Como vimos no capítulo 2, é correto dizer que os conflitos agrários em Chiapas foram um dos motivos da conformação do EZLN. Não é menos verdadeiro afirmar que a reforma agrária - não apenas enquanto demanda governamental, mas nas vias de fato, mediante a “recuperação” de terrenos - tenha sido um dos esforços zapatistas à partir da rebelião armada de 1994. A manutenção do controle dessas terras, convertidas posteriormente em “territórios autônomos”, tornou-se até hoje um dos principais objetivos da resistência zapatista, e por extensão, de seu projeto autonômico. Em outras palavras, defende-se aqui que os “territórios autônomos” tornaram-se o elemento constitutivo básico da estratégia autonômica zapatista, a composição mais elementar desta, sem a qual todo seu projeto político torna-se comprometido. Entendamos com profundidade esta assertiva.
chiapanecos (REYES RAMOS, 2004). Assim, não é coincidência que, quando declarara guerra ao governo mexicano, em 1994, o EZLN incluiu em seu programa uma “lei agrária revolucionária”. Esta lei, em seu capítulo terceiro, dizia exatamente o seguinte:
Serán objeto de afectación agraria revolucionaria todas las extensiones de tierra que excedan las 100 hectáreas de condiciones de mala calidad y de 50 hectáreas en condiciones de buena calidad. A los propietarios cuyas tierras excedan los límites arriba mencionados se les quitarán los excedentes y quedarán con el mínimo permitido por esta ley pudiendo permanecer como pequeños propietarios o sumarse al movimiento campesino de cooperativas, sociedades campesinas o tierras comunales (EZLN, 2003, p.43).
A concreção desta “afetação agrária revolucionária” se deu a partir da recuperação direta de terras, as quais foram transformadas em propriedades coletivas zapatistas, transferidas a membros da organização para a produção de alimentos básicos (lembremos que a “via autonômica” se desenvolveu no desenrolar desse processo). Nesse contexto, em 1994, o EZLN foi responsável pela recuperação de cerca de 60 mil hectares de terra, enquanto outras organizações indígenas e/ou camponesas de Chiapas, aproveitando-se da conjuntura política, ocuparam outros 43 mil, aproximadamente121. Embora em proporções bem mais reduzidas, tem-se informações de algumas outras recuperações zapatistas, ao menos até 2003, embora faltem números exatos a esse respeito (BRANCALEONE, 2012a, p.287-9).
A solução encontrada pelo Estado, ainda no auge dos conflitos, foi compor um fundo com recursos federais e estaduais, em nome da Secretaria da Reforma Agraria (SRA), com o objetivo de indenizar os proprietários legais dos terrenos ocupados. Vale salientar a desorganização desse processo, com grande dispêndio dos recursos públicos, o que limitou gravemente a potencialidade de resolução da antiga questão agrária chiapaneca. Relatam-se desde casos de privilégios ou supervalorização fundiária para proprietários com “relações” com o PRI, até o agenciamento de “grupos invasores” por parte de fazendeiros, que mediante ocupações fictícias aproveitavam a oportunidade para se desfazer de terras de má qualidade (VILLAFUERTE SOLÍS, 2006, p.96). De maneira geral, pode-se dizer que a iniciativa do governo foi um bom negócio para os fazendeiros, que no mínimo receberam pela terra um valor maior que o de mercado.
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Entre elas, conforme entrevista com Pedro Faro (2013), poderíamos citar a ARIC (Associação Rural de Interesse Coletivo), OCEZ (Organización Campesina Emiliano Zapata) e OPEZ (Organización Proletaria Emiliano Zapata).
Enquanto isso, no outro extremo, o governo tratava de tentar aparelhar as organizações que impulsionavam estas recuperações. A partir de um controle seletivo na regularização das terras, concedia títulos fundiários apenas aos movimentos que se dispunham com sua política agrária e social. Este foi mais um ponto de tensionamento e de clivagem social em Chiapas, pois enquanto esta política tendia a ser acatada por algumas organizações, não o era pelos zapatistas, que como premissa para qualquer acordo exigiam o cumprimento de outros pontos, ainda em disputa, como a anulação da reforma do artigo 27 ou a ratificação constitucional dos tratados de San Andres.
