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5. SONUÇLAR, TARTIġMA VE ÖNERĠLER

5.8. Öneriler

A Estratégia Nacional de Combate à Lavagem de Dinheiro (ENCLA) constitui a política criminal do Brasil para a prevenção e a repressão da lavagem de dinheiro. Ela foi criada em 2003, no âmbito do Ministério da Justiça como um instrumento de articulação e de atuação conjunta entre os diversos órgãos do governo, do Judiciário e do Ministério Público que atuam no tema. A estratégia se baseia em três áreas de atuação: estratégica, de inteligência e operacional. Em dezembro de 2003, foi criado o Gabinete de Gestão Integrada de Prevenção e Combate à Lavagem de Dinheiro (GGI-LD), responsável pela articulação entre as instituições governamentais314.

A ENCLA realiza encontros anuais, com a participação conjunta e equilibrada de órgãos públicos e de representantes do setor privado (principalmente o setor bancário) envolvidos nas inúmeras questões de prevenção e de repressão da lavagem de dinheiro. São discutidas metas a serem alcançadas, no decorrer do ano seguinte, responsabilizando-se instituições específicas pela implementação de todas elas. Para 2006315, uma das medidas consideradas necessárias é a definição de PEPs - pessoas politicamente expostas -, além da criação de cursos de formação nesse assunto.

O que podemos verificar até aqui é que, em resposta à criminalidade transnacional, que opera em redes, desenvolveu-se um regime global de proibição, formado pela interação de normas jurídicas vinculantes e de normas de soft law; de múltiplas relações entre os Estados nacionais, as organizações e os órgãos internacionais e regionais. O regime local de proibição representa a absorção do regime global antilavagem de dinheiro.

Na origem da criminalização, as idéias giravam em torno da utilização do delito como forma de reforçar a repressão a crimes considerados especialmente graves e lesivos. A atuação preponderante, nesse momento, foi a dos Estados Unidos da América. Entretanto, pouco depois, percebe-se uma importante atuação da Europa no desenvolvimento de tratados e de convenções na criação de organismos e de agências internacionais e regionais.

314 Disponível em: <http://www.mj.gov.br/drci/lavagem/GGI.htm>. Acesso em: 25 out. 2006.

315 AS METAS DE 2006. Disponíveis em: <http://www.mj.gov.br/drci/lavagem/encla2006.htm>. Acesso em: 21

Como ressalta NADELMANN,

In the evolution of global society, the centrality of Western Europe initially and of the United States during this century cannot be overemphasized. To an extent virtually unprecedented in world history, a few European states and the United States proved successful in proselytizing to diverse societies, shaping the moral views of substantial sectors of elite opinion outside their borders, and imposing their norms on foreign regimes around the world316.

No entanto, a força dos Estados Unidos em determinar a ação internacional permanece atuante: veja-se que, há muitos anos, a Europa sofria com o terrorismo em suas mais variadas modalidades. A ONU já dedicava atenção ao problema, tendo elaborado vários tratados internacionais sobre o tema. Contudo, foi quando os americanos sentiram na pele o problema - sendo apresentados às misérias humanas, provocadas por atentados terroristas - que a ação passou a ser rápida e fortemente combatida, em escala verdadeiramente global, com a inclusão da luta contra o financiamento do terrorismo nas atribuições do GAFI.

Mas não há como contornar o fato de vivermos em uma sociedade internacional. Em todos os tempos, algumas sociedades sempre se impuseram sobre as outras, hegemonicamente. Nessa sociedade (de Estados e de indivíduos), vigora o que SIMMEL já expressou - não existe liberdade absoluta, livre de constrangimentos. A única liberdade que existe é a de movimento, a de escolher a quais constrangimentos nos submeteremos. Assim também os Estados, inseridos na sociedade e na economia internacional, precisam escolher a quais constrangimentos concordarão em submeter-se e em troca de quais vantagens. A pura e simples adesão a um regime global de proibição certamente atenderá aos interesses dos promotores do regime - as sociedades que os "formataram".

Quando os Estados adotam normas de conformação mundial, como é o caso das relativas à lavagem de dinheiro, é imprescindível adaptá-las, tanto quanto possível, às peculiaridades e aos interesses nacionais. O prejuízo às economias deve ser avaliado igualmente a partir de um ponto de vista doméstico. Os riscos à economia em Londres não são

316 "Na evolução da sociedade global, a centralidade da Europa Ocidental, num primeiro momento, e dos Estados

Unidos, neste século, não poderá ser jamais exagerada. Numa extensão virtualmente desconhecida na história mundial, alguns Estados europeus e os Estados Unidos foram extremamente bem-sucedidos na tarefa de "converter" diversas sociedades, dando forma às visões morais de setores substanciais da opinião das elites fora de suas fronteiras, e impondo suas normas em regimes estrangeiros por todo o mundo" (NADELMAN, Ethan. Global Prohibition Regimes: The Evolution of Norms in International Society", p. 483, tradução nossa).

os mesmos que em Montevideo, ou La Paz. Cada país deve avaliar os seus riscos e formular uma política nacional que não siga, pura e simplesmente, as pressões internacionais.

