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9. SONUÇLAR ve ÖNERİLER

9.1. Öneriler

Como visto anteriormente, o Recife cresceu de tal maneira que extrapolou os limites dos bairros do Recife e de Santo Antônio, passando também a incrementar a ocupação do bairro da Boa Vista e outras localidades. Esse crescimento, que entra pelo século XVIII em ritmo extremamente acelerado, podia ser percebido por meio do afluxo de pessoas, do aumento das construções de edifícios, da carência de víveres para abastecer a população,77

como também por meio da lotação da cadeia, que precisou ser alargada, conforme requerimento feito ao Rei D. João V, em 24 de janeiro de 1735, pelo então carcereiro da cadeia nova do Recife, Antônio de Azevedo Pereira, que enfatizava “por hoje se achar muito habitada, e populosa, e por vícios daquela Provincia ser grande o numero dos delinquentes se mandou alargar mays a dita cadea”.78

A vila do Recife da primeira metade do setecentos aparece, então, para o cirurgião Manuel dos Santos como tendo cerca de dois mil edifícios, entre casas térreas e sobrados, habitados por milhares de indivíduos adultos e “párvulos”, brancos e negros, libertos e escravos; abastecida pela água vinda do Varadouro, em Olinda, que era transportada por canoas pelo Rio Beberibe; com um número muito significativo de indigentes e também de escravos vindos da Guiné, Mina e Angola. Era ela ainda intensamente povoada por reinóis, que, chegando lá “pela maior parte pobres, e por não perdoarem a trabalho, chegaram a

77Rita de Cássia Barbosa de Araújo, As praias e os dias: história social das praias do Recife e de Olinda, Recife :

Prefeitura do Recife, Secretaria de Cultura, Fundação de Cultura Cidade do Recife, 2007, p.73.

78Cf. Lisboa. Arquivo Histórico Ultramarino. Requerimento do carcereiro da cadeia nova do Recife, Antonio de

Azevedo Pereira,ao rei [D. João V],pedindo guardas para aquela cadeia.1735. Pernambuco, Cx. 48, D. 4261,

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adquirir pela sua indústria (…) os cabedais que os filhos do Brasil pela sua ociosidade (…) costumam esperdiçar”.79

Segundo Raimundo Arrais, o grande crescimento populacional do Recife, bem como a sua expansão física, acompanharam o desenvolvimento econômico da então vila e fora sustentada pela intermediação comercial que marcou a origem de seu assentamento. Seu espaço físico teria sido modelado por meio da ação de um regime de apropriação do solo, que promovia investimentos não só em terras destinadas à agricultura, mas também em propriedades destinadas a residências e negócios nas áreas centrais, de forma que o capital mercantil era aplicado no usufruto de rendas e nas edificações urbanas. Assim, devidoà sua vinculação com o porto, a cidade retirava os dividendos de parte da renda gerada no setor agrícola, o que lhe permitia ampliar, no seu interior, a divisão social do trabalho, acabando por reforçar os fatores da sua diferenciação e domínio comercial sobre aquele setor.80

Muitos desses investidores, que aplicaram seus capitais na expansão urbana do Recife, e que eram, em maior parte, grandes comerciantes integrantes da elite local, iniciaram o século XVIII empenhados na elevação do status administrativo do então povoado, conseguindo alcançar tal objetivo após a consolidação da sua elevação à vila, depois da vitória desse partido na Guerra dos Mascates. De acordo com Arrais, era na base desse prestígio político que o Recife começava a desfrutar, que estava a sua prosperidade, “patenteada nos inúmeros edifícios levantados na cidade, na realização de consideráveis melhoramentos urbanos voltadas para atender a uma expansão populacional que alcançava (…) entre nove e dez mil moradores”81 (Figs. 6, 7 e 8).

Dessa forma, já a partir de fins do século XVII e início do século XVIII, verifica-se que o Recife vai se estendendo em direção ao norte, ao longo do istmo – no sentido de Olinda –, passando também a ocupar o espaço para além das chamadas “Portas do Recife”.82 Nesse

momento, a realização de aterramentos foi decisiva para o crescimento de sua configuração espacial, atendendo não só a expansão ao norte, como também as novas pressões de expansão na direção sul, rumo ao rio dos Afogados,83 região ao pé de onde mais tarde os confrades de

79Manuel dos Santos, “Calamidades de Pernambuco”, In: SOUTO MAIOR, Mário & SILVA, Leonardo Dantas

(Orgs.). O Recife: quatro séculos de sua paisagem. Recife: Ed. Massangana, 1992, p. 64 e 65.

