A segunda categoria de análise que trata do grupo de trabalho é a integração social Procurou-se compreender de que maneira as relações de trabalho estão estabelecidas, especialmente no que concerne ao relacionamento com os homens no ambiente de trabalho, além da percepção que essas trabalhadoras possuem acerca de sua aceitação dentro da organização e do apoio oferecido pelos colegas, por elas e por pessoas próximas a elas. Foram
utilizadas as unidades de contexto “percepção” e “relações de trabalho”.
No Quadro 10 a seguir, é apresentada a frequência dos resultados acerca da integração social no grupo de trabalho, com um destaque para as falas relativas às relações de trabalho, responsáveis por 53% dos 108 fragmentos desta categoria de análise, ao passo que a percepção apareceu com 47% desse total:
Quadro 10 – Resultado da Integração Social no grupo de trabalho Unidade de Contexto P1 P2 P3 P4 P5 P6 P7 P8 P9 P10 P11 P12 P13 P14 Total % Percepção 4 2 2 7 4 4 7 5 3 0 1 5 3 4 51 47% Relações de Trabalho 5 2 3 3 4 3 5 4 5 3 4 3 7 6 57 53% Total 9 4 5 10 8 7 12 9 8 3 5 8 10 10 108 100%
Fonte: Dados da pesquisa.
Quanto ao fato de se sentirem acolhidas pela organização, as trabalhadoras declararam estar integradas e não sentirem preconceito, mas não necessariamente houve uma apresentação inicial ao seu grupo de trabalho quando ingressaram na empresa: “Quem me apresentou mais foi minha mãe, que ela já tava aqui, aí ela chegava dizendo ‘ah é minha
filha’.” (P5); “Quando a gente chega aqui, a gente não conhece ninguém. Às vezes, por
exemplo, eu conheço a pessoa da outra obra. Aí a gente vai passando e perguntando quem é quem, porque senão, não sabe quem é.” (P12); “Com o pessoal da administração, eu fui apresentada diretamente. Já com os operários foi mais aquele contato de quando já tava já no início do expediente, aí eu tinha contato com eles porque eu tinha que saber nome, saber função, pra poder fazer o trabalho.” (P13); “Eu fui conhecendo aos poucos. ‘Ah, esse aqui’,
‘Ah, você que é o fulano de tal que todo mundo fala?’. Realmente não teve [apresentação]. Eu só fui apresentada pro chefe, pronto. Os demais eu fui conhecendo com o convívio.” (P14)
Já algumas sentiram um apoio maior por parte da empresa durante seu processo de integração: “Eles receberam a gente de braços abertos. A mulher não era valorizada na
construção civil. (...) Mas depois, com o decorrer do tempo que eles vieram ver, notar que a mulher faz o serviço ainda melhor que o homem.” (P1); “Tivemos acompanhamento. Pelo menos, eu tive. Eu já venho da outra [obra], né? Então tive todo o acompanhamento, apresentação da empresa, conheci todo mundo.” (P4); “Teve treinamento, aí a gente já começa a se apresentar no treinamento. Que é onde dão às boas vindas também à empresa.” (P7)
Sobre o relacionamento com os colegas, de maneira geral, as trabalhadoras não demonstraram ter problemas: “Graças a Deus eu me dou bem com todo mundo.” (P2); “Todos são respeitosos, nunca teve falta de respeito. (...) Só tenho a agradecer que até hoje fui sempre muito bem recebida e continuo me recebendo muito bem. (...) É uma família, como dizem.” (P4); “O pessoal é muito receptivo, isso é muito importante pra mim. Eu também não tenho dificuldade, assim, em me relacionar com as pessoas. A facilidade que eles me ofereceram também de entrosamento, de convívio, é muito bom que eu tenho.” (P13)
Algumas delas consideram apenas ter colegas de trabalho (P2; P3; P4), enquanto outras afirmam possuir amigos dentro da organização: “Até mesmo a gente se torna irmãos, porque aqui a gente forma uma outra família. (...) A gente na hora do almoço senta, conversa, coloca os papos em dia.” (P1); “Tem, tem [amigo], me ajuda também, quando eu ‘to’ com dificuldade com alguma coisa.” (P5), “Apesar de eu ser uma pessoa muito fácil de convivência, eu sou uma pessoa muito reservada em assuntos pessoais, família, esse tipo de coisa. Mas aqui você pode contar com amigos. (...) Você vê que tem uma amizade fora do
trabalho.” (P13); “tem um amiga que eu costumo confiar mesmo, muito, (...) que é a técnica
de segurança.” (P14)
Sobre a relação com os homens no trabalho, de maneira geral, as entrevistadas alegaram haver respeito por parte deles, não sofrerem assédio, mas afirmam que piadas e cantadas são recorrentes no dia a dia do trabalho: “Piadinha eles fazem, né, mas não é muito difícil lidar com peão, não. É assim mesmo.” (P5); “Sempre tem um que é mais pra frente do
que o outro, ‘né’, mas você se sai de maneira educada porque consegue.” (P7); “Assim, dá em cima, mas... Não dou bola não.” (P9); “Como tem muitos homens, a gente, principalmente
