5. SONUÇLAR VE ÖNERİLER
5.2 Öneriler
Na simbologia do Novo Mundo, o Brasil colonial se apresenta com dupla figuração: o Paraíso Terrestre (Eden) e a Terra Prometida (Canaã). Fosse pelas promessas de possíveis riquezas, fosse pela esperança de uma nova vida em liberdade, fosse porque muitas eram as portas que se fechavam aos cristãos novos europeus, expulsos da Península Ibérica.
Versões poéticas do Paraíso Terrestre se aproximam das “ilhas perdidas”, que prometem, miticamente, o cosmos perfeito.
Curiosamente, esse gosto pelas interpretações alegóricas das ilhas perdidas no meio do oceano, que desempenhará grande papel na literatura portuguesa após o século XVIII, talvez como precursor do Romantismo dito insular, e que irá invadir a Europa literária, (HOLLANDA, 1989. P.215) não se faz concreto na obra de Theresa Margarida.
A visão do Éden não é presente no texto da autora. Suas descrições não se preocupam com cenários míticos mas, sim, com a busca da felicidade interior e com o bem-estar familiar, contrário aos escritores do período da colonização do Brasil, onde a construção e o desenvolvimento do Novo Mundo é uma história de dominadores e dominados.
Coincidentemente com a colonização do Brasil, três acontecimentos importantes ocorrem na história de Portugal: a expulsão dos judeus da Espanha, a conversão forçada ao Catolicismo em Portugal e a criação do Tribunal do Santo Ofício. Posteriormente, no século XVIII, esses acontecimentos ainda terão forte repercussão no Brasil, pela vinda de cristãos-novos fugidos de Portugal e pelas possibilidades de futuro economicamente promissor e possível liberdade de ação e expressão.
Os cristãos novos possuíam uma posição ambígua nesse contexto: economicamente estavam ligados à esfera de produção e circulação de capital; social
e religiosamente eram excluídos e dominados sob a constante ameaça de prisão e de perda de bens.
Desde o descobrimento se havia percebido a presença de judeus na nova terra. Seus contatos comerciais e a qualidade de sua agricultura marcaram sua presença no novo país. Os funcionários da Coroa os empregavam em cargos administrativos e bem cedo esses cristãos novos transferiram seus capitais para cá, adquirindo terras brasileiras, construindo engenhos de açúcar e comprando escravos.
Os primeiros anos de colonização foram fáceis para a sociedade dos cristãos novos. A produção de açúcar era exportada para a Holanda, que a distribuía ao mercado europeu. Os judeus desempenhavam papeis importantes como homens de confiança dos governos, posto que mantinham contato com o capitalismo comercial do sul para o norte da Europa. O desenvolvimento do Nordeste brasileiro, durante os primeiros séculos da colonização, se deveu, em grande parte, a essa população de origem judaica.
No período aqui focado, entre a vinda de José Ramos da Silva para o Brasil e o nascimento de Theresa Margarida (entre 1695 e 1711/12), a população judaica se desenvolveu de forma significativa, em especial, na Bahia e em Pernambuco. Na região Sul e Sudeste, inicialmente, a pobreza das capitanias e o pequeno desenvolvimento econômico não foi atração para esses grupos de cristãos novos. Em São Paulo, cuja população judaica é densa hoje, interessados no desenvolvimento das bandeiras e entradas que iam em busca de ouro, pedras preciosas e índios, os judeus engrossarão essa população em finais do século XVII e início do XVIII (SALVADOR, 1976).
Sob o domínio holandês, tendo sido proclamada a tolerância religiosa e a liberdade de consciência, aumenta a quantidade de imigrantes judeus, em Pernambuco. O governo do holandês Maurício de Nassau (1637 – 1644) ofereceu à população enormes possibilidades de empreendimentos. A população judaica, nessa região, cresceu de tal forma que foi necessária a criação de sinagogas e cemitérios, a partir de 1636.
