Desde os tempos mais antigos, pesquisadores ocuparam-se do estudo da linguagem. Inicialmente associadas à filosofia, as reflexões sobre a natureza da linguagem apresentam perspectivas de análise complexas e distintas ao longo do tempo. Uma dessas reflexões diz respeito à ligação semântica entre objeto e nome.
Segundo Carvalhinhos e Antunes (2007), a relação entre um objeto e seu nome já era questionada pelos gregos. No século II a.C., o gramático Dionísio, responsável pela elaboração da primeira gramática do mundo ocidental, descreveu o onoma como designativo de objetos, seres individuais e atividades humanas.
Carvalhinhos (2008) afirma que a questão do nome foi objeto de reflexão pelos gregos na Antiguidade. Os naturalistas, representados por Platão, acreditavam em uma correspondência intrínseca entre som e sentido. Já os convencionalistas, representados por Aristóteles, acreditavam que a relação semântica entre objeto e palavra advém de uma convenção, um contrato social. Esta última hipótese aproxima-se da noção de arbitrariedade
do signo, formulada pelo linguista suíço Ferdinand de Saussure.
As reflexões de Saussure mudaram o curso dos estudos linguísticos e o princípio da arbitrariedade do signo tem sido o centro de muitas discussões alimentadas por semanticistas, filósofos e linguistas. No início do século XX, Saussure apresenta a noção de linguagem como um sistema de signos. Para o linguista, o signo linguístico é composto por um significante, que é a “imagem acústica”, e um significado, que é o “conceito”. Nas palavras de Saussure (2006, p. 80)10,
O signo linguístico une não uma coisa e uma palavra, mas um conceito e uma imagem acústica. Esta não é o som material, coisa puramente física, mas a impressão (empreinte) psíquica desse som, a representação dele nos dá o testemunho de nossos sentidos; tal imagem é sensorial e, se chegamos a chamá-la “material”, é somente neste sentido, e por oposição ao outro termo da associação, o conceito, geralmente mais abstrato.
Essas duas faces do signo linguístico, significado e significante, são ambas psíquicas e é por meio de uma associação que elas estão unidas em nosso cérebro. Não existe signo linguístico sem significado e significante, pois esses elementos são indissociáveis.
A relação entre significado e significante remete-nos a um dos princípios do signo linguístico formulados por Saussure, a questão da arbitrariedade. Essa arbitrariedade diz respeito apenas à ligação entre significado e significante, e não entre o signo e o objeto do mundo real. Dessa forma, para o linguista, “O laço que une o significante ao significado é arbitrário ou então, visto que entendemos por signo o total resultante da associação de um significante com um significado, podemos dizer mais simplesmente: o signo linguístico é
arbitrário.” (SAUSSURE, 2006, p. 81).
Ressalta ainda que o caráter arbitrário, ou imotivado, do signo linguístico não depende da livre escolha do indivíduo, uma vez que este signo é estabelecido em um grupo linguístico; portanto, o signo linguístico é social e convencional, ou seja, resulta de acordo coletivo entre os falantes. Este fato é exemplificado por Saussure pela ideia de “mar”, que não está ligada à sequência de sons m-a-r, ou seja, a ideia poderia ser representada por qualquer
10 A 1ª edição do Cours de Linguistique Générale, de Ferdinand de Saussure, é de 1916. Neste trabalho,
utilizamos a 27ª edição, publicada em 2006, pela Editora Cultrix, São Paulo, traduzida por Antônio Chelini, José Paulo Paes e Izidoro Blikstein.
outra sequência.
Embora a questão da imotivação seja admitida por muitos pesquisadores, Saussure não exclui totalmente a possibilidade de motivação do signo linguístico, para o linguista “[...] apenas uma parte dos signos é absolutamente arbitrária; em outras, intervém um fenômeno que permite reconhecer graus no arbitrário sem suprimi-lo: o signo pode ser
relativamente motivado.” (SAUSSURE, 2006, p. 152).
Em se tratando do signo toponímico em particular, Dick (1990, p. 34) sugere que
“[...] o elemento linguístico comum, revestido, aqui, de função onomástica ou identificadora de lugares, integra um processo relacionante de motivação, onde, muitas vezes, se torna possível deduzir conexões hábeis entre o nome propriamente dito e a área por ele designada.”
Esta visão tem orientado os estudos toponímicos atuais, que admitem que o ato nomeativo não seja feito de forma aleatória, mas motivado por condições sociais, culturais e ambientais, estas são oferecidas pelo próprio espaço geográfico.
Sem descartar a compreensão suassureana de significado e significante, Dick (1992, p. 18) admite que,
Muito embora seja o topônimo, em sua estrutura, uma forma de língua, ou um significante, animado por uma substância de conteúdo, da mesma maneira que todo e qualquer outro elemento do código em questão, a funcionalidade de seu emprego adquire uma dimensão maior, marcando-o duplamente: o que era arbitrário, em termos de língua, transforma-se, no ato do batismo de um lugar, em essencialmente motivado [...].
