1.2. İŞ DOYUMUNU ETKİLEYEN FAKTÖRLER
1.2.1. Örgütsel Faktörler
Caíque conheceu a esposa por intermédio de uma tia dele. A jovem, que viria a ser sua esposa, frequentava a casa dela e, por ser mais velha que ele, fazia parte do círculo de amizade dela. Como elas saiam juntas, eles se encontravam com certa frequência. Ela comentava com a amiga que o achava “bonitinho”. E ele resistia. Como tinha apenas 16 anos, na época, considerava a diferença de idade uma questão importante. Por essa razão, demorou um pouco para que pudessem se aproximar, de fato. Ela revela, entre risos divertidos, que por fim conseguiu, e o convenceu de que “panela velha faz comida boa”.
Nascida no Piauí, a esposa de Caíque veio para São Paulo com cerca de 10 anos. Diz que a vida lá era maravilhosa, era quente, “mas eu também não sabia o que era frio, então era boa (risos)”. Segundo ela, viver no interior era difícil, o pai vivia da caça e da lavoura, depois foram cuidar de uma fazenda, onde tinham leite e outros recursos, e seu pai não precisava mais sair para caçar. Passava o fim de semana fora e trocava caça por leite; deixava uma parte para a família, porque “a família era grande”.
Sua mãe teve sete filhos em 10 anos. Conta que ela e os irmãos se divertiam muito, na mata, e que, quando o sol estava baixando, sabiam que era a hora de voltar. Cresceram juntos, brincando, descobrindo as coisas juntos. Sabia colher feijão, não por obrigação, ia por ir, para acompanhar a mãe, pois o pai falava que o sustento da casa era obrigação dele: “meu pai se matava”. Entrou na escola com 7 anos e, quando chegou a São Paulo, continuou estudando.
Começou a trabalhar com 14 anos, porque, quando o pai veio para a cidade, “começou a descobrir outras coisas, aí já viu, né? Nordestino, safado sem-vergonha, tudo o que ele não fazia lá, veio aprender fazer aqui (risos)”. Segundo ela, ele já não agia mais como antes, pois lá só tinha tempo para trabalhar e, aqui, começou a ganhar dinheiro e sobrava tempo para “outras coisas”. Assim, foi preciso trabalhar para cuidar das coisas e dos irmãos mais novos. Primeiro vieram os menores, com o pai e a mãe, para São Paulo. A avó cuidou das outras crianças que ficaram por lá, mas, depois vieram todos, pois sua mãe sofria muito com a distância. Já eles (ela estava entre os que vieram na segunda etapa de migração) não sofriam
tanto, pois brincavam muito: “Eu não sabia o que tinha aqui, éramos novinhos, sentia saudades, mas ficamos bem durante os seis meses em que esperávamos”.
Conta que começou a trabalhar em loja de roupas e depois foi para a indústria metalúrgica (injetora), na qual ficou até descobrir um problema na coluna, que a acometeu cerca de um ano depois do casamento, em função de movimentos repetitivos e à sobrecarga de trabalho. Atualmente apenas cuida da casa, não trabalha fora. Gosta de fazer cursos e artesanatos para passar o tempo. “A gente optou por eu ficar em casa um tempo. E se acontecesse de aparecer alguma coisa... Mas aí fiquei mesmo mais trabalhando em casa.” Moram há dois anos e meio nessa casa.
Assim como a maioria dos jovens que responderam ao questionário da pesquisa, ele iniciou a faculdade, no caso, na área de Ciências Contábeis, mas interrompeu após um ano. Antes disso, havia feito um curso técnico em Contabilidade.
Eu fiz um curso técnico em Contabilidade, me formei, aí entrei na faculdade pra fazer Ciências Contábeis. Só que aí barrou um pouquinho, porque eu não tinha a possibilidade de deixar o trabalho, o salário, pra seguir outra área. Não tinha como fazer esta transição, largar um salário para buscar outro... Seria bem desgastante, [sair do trabalho para atuar nessa área] tanto pela área, que, apesar de eu gostar, ainda no Brasil é meio complicada para conseguir emprego, quanto pelo que o pessoal da faculdade comentava. Eu optei por... Falei não! Então vou para a faculdade porque eu tô perdendo tempo aqui. Fiz um ano. Completei o primeiro ano, eram quatro, fiz 25%. A minha ideia sempre foi trabalhar pra mim mesmo. Eu vejo muita coisa que poderia mudar [na Mercedes], mas você não consegue ter voz ativa pra fazer esta mudança. Muita coisa pode mudar, mas, não se tem autonomia, porque o vínculo com a empresa é só numérico. Você faz parte de um grupo, tanto é que se você falta não faz diferença, a produção sai do mesmo jeito, e aí a tendência é cada vez ficar mais apertado e a gente se machucar cada vez mais.