80Raimundo Arrais, O pântano e o riacho: a formação do espaço público no Recife do século XIX. São Paulo:

Humanitas, 2004, p.103-104.

81Ibidem, p.111.

82Luiz Geraldo Silva, op.cit., p.129. 83Raimundo Arrais, op.cit., p.108.

Figs. 6, 7 e 8: Mapas que ilustram o povoamento, nos séculos XVII e XVIII , da ilha de Santo Antônio, local onde estava estabelecida a Igreja de São José. Por meio das três imagens é possível ter uma ideia sobre como o Recife se expandiu. Fonte: MENEZES, José Luiz Mota (Org.). Atlas histórico-cartográfico do Recife. Recife: Ed. Massangana, 1988, mapas 10,12 e 13.

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São José erigiriam a igreja de seu patriarca, e que já contava, em começos do século XVIII, com várias casas de habitação,84 chegando à metade deste século com a seguinte feição:

Para a parte do sul se alargarão tambem os moradores, e em huma deliciosa planicie chamado lugar desafogado [Afogados], a que se vay hũa fermosa calçada, que principia ao pe da Fortaleza das sinco pontas fundarão hum arrayal, que se compoem de trezentas e tantas moradas, hũa Igreja dedicada ao Divino Espírito Santo, e hum Recolhimento de Donzellas (...).85

Antônio Fernandes de Matos, pedreiro e importante empreiteiro da segunda metade do seiscentos, considerado no período um dos homens mais ricos da capitania, foi um daqueles que viu nesses aterramentos a possibilidade de aumento de seus lucros. Segundo depoimento do engenheiro Diogo da Silveira Veloso, em 1713, a intenção de Matos, responsável pela construção do conhecido Forte do Matos, que tinha como objetivo impedir o crescimento de um banco de areia que se formava no extremo sul do istmo do Recife, era a construção ali, por meio de aterramento, do maior número possível de casas, ampliando, assim, a área de povoamento do Recife.Veloso conta que sua intensão inicial era fazer um cais de pedra, desde a ponte que dividia as povoações do Recife e Santo Antônio até o Forte do Brum, com o pretexto de lhe darem toda a terra que entulhasse, e “como por este caminho não conseguio o seu intento, que era alcançar terreno para fazer moradas de cazas, offereceo fazer o dito forte à sua custa, com que veyo a ficar senhor de tanta, que fez nella mais de trinta moradas”.86

Conforme as palavras do beneditino Domingos do Loreto Couto, na metade do setecentos, em sua obra Desagravos do Brasil e Glórias de Pernambuco,

Parece ser este nobilissimo Reciffe feito de alambre para atrahir, ou que tem virtude magnetica para acariciar com mais doces laços do que comenta a fabula, que tivera Hercules de cadeas para prender homens; armado de mais suaves prisões do que sonhou o hyperbole, que tivera Anfion de cordas para enrredar penhas, e Arion de redes para enlaçar agoas; está sempre atrahindo vesinhos, que acrescentem o numero de seos moradores (…).87

84Francisco A. Pereira da Costa, Arredores do Recife, Recife: Fundação de Cultura Cidade do Recife, 1981, p.11. 85Domingos do Loreto Couto, Desagravos do Brasil e Glórias de Pernambuco. Rio de Janeiro: Oficina

Tipográfica da Biblioteca Nacional, 1904, p.161.

86Diogo da Silveira Veloso apud MELLO, José Antônio Gonsalves de. Um mascate e o Recife. Recife: Fundação

de Cultura Cidade do Recife, 1981, p.34.

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Desse modo, com o crescimento incessante de pessoas atraídas para os arredores do Recife, a vila segue um movimento de ocupação, não só rumo ao norte – em direção à Olinda – e ao sul – em direção a Afogados –, como também em direção ao bairro da Boa Vista, também a partir das obras de aterro realizadas no início do século XVIII.88 Sobre o bairro da Boa Vista por esta época, Loreto Couto conta que “Està assentada esta nova e já numerosa povoação em hũa deliciosa planície, (…) em que se achão já fundadas mil cento e treze moradas de casas de pedra, e cal, e muitas dellas de dous sobrados feitas ao estillo moderno. Sete sumptuosas Igrejas, e seis fermosas capellas”.89