Assim, lançando mão de uma estratégia divide et impera, o governo mexicano acabava por pressionar os bases de apoio zapatistas assentados em terras recuperadas: como condição para conseguirem os títulos destas, até então consideradas “ilegais”, deveriam necessariamente se desvincularem do EZLN. Indo mais além, o governo mexicano passou a conceder à outros grupos titulações de terrenos ocupadas por zapatistas, tentando assim favorecer uma pressão social e política que pudesse sufocar a base política do EZLN. Com tais elementos, estariam dadas as condições para o surgimento de agrupações paramilitares ou grupos de choque chiapanecos, que buscando a expulsão dos zapatistas das terras as quais ganharam a titulação, passaram a atuar ao lado do governo, forças armadas e aristocracia rural. Tais conflitos se prolongam até o momento de escrita deste trabalho.
Em meio a esse imbróglio, os zapatistas procederam, por sua vez, com a divisão das terras recuperadas, redistribuindo-as entre as famílias afiliadas, a título de posse. Conforme entrevista realizada em Chiapas122, atualmente essas
terras são da organização (EZLN), ou seja, todas as terras são da organização e portanto estão sobre o controle da organização; quem esteja na organização irá ter o direito de usufruir das terras conforme os acordos que se deem nos diferentes Municípios Autônomos (MAREZ), nas Juntas de Bom Governo (JBG). Se [os bases de apoio] saem da organização deverão desocupar as terras. E aí é onde tem existido muitas disputas pois há grupos que antes eram zapatistas e agora já não mais; nesses casos há diferentes formas de resolução, como por exemplo, um acordo com a organização de forma que recebam uma parte, ou em outros casos, em que quem deixa a organização perde a terra, pois afinal estão em uma situação de controle territorial a partir da declaração de guerra de 1994, e isso ainda não terminou (FARO, 2013, tradução nossa)123.
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Em San Cristóbal de las Casas, no dia 24.jan.2013. 123
Com o desenrolar dos fatos, a estratégia zapatista para sair da “ilegalidade” a qual lhe acusava o governo parece ter sido questionar a própria legitimidade das instituições governistas, especialmente no que toca aos seus territórios, já que pelo caráter autônomo a que estão submetidos passaram a desconhecê-las, ao ponto de com elas não travar contato nem receber recursos. Se essa posição pode parecer uma bravata utópica perante o poder do Leviatã Mexica, na prática, foi tão eficaz que embargou as grandes obras vinculadas ao Plan Puebla-Panamá, anteriormente descritas. Entra nessa equação, não nos esqueçamos, o fundamental apoio da sociedade civil nacional/internacional e é claro, o braço militar do EZLN, fatores que aumentaram o peso político de uma intervenção militar de “alta intensidade” pelo governo. Criou-se assim um empasse, um espaço em disputa – não só geográfico, mas especialmente político e simbólico - o qual os zapatistas parecem tê-lo preenchido paulatinamente pela ideia de “autonomia”. Desta forma, paradoxalmente, os territórios tornaram-se produto, meio e condição do poder autônomo zapatista.
É pertinente, nesse momento, entendermos a territorialidade dessa autonomia124, de forma a compreender como esse poder se reflete no espaço. Parece-nos útil, aqui, a reflexão de Marcelo Lopes de Souza (1995), sobre o conceito de território. Partindo da crítica de Raffestin (1993), de como a Geografia Política Clássica estaria limitada a uma “Geografia do Estado”125, Souza coloca a necessidade do conceito de território superar sua restrita vinculação estatal, herança direta de Ratzel. Souza questiona, além disso, o hipostaseamento desse conceito, que em seu viés tradicional tende a ser interpretado como um espaço concreto, dotado de atributos materiais (determinando seus limites, por exemplo) onde se dá a exclusividade de um poder.
Souza enfatiza a necessidade da compreensão do território como “um espaço definido e delimitado por e a partir de relações de poder” (1995, p.78), sendo o espaço concreto um “substrato material” para o exercício destas, visto que, trata-se no fundo, de
filiados, ao que tudo indica, maior que de que quando pegaram em armas.
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Aproximando-se da definição de SOUZA (1995, p.99), entendemos por territorialidade “algo extremamente abstrato: aquilo que faz de qualquer território um território, isto é, de acordo com o que se disse há pouco, relações de poder espacialmente delimitadas e operando sobre um substrato referencial” (grifo do autor). Dessa maneira, chamaremos aqui de territorialidade as características que qualificam os territórios autônomos zapatistas, o que nos distancia um pouco da qualificação dada por Claude Raffestin ou Robert D. Sack, que entendem, grosso modo, a territorialidade como o comportamento espaço-territorial de um grupo social. 125
Cremos desnecessário retomar essa discussão aqui, pois além de Raffestin tê-lo feito com grande profundidade e melhor do que poderíamos fazê-lo (em seu livro “Geografia do Poder”), o tema também foge de nosso escopo de pesquisa.
