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7. SONUÇLAR VE DEĞERLENDİRMELER

7.3. Öneriler

Conforme pudemos verificar ao longo deste trabalho, o homem é um ser simbólico. O mistério do símbolo e a mística de sua simbologia revestem a história da humanidade de atributos significantes e significados, míticos e lendários, que tentaram, cada qual em um específico e oportuno tempo-espaço (também chamado de “momento”), objetivar e significar a dimensão da vida humana em um mundo no qual sobravam perguntas, mas faltavam respostas. O totemismo primitivo exprimiu, de certa maneira, essa necessidade de fabricação de deuses, mitos e heróis personificados em figuras humanas ou coisificados em elementos animais e naturais, os quais a sociedade os revestia com um véu de sacralidade que consistia na outorga de poderes e responsabilidades ao mysterium tremendum, para atuar em prol da significação da vida e da atribuição de sentidos ao desconhecido e inexplicável.

As ancoragens e objetivações produzidas a partir desse contexto serviram para que os homens construíssem suas representações acerca do inefável, do distante e do “estrangeiro”, este último também interpretado como o não-familiar, o outro, o estranho, o “de fora”. Diante daquilo que não podia explicar, a humanidade representava. Assim, a concretude do universo real expressava-se por meio tanto daquilo que poderia ser materializado em coisas e palavras por intermédio da linguagem, quanto do que poderia ser representado pela intrínseca relação entre sujeitos e objetos na construção de um imaginário social edificado a partir da produção de um conhecimento acerca do mundo que era vivido e, ao mesmo tempo, imediato.

Mediado pelo símbolo, o imaginário social cumpria seu papel na perspectiva de elaborar a interpretação de uma complexa rede de relações humanas que envolviam as dimensões simbólica, econômica, política, cultural, religiosa, espacial e temporal da humanidade, que, por falta de uma nomenclatura melhor, denominou-se de “realidade”, mas que demonstra claramente a relação entre o imaginário e o real na construção do espaço social. Nas palavras de Swain (1994, p. 56), “encontramos [...] o imaginário e o real não como opostos, mas como dimensões formadoras do social, em um processo atualizador imbricado; imaginário e real não se distinguem, senão arbitrariamente”.

A concretude do real na objetivação da constituição do espaço empírico se apresenta diante do homem sob diversos aspectos. Distante da idéia de que a materialidade e a empiria são as únicas formas de entrar em contato com esse universo

reificado e intelectualizado em coisas e objetos, a realidade não se objetiva apenas por aquilo que podemos tocar com as mãos ou apontar com os dedos, mas também por meio do que dizemos e criamos, pelas linguagens e as formas de expressá-las. Elas também são representações. Em outras palavras, a realidade também se faz por meio da construção dos imaginários coletivos.

Representar também consiste em construir uma leitura de mundo pautada, sobretudo, em um imaginário coletivo alimentado por símbolos e simbologias que ressignificam, redefinem e atualizam, constantemente, o ser-no-mundo e seus papéis diante de uma realidade multifacetada e composta por conflitos que delimitam o espaço simbólico do campo político. O problema para essa questão estaria, segundo Durand (2002, p. 28), no sentido que a imagem poderia evocar. Segundo o autor, “[nas] teorias intelectualistas, o que chama a atenção, em primeiro lugar, é o equívoco da concepção de imagem, estreitamente empirista e tanto mais empirista quanto a querem desacreditar a fim de a separar de um pensamento puramente lógico”.

Engana-se quem pensa que essa fase da história humana tenha ficado para trás com o advento da ciência e de suas técnicas e métodos de construir conhecimentos a partir de uma interpretação metodológica da realidade e explicar seus fenômenos. Se na era primitiva o homem representava aquilo que não conhecia, na era da ciência ele continua representando, sob novos aspectos. Os mitos modernos continuam alimentando os imaginários coletivos e criando seus heróis. A cada instante renovamos nossas concepções acerca da realidade e recriamos símbolos e personagens heróicos que têm por finalidade ocupar uma lacuna ainda existente ao longo de nossa complexa rede de vida: a fabricação de imaginários. Claude Lévi-Strauss também partilha dessa forma de interpretar esta tênue relação estabelecida entre o pensamento científico e o pensamento mítico sem o qual, entretanto, não seria possível à ciência se autoconstruir. Segundo o autor,

[...] tornou-se necessário à ciência levantar-se e afirmar-se contra as velhas gerações de pensamento místico e mítico, e pensou-se então que a ciência só podia existir se voltasse costas ao mundo dos sentidos, o mundo que vemos, cheiramos, saboreamos e percebemos; o mundo sensorial é um mundo ilusório, ao passo que o mundo real seria um mundo de propriedades matemáticas que só podem ser descobertas pelo intelecto e que estão em contradição total com o testemunho dos sentidos (LÉVI- STRAUSS, 2007, p. 18).

Continuamos fabricando deuses, mitos e novos heróis. Evidentemente, os mitos modernos são elaborados sob novos olhares e perspectivas, contando com a

contribuição dos recursos tecnológicos que a humanidade produziu até então e percorrendo as “epopéias” do mundo da arte plástica, cinematográfica, teatral, musical, científica, entre outras. Esses são apenas alguns exemplos de como essas manifestações alimentam o imaginário coletivo a partir de seus recursos simbólicos, os quais são capazes de produzir um capital e estabelecer relações de poder.

