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3.3 Araştırmada Kullanılan Yöntem

4.1.4 Örgütlenme

Na filosofia de Canguilhem, o exercício epistemológico sobre as noções que compõem a saúde e a doença ganhou lugar de destaque. Ele buscou constantemente ampliar a consciência crítica sobre os métodos de produzir o saber médico sobre o patológico, trabalho que o conduziu a afirmar que existe uma diferença qualitativa entre saúde e doença (CANGUILHEM, 2009). Os estados patológicos distinguir-se-iam do normal não por derivação de uma média estatística referenciada em um tipo ideal, como se houvesse uma norma supraindividual, mas por apresentarem estrutura individual e qualitativamente distinta, que só podem ser apreciadas na relação singular do organismo com o meio.

Se existem normas biológicas, é porque a vida, sendo não apenas submissão ao meio, mas também instituição de seu próprio meio, estabelece, por isso mesmo, valores, não apenas no meio, mas também no próprio organismo. É o que chamamos de normatividade biológica. (CANGUILHEM, 2009, p. 175).

Essa é uma ideia central na tese de doutorado de Canguilhem (2009), publicada em 1943 com o título “Ensaios sobre alguns problemas concernentes ao normal e ao patológico” e republicada posteriormente com o título “O normal e o

patológico”. Ela apresenta questões que tocam diretamente a racionalidade dos conceitos que orientam práticas clínicas. Como observa Canguilhem:

Qualquer conceito empírico de doença conserva uma relação com o conceito axiológico da doença. Não é, portanto, um método objetivo que qualifica como patológico um determinado fenômeno biológico. É sempre a relação com o indivíduo doente, por intermédio da clínica, que justifica a qualificação de patológico. (CANGUILHEM, 2009, p. 177).

Para o autor, a ausência de normalidade não constitui o anormal, pois a vida não existe sem normas, inclusive o estado mórbido, concebido como certa maneira de viver. O estado são, porém, admitiria uma mudança de normas: “o homem é são na medida em que é normativo em relação às flutuações de seu meio” (CANGUILHEM, 2009, p. 176). A cura tocaria diretamente a atividade clínica, e seria “criar para si novas normas de vida” (CANGUILHEM, 2009, p. 176). A questão que fica para a clínica, então, é: que condução clínica pode levar os indivíduos a criar para si novas normas de vida?

Canguilhem permite observar que a concepção de doença como falta ou excesso conduz à prática terapêutica da compensação. Quando, diferentemente, é considerada um mal, a terapêutica é a da revalorização. O autor apresenta mais exemplos das consequências dessa concepção para a prática médica:

O médico terapeuta que exercia nas diversas partes da medicina, atualmente chamado de “clínico geral”, viu declinar seu prestígio e sua autoridade em benefício dos médicos especialistas, engenheiros de um organismo decomposto tal como uma maquinaria. Médicos ainda pela função, porém, doravante, não mais por corresponderem a uma imagem secular, uma vez que a consulta consiste na interrogação de bancos de dados de ordem semiológica e etiológica, por meio do computador, e que a formulação de um diagnóstico probabilista é sustentada pela avaliação de informações estatísticas. (CANGUILHEM, 2005, p. 28).

O percurso de conhecimento das doenças pelo saber médico, explica Canguilhem (2005), teria eliminado progressivamente a referência às situações vividas pelos doentes, em parte como efeito da “[...] colonização da medicina pelas ciências fundamentais e aplicadas, a partir dos primeiros anos do século XIX” (CANGUILHEM, 2005, p. 27), mas não só por isso. Ele reconhece também os interesses de uma sociedade de tipo industrial, que florescia nessa mesma época pela vigilância da saúde das classes operárias, saúde que “[...] começa a perder sua significação de verdade para receber uma significação de facticidade. Ela se torna objeto de um cálculo” (GANGUILHEM, 2005, p.42). A concepção de saúde do autor é a de verdade do corpo, diferente para cada um, já que, em cada vivente “algo se

harmoniza no interior do corpo e nas relações desse corpo com seu meio, ou seja, varia segundo os meios e segundo os organismos” (MILLER, 2011, p. 64). Canguilhem critica a noção de saúde pública e a concepção higienista que ela comporta como saber prescritivo: “saúde pública é uma denominação contestável. Salubridade conviria melhor” (CANGUILHEM, 2005, p. 44).

Concordamos com Miller (2011) que Canguilhem descreve a chamada saúde subjetiva de forma simples e eloquente, apontando para a importância da interlocução entre o doente e o médico e para a relação de transferência na base dessa relação, que permite ao doente endereçar suas palavras, mesmo sobre o sintoma orgânico, para que os sintomas possam ser lidos pelo médico na condição de um exegeta.