Isso se justifica porque o signo toponímico pode, de certa forma, representar uma projeção aproximativa do real, ou seja, no signo toponímico estão indicados aspectos descritivos do lugar nomeado, como características físicas (rio Grande, rio Pequeno, riacho Fundo etc). Sob essa ótica, a motivação toponímica apresenta-se em dois momentos:
[...] primeiro, na intencionalidade que anima o denominador, acionado em seu agir por circunstâncias várias, de ordem subjetiva, que o levam a eleger, num verdadeiro processo seletivo, um determinado nome para este ou aquele acidente geográfico; e, a seguir, na própria origem semântica da denominação, no significado que revela, de modo transparente ou opaco, e que pode envolver procedências as mais diversas. (DICK, 1992, p. 18).
Como sugere a autora, a motivação toponímica ocorre, inicialmente, pela intencionalidade do falante e, em seguida, pela origem semântica da denominação. São esses dois aspectos que auxiliaram a pesquisadora na sistematização da taxionomia toponímica, dividida em categorias de natureza física e natureza antropocultural, as quais se originam de aspectos extralinguísticos sensíveis da realidade circundante e influenciam o homem no ato de
nomeação de lugares.
Nesta mesma perspectiva, Aguilera (1999, p. 1) afirma que o topônimo
[...] relaciona-se diretamente com os conceitos de homem e ambiente: é o homem quem denomina os acidentes geográficos que o rodeiam e certamente não o faz aleatoriamente, mas movido por alguma impressão sensorial e/ou sentimental que o acometa no momento. Pode chamar-lhe a atenção alguma particularidade intrínseca do terreno ou do acidente geográfico (altura, clima, cor, movimento) ou pode ser uma motivação externa ao ambiente, como a religião, a ideologia ou até o estado de espírito ou a expectativa de um único indivíduo ou de seu grupo com relação àquele lugar, naquele momento.
Dessa forma, o ato nomeativo não é feito de forma aleatória, mas é motivado por condições sociais, culturais e ambientais, estas são oferecidas pelo próprio espaço geográfico. Corroborando com esse pensamento, sugere Dick (1998a, s/p):
Esses atos não são meramente automáticos, ao contrário, pressupõem um mecanismo de ações dirigidas a propósitos diversos, desde fatores internos, causas próprias ou personalíssimas, frutos de ocorrências mais banalizadas, originárias de simples intenções pensadas, trabalhadas intelectualmente, mas há atitudes de outra natureza, pensadas, trabalhadas visando a fins específicos, alternativamente.
Além da motivação, Dick (1992, p. 20) apresenta o signo toponímico relacionado ao conceito de “fóssil linguístico”, expressão herdada do geógrafo francês Jean Brunhes11. O
topônimo é considerado pela autora como um testemunho histórico, não apenas da língua falada em dada região, mas também de informações históricas, geográficas e sociais do povo que habitou o lugar. Ou seja, o topônimo resiste ao tempo, apesar de suas causas motivadoras desaparecem, por isso é chamado “fóssil linguístico”.
De acordo com Dick (1992, p. 20), a permanência dos “[...] signos geográficos, mesmo quando seus elementos componentes deixaram de ser facilmente identificáveis pela população local, adquire considerável importância.” Dessa forma, a expressão “fóssil linguístico” está relacionada à questão da cristalização semântica dos topônimos e, consequentemente, ao seu esvaziamento semântico.
Segundo Carvalhinhos (2008, s/p),
A partir do momento em que a língua oral muda e também o meio ambiente se transforma, provavelmente o referencial físico que elucidaria o significado não mais existe, o que inviabiliza ou pelo menos dificulta a reconstrução etimológica. O topônimo guarda, então, sob um invólucro aparentemente sem sentido (uma cadência de sons reconhecidos como sendo da línguamas eventualmente desconhecidos no momento da decodificação), os semas ou unidades mínimas de significação que permitem a reconstrução etimológica.
Esse fenômeno é sensivelmente observado quando se pretende reconstituir os falares indígenas já extintos, pois, por meio dos topônimos, os povos deixaram um legado imensurável de palavras autóctones, as quais refletem estilos de vida diferentes, autênticos e são indispensáveis para a reconstituição das línguas, principalmente em seus aspectos etimológicos e semânticos.
Para Dick (1992, p. 22), a cristalização semântica do topônimo auxilia na preservação dos fatos contemporâneos à nomeação, os quais poderão servir para uma análise posterior; o topônimo exerce, portanto, “o papel de uma verdadeira crônica” do lugar investigado.