5. SONUÇ, TARTIŞMA VE ÖNERİLER
5.2. Öneriler
Inicialmente, esta tese apresentou a ótica do cooperado, de sua utilidade e da maximização das sobras líquidas como direito de propriedade residual. No entanto, equilibradamente, procura-se evidenciar que a grandeza desses fatores econômicos vai depender substancialmente da evolução da firma cooperativa, de modo inter-relacionado. É, portanto, fundamental a visão do comportamento da firma e das particularidades, para melhor compreender o cooperativismo como atividade-meio para o desenvolvimento econômico e social dos cooperados.
Do ponto de vista neoclássico, vários são os autores que conceituam a firma como uma unidade técnica, onde se produzem mercadorias e serviços, de acordo com uma função de produção, em que diversos fatores são alocados entre diferentes usos e proporções, determinados sempre pelo mecanismo de preços. Ou seja, enquanto para a Economia
Neoclássica a firma é uma função de produção, a Economia dos Custos de Transação entende que é uma empresa de governança alternativa em relação ao mercado (WILLIAMSON, 1996).
Contudo, para Bialoskorski Neto (2012), a firma é entendida como um arranjo de diferentes contratos entre diversos agentes econômicos, em que o custo de transação afetaria não só esses arranjos, mas também a alocação de recursos e a forma com que os bens e serviços são produzidos. Há, pois, custos de transação que devem ser considerados e são diferentes da simples incerteza nas negociações, ou mesmo dos custos de informação. Williamson (1985) define esses custos de transação como os custos ex-ante de elaborar um instrumento contratual e os custos ex-post dessa negociação.
Num dos aspectos mais importantes dos estudos do economista americano, Coase (1937, p. 16), refere-se às firmas e como estas atuam, ou seja, por meios de contratos (firma
contratual), notando que “as organizações são relações contratuais coordenadas por
mecanismos idealizados pelos agentes produtivos”(SZTAJN et alii apud SZTAJN;
ZYLBERSZTAJN,2005, p. 105).
Nesse modo de entender, tudo o que se relacione a contratos passa a ser importante para a economia, como os adimplementos e as formas de solução de controvérsias, ou mesmo, pela criação da personalidade jurídica com funcionamento das organizações societárias e com a criação de empresa para alocação de recursos da produção, por meio de decisão hierárquica.
Para Coase (1937), a firma é vista como um arranjo institucional que substitui a contratação renovada de fatores no mercado, por uma outra forma de contratação, representada por um vínculo duradouro entre fatores de produção. Dessa forma, o emprego do capital e do trabalho, por exemplo, a exploração da atividade rural pelo cooperado, a industrialização e a comercialização de sua produção, sem a interferência da organização cooperativa, alcançariam resultado diferente. Esse resultado decorre de vários fatores, principalmente da garantia da estabilidade na manutenção do preço e da qualidade do produto, ao longo de um futuro indeterminado, incluindo as variações de mercado que podem vir a ocorrer. Portanto, no arranjo institucional, há a estabilidade e a garantia nas relações econômicas, que são os meios indispensáveis para o cooperado alcançar o resultado desejável, decorrente da exploração, industrialização e comercialização da produção rural.
Na abordagem realizada por Coase (1937), identificam-se duas alternativas de alocação de recursos na firma: uma pelo mercado, flexível, elástica, respondendo à mudança nas condições e sinalizada pelos preços; outra, pela hierarquia, correspondendo às ordens emitidas pela hierarquia interna da firma, que destina os fatores contratados na utilização produtiva. Essas alternativas são percebidas também nas sociedades cooperativas de produção agropecuária, inclusive, as de produção agroindustrial; porém, ante suas peculiaridades, os recursos dessas firmas são obtidos, em grande parte, pelos aportes de capital, realizados pelos cooperados e decorrentes das destinações específicas da sociedade cooperativa, as sobras líquidas ou os lucros apurados nas operações atípicas.
Na mesma linha argumentativa, Alchian e Demsetz (1972) visualizam a empresa como um meio de realizar as economias de produção da equipe, sendo que os membros dessa equipe estão vinculados à empresa por um nexo de contratos. De acordo com estes autores, a vida da firma é explicada pela necessidade de manter uma equipe e controlar seu desenvolvimento. A firma é alcançada quando a produção de um ativo e de alguns fatores forem utilizados, conjuntamente, ficando difícil de saber o que decorre da contribuição do próprio indivíduo, em termos de trabalho (e, portanto, todos poderiam ser incentivados a trabalhar menos), requerendo uma pessoa para ser responsável apenas para controlar os outros. O controlador será pago a partir do excedente gerado, em virtude do controle que realiza: com melhor controle, há maior retorno do residual. Para Coase (1937) e Williamson (1983), além da observação de Guido (2011), existe a necessidade para a empresa-eficiência de operar com redução dos custos de monitoramento em vez de custos de transação.
Ante a inequívoca existência das empresas no mundo real, cumpre identificar o fundamento da existência das firmas. Para Alchian e Demsetz (1972), esse fundamento, relacionado à cooperação nas relações econômicas, residiria na necessidade de organizar a produção em equipe (team productive process) mediante a polarização de todas as reações contratuais em um único sujeito (centralized contractual agent), que é a empresa. A produção em equipe é conceituada como três tipos de produção:
Produção 1) diversos tipos de recursos são utilizados e 2) o produto não é a soma de separáveis resultados (outputs) de cada recurso cooperativo. Um fator adicional cria um problema de organização de equipe; – 3) nem todos os recursos utilizados na produção em equipe pertencem a uma pessoa. (ALCHIAN; DEMSETZ, 1972, p 23)
Nesse sentido, a firma será mais eficiente à medida que remunerar aqueles que cooperarem, na proporção do esforço de cada um. Para tanto, contribuem dois conceitos fundamentais da firma: a medição da produtividade e a remuneração proporcional ao esforço (ALCHIAN; DEMSETZ, 1972, p 33).
