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5. SONUÇ TARTIġMA VE ÖNERĠLER

5.2 Öneriler

A atenção especial para a possibilidade de uma subcultura política do clientelismo foi despertada por ocasião de um conjunto de eventos ocorridos no primeiro semestre de 2000, envolvendo a cassação do mandato do prefeito da cidade, o Sr. Antônio Belinati.107 O que nos interessou nesse conjunto foi a presença de manifestações públicas de apoio ao prefeito, realizadas por setores populares da periferia da cidade, e que revelavam fortes vínculos clientelísticos com o prefeito acusado (Anexo A).108

De fevereiro de 1999 a junho de 2000, o prefeito da cidade de Londrina esteve envolvido numa série de denúncias de corrupção e improbidade administrativa que o levaram a sofrer um processo de cassação de mandato, encetado pela Câmara de Vereadores e que culminou com a perda de seu mandato. Todo o processo de denúncia, investigação e cassação, foi sustentado por um forte e expressivo movimento de segmentos da sociedade civil, que exigia o esclarecimento sobre o esquema de corrupção aventado e a punição dos possíveis envolvidos. Em fevereiro de 2000 alguns setores da sociedade civil da cidade, contrários ao prefeito, agrupados no “Movimento da Moralidade”, composto por sindicatos de trabalhadores, sindicatos patronais, por algumas Associações de Moradores, pastorais religiosas, Maçonaria e outros, firmam a reivindicação de instalação de uma CEI (Comissão Especial de Inquérito) pela Câmara de Vereadores para investigar as denúncias de irregularidades na administração pública municipal.

Dura, mais ou menos, um mês o tempo necessário para sua instalação e, nesse intervalo, aparece também, com destaque, uma série de mobilizações populares de apoio e solidariedade ao prefeito. São manifestações e notas de apoio ao prefeito, organizadas principalmente por “lideranças de bairros e assentamentos”, ligadas a Associações de Moradores de Londrina e à Federação dos Assentamentos e Sem-Teto de Londrina.109 O apoio desses “segmentos populares”, ou em outros termos, utilizados pela imprensa na época, da “população pobre” ou, ainda, das “populações mais necessitadas”, deu-se, principalmente, por

107 Sobre o processo de cassação, ver CÉSAR (2001) e SILVEIRA (2004).

meio de manifestações públicas em frente a Câmara de Vereadores, ao Fórum e a Prefeitura da cidade. Visavam, em especial, “prestar solidariedade ao prefeito” e pressionar os responsáveis pelas investigações para que recuassem das denúncias.110

De acordo com o resumo de um jornalista que acompanhou de perto o desenrolar dos eventos, o prefeito, “[...] acuado, mobilizou setores populares despolitizados através de entidades como associações de moradores que tinham vínculo político com ele através de formas de cooptação que iam desde empregos na administração municipal ou na Frente de Trabalho, ou outras formas de clientelismo. Como líder populista, Belinati tinha – como ainda tem – apoio de segmentos populares cooptados através de práticas clientelistas”. (SILVEIRA, 2004, p.25).

Esses eventos revelaram, com exuberância, a presença de clientelas políticas organizadas pelo prefeito e seus asseclas (funcionários públicos, comissionados e cabos eleitorais). Mais do que isso, graças ao trabalho de jornalistas locais, pôs-se em evidência também, inúmeros depoimentos de eleitores- clientes do prefeito, de modo a insinuar, pela recorrência de algumas representações nas falas, a presença de um conjunto de noções, crenças, valores e práticas a respeito da atividade política, e que foram aventadas por causa da participação no vínculo clientelista, que pareciam compor uma espécie de subcultura política própria à política de clientela, ou, nos termos que escolhemos, uma subcultura do clientelismo.

