O arcabouço metodológico utilizado neste trabalho parte do princípio de que o processo de desenvolvimento econômico apresenta, cada vez mais, interdependência entre os diferentes setores produtivos da economia (visão sistêmica). Nesse sentido, a agricultura não pode mais ser abordada de maneira dissociada dos outros agentes responsáveis pelas atividades de produção de insumos, de transformação, de distribuição e de consumo de alimentos e matérias-primas. Além disso, conforme afirma Farina et al. (1997, p. 145), “a competitividade não se limita à eficiência produtiva em nível de firma. Passa a depender de toda a cadeia produtiva e de sua organização”.
Apesar das dificuldades de se estabelecer um consenso a respeito da definição de cadeia de produção, Parente, citado por Batalha (1997, p.39) define-a como “ a soma de todas as operações de produção e de comercialização que foram necessárias para passar de uma ou várias matérias primas de base a um produto final, isto é, até que o produto chegue às mãos de seu usuário (seja ele um particular ou uma organização)”. Ainda sob esse enfoque, Farina & Zylbersztajn (1992, p.191) definem a cadeia produtiva como um “recorte do sistema agroindustrial mais amplo, privilegiando as relações entre agropecuária, indústria de transformação e distribuição, em torno de um produto principal (frango, trigo, leite, tomate, laranja, soja etc.)”.
Outro aspecto relevante nesta abordagem conceitual liga-se à própria definição de competitividade. Apesar das diferentes visões existentes na literatura sobre o tema, pelo menos o caráter sistêmico – ou seja, que ela é afetada por um conjunto de fatores que se inter-relacionam – é um ponto em comum entre as variadas abordagens (BNDES, 1991). Como conseqüência de
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Ney Bittencourt Araújo, Luiz Antônio Pinazza e Ivan Wedekin são os principais responsáveis pela massificação do termo no Brasil através do livro “Complexo Agroindustrial: O Agribusiness Brasileiro”, de 1990.
tantas visões diferentes é o fato de se encontrar, na literatura, os mais diferentes conceitos e indicadores para mensurar a competitividade, como descritos anteriormente.
Van Duren et al. (1991), ao desenvolverem um referencial metodológico para analisar a
competitividade do agronegócio canadense, admitem que tanto a escola neoclássica de pensamento econômico quanto os paradigmas da organização industrial (OI) e da gestão estratégica fornecem conceitos úteis para a análise de competitividade nas cadeias agroindustriais. Esses autores, a exemplo de outros, consideram que a competitividade pode ser medida pela participação de mercado ocupada pela cadeia e pela sua rentabilidade. Esse mesmo enfoque foi adotado por Batalha & Silva (2000), ao estudarem eficiência e competitividade na cadeia agroindustrial da pecuária de corte no Brasil.
Ao se considerar o caráter sistêmico dos fatores que influenciam a competitividade das cadeias, pode-se adotar quatro grupos de fatores que podem contribuir, negativa ou positivamente, no desempenho competitivo das cadeias agroindustriais: fatores controláveis pelo governo, fatores controláveis pela firma, fatores quase controláveis e fatores não controláveis nem pela firma nem pelo governo (Van Duren et al., 1991 e Batalha & Silva 2000). Essa classificação é interessante porque, uma vez identificados os fatores limitantes da competitividade, permite delimitar o espaço de ação dos diferentes atores, caso sejam implementadas medidas de intervenção na cadeia. A relação de alguns desses fatores pode ser observada na Figura 2.3.
