7. SONUÇLAR VE ÖNERİLER
7.2. Öneriler
Reportamo-nos ainda, aos escritos de Sitcovsky (2010) para melhor entender como se dá a relação entre a assistência social e trabalho informal. Para tanto se faz necessário retomarmos algumas pistas e constatações do referido autor. Uma delas é que desde o século XVIII até o século em vigor, o salário e a assistência, sejam juntos ou separados, estão intrinsecamente associados à força do trabalho. A presente inferência, diz respeito aos atuais programas de renda mínima, os quais no contexto atual, ainda atuam como complemento ou substituição ao salário. Ressaltamos que esse argumento não significa dizer que a assistência social busca substituir o trabalho, logo porque, a assistência não pode e não quer isso.
O autor utiliza dados do PNAD de 2006, para revelar o aumento no consumo de bens duráveis entre os usuários dos programas de transferência de renda. O resultado dessa pesquisa, além de afirmar a participação dos beneficiários no rol do consumo, revelou o acesso aos serviços de infraestrutura (iluminação, abastecimento de água, coleta de água e outros), no entanto, os dados não revelaram melhorias nas condições de vida dessa população, violada de direitos e aviltada pela pobreza.
Ressaltamos que no campo da assistência social é válido acrescentar que a visível expansão dos programas de transferência de renda56, implica num duplo efeito contraditório: ao mesmo tempo em que resulta em acesso aos mínimos sociais de sobrevivência para a classe aviltada pela pobreza, permite a participação dessa população na aquisição de alguns bens materiais, mesmo que minimamente. Ou seja, de compra em compra, seja mediante o discurso dos créditos facilitados ou não, do mesmo modo e com a mesma insistência, o capital se alimenta e lucra.
Fazendo um contraponto com a realidade vivenciada pelos sujeitos da nossa pesquisa, observamos que o consumo, por meio desse benefício socioassistencial, no município de Natal, se limita a um complemento de renda para suprir necessidades básicas, como: comida, água, energia elétrica e transporte. No mais, destacaram o acesso a alguns produtos de higiene pessoal, gás de cozinha, e ainda de maneira bem pontual, a aquisição de vestuários para os filhos. Conforme expressa as falas das entrevistadas “D”, “E” e “G”:
Assim, eu agradeço muito a Deus esse dinheiro do Bolsa Escola é R$ 140,00 que recebo, eu pago R$ 100,00 a minha cunhada... que eu fiz de roupa nova de final de ano pra minhas filhas... assim... de sandália, de roupa. [...]. Então serve pra mim comprar shampoo, creme, absorvente. Essas coisas pra mim. É uma benção esse dinheiro. (ENTREVISTADA “D”, pesquisa de campo, março/2012). [...]. Porque ajuda a pagar a luz, né? A água... e quando falta o gás também... né? Ajuda nessas coisas assim de casa. (ENTREVISTADA “E”, pesquisa de campo, março/2012).
56 Na ocasião do IV Seminário Regional de Graduação e Pós-Graduação da ABEPSS, sediado em
Natal, em 19 de outubro de 2011, Ana Elizabete Mota trouxe reflexões fecundas sobre a profissão de Serviço Social, em tempos de crises do capital, dentre elas reforçou a centralidade que tem sido dada a assistência social, a qual é vista como um mecanismo de enfrentamento da pobreza e da desigualdade social. Sendo, pois, nesta perspectiva, que existem, atualmente, 18 Programas de Transferência de Renda na América Latina.
[...]. Estar certo que o dinheiro num é muito não é, R$ 32,00 reais, mas me serve né? Pra eu comprar alguma coisa, alguma ajudinha pra dentro de casa. Pra eu comprar alguma coisa pra minha filha, né? Que ela estuda e... tá no nome dela e assim... Me ajudou muito isso ai. (ENTREVISTADA “G”, pesquisa de campo, março/2012).