O quadro social e histórico do Brasil, neste período, apresentava-se conturbado.
Em 1640, Portugal recuperara sua independência de Espanha e começara um movimento de reconquista, cujos reflexos atingiam também o território brasileiro. Enquanto que na Europa, portugueses e holandeses eram aliados, no Brasil estavam em guerra. Em 1654, os judeus tiveram que abandonar o Nordeste, junto com os holandeses. Os efeitos dessa presença flamenga, no Brasil, a médio e longo prazo, tiveram grande importância tanto para Portugal como para sua colônia, tendo as invasões holandesas grande significado em nossa vida cultural.
Por outro lado, os cristãos novos são distinguidos pela heterogeneidade dos grupos, pela variedade de comportamentos e de mentalidades.
O ambiente da colônia teve grande influência na formação dessa mentalidade. A tradição oral de uma região era diferente de outra. Como em Portugal, também no Brasil, as ideias centrais que se mantinham vivas eram a salvação e o Messias. O medo da perdição e do inferno impulsionava tanto cristãos novos como velhos. Para
os primeiros, porém, era inadmissível a salvação pela lei de Cristo, já que não aceitavam sua divindade. Esperavam a salvação pela lei de Moisés.
Essas duas ideias fundamentais do Catolicismo, a salvação pela Igreja e o Cristo-Messias, foram a grande barreira que separou cristãos novos e velhos. Ambos crêem na queda e na redenção. Mas as práticas se transferem para a casa, já que a sinagoga é proibida, iniciando-se assim, uma vida clandestina, em termos de hábitos e costumes.
Como a vida intelectual no Brasil foi retardada por séculos, concentrando toda a erudição no setor religioso, apenas os filhos de famílias abastadas iam à Europa, estudar.
Paralelamente a esse cenário religioso, a posição de pirataria e pilhagem que caracterizava a presença holandesa em território brasileiro não era bem vista por quem defendia com garra e energia a presença da bandeira portuguesa, como o fazia José Ramos da Silva, pai de Theresa Margarida. Possivelmente, essa aversão aos flamengos tivesse se estendido ao futuro genro.
Uma vida de clandestinidade e fingimento foi a responsável pela criação de um mundo duplicado, um exterior, visível, outro interior, secreto. José Ramos da Silva se molda a esse ambiente repressivo que o seguirá por toda a vida e contra o qual sua filha Theresa Margarida irá se rebelar.
Neste trabalho, a intensidade da análise da presença dos cristãos-novos se justifica ante os mistérios e a clandestinidade que rodeiam a vida e a presença de José
Ramos da Silva (no nosso entender, um cristão-novo) no Brasil e, mais tarde, em Portugal.
Theresa Margarida nasce em um momento em que se desenvolve a mineração no Brasil, fato que representou uma das mais importantes etapas do período colonial, responsável pelo rápido enriquecimento de seu pai. Com a mineração, houve momento de crise econômica, pelo declínio da produção açucareira, e grandes foram as mudanças nos setores social, administrativo, político e cultural do país.
Em 1710/11, piratas franceses, a serviço de Luís XIV, atacam pela primeira vez o Rio de Janeiro. Duclerc é vencido pelos portugueses, no que foram auxiliados pelos paulistas, dentre os quais novamente a figura de José Ramos da Silva se faz presente, conforme constatado em documentação apresentada por Ennes, em Um Paulista Insigne.6
Diante do quadro econômico que se apresentava no Brasil colonial, é curioso como – em um período historicamente muito curto (1696 – 1710) – José Ramos da Silva fez o percurso de tornar-se adulto, casado e milionário. Quando ele se retira do Brasil com a família, paradoxalmente, era ainda incipiente a produção de ouro: entre 1701 e 1710 eram produzidas 55 toneladas do metal, que atingirá um máximo de 290 toneladas entre 1741 e 1760.
6 ENNES, 1941. P.20 – conforme declarações constantes do Arquivo Nacional da Torre do Tombo, no