Figura 2.3 – Fatores determinantes da competitividade em cadeias de produção agroindustriais. Fonte: Adaptado de Van Duren et al. (1991) e Batalha & Silva (2000)
Os fatores controláveis pelo governo não podem ser modificados por uma ação específica dos agentes da cadeia, apesar de as ações governamentais estarem sujeitas à pressão dos agentes do setor. Por outro lado, os fatores controláveis pela firma, obviamente, podem ser modificados por decisão exclusiva dos agentes da cadeia. Os fatores quase controláveis pela firma encontram certa reciprocidade com os fatores holísticos tradicionalmente apresentados por Porter (1990) nos estudos de competitividade – ver, por exemplo, Hertford & Garcia (1999) e Luce & Karsten (1992). Dentre esses fatores, destacam-se: ameaças de novos concorrentes, competição entre os agentes da cadeia, poder de barganha dos fornecedores de insumo da cadeia e poder de barganha
C A D E I A D E P R O D U Ç Ã O A G R O I N D U S T R I A L Fatores controláveis pelo governo Fatores controláveis pela firma Fatores quase controláveis Fatores não controláveis Ambiente macroeconômico Ambiente institucional Infra-estrutura econômica e técnico-científica Preços dos Produtos, Custos, Qualidade, Tecnologia, Produtos, Estratégia competitiva Condições de demanda, Preços dos Insumos, Competição entre os agentes, Ameaça de novos concorrentes Fatores ambientais (temperatura, pluviosidade, etc.) Eficiência Eficácia
Coordenação Eficiência interna Atender demanda
dos clientes da cadeia. Observe-se que o poder de barganha dos fornecedores e dos clientes corresponde a como se comportam, respectivamente, os preços dos insumos e as condições de demanda (formação dos preços).
Segundo Hertford & Garcia (1999), os indicadores holísticos de competitividade são complexos e apresentam dificuldades para sua mensuração. Essa mesma constatação pode ser extensiva aos fatores quase controláveis pela cadeia. Na verdade, os fatores quase controláveis podem ser vistos como aqueles que podem resultar da ação do conjunto de atores já atuando na cadeia. Quanto aos fatores não controláveis, seus efeitos negativos podem ser minimizados a partir de ações conjuntas estabelecidas pelos governos e pelos demais agentes da cadeia.
Os estudos realizados por Van Duren, Martin e Westgren (1991) deram origem à formulação de uma metodologia em que a interação dos fatores que indicam o grau de controlabilidade dá origem aos chamados direcionadores da competitividade, providenciando conceitos particulares focados na determinação das causas da competitividade específica de uma dada cadeia produtiva.
Os direcionadores de competitividade propostos pelos autores têm procedência da economia neoclássica, organização industrial (estrutura-conduta-desempenho) e da literatura de gestão estratégica. Por exemplo, tecnologia, produtividade, insumos e custos, estrutura industrial e condições de demanda são fatores que vem diretamente das teorias econômicas e da organização industrial. Já a consideração de produto e relações de mercado explicita o reconhecimento da contribuição da literatura de gestão estratégica.
Van Duren, Martin e Westgren (1991) afirmam que a habilidade para ser competitivo, em mercados marcados por rápidas mudanças, é proporcional a atenção das empresas agroindustriais quanto aos fatores e direcionadores anteriormente mencionados. Com isso, eles reforçam a idéia de que a adoção de políticas públicas deve ser direcionada às necessidades específicas para oportunidades de desenvolvimento de mercado. E, quanto a políticas privadas, estas devem buscar explorar talentos individuais da empresa e dos mercados segmentados que podem atender.
Para o uso específico em cadeias produtivas agroindustriais, o conceito de competitividade pode ser derivado a partir do conceito de vantagem competitiva desenvolvido por Porter (1997), para a competitividade das empresas. Por este conceito, distinguem-se apenas duas formas de empresas se diferenciarem de suas concorrentes, apresentando uma vantagem competitiva: a diferenciação ou os baixos custos. Uma terceira dimensão a ser considerada,
afetando a diferenciação ou os baixos custos é o escopo, ou seja, a gama de segmentos de mercado visados pela empresa. A função deste modelo conceitual é o fortalecimento de elementos para a formulação de estratégias de gestão da competitividade das empresas.
Para o caso de cadeias produtivas de commodities, como é no caso da soja, face à não diferenciação do produto final, a competitividade é principalmente estabelecida por baixos custos, que permite uma lucratividade para a cadeia mesmo quando os preços dos produtos são baixos. Isto significa uma eficiência produtiva maior, ao longo de toda a cadeia.