Isso nos adverte a termos cuidado ao afirmar que os programas de transferência de renda inserem os beneficiários no consumo de mercadorias. Nesse sentido, a despeito dos programas de transferência de renda dá acesso a alguns bens básicos, isso “nem de longe”, resulta em mudanças significavas na vida cotidiana desses sujeitos e nem muda o seu lugar na sociedade.
Ainda em se tratando da Política de Assistência Social, a partir de 1990, a ofensiva das classes dominantes eleva a assistência social a um lugar de destaque, à medida que a apresentou como estratégia de enfrentamento à desigualdade social. A década de 1990, portanto, se instaura como um modelo de assistência social que muito mais que uma política de proteção social, se constitui como “fetiche social” (MOTA, 2009). O que não significa depreciar ou desacreditar na natureza e capacidade dessa política quanto à mediação de acesso a conquistas dos direitos sociais. Isso remonta à tendência57 sinalizada por Mota (1995), na década de 1990, no que se refere à centralidade atribuída a assistência social no enfrentamento à desigualdade social, o que a autora denominou de “assistencialização” da proteção social.
Tal conceito sinalizava para a privatização da previdência e saúde, além da expansão da assistência social no Brasil, como forma de “gerir” o aumento da pobreza. É pertinente acrescentar que o pensamento de Mota (2011) não confunde “assistencialização” com o assistencialismo. A autora, portanto, identifica a “assistencialização não como um retrocesso em relação à existência ou não da consolidação de direitos, mas sim, pela centralidade que vem sendo atribuída a assistência social hoje, no enfrentamento da questão social no Brasil” (MOTA, 2011, p. 71).
Sobre a referida discussão, coadunamos com o pensamento de Sposati (2011) e Couto (2011) as quais alegam que essa expansão e centralidade não é uma questão exclusiva da assistência social, pois isso se processa no âmbito de
57 Para melhor inteirar-
se no debate sobre “assistencialização” ver: CFESS (2011),especificamente, a Mesa Redonda com a participação de Aldaíza Sposati, Berenice Couto e Ana Elizabete Mota, no Seminário Nacional sobre o trabalho do assistente social no SUAS, realizado em Brasília, em 2011.
todas as políticas sociais, ou seja, tem-se dado, nas palavras das autoras, a “assistencialização” das políticas sociais. Mas, por ora, podemos dizer que esse debate, está longe de se dar por encerrado, e ainda há muito o que se discutir e outros terrenos teóricos para desbravar no campo da assistência social.
Esse patamar de centralidade, a que se eleva a assistência social na contemporaneidade, remete-nos a outras inflexões históricas do surgimento do Serviço Social no Brasil. Mas por ora, cabe-nos rememorar que desde a sua gênese a assistência social incutia no cotidiano profissional, práticas de “ajustes à ordem social”, mediante as chamadas “ações moralizantes”. Além disso, a assistência historicamente foi reconhecida como aquela que viria sanar todo e qualquer “problema social”. De modo que, seja nos espaços institucionais ou fora deles, ainda identificamos, nos dias hodiernos, a prevalência desses dogmas e equívocos no tocante à assistência social.
Em face disso, colocar a assistência social no lugar que lhe foi originalmente pensado, quando se legitimou como um dos pilares da seguridade social no Brasil, se constitui ainda em um grande desafio. Para tanto, as demais políticas sociais devem assumir o seu papel, e não apenas responsabilizar e demandar à assistência social serviços que não lhe competem. Isso é o que costumeiramente acontece, por exemplo, no âmbito da Política de Trabalho. É sabido que não se configura como o papel da assistência social promover a qualificação profissional do trabalhador, e menos ainda, garantir inserção ao mercado de trabalho, antes, cabe-lhe atuar na mediação do acesso a esses serviços em articulação com outras políticas sociais.