nós, mulheres, tem um pouco aquele tipo de receio, porque... Operários... Aí não pode ver uma menina nova, aí começa aqueles olhares, as brincadeiras e tudo, aí no começo é difícil.” (P13); “Assédio não, eles vêm mulher, eles aproveitam. ‘opa, vou lá’, dá uma enxerida. Isso é normal, mas assédio eles não fazem, graças a Deus, nada dessas coisas. Só enxerimento, que é
As trabalhadoras mencionam que é preciso impor um certo respeito, para que elas também sejam respeitadas por seus colegas de trabalho: “Nada de puxar muito assunto. Quando ele tá puxando muito assunto, eu já boto a massa e pronto.” (P6); “Se você souber se comportar, passar o respeito praquela pessoa, principalmente no local de trabalho, que não funciona assim, você tá ali realmente pra trabalhar, eles vão passar a te respeitar.” (P7)
No entanto, tal atitude não é exclusividade da construção civil: “Mas é isso, isso
não só na construção civil, mas em todo trabalho, em todo trabalho você é um pouco
assediado. Cabe a você saber se dar o devido respeito.” (P7); “Mas assim, isso tem em todo
lugar. Não é só na civil não. Se até em casa de família, se a pessoa vai trabalhar de empregada
doméstica, o patrão já dá em cima da empregada. Imagina em um negócio desse daqui?” (P8)
Duas das trabalhadoras entrevistadas explicam que a sensação que têm é que, após algum tempo, passam a ser vistas como homens: “No começo, eu tava um pouco tímida, ficava envergonhada porque eu passava e parece que, sabe, eles ficavam olhando. E às vezes até de outras maneiras. Mas agora, não. (...) Depois, com a convivência, aí eles vão tratando
assim... É homem!” (P12); ou necessitam agir como pessoas do gênero masculino: “Eu particularmente com eles eu tento ter uma relação de ‘homem para homem’, digamos assim.
Não sei, porque eu fui criada com muitas homens, aí o jeito de eu falar, assim, às vezes é
muito masculino.” (P13).
Esse comportamento acaba por protegê-las de piadas e de cantadas: “Eu nunca tive problemas assim deles comigo porque eu praticamente chego lá praticamente como se eu fosse um menino, pra fazer alguma coisa. Aí eu nunca tive problemas.” (P13)
Uma delas explicou que na construtora em que trabalha atualmente não há
preconceito, mas este pode ser percebido em outras empresas do setor: “Muitas vezes a gente
procura emprego em outras construtoras: ‘Não, aqui a gente não põe mulher’. ‘Ah, por que, você tem preconceito com mulher?’ ‘Não, porque aqui a gente não tem alojamento pras
mulheres.’ (P1)
No entanto, parece haver uma distinção, percebida por uma das trabalhadoras:
Primeiro, ‘né’, eles, por ver que você é mulher, já levantam logo a voz. Como eu falei, muitas vezes a gente tá explicando alguma coisa e eles não querem entender. Porque eles entendem, não querem é entender, é diferente. E o tratamento com a mulher é diferente, porque eu já comparei, assim, a forma como eles falam comigo e a forma como eles falam com o almoxarife, que é um homem. É bem diferente. Dificilmente aumentam a voz. (...) Respeito, eles tratam, isso aí eu não posso dizer assim que eles se dirigem com palavras, palavrões, isso aí eles não falam com a gente. Mas assim, a questão diferente que eu acho é o tom da voz. Eles elevam muito o tom da voz com a mulher. Acho que porque já é cultura, né, habituado a levantar sempre, sempre dizer que falar mais alto. (...) Quando eles vêm uma
mulher, eles querem sempre dizer que falam mais alto. Assim, o que eles fazem muito é isso, com a gente, mulher. (P14)
Com relação ao ambiente de trabalho:
Esse negócio aí, mulher, é meio difícil, porque... Vou falar a verdade, todo peão ele é meio... É chato porque são poucas mulheres e eles ficam tudo enchendo o saco, ficam tudo falando assim, dá em cima da gente, praticamente. Mas depois... Quando eu entrei, eu estranhei. Quando eu entrei, era na hora do almoço... Aí eu perguntei à mãe ‘Mãe, pelo amor de Deus, é essa ‘ruma’ de gente?’. Um monte de peão aí. Como só tinha eu e ela, aí então... Aí eu estranhei porque era muito homem. Aí a gente almoçava lá na mesa só nós, e os outros peão [sic] tudo ao redor, achei esquisito, mas depois aí com o tempo fui acostumando. Criei amizade com tudinho. Só tem uns que eu não gosto, que também não gostam de mim, mas... Não tem que lidar com peão não, porque eles são chatos pra caramba. (P5)
Mas algumas trabalhadoras ressaltam que o gênero, no trabalho, não é um fator
relevante: “É fácil você fazer o seu trabalho, independente de ser com homem ou com mulher,
se você tiver focado, se você tiver força de vontade, se você tiver um foco, um objetivo, você
consegue realizar todo as suas atividades.” (P13); “Eu não acho esquisito porque das outras
obras... por exemplo, no restaurante que eu trabalhei. Eu trabalhei com muita gente, então
tinha homem, tinha mulher, tinha viado, tinha sapatão, tinha tudo.” (P8); “Eu acho normal.
