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(...) a ditadura exarcebou os traços mais negativos de uma experiência, a das instituições totais, que a sociologia crítica vem denunciando há vários anos (SILVA, 1998, p. 9).

Como o SAM ficou estigmatizado, durante a ditadura militar em 1964, é organizada pelo governo federal a Fundação Nacional do Bem-Estar do Menor - FUNABEM, instituição com independência financeira. A política de segurança nacional continuaria mais do que nunca a impor suas ideologias, e a Política Nacional de Bem-Estar do Menor (PNBEM) deveria dar conta das crianças e

jovens abandonados e/ou que não se comportassem dentro dos parâmetros estabelecidos pela ditadura e sociedade conservadora da época.

Vogel (2009, p. 294) refere que as premissas da FUNABEM foram inspiradas na Declaração dos Direitos das Crianças (aprovada pelas Assembleia das Nações Unidas em 1959) e que assim pretendiam atuar em favor:

(...) do “bem-estar do menor” no atendimento de uma série de “necessidades básicas”, a saber – “saúde, amor, compreensão, educação, recreação e segurança social” (FUNABEM, 1976, apud VOGEL, 2009, p. 294).

Detalhando-se um pouco mais como deveria se desenvolver esta política, o foco do atendimento deveria ser em direção à família e aos menores abandonados/marginalizados, pertencentes a grupos denominados como “desassistidos”. Estes grupos pareciam se multiplicar em decorrência à migração, ao êxodo rural e a incapacidade do mercado de trabalho em absorvê-los. O governo e a FUNABEM consideravam este fenômeno um “processo de marginalização” e uma preocupante questão social, geradora de muitos gastos públicos. Principalmente porque um levantamento da Câmara dos Deputados (1976, apud VOGEL, 2009, p. 292) chegou a estimar que um terço da população entre 0-19 anos se encontrava em estado de marginalização. Isto gerava não somente temores financeiros, mas também a crença de que a criança e o adolescente que permanecessem nas ruas poderiam gerar riscos à segurança nacional, caso fosse manipulados para atuação contra o Estado totalitário.

Por conta disto, uma das providências do governo foi a intensa culpabilização das famílias pelo “estado de abandono do menor” (RIZZINI e RIZZINI, 2004, p. 39) que passaram a ser alvo de prevenção e de intervenção, inclusive religiosa. As drogas também foram avaliadas dentre os inimigos da Pátria (VOGEL, 2009, p. 301) posto o julgamento de que eram substâncias destruidoras de famílias. Caracteriza-se aí a intensificação da guerra às drogas (será discutida mais adiante no capitulo sobre a adolescência) e da criminalização da pobreza. Rizzini e Rizzini (2004, p. 39) analisam o quanto

esta ideia de proteção à infância tornava-se antes de tudo “proteção contra a família” incapaz de exercer sua função.

O Código de Menores de 1979, direcionado pela “Doutrina da situação irregular” teve algumas mudanças em relação ao primeiro, principalmente por realçar ainda mais a categoria “menor”, denominando estas crianças e jovens especialmente como “menores em situação irregular”:

Art. 2º: Para os efeitos deste Código, considera-se em situação irregular o menor:

I - privado de condições essenciais à sua subsistência, saúde e instrução obrigatória, ainda que eventualmente, em razão de: a) falta, ação ou omissão dos pais ou responsável;

b) manifesta impossibilidade dos pais ou responsável para provê-las;

Il - vítima de maus tratos ou castigos imoderados impostos pelos pais ou responsável;

III - em perigo moral, devido a:

a) encontrar-se, de modo habitual, em ambiente contrário aos bons costumes;

b) exploração em atividade contrária aos bons costumes; IV - privado de representação ou assistência legal, pela falta eventual dos pais ou responsável;

V - Com desvio de conduta, em virtude de grave inadaptação familiar ou comunitária;

VI - autor de infração penal (BRASIL, 1979).