“relações sociais projetadas no espaço”. Não é questão, fique claro, de desconsiderarmos a dialética entre espaço e sociedade, tema extremamente debatido na Geografia; simplesmente ressalta-se que o poder que embasa o conceito de território é relacional, no sentido de que se trata de uma disposição nascida na/da relação entre atores sociais, e não estritamente entre o “homem” e o “espaço”. Conclui-se daí que ainda que o exercício desse poder se efetue sobre um determinado espaço (seja por meio do controle ou da apropriação), ele só tem sentido porque se dá em relação a outros atores sociais, que não possuem tal poder. Isso nos permite compreender o território como “um campo de forças, uma teia ou rede de relações sociais, que a par de sua complexidade interna, define, ao mesmo tempo, um limite, uma alteridade” entre estes atores (SOUZA, 1995, p.86, grifos do autor).
Parece-nos acertado que esta perspectiva ajude a elucidar o território zapatista, que não possui contiguidade espacial e nem sempre é balizado por limites materiais fixos e estáveis, devido a uma multiplicidade de fatores, como a maior ou menor militarização, planos sociais e sua pressão na desarticulação organizacional, coesão política zapatista, etc. Isso significa que não obstante a existência de uma “zona de influência zapatista”, isto é, uma área mais ou menos ampla onde o zapatismo enquanto movimento social organizado possui certa expressividade política, o “território autônomo zapatista”, stricto sensu, é descontínuo, possuindo extensão (a “tessitura”, nos termos de Raffestin) apenas na escala local ou comunitária126. É correta, assim, a hipótese de Brancaleone (2012a, p.283), quando afirma que este território pode ser entendido “como uma federação de comunidades rebeldes em armas, afiliadas e articuladas como núcleos auto organizados”.
Nesse sentido, a noção de “território-descontínuo” proposta por Souza (1995, p.93), torna-se a nosso ver muito útil. Para o autor, um território-descontínuo pode se dar a partir da interconexão de diversos territórios contínuos:
Como cada nó de um território descontínuo é, concretamente e à luz de outra escala de análise, uma figura bidimensional, um espaço, ele mesmo um território [...] temos que cada território descontínuo é, na realidade, uma rede a articular dois ou mais territórios contínuos [...]. A complexidade dos territórios-rede, articulando, interiormente a um território descontínuo, vários territórios contínuos, recorda a necessidade de se superar uma outra limitação embutida na concepção clássica de território: a exclusividade de
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um poder em relação a um dado território (SOUZA, 1995, p.94, grifos do autor
Talvez a compreensão desse raciocínio torne-se mais didática a partir de um modelo gráfico. Partindo de uma adaptação de um modelo teórico apresentada por Souza (1995, p.95), buscamos representar o “território-descontínuo” zapatista no modelo que se segue (Esquema 2).
Como podemos observar, a territorialidade zapatista se assemelha a uma rede, unindo os territórios das comunidades afiliadas à organização, de forma a compor uma malha sócio- territorial complexa. Se observada em uma escala local, o território das comunidades autônomas desvela-se como superfície; contudo, se observada em uma escala regional, pulveriza-se, tornando-se múltiplos pontos adimensionais ou nós, todos interligados em rede (tanto a partir da infraestrutura presente no substrato material, como a partir de ondas de rádio, celular ou internet), por onde transitam bens, pessoas ou informações, com relativa centralidade nos cinco “caracóis”.
Outro ponto interessante da definição proposta é que critica a ideia de “exclusividade de poder” sobre um território. Este parece ser novamente o caso dos territórios zapatistas, onde a tensão entre as duas territorialidades distintas é plenamente identificável: por um lado os municípios autônomos (vinculados à esfera de poder zapatista) e por outro os municípios ditos “oficiais” (vinculados ao sistema federativo mexicano). Pelo fracasso dos Acordos de San Andres, tais sistemas coexistem e competem entre si, tanto no que toca aos limites territoriais zapatistas (por uma questão de escala, uma espécie de enclave político-territorial), quanto na legitimidade governista perante os grupos que diz representar. Observamos aí nada menos que a projeção espacial de dois modelos distintos de democracia, uma que busca ser direta e/ou radical (onde o exercício de poder ocorre de “dentro para fora”, de maneira autônoma) e outra que se diz representativa (onde o exercício de poder ocorre de “fora para dentro”, de maneira heterônoma) .