Meu médico é aquele que aceita, de um modo geral, que eu o instrua sobre o que somente eu estou fundamentado para lhe dizer, ou seja, o que meu corpo me anuncia por meio dos sintomas e cujo sentido não me é claro. Meu médico é aquele que aceita que eu veja nele um exegeta antes de vê- lo como reparador. A definição de saúde, que inclui a referência da vida orgânica ao prazer e à dor experimentados como tais introduz sub- repticiamente o conceito de corpo subjetivo na definição de um estado que o discurso médico acredita poder descrever na terceira pessoa. (CANGUILHEM, 2005, p. 45).

Canguilhem (2005) apresenta importantes pontuações sobre o que acontece na relação entre o doente e o médico na busca da cura. Um ponto é a decalagem entre a esperança que o paciente fundamenta na presunção de poder decorrente de um saber que ele empresta ao médico e a consciência dos limites de eficácia. O elemento de subjetividade percebido na cura pelo médico expõe a dificuldades que o conduzem a conceber a cura, em uma ótica médica tradicional, como efeito de um tratamento causal que sanciona a validade do diagnóstico e da prescrição. Além dessa perspectiva, Canguilhem reconhece outra prática médica, daqueles “[...] para quem a psicanálise existe como instância de questionamento sobre sua prática e seus pressupostos” (CANGUILHEM, 2005, p. 51). A cura surge como signo da capacidade do paciente de acabar com suas dificuldades. Não é comandada do exterior, mas uma iniciativa reconquistada.

Se Canguilhem chama a atenção para a exigência de uma clínica atenta aos afetos e suas implicações no corpo, ele também adverte para o risco de um excesso subjetivista:

Em suma, porque os médicos negligenciam indagar pacientemente a eventual aflição afetiva de seus clientes, preocupados, por outro lado, com a atualidade de sua competência, será que se deve concluir por sua inferioridade em relação ao primeiro terapeuta que chegou prevalecendo-se da psicossomática? Este último seria mais qualificado para obter a cura de uma obesidade, a princípio consecutiva a comportamentos alimentares de compensação afetiva, mas doravante comandada por uma desregulação tireoidiana ou supra-renal? Em matéria de reducionismo em terapêutica, o psicologismo valeria mais do que o fisiologismo? (CANGUILHEM, 2005, p. 68).

Para o autor (CANGUILHEM, 2005, p. 69), “uma coisa é obter a saúde que se acredita merecer, outra coisa é merecer a saúde que nos propiciamos”. O que caberia ao médico em uma cura seria tanto prescrever o tratamento exigido pelo estado orgânico do paciente quanto instruí-lo sobre sua responsabilidade na conquista de um novo estado de equilíbrio com as solicitações do meio ambiente, tarefa que não se pode delegar a ninguém. Comparando o objetivo do médico ao de um educador, Canguilhem (2005) define-o como tornar sua função inútil.

O autor faz apelo a uma crítica da razão médica prática para reconhecer na prova mesmo da cura a necessidade de colaboração entre saber experimental e não saber, que seria “[...] propulsivo desse a priori de oposição à lei da degradação, do qual a saúde exprime um sucesso sempre reposto em questão” (CANGUILHEM, 2005, p. 69). Fazendo referência ao que Freud chamou de “prova de realidade32”,

como o que deveria comportar uma pedagogia da cura, se ela fosse possível, afirma:

Essa pedagogia deveria tender a obter o reconhecimento, pelo sujeito, do fato de que nenhuma técnica, nenhuma instituição, atuais ou por vir, lhe assegurarão a integridade garantida de seus poderes da vida. Porque a saúde não é uma constante de satisfação, mas o a priori do poder de dominar situações perigosas [...] Aprender a curar é aprender a conhecer a contradição entre a esperança de um dia e o fracasso, no final, sem dizer não à esperança de um dia. Inteligência ou simplicidade? (CANGUILHEM, 2005, p. 69).

Perguntamo-nos: se a démarche clínica da ergologia que se depreende da obra de Canguilhem não dispensa o recurso a uma dimensão da subjetividade, como ela se apresenta em suas conceitualizações? Retomando a questão que Badiou (1990)33 coloca: há uma teoria do sujeito em Canguilhem? Em nossa

32“Processo postulado por Freud que permite ao indivíduo distinguir os estímulos provenientes do

mundo exterior dos estímulos internos, e evitar a confusão possível entre o que o indivíduo percepciona e o que não passa de representações suas, confusão que estaria na origem da alucinação”. (LAPLANCHE; PONTALIS, 1988, p. 490).

pesquisa, indagamos: quais as implicações de uma teoria do sujeito canguilhemiano sobre a clínica ergológica?

Badiou (1990) reconhece que talvez seja inútil impor a uma obra de epistemologia uma questão a que ela se furta ou que não se coloca de maneira explícita. No entanto, afirma também que, na obra de Canguilhem, o sujeito é convocado em vários pontos estratégicos do pensamento: primeiro, na descontinuidade quase ontológica que separa o vivente do não vivente; segundo, na descontinuidade operatória que distingue a técnica da ciência; finalmente, na descontinuidade especialmente ética que, na medicina, articula as dimensões do saber e da proximidade no clínico.

