainda, em alguns casos, são chamadas de “Madrinhas”, denotando com isso a sua função secundária. Também é chamada de madrinha por ter sido a pessoa que ajudou fisicamente, e muitas vezes financeiramente, nas iniciações realizadas pelo sacerdote, diversas pessoas da comunidade. Isso demonstra a apropriação do cargo e título das mulheres pelos homens.
Levando-se em consideração que nas religiões afro-brasileiras os títulos são de vital importância, pois dá lugar às pessoas do grupo de forma hierárquica e rigorosamente organizada, observa-se que, na ata de organização da sociedade religiosa, no ano de 1917, (ata em anexo) aparece “Mãe do Terreiro”, Esperança Rita da Silva e “Pai do Terreiro”, Irineu dos Santos. O nome dela aparece primeiro, denotando a ordem hierárquica da casa. Essa ordem foi invertida e tornou-se natural, num processo de usurpação legitimado pelas cristalizações sociais, que exclui as mulheres das mais variadas formas. Estas são excluídas por serem velhas, frágeis, loucas, solteiras, casadas, por estarem grávidas ou menstruadas, por terem desejos, ou por qualquer razão que não encaixem as mesmas nos padrões exigidos. Também são excluídas por não concordarem, por terem opinião
diferenciada. Nas casas religiosas essas exclusões citadas são muito perceptíveis. As muito novas ainda não podem participar por não terem experiência e na idade fértil são excluídas no período da menstruação, são prejudicadas por estarem se relacionando com homem e o sexo é interdito, necessitando ficarem sem sexo por alguns períodos, o que causa muito transtorno quando o marido não participa da religião e, quando elas ficam velhas e experientes, o corpo já não ajuda para muitas das tarefas e acabam mais uma vez excluídas. Essas questões referem-se ao que se chama de violência simbólica, por se instalarem silenciosamente, e acabam se materializando na medida em que são causadoras de sofrimento, e se encontram atreladas à violência de gênero, conforme descreve Eva Patrícia Gil Rodrígues e Imma Lloret Ayter,
Hay toda uma serie de violencias unidas a los significados sociales de lo que entendemos que es um hombre y lo que entendemos que es uma mujer. Se trata de la renombrada violencia simbólica, es decir, aquella violencia unida a La construcción de las identidades de género, y que será susceptible de sufrir cualquier persona que no siga las normas y los imperativos sociales vinculados al género (RODRIGUES E AYTER, 2007, p. 18).
Ainda focando o problema da sucessão, em conversa informal com Pai Beto, sacerdote-chefe do Terreiro de Santa Bárbara, observou-se de forma sutil, que sua fala apresenta uma inversão ao citar os nomes dos líderes da história da comunidade religiosa. Antes, nas entrevistas realizadas pelas observações e citações dos pesquisadores, o terreiro de Santa Bárbara é mencionado como chefiado por Mãe Esperança, tendo, também, Pai Irineu como sacerdote (TEIXEIRA, 1994; LIMA, 2000). Observou-se, ainda, que na memória popular dos “antigos” o nome de Mãe Esperança Rita era referido como a portadora do axé, a que possuía o carisma no terreiro, o que também ocorria com Chica Macaxeira,
sendo as mesmas referenciadas como as mais famosas mães de santo do lugar pela memória popular.
Porém, mais recentemente, ao mencionar as lideranças, Pai Beto organiza suas ideias dizendo Pai Irineu e Mãe Esperança, Pai Albertino e Maria Estrela. Ele e Dona Carmita foram os casais que estiveram à frente do Terreiro de Santa Bárbara desde a sua instalação. Assim, os nomes masculinos são colocados à frente, como se eles fossem sempre os líderes e as mulheres suas auxiliares. Essa inversão dos nomes indica uma mudança no discurso e transferência de local de poder. Se hoje as mulheres são as auxiliares, é como se sempre tivessem sido.
Todas as questões apresentadas como formadoras das tramas de gênero se estabelecem e marcam as transformações. Além das representações dos lugares de gênero, dadas como naturais, o trabalho de campo indicou questões antigas e profundas não resolvidas, como propriedade e sexualidade que será abordado a seguir.