Previa ainda o estudo de caso por especialistas e a elaboração de relatórios; separação dos menores em centros específicos destinados à recepção, triagem e observação, e à permanência de menores; obrigatoriedade da escolarização e da profissionalização; levantamento e fichamento de cada indivíduo. Não determinava a defesa técnica do “menor”, sendo que esta função caberia ao Ministério Público, ao curador de menores ou até aos juízes que deveriam atuar com a proposta da garantir o melhor interesse da criança e

do jovem. Isto se justificaria pelo fato das medidas (ao menos em teoria) terem de caráter educativo, e não punitivo. No entanto, os juízes tinham liberdade para decidirem sem maiores fundamentações, já que isto não era previsto em lei. Em consequência, muitas crianças e adolescentes permaneciam esquecidas, e a atuação jurídica ocorria em prol do controle social, de acordo com as subjetividades e ideologias dominantes.

Era pressuposto que as medidas aplicáveis ao menor deveriam promover a integração sócio-familiar, conforme já explicado anteriormente. Mas limitavam ações técnicas, jurídicas, sociais e até mesmo individuais (das famílias, por exemplo) por estarem contidas em um mesmo artigo, não sendo separadas ou diferenciadas pela sua natureza: se por abandono, ato infracional ou por outros motivos:

Art. 14. São medidas aplicáveis ao menor pela autoridade judiciária:

I - advertência;

II - entrega aos pais ou responsável, ou a pessoa idônea, mediante termo de responsabilidade;

III - colocação em lar substituto;

IV - imposição do regime de liberdade assistida; V - colocação em casa de semiliberdade;

VI - internação em estabelecimento educacional, ocupacional, psicopedagógico, hospitalar, psiquiátrico ou outro adequado (BRASIL, 1979).

Como se pode conferir crianças, adolescentes, abandonados ou infratores eram praticamente tratados da mesma maneira. Muitas instituições não costumavam separá-los.

Esta prática está denunciada na frase do professor Roberto da Silva (1998), mencionada na epígrafe, que explicita a disposição das instituições totais (em especial na ditadura militar) em ceifarem histórias. É um dos exemplos de como as famílias tinham seus laços rompidos a partir do momento em que se viam obrigadas a entregarem seus filhos ao estado, com a

promessa de proteção. O referido professor testemunhou todo o processo de criminalização da infância (e adolescência), a partir de sua institucionalização, iniciada quando ainda era pequenino: aos 3 anos como “criança abandonada,” na adolescência enquanto “autor de ato infracional” e na fase adulta “um criminoso”. E resignificou estas vivências ao realizar sua pesquisa de mestrado, onde detalhadamente comprova o longo percurso de privação de liberdade ao qual uma criança pobre, anteriormente ao ECA, poderia estar fadada. Concentrou-a principalmente nas crianças nascidas entre 1940 e 1968 e institucionalizadas nas décadas de 50, 60, 70 e 80. Investigou prontuários20 da antiga FEBEM/SP e da secretaria de segurança pública, trançando a lógica que levava crianças abrigadas a continuarem institucionalizadas devido ao posterior envolvimento com meio infracional, com objetivo de diagnosticar o processo de criminalização das crianças e adolescentes sob tutela do Estado. Na constituição destas práticas, estava a marca da atuação de profissionais autorizados a implementá-las: psicólogos, educadores, assistentes sociais, médicos...

No filme “O contador de histórias” (2009) a vida de outro Roberto é narrada: a do também pedagogo Roberto Carlos Ramos. A situação é muito semelhante a do outro professor Roberto (da Silva), pois retrata como os trabalhadores em circunstâncias de pobreza se viam obrigados a entregar seus filhos ao governo, às FEBEM(s). Ramos também foi submetido ao processo de criminalização, e apesar desta vivência, fez-se exceção por conseguir transformar sua vida (não é interessante relatar como ocorreram estas circunstâncias para que o filme seja assistido).

Em São Paulo, as origens da Fundação CASA remontam ao formato instituição total “FEBEM” – Fundação do Bem-Estar do Menor, implementadas com a PNBEM. Após a breve duração da Pró-Menor (1974-1976), a FEBEM- SP permaneceu por mais de 30 anos (1976-2006), mudando sua nomenclatura para Fundação CASA – Fundação Centro de Atendimento Socioeducativo ao Adolescente.

2.7 A redemocratização e a garantia de Direitos...garantia de Direitos?

Benzer Belgeler