No caso tocantinense, essas relações ficam bem evidenciadas. A partir do recurso dos elementos discursivos, política e religião se misturaram na construção de um espaço de representação tocantinense. Nesse processo, os meios de comunicação tiveram um papel decisivo. Sob diversos “olhares” e interpretações, as diferentes leituras foram sendo construídas e as representações criadas, alimentando um imaginário coletivo no qual se misturaram mitos e verdades, cada qual contado de uma forma diferente.

A imprensa nacional construiu um olhar, sobretudo centrada nos aspectos socioeconômicos, provocando, inclusive, um questionamento ao perguntar se a criação do Estado do Tocantins era, de fato, viável e se sustentava por si só. Baseados em estatísticas e em um exaustivo levantamento de campo que incluía até mesmo uma dimensão das dívidas que o novo estado ao nascer já trazia consigo por herança do Estado de Goiás, os veículos de comunicação nacional não deram trégua ao discutir o papel da UDR no processo e como ela estava articulada com os candidatos a primeiro governador do nascente estado e as corrupções que poderiam surgir a partir destas constatações, inclusive com a construção da nova capital. Interpretando os fatos a partir dos interesses de grupos econômicos em emancipar a região norte do Estado de Goiás a partir do paralelo 13 para benefício próprio, a imprensa nacional construiu uma representação simbólica da nova unidade da federação, sustentada por uma ideologia da qual a população local pouco participava e não se manifestava.

Na imprensa regional, as perceptivas eram outras. Chamada até de “nova Mesopotâmia”, banhada não pelos rios Tigre e Eufrates, mas pelo Araguaína e o Tocantins, e de “novo paraíso” com sol e água em abundância para a produção agropecuária, a divisão do Estado de Goiás era vista como a única forma de levar progresso e promover o desenvolvimento naquela região. Baseadas na ideologia de dividir para crescer, as reportagens regionais em momento algum colocaram em dúvida a emancipação da região e sempre destacaram seus aspectos positivos. Com o uso de uma linguagem que confundia o real com o imaginário, a imprensa regional repetiu exaustivamente a história oficial, destacou seus heróis históricos, construiu outros e sustentou uma nova mitologia política, sobretudo pela utilização em suas matérias de elementos discursivos próprios do universo

religioso, a fim de legitimar uma causa que repetia diversas vezes como “histórica” e “libertária”.

Desse modo, verificamos algumas possibilidades de objetivação do espaço de representação tocantinense:

a) o espaço de representação tocantinense pode ser objetivado pelo universo consensual dos sujeitos por ser um espaço simbólico, o qual é alimentado por sua historiografia e suas re-atualizações;

b) a objetivação desse espaço simbólico de representação também está na imprensa e nos discursos oficiais elaborados, estes últimos, por Siqueira Campos, que atribui a si mesmo o ato heróico de criação do Estado;

c) a objetivação também se manifesta na edificação de monumentos. Compreendemos que a criação de Palmas, como uma referência à lendária “Vila da Palma” de Joaquim Theothônio Segurado, foi pensada como sendo o ato final da luta pela criação do Estado do Tocantins, a “chave de ouro” com a qual se encerrava a histórica luta “libertária” à moda da Revolução Francesa de 1789. O Palácio Araguaína, sede oficial do Governo do Estado, possui uma “Via-Crucis” de pintura em azulejo, retratando a formação do Estado do Tocantins e apresentando Siqueira Campos como o grande mártir da epopéia tocantinense.

Entretanto, nas entrevistas realizadas e em depoimentos lidos podemos observar que outras pessoas minimizam esse ato heróico de Siqueira Campos e a criação do Estado do Tocantins. O próprio ato heróico nos remete a Cassirer (2003), quando discute os modernos mitos políticos. Entendemos que o que aconteceu na criação do Estado do Tocantins foi um pouco disto: Siqueira Campos criou um mito político em torno de si por se considerar o herói, o pai fundador, o grande Messias responsável pela instalação da nova unidade politico-administrativa da República. O próprio lema de sua primeira campanha para governador do Estado retrata isto: “quem criou, tem direito!”. E isso povoa os universos consensuais dos sujeitos, alguns dos quais acreditam realmente que ele foi esse o mito do estado.

Alguns sujeitos se manifestam e dizem que, politicamente, Siqueira Campos abafou a participação de outros personagens e instituições nessa campanha pela criação do Estado do Tocantins e concentrou apenas em si o “ato heróico” que resultou na formação da mais nova unidade administrativa do pais. Denominamos isso de uma contra-

representação.

Dessa forma, consideramos que a formação do Estado do Tocantins foi um exemplo de como podemos observar as construções de espaços de representações em torno de um ato político no qual o universo simbólico religioso contribuiu ao ter os seus recursos discursivos imaginários sagrados manipulados e utilizados em torno do objetivo que era criar uma nova unidade da federação. Uma obra surrealista!