Entretanto, faz-se necessário destacar que a expansão do Recife também se deu por outras áreas que fugiam do perímetro que compreendia os bairros do Recife, Santo Antônio e Boa Vista. Segundo Pereira da Costa, para visualizarmos corretamente o povoamento do Recife, é preciso que não se considere somente o movimento que partia da área do porto para Santo Antônio. Houve também um movimento contrário, que, segundo ele, foi igualmente importante economicamente, que partia do interior para o sentido do porto: um movimento que tinha por origem os engenhos de açúcar, desde meados do século XVI estabelecidos à margem do rio Capibaribe. Para ele,

A riqueza que, em forma de caixa de açúcar – uma das drogas mais valorizadas do mundo ocidental de então – afluía ao porto, foi dando condições à ampliação do povoamento do Recife. Vários “passos”, armazéns ou depósitos de caixas de açúcar, foram sendo construídos às margens do rio nas proximidades do porto e alguns desses “passos” se transformaram em pequenos núcleos de população.90

Paulatinamente, no decorrer de todo o século XVIII, a expansão urbana do Recife passa cada vez mais a agregar essas áreas, gerando um processo de suburbanização, fazendo com que a área mais tradicional da produção açucareira da capitania – a chamada Várzea do Capibaribe – começasse a ser desmembrada em lotes destinados à construção de sítios e residências.91 De acordo com Luiz Geraldo Silva, principalmente a partir da segunda metade do setecentos, muito da intensa ocupação e povoamento dessa área – que compreendia os bairros posteriores à Boa Vista, como os bairros da Madalena, Casa Forte, Poço da Panela e Apipucos – deve-se, em boa medida, ao transporte fluvial feito pelos canoeiros do Recife. Estes levavam em suas canoas todo o material de construção necessário às novas casas, toda a

88Francisco A. Pereira da Costa, op.cit., 1981, p.145. 89Domingos do Loreto Couto, op.cit., p.160.

90Francisco A. Pereira da Costa, op.cit., 1981, p.144. 91Luiz Geraldo Silva, op.cit., p.131.

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água potável nelas consumida e as próprias pessoas ali residentes, em uma época que não havia nenhuma estrada ligando essa região ao antigo centro urbano, até então formado pelos bairros de São Frei Pedro Gonçalves (bairro do Recife), Santo Antônio e Boa Vista.92

Todavia, nosso interesse aqui se concentra, principalmente, no perímetro que envolvia o Recife propriamente dito e os seus arredores mais fronteiriços, como o lugar de Afogados e o lugar da Boa Vista, onde, já em começos do século XVIII, a expansão urbana se fazia sentir de maneira mais imediata (Fig.9). Esses locais, mais prontamente fronteiriços, não faziam, neste período, parte do Recife – que era composto, por esta época, apenas pela ilha do Recife e a ilha de Santo Antônio e mais algumas freguesias rurais como Ipojuca, Cabo e Muribeca93 –, ainda que compusessem a sua paisagem urbana. Tanto o lugar de Afogados como o lugar da Boa Vista, mesmo recebendo as influências da dinâmica política, econômica e social do Recife, estavam sob jurisdição da Câmara e da freguesia da Sé de Olinda,94 ainda que distantes delas e, aparentemente, sem algum “espírito” de pertencimento. Assim indica um requerimento, feito em 1773 pelos moradores da Boa Vista, pedindo ao Rei D. José I que desmembrasse este povoado da freguesia da Santa Sé de Olinda, pois eles

Reprezentão a opreção e incomodo que tem sentido e vão sofrendo, de manterem a expensas proprias a Igreja De Santa Cruz erecta no mesmo Lugar da Boa Vista, que desta da Matriz Cathederal, mais de legua e em parte legua e meya para nela se administrar os Sacramentos aos referidos freguezes (…). He o Parrocho da dita Freguesia Denominado Cura da Sé e amovivel o qual nunca administrou por Sy os Sacramentos aquelle Pouvo mas sim por hum administrador (…). Cujas ovelhas nunca serão bens curadas como supplicantes tem experimentado, enquanto não forem desmembrados da dita Freguesia da Sé.95

Considerando o fato de os Afogados e a Boa Vista estarem, por esta época, sob a jurisdição de Olinda, acreditamos que, se na prática existiu algum “espírito” de pertencimento desses lugares em relação a esta, as suas fronteiras com o Recife foram tão demasiadamente

92Ibidem, p.120.