Não tem nada de difícil nem diferente não. Mesma coisa que você chegar numa firma grande
e num escritório. Você vai se deparar com todo o tipo de gente. Normal.” (P10)
No entanto, às vezes o preconceito quanto ao gênero é percebido:
Embora elas [mulheres] sofram muito preconceito, porque eu já vi no meu local de trabalho o mestre não querer pegar uma terceirizada, não querer deixar ela fazer o serviço por ela ser uma mulher. E aí eu conversei com ele, aí ele deixou ela trabalhar e o que ela fez, por exemplo, em um dia, e o serviço como foi feito muito bem, um homem não fez. (P12)
Quanto à reação das pessoas próximas sobre o fato de trabalharem na construção civil, há um certo receio por parte dos familiares e cônjuges dessas trabalhadoras: “Ah,
perguntou... ‘Você vai aguentar, baixinha?’, porque eu sou baixinha, ‘né’. Aí eu ‘vou, já trabalhei de tudo’.” (P6); “Minha mãe sempre fala ‘Filha, tu vai aguentar? Não é pra ti, procura outra coisa’.” (P7); “Só meu marido, né? Ficou meio assim... porque assim, só tem
homem. (...) Aí às vezes, por exemplo, meu marido pega meu telefone e vê muito número de homem. (...)Ele fica até ‘Só tem homem, é?’. Só ele mesmo, assim, que reclama.” (P12)
Às vezes, tem-se o apoio de uma pessoa, mas não das demais com relação ao trabalho que exercem, o que não se torna um fator desmotivador:
Meu marido sempre me apoiou, porque assim, como eu te falei, foi na época que ele tava desempregado. Surgiu a oportunidade? Surgiu. Logo depois, ele conseguiu um emprego. Ele poderia ter dito ‘Agora sai’. Ele disse ‘Não, fica’. Sempre teve aquele apoio, ‘né’. Agora a minha família, não, ela me critica assim, em ambas as partes. ‘Ah, porque você deveria ter terminado seus estudos’. Mas do que ia adiantar eu ir procurar algo melhor se eu gosto do que eu faço? Então cada vez mais, a minha pessoa procura aprender cada vez mais o que tem na construção civil, né. É como... No próximo ano eu vou fazer edificações. Uma melhoria. Não é porque eu vá trabalhar como técnica de edificações, não, é porque eu quero aprender mais ainda. Posso continuar exercendo a mesma função que eu faço, mas... Quem sabe futuramente? (P1)
Há também o caso de se ter uma posição mais neutra por parte das pessoas mais próximas, expressas como forma de conselho: “Meu pai ele falou assim, que eu tivesse bastante cuidado, porque peão, se você der liberdade, pronto. Aí dá em cima.” (P9) ou de confiança: “Meu esposo, ele disse que não tem nada mais, porque ele não conhece o que é
aqui na obra, mas me conhece.” (P8)
No entanto, para uma delas, a sensação é de que há uma imagem negativa das mulheres que trabalham em obras e é preciso zelar por seu comportamento, para que se tenha respeito por parte dos homens que trabalham no mesmo ambiente:
A mulher que trabalha em obra ela é muito mal vista, por todos. Mas assim, se você tiver uma característica respeitosa, se você passar respeito praquela pessoa, aquela pessoa também vai te respeitar. Agora assim, se você chegar e fizer tudo errado, ficar se jogando, é claro que eles vão entender de forma diferente e vão partir pra cima. (P7)
Em contrapartida, há quem não tenha sentido preconceito durante sua experiência
de trabalho: “Não, nunca me senti, digamos assim, inferiorizada, desprezada. Esse tipo de
coisa assim, não. Não pelo fato de ser mulher, de ser nova, isso aí nunca me foi problema
não.” (P13)