Além de sua percepção sobre as limitações que a entrada pelo Senai imputa aos profissionais, ele justifica a sua sensação de não pertencimento da seguinte forma:
Eu faço a função de montagem, mas sou registrado como soldador, trabalho uma área de solda, mas sou montador. Desde o Senai. Lá não tem plano de carreira, na Mercedes. Não existe. Porque é assim, na produção você entra e se você, por exemplo, tô falando da nossa área, como a gente percebe. É uma área pequena, de 60 pessoas, dessas 60 pessoas, tem a panelinha. A panelinha vai subindo aos poucos, então, sobe um, sobe outro, e o que dá pra entender é assim, que eles nunca querem uma pessoa que vai colocar ideias diferentes. Quer sempre que mantenha a mesma metodologia para não quebrar a pirâmide deles, o vínculo deles. Porque a gente sabe que acontece muita coisa errada lá dentro, na parte de desvio de dinheiro mesmo, não tem como provar, por isso que a gente não fala muito. Mas a gente sabe que materiais saem, materiais entram, uma vassoura custa cem reais. O funcionário da produção é o que menos dá prejuízo pra empresa, na verdade, é o único que faz alguma coisa pela empresa, e, quando vai haver cortes, são os primeiros a serem cortados, para não quebrar a estrutura deles. Agora tá mudando alguma coisa, não sei se estão com olhos abertos pra outras coisas. Da minha parte, eu sempre faço o meu trabalho, eu não sei se é meu, mas eu não consigo ver as pessoas fazendo coisas erradas, automaticamente meu comportamento muda com essas pessoas. Não consigo conviver com esse tipo de atitude, então eu acabo mudando e pode ser por
isto que não abre portas, mas também pra chegar a construir alguma coisa dessa forma, é melhor ficar onde eu tô. É bem por aí...
Caíque parece sentir que sua passagem pela empresa é transitória. Na concepção de Elias; Scotson (2000), isso talvez possa ser interpretado como sentimentos de alguém que já está de fora, um outsider. Ele não quer pertencer à rede de relações estabelecidas, cujo jogo já está sendo jogado, e as regras não podem ser questionadas. A sua vivência remete às disputas de poder que estão colocadas em seu ambiente de trabalho, em cuja tensão nos parece permanente23.
A Mercedes é uma empresa que investiu muito em estratégias para envolver seus trabalhadores de tal forma que eles pudessem sentir-se em casa. Foi possível perceber isso em visita à empresa, quando se tem a sensação de estar em um shopping. Os ambientes são claros, não há sujeiras no chão. Os trabalhadores vestem-se com roupas esportivas, como bermuda jeans e camisa polo cinza com o logo da empresa. Como há muitos jovens e ambientes construídos para conversas em intervalos de produção, é comum avistar jovens conversando e rindo descontraidamente. Nesses espaços para descanso, podem-se encontrar redes de descanso; em outros, mais voltados para o lanche, pequenas geladeiras, torradeiras ficam disponíveis para uso. Há ainda uma preocupação com plantas e ornamentos, que finalizam um ambiente aconchegante.
Além disso, de acordo com o setor, nota-se equilíbrio no ritmo de trabalho e certa autonomia dos grupos, permitindo uma relativa tranquilidade na execução das atividades. Para Caíque, no entanto, esse ambiente não produz o efeito desejado pela empresa, isto é, de ser apreciado por vários trabalhadores. Soa como algo artificial, forjado. Sua experiência na fábrica e o sentido atribuído à relação da empresa com seu pai lhe fornecem elementos para observar as estratégias empresariais criticamente.
Interessante observar a discussão feita por Elias; Scotson (2000) de que esses processos não se referem apenas às vivências individuais. A estigmatização imposta ao jovem Caíque aponta para um fenômeno sociológico que perpassa as vivências individuais. O grupo coeso possui uma condição privilegiada no sentido da manutenção da estrutura, como muito bem apontou o entrevistado. Ocorre que essa relação não é estática, vai depender das posições de poder assumidas pelos indivíduos que se encontram em situações similares a de Caíque.
23 Quando Caíque nega haver um plano de carreira na Mercedes-Benz, refere-se, na verdade, à dificuldade enfrentada, do seu ponto de vista, por aqueles que negam submeter-se ao grupo de “estabelecidos”. Esse afastamento, em princípio, seria capaz de influenciar as avaliações que garantem promoções. Na empresa existe
Essa figuração estabelecidos-outsider, como define Elias; Scotson (2000), contribui com nossa reflexão sobre as dinâmicas mais microscópicas que permeiam esse ambiente de determinada classe, num determinado contexto e momento histórico.
A subjetividade humana é permeada pela incorporação das regras de vida em sociedade. Por outro lado, o estímulo social para essa incorporação dos costumes se dá pela disputa permanente dos grupos, em nome da manutenção e legitimação do poder. A disputa se coloca ao longo de vários séculos pelo poder dos grupos estabelecidos por meio de marcas que o distinguem dos outros, aqueles a quem Elias; Scotson (2000) sugere serem os outsiders. E os indivíduos como um todo são influenciados de forma a inspirarem-se e mirarem-se nesse modelo proposto pelos grupos que detêm o poder em determinado período histórico. Não apenas internalizando hábitos dos grupos com os quais se relaciona como também reproduzindo em sua trajetória de vida uma síntese daquilo que a humanidade vem construindo através dos séculos.
No caso dos jovens que fazem a adesão ao projeto, as relações se dão no sentido contrário. A distinção entre os diversos grupos que compõem a classe trabalhadora na fábrica serve de estímulo para uma busca permanente ao pertencimento, as camadas vistas como superiores. E nos detalhes da vida cotidiana, a leitura dos sinais e símbolos de como pode inserir-se é fundamental para aqueles que querem estar entre os “estabelecidos” como conceitua Elias; Scotson (2000).