Para Badiou (1990), Canguilhem considera o vivente como pré-subjetivo. O sujeito é pensado no enodamento de três noções essenciais: centro (ou centração), norma e sentido. Todo vivente seria um centro na medida em que constitui um meio normativizado, onde comportamentos e disposições adquirem sentido com respeito a uma necessidade. A centração poria objeções à pretensão das ciências de considerar o real (isso que constitui seu objeto) de forma única e unívoca. Já o sentido, em Canguilhem, apresentaria uma perspectiva biológica e psicológica, sendo uma apreciação de valor em relação a uma necessidade – esta, para quem a experimenta, é um sistema de referência irredutível. “Há um centro de referência que poderia dizer-se absoluto”. (CANGUILHEM apud BADIOU, 1990, p. 5).

Quase toda a obra de Canguilhem, diz Badiou (1990), seria animada pela questão do estatuto do sujeito cognoscente nas ciências da vida. O sujeito estaria exatamente no ponto de conflito entre dois absolutos: conhecimento (descontinuidade contranatural, projetada no complexo da técnica e da ciência) e vida (continuidade natural). Nas palavras de Badiou:

El tema del sujeto trama finalmente una triple determinación negativa: - La centración, que es el absoluto del viviente, hace obstáculo al despliegue objetivo de un universo absoluto. - El sentido, que transita por la suposición de las normas, hace obstáculo al acabamiento de una biología íntegramente reducida a lo físico-químico [como querría la posición fisicalista]. - La ficción, finalmente hace obstáculo a un abordaje frío por el puro saber del desamparo del viviente. (BADIOU, 1990, p. 5).

Referindo a constância do tema da irredutibilidade da prática médica a uma cientificidade eficaz na obra de Canguilhem, Badiou (1990) diz que o recurso à subjetividade na obra de Canguilhem torna-se cada vez mais massivo, e traz a

seguinte citação de Canguilhem para compreendermos melhor a função que atribui à ficção no vivente e à importância de sua escuta na prática clínica:

El enfermo es un Sujeto, capaz de expresión, que se reconoce como Sujeto en todo lo que no sabe designar más que mediante posesivos: su dolor y la representación que se hace del mismo, su angustia, sus esperanzas y sus sueños. Entonces aun cuando bajo la mirada de la racionalidad se desprendería en todas estas posesiones otras tantas ilusiones, queda que el poder de ilusión debe ser reconocido en su autenticidad. Es objetivo reconocer que el poder de ilusión no es propio de la capacidad de un objeto. […] Es imposible anular en la objetividad del saber médico la subjetividad de la experiencia vivida del enfermo. […] Esta protesta de existencia merece ser escuchada, tanto más cuanto que opone a la racionalidad de un juicio bien fundado el límite de una especie de suelo imposible de perforar. (CANGUILHEM apud BADIOU, 1990, p. 5).

Badiou (1990) conclui que, em Canguilhem, pensar o sujeito inclui três coisas: a humanidade como a singularidade do devir infinito das verdades; o conhecimento como falha na plenitude neutra do universo e fruto da insatisfação nata do vivente; a ficção como o que se subtrai à tentação do fatal. Podemos depreender daí que a possibilidade de aproximação do que seria o sujeito na obra de Canguilhem somente é possível por uma abordagem local, no caso a caso, como na clínica. A ação clínica teria como orientação esse devir infinito das verdades que enlaçam conhecimento e ficção no conflito entre conhecimento e vida.

Depreender da obra de Canguilhem toda a dimensão de sua função clínica é tarefa que vai além do que nos propomos aqui, pois a amplitude de sua influência sobre toda uma geração de pensadores franceses exigira um esforço muito maior. Como afirma Foucault:

Suprimam Canguilhem e vocês não compreenderão mais grande coisa de toda uma série de discussões que ocorreram entre os marxistas franceses: vocês não mais apreenderão o que há de específico em sociólogos como Bourdieu, Castel, Passeron, e o que os marca tão intensamente no campo da sociologia; vocês negligenciarão todo um aspecto do trabalho teórico feito pelos psicanalistas, especialmente os lacanianos. Mais: em todo o debate de ideias que precedeu ou sucedeu o movimento de 1968, é fácil reencontrar o lugar daqueles que direta ou indiretamente, haviam sido formados por Canguilhem. (FOUCAULT, 2005, p. 353).

O importante é destacar que o trabalho que Canguilhem desenvolve na busca de compreender conceitos da prática médica é um esforço de crítica epistemológica a partir de uma suspeita geral quanto à não inocência de normas e conceitos da medicina. O efeito dessa crítica leva, acreditamos, à exigência de uma abordagem eminentemente clínica, onde as noções de saúde e doença devem ser operadas sob o plano de uma subjetividade que, mesmo implícita, é central. A localização

realizada por Badiou (1990) do que seria o sujeito na obra de Canguilhem permite afirmar que essa mesma noção implícita de subjetividade mantém-se na clínica ergológica com a noção de uso do corpo-si, instância que realiza o esforço vital de renormalização do meio em presença constante do conflito entre o conhecimento e vida.

Benzer Belgeler