A medição da produtividade e a recompensa conduzida pelo mercado não são isentas de custos, pois envolvem custos de medição. Por esse motivo, haverá ocasiões em que o mercado desempenhará deficientemente essas funções, em especial quando se trata da medição dos esforços realizados por diversos sujeitos para uma atividade comum e a correlata recompensa. Nesses casos, pode haver mais eficiência na organização em equipe, isto é, na forma de empresa, que cuidará de medir a produtividade marginal de cada um dos agentes econômicos que cooperam com a produção, de modo a recompensá-los na média de sua contribuição. Com efeito, Achian e Demsetz (1972) entreveem, na firma, um mecanismo de viabializar a
team production, nos casos em que o esforço de cada indivíduo é necessário para a produção,
mas não se consegue distinguir, no out put, no sentido de quanto o indivíduo colaborou.
Assim, a produção em equipe (isto é, em empresa) torna-se mais eficiente, precisamente nos casos em que há dificuldade na medição da produtividade marginal de cada um dos agentes que aportam recursos com uma finalidade comum, de modo a determinar a remuneração correspondente.
Olson (1999, p. 15) contribui para a compreensão da firma quando enfatiza que não há sentido em formar uma organização, quando uma ação individual independente pode servir aos interesses do indivíduo tão bem ou melhor do que aquela (firma). Assim, as organizações podem desempenhar uma função importante, quando há interesses comuns ou grupais a serem defendidos; embora elas, frequentemente, também sirvam a interesses puramente pessoais e individuais, com funções e características básicas de promover interesses comuns de grupos de indivíduos.
Por sua vez, utilizando os conceitos de cooperação e analisando as vertentes teóricas do estudo das organizações cooperativas apresentadas por Cook et alii (1995b), as sociedades cooperativas podem ser visualizadas como uma firma, que é extensão de propriedade do
cooperado. A firma constitui o nexo de contratos entre os cooperados produtores rurais que decidiram cooperar.
Para Sztajn et alii (apud SZTAJN; ZYLBERSZTAJN, 2005, p. 32), o contrato tem como motivação econômica o interesse mútuo das partes, o qual precisa modificar-se numa transferência de direitos e estabelecimento de deveres. E, ainda, é necessário repisar que as organizações cooperativas são criadas para promover os interesses comuns dos cooperados, com direitos igualitários de ter serviços, informações e assistência técnica.
Staatz (1987) define a sociedade cooperativa agropecuária como uma organização econômica de propriedade coletiva, constituída por produtores rurais, com o intuito de fazer frente às falhas de mercado. A propriedade das cooperativas é concretizada desde que o cooperado estabeleça contrato formal com a organização e assuma a obrigatoriedade de adquirir cotas- partes de capital (capital social) da sociedade para ter direitos garantidos de propriedade e de usuário. Como não há clara separação desses distintos direitos no contrato, os cooperados adquirem direitos vagamente definidos. Essa característica dificulta a gestão e o investimento nas organizações. Em síntese, as cooperativas diferem das demais organizações (sociedades empresariais) por duas razões: os cooperados são simultaneamente proprietários, usuários e consumidores dos produtos e serviços e o direito ao controle não é vinculado ao direito residual (COOK, 1995, p. 21).
Os cooperados, por imposição institucional externa e com vista a otimizar o processo de tomada de decisão, reúnem-se em assembleias gerais para exercer o direito de controle residual. Por exemplo, nas assembleias, elegem o conselho administrativo e, por meio de instrumentos contratuais legais, transferem-lhe o direito de controle formal. Portanto, cabe à autoridade formal controlar a organização.
Diferentemente do modelo de Rochdale, outro tipo de sociedade cooperativa, que Olson (1995) apropriadamente denomina de Kirkpatrick, é controlado exclusivamente por uma organização legal e independente, com objetivos mais legislativos e lobísticos do que comerciais ou econômicos. Via de regra, a sociedade cooperativa Kirkpatrick tem sido bastante lucrativa, lucratividade que deriva, frequentemente, do tratamento tributário favorável. Ressalte-se que o modelo societário em análise tem, como suporte fático do
ambiente institucional, a Lei nº 5.764 (BRASIL, 1971), possuindo tratamento tributário adequado, já previsto constitucionalmente.
Observa-se que as instituições são relevantes na análise econômica e podem ser compreendidas e explicadas por meio de instrumental dessa teoria. É nesse sentido que a firma é considerada uma rede de contratos entre os proprietários dos recursos utilizados no processo produtivo e a sociedade cooperativa de produção agropecuária. Esta centraliza as relações contratuais de natureza socioeconômica, utiliza-se de modelo societário específico, definido com a finalidade precípua de prestação de serviços aos cooperados.
Para a investigação teórica da firma, a análise aqui conduzida será centrada em nível de instituições formais e mecanismos de governança, seguindo sempre a escola liderada por Williamson (1996): as organizações influenciam as instituições e são por elas influenciadas.
É nesse contexto, sob regras formalmente definidas, que os cooperados podem obter ganhos pecuniários e não pecuniários. Os ganhos não pecuniários são relacionados ao status, ao conforto e aos gastos supérfluos, descritos por vários autores como privilégios. Tais ganhos não são destinados ao aumento de riqueza, mas sim ao aumento do bem-estar dos cooperados.