93Janaína Santos Bezerra, “Fragmentos de um Recife Setecentista: Configurações Urbanas e Realizações

Culturais”. In: história e-história, Agosto, 2010, s.p. Disponível em: http://www.historiaehistoria.com.br/ materia.cfm?tb=artigos&id=137.

94Segundo Leonardo Dantas Silva, por meio da Carta Régia de 06 de dezembro de 1817, tanto a povoação de

Afogados como a da Boa Vista foram desmembradas do termo e jurisdição de Olinda, passando ambas a pertencerem ao Recife. Ver em: SOUTO MAIOR, Mário & SILVA, Leonardo Dantas (Orgs.). O Recife: quatro séculos de sua paisagem. Recife: Ed. Massangana, 1992, p.20.

95Cf. Lisboa. Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Ordem de Cristo/Padroados do Brasil/Bispado de

Pernambuco. Pedido dos moradores do lugar da Boa Vista para a asua separação da freguesia da Santa Sé de

Fig. 9: Planta da vila do Recife (1763). Aqui, além de estarem representadas a ilha do Recife e a ilha de Santo Antônio, que aparecem ligadas por uma ponte, é possível visualizar as povoações imediatamente vizinhas, como o lugar da Boa vista e Afogados. Fonte: Planta

genografica da Villa de S. Antonio do Recife de Pernambuco (1763).

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fluidas que as influências vindas do seu crescimento urbano causaram um impacto direto na constituição e no crescimento dessas regiões, principalmente porque estas estavam imediatamente próximas ao que se entendia por Recife propriamente dito e muito longe de Olinda, como vimos no requerimento encaminhado ao Rei D. José I pelos moradores da Boa Vista.

Assim sendo, consideramos na nossa análise o “Recife” como o perímetro que compreende os bairros de São Frei Pedro Gonçalves e de Santo Antônio; juntamente com a povoação de “Fora de Portas”, ao norte; o lugar da Boa Vista; e o lugar de Afogados, ao sul. Ou seja, as povoações que estavam imediatamente fronteiriças ao Recife propriamente dito. Dessa forma, consideramos aqui o Recife como toda essa região, e partimos da ideia desse “Recife” como espaço, conforme definiu Michel de Certeau: como um “lugar praticado”, animado pelo conjunto dos movimentos que ali se desdobram. Pois, segundo ele, o espaço “é o efeito produzido pelas operações que o orientam, o circunstanciam, o temporalizam e o levam a funcionar em unidade polivalente de programas conflituais ou de proximidades contratuais”.96 É desse modo que analisamos aqui essa região como um todo: um lugar

praticado, para além das fronteiras político-administrativas.

Diante das implicações existentes pelo fato dessas localidades estarem separadas politicamente do Recife e recebendo as interferências da política olindense, procuramos não perder de vista que a análise do processo de produção do espaço deve levar em conta que um determinado território, do ponto de vista político, pode ser considerado uma unidade espacial concretamente delimitada, mas não é uma unidade isolada, imune a influências externas e incapaz de exercer influências fora de seus limites, como bem alertou Manuel Correia de Andrade.97

Ademais, quanto ao limite colocado pelo nosso recorte – que acabou por não incluir outras áreas, como a Várzea do Capibaribe, por exemplo –, este visa um melhor entendimento acerca do efeito mais imediato, provocado pelo crescimento urbano incessante sofrido pelo Recife desde fins do século XVII e que entra com toda a força pelo século XVIII. Portanto, mesmo o limite sendo um elemento intruso e idealizado, ele insinua a presença da diferença e sugere a necessidade de separação: ele é, pois, “um conceito inventado para dar sentidos às coisas, para facilitar a compreensão do que pode ser interpretado de várias maneiras”.98

96Michel de Certeau, A invenção do cotidiano: artes do fazer, Petrópolis: Ed. Vozes, 1998, p.202. 97Manuel Correia de Andrade, Poder político e produção do espaço, Recife: Ed. Massangana, 1984, p.80. 98Cássio Eduardo Viana Hissa, A mobilidade das fronteiras: inserções da geografia na crise da modernidade,

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Como já visto, Recife cresceu e expandiu seus limites, incrementando a ocupação de áreas vizinhas e para além delas. Todavia, indo a outro sentido, mais a interior da vila, a ilha do Recife e a ilha de Santo Antônio também viam o número de seus habitantes aumentando significativamente. Assim, em 28 de fevereiro de 1764, pedem os moradores do Recife ao Rei D. José I, em vista do crescimento de sua população, que divida o Recife em duas paróquias:

(…) que sendo aquela vila a mais notável do Estado do Brazil, e a mais populosa como hé notório, tenha hua só freguesia, de que he orago São Pedro Gonçalvez, e a sua Matriz sita no Bairro de Santo Antonio, que são oz dous, de que se compõem esta grande Vila por hua Ponte fabricada sobre as agoas do Rio Bibiribe, e Capibaribe, que juntas separão em duas Povoaçoes a Villa, como hé sabido, podendo em cada hum dos Bairros ter um Vigário, a saber hum no Recife, outro no Bairro de Sancto Antonio, servindo a Ponte de dividir as Parochias, assim como separa a Povoação [Isto] supplicão os Moradores a Vossa Magestade; pedindo Mande Vossa Magestade, e que se fação duas Igrejas, hua em cada Bairro, pois disso se segue aos Moradores utilidade e sempre ficão as duas Igrejas [pingues] no Rendimento, porque o Bairro do Recife tem 5 [mil] pessoas de [Rol], e o Bairro de Sancto Antonio por sima de 8 [mil], E o melhor hé que se distribua a Cura de tantas almas em dous Parocos crescendo mais hua Igreja para aumento do bem Espiritual, e accomodaçao também de mais sacerdotes: E supposto pareça que dividindo-se a Igreja, ficará a do Bairro de Sancto Antonio mais Rendosa, por ter mais povo; não será assim, por ser o povo deste Bairro mais pobre, [em] [esta] [Parte] mizeravel, do que o do Bairro do Recife, que hé da gente mais Rica, e lhe pode ficar pertencendo a gente embarcadiça, que vem de Mar em fora a este porto, que costumão alojar-se no [dito] Bairro, como mais proximo aos surgidouros e Marinha.99

De acordo com este depoimento, nota-se que no setecentos a população de Santo Antônio ultrapassa em número de habitantes a do bairro do Recife.100 A escassez de espaço,

sentida por este desde o domínio holandês, continua neste período, enquanto que Santo Antônio, por ser mais espaçoso geograficamente, consegue abrigar um maior número de pessoas, ainda que, por este motivo, crescesse tanto em população, a ponto de promover a

99Cf. Lisboa. Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Ordem de Cristo/Padroados do Brasil/Bispado de

Pernambuco. Requerimento dos moradores da Vila de Santo Antônio do Recife pedindo a sua divisão em duas

paróquias. Maço 12, documentos avulsos, fl. 2-2v (cópia).

100Na década de 1780, o número de habitantes dos bairros do Recife e de Santo Antônio chegara a,

aproximadamente, 25 mil. Sendo assim, em 25 de agosto de 1789, a rainha D. Maria I emite um alvará dividindo, finalmente, a vigaria do Recife em duas paróquias: uma no bairro de S. Fr. Pedro Gonçalves do Recife, com esta mesma invocação; e outra no bairro de Santo Antônio, com a do SS. Sacramento. Ver em: COSTA, F.A Pereira da. Anais Pernambucanos. vl.6. Recife: FUNDARPE, 1984, p.538.

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ocupação das áreas vizinhas. Em 1759, o autor de Desagravos do Brasil e glórias de

Pernambuco, Loreto Couto descreve a paisagem de Santo Antônio da seguinte forma:

Occupão seos braços, e corpo todo terreno, em que se contão mais de duas mil cazas com seos quintaes, ou jardins com poços de agoa clara, e doce, que serve para rego das plantas, e gasto dos moradores. Quatro maravilhosos conventos, caza da Misericordia, dez grandiosas Igrejas, e sete praças capazes de nellas correr touros, termina se a sua opulencia com a Real Fortaleza das sinco pontas que lhe fica ao meyo dia. (…) He muyto fermosa por dentro, porque tem as ruas largas, e limpas, os edificios altos, e nobres, e as cazas sempre bem cayadas de branco, e as sacadas de verde, os Templos ricos, os conventos sumptuosos, e o sitio dos melhores pela sua alegre, e espaçosa vista.101

O bairro de Santo Antônio, antiga ilha de Antônio Vaz, que desde o seiscentos contava com certa importância e vivenciava um crescimento populacional que não cessou no século

Benzer Belgeler