Instigados pela revelação que os eventos traziam sobre a existência de uma expressiva clientela política ligada ao ex-prefeito Antônio Belinati, resolvemos iniciar uma investigação sobre a referida clientela, partindo de um problema central que pode ser resumido nas seguintes perguntas: as práticas clientelistas, quer dizer, aquelas que articulam a relação entre o político e o eleitor, através da troca de benefícios – “ajudas” e “favores” -- por voto e apoio político, são orientadas por algum conjunto coerente de procedimentos, representações, noções e valores? Ou seja, seria própria a essas práticas alguma subcultura política? Seria possível vislumbrar uma espécie de subcultura do clientelismo, 109 Folha de Londrina, 23 fev. 2000, p.5; Folha de Londrina, 25 fev. 2000, p.7; Jornal de Londrina, 23 fev. 2000, p.4A.

orientando/motivando a participação dos envolvidos nos vínculos desse tipo, em especial os membros dos setores populares? Ou, em outros termos, quando os indivíduos envolvidos nos vínculos clientelistas agem na relação do vínculo, será que compartilham práticas, representações, noções e valores que articulariam estes vínculos? Buscamos então, capturar essa possível concepção específica de política ou, mais exatamente, essa concepção sobre a conduta presente na orientação das ações políticas daqueles indivíduos ligados aos vínculos de clientela, tomando como procedimento o exame do conjunto das relações e práticas produzido a partir da elaboração e reprodução do vínculo de clientela.

Para o levantamento de informações sobre a clientela política que nos interessa, apoiamo-nos então: 1º) no material jornalístico que trata das manifestações públicas de apoio ao ex-prefeito acusado de corrupção (1999/2000), e que contém bom volume de informações e de entrevistas realizadas com alguns indivíduos pertencentes à clientela de Belinati.111 E, 2º) principalmente, contamos com um conjunto formado por 16 entrevistas que realizamos entre os anos de 2003 e 2005 com eleitores que supúnhamos pertencer à clientela de Belinati, nos termos em que definimos clientelismo na introdução. Cuidamos em entrevistar112 eleitores que mantém vínculos políticos com Belinati há mais de 6 anos e que acompanharam de perto ou participaram diretamente daquelas mobilizações (1999/2000) de apoio ao ex-prefeito.

111 O registro desses depoimentos se encontra, principalmente, nos jornais locais: Folha de Londrina e Jornal de Londrina, em edições que vão de março de 1999 até agosto de 2000.

112 As entrevistas foram realizadas nas residências dos entrevistados. Seguiram o formato de entrevistas semi-diretivas, com suporte num roteiro previamente pensado e no uso do gravador (Anexo B). O roteiro preparado priorizou cercar as concepções e avaliações dos entrevistados a respeito da relação de clientela que mantém com Antonio Belinati. Por certo que suas concepções sobre o universo da política são bem mais complexas do que pudemos coletar e do que aquela parte que optamos por destacar. No entanto, acreditamos ter conseguido mapear, razoavelmente, aquelas concepções e avaliações que se repetem e que preponderam motivando e orientando a ação política na relação de clientela. As entrevistas duraram em média uma hora cada. Na aplicação das entrevistas, contamos com o auxílio de dois outros sociólogos.

Sobre os limites da amostra selecionada, antes de tudo, é sabido que entrevistas qualitativas com pequenas amostras não aspiram à representatividade estatística. Sua relevância radica em outros aspectos: por exemplo, e naquele que nos interessa, em revelar estruturas de significados e argumentação que dificilmente pesquisas de opinião quantitativas poderiam ter acesso, a não ser de maneira tênue e indireta. Nesse aspecto, no estudo em foco, consideramos que a técnica foi satisfatória. Para não comprometer os entrevistados substituímos seus nomes por números, de maneira que pudéssemos manter a diferenciação entre um e outro entrevistado. Por exemplo: Dona

Nanana por (E1), Sr. Nonono por (E2), e assim por diante. A substituição não impede que

exponhamos algumas informações sobre os entrevistados e revelemos seus perfis sócio-econômicos. Ver o anexo C: Perfil sócio-econômico dos entrevistados.

Pretendíamos, com essa opção, garantir que os indivíduos entrevistados entre 2003 e 2005 pertencessem àquele grupo que pode ser visto, de fato, como clientela do ex-prefeito e que pode ser identificado como “gente do Belinati”, conforme eles próprios se auto-definem. A escolha permitiu, ainda, observar a profundidade e durabilidade do vínculo de clientela examinado e a repetição de valores e concepções que já haviam aparecido nas matérias jornalísticas que cobriram os eventos da cassação do político em questão. Verificamos que a “lembrança” sobre os eventos de 2000 ainda era “fresca”, “bem viva” e detalhada na memória dos selecionados para as entrevistas, o que revelou o acerto da escolha.

Benzer Belgeler