Isso nos parece possível, pelo menos em alguma medida, porque os Estados precisam uns dos outros, a fim de implementar esse plano global de atuação. O Brasil, por exemplo, foi convidado a participar do GAFI, em razão de sua importância estratégica317. Essa importância decorre, entre outros motivos, do fato de apresentar riscos e vulnerabilidades à lavagem de dinheiro e ao financiamento do terrorismo que aos demais Estados interessa reprimir (algumas vulnerabilidades são a extensão de nosso território, a fronteira seca com países produtores de droga, a tríplice fronteira, a ampla utilização do sistema financeiro nas atividades diuturnas das empresas e dos indivíduos e o expressivo alcance da economia informal). O Brasil também é estratégico porque convém aos investidores internacionais - que para cá desejem direcionar seus recursos - a existência de uma ordem econômica que funcione dentro de regras de mercado, e de um sistema financeiro que opere dentro de padrões minimamente previsíveis. Se assim é, não há porque simplesmente aceitar imposições externas, sem fazer valer, igualmente, os interesses nacionais.

317 Segundo o site do GAFI, para ser membro é necessário: a) ser estrategicamente importante; b) ser membro ativo

de uma organização regional tipo GAFI relevante; c) providenciar uma carta do Ministro competente ou pessoa de nível político equivalente firmando o compromisso de implementar as 40 + 9 Recomendações dentro de um prazo razoável de tempo, e submeter-se ao processo de avaliações mútuas; e d) efetivamente criminalizar a lavagem de dinheiro e o financiamento do terrorismo; tornar obrigatória para as instituições financeiras a identificação de seus clientes, de manter os registros das operações por eles realizadas, e de comunicar a ocorrência de operações suspeitas; estabelecer uma unidade de inteligência financeira efetiva, de forma que o país possa ser ampla ou parcialmente cumpridor das Recomendações 1, 5, 10, 13, e Recomendações Especiais II e IV.

4 (DES)VELANDO O DISCURSO ANTILAVAGEM DE DINHEIRO

Depois de examinarmos a conformação da sociedade ocidental contemporânea, de questionarmos a ideologia da criminalização da lavagem de dinheiro e de identificarmos a existência de um regime global de proibição, desejamos refletir sobre o discurso que esse regime produziu, na intenção de provocar efeitos múltiplos sobre as decisões políticas dos Estados, sobre as pessoas, em geral, e sobre a conduta incriminada.

Por discurso entendemos uma realidade material de coisas ditas ou escritas; um conjunto de fatos lingüísticos ligados entre si - não apenas por regras sintáticas de construção, mas, como aponta FOUCAULT, também por aspectos polêmicos, estratégicos, de ação e de reação, de pergunta e de resposta, de dominação e de esquiva e de luta318.

A idéia de estudar o discurso provém do fato de estarem Direito e linguagem umbilicalmente entrelaçados, a ponto de não podermos imaginar o primeiro sem a utilização da segunda. Ao mesmo tempo, os laços existentes entre ideologia e discurso revelam-se a cada vez que examinamos o último. Parece-nos, em conseqüência, bastante oportuno encerrar, com o exame do discurso específico, um estudo que iniciou questionando determinada ideologia.

É claro que - ao problematizarmos assim a lavagem de dinheiro - estamos nós, também, produzindo um discurso - entretanto, nossos questionamentos se alinham, neste ponto, a BARATTA, para quem:

um discurso científico sobre a questão criminal nasce quando as definições de criminalidade do sentido comum, assim como as definições legais de criminalidade, não são mais o postulado de que se parte, mas se tornam o objeto mesmo do discurso. E colocar-se no ponto de vista de uma criminologia que aceita essa mudança de paradigma não significa negar a existência “objetiva” de situações socialmente negativas319.

318 FOUCAULT, Michel. A Verdade e as Formas Jurídicas, p. 9.

A idéia é que se possa assumir uma postura ideológica320 - ou, pelo menos, conhecer e compreender a postura ideológica que se está assumindo, ao utilizar e reproduzir esse discurso - tão em voga atualmente.

Não é demais recordar que partimos de um conceito de ideologia que a define como um sistema de idéias e de valores321 - conceito suficientemente amplo para servir de referencial ao exame de uma época histórica, de um dado meio social, de uma disciplina, de um programa de governo e de tantos outros objetos de estudo quantos queiramos escolher.

Passemos, portanto, ao exame do discurso antilavagem de dinheiro.

Benzer Belgeler