Nessa envergadura, Mota (2009, p. 134) tecendo comentário sobre o conjunto das políticas que compõem a seguridade social brasileira expõe:
Longe de formarem um amplo e articulado mecanismo de proteção, adquiriram a perversa posição de conformarem uma unidade contraditória: enquanto avançam a mercantilização e privatização das políticas sociais de saúde e previdência, restringindo o acesso e os benefícios que lhes são próprios, a assistência social se amplia, na condição de política não contributiva, transformando-se num novo fetiche de enfrentamento à desigualdade social, na medida em que se transforma no principal mecanismo de proteção social no Brasil.
A referida constatação, além de ratificar a mercantilização das políticas sociais, a exemplo da previdência, saúde e educação, com destaque para os cursos
de graduação à distância58 que se espraiam por todo Brasil, desvela a expansão que teve a Política de Assistência Social, sobretudo, no que se refere à ampliação dos investimentos nos programas de transferência de renda, com destaque para o BPC e o Programa Bolsa Família, tendo como foco os mais pobres da sociedade.
Dantas (2011)59 destaca dados do Programa Bolsa Família, cujos gastos saltaram de 3,2 bilhões, em 2003, para 11,8 bilhões, em 2009, o que representa um crescimento de 257,5%. Seguindo essa linha de análise, retomamos a estudos recentes de Yazbek (2012) a qual divulga que em 2010, o orçamento destinado a este Programa atingiu 0,4 do PIB, o que representa 11,4 bilhões. Dados divulgados pelo SINDPPD-RS (2011)60, referente ao orçamento de 2012, informam que 2,55% dos recursos públicos serão destinados a assistência social, superando os investimentos da política de segurança pública (0,43%), trabalho (1,97%), organização agrária (0,25%) e outros.
Assim, a partir de tais dados, constatamos e indagamos: é inegável a atenção atribuída à assistência social, nesses últimos anos, mas qual tem sido o “lucro” do capital neste processo? Do mesmo modo, embora seja explícita a expansão dos recursos na área da assistência, esses não têm sido suficientes para fomentar a execução dessa política de modo satisfatório.
A afirmativa anterior nos instiga a expor dados divulgados, em site especializado em economia61, o qual registra que de janeiro a outubro de 2011, o Brasil acumulou um superávit comercial de 25, 390 bilhões de dólares. Tais dados revelam valores descomunais, se compararmos ao valor da dívida pública externa62, que em fevereiro do mesmo ano, atingiu os seus 271 bilhões de dólares. Portanto,
58 Quanto a polêmica do Ensino a Distancia (EAD) nos posicionamos em defesa do ensino público,
gratuito, laico e de qualidade, e consideramos que, por trás do discurso da democratização, insistentemente disseminado, e por muitos assimilados, impera a lógica da mercantilização, a qual compromete a formação profissional; precariza as condições do trabalho; dissocia o trinômio: ensino, pesquisa e extensão; reduz o ensino a formas aligeiradas e, ao mesmo tempo, rebaixa a qualidade da formação profissional em todas as áreas do conhecimento.
59 Dados apresentados durante a defesa da dissertação de Maria Francisca M. Dantas, sob o título:
“O funcionamento da política de assistência social no contexto do SUAS: tendências e particularidades do município do Natal-RN”, em 23/09/2011, no Mestrado em Serviço Social da UFRN.
60 Sindicato dos Trabalhadores em Processamento de Dados/RS, cujos dados estão disponíveis em:
http://www.sindppd-rs.org.br/noticias/geral/2218-orcamento-de-2012-do-governo-federal-prioriza- pagamento-aos-bancos-os-servicos-publicos-vao-piorar-mais.
61 Para comprobação de dados, ver: Disponível em: http://economia.uol.com.br/ultimas-
noticias/afp/2011/11/01/superavit-comercial-do-brasil-tem-alta-de-75-no-acumulado-do-ano.jhtm.
considerando o acúmulo de toda riqueza arrecadada em quase um ano, é matematicamente impossível quitar a dívida externa.
Os dados apresentados também nos ajudam a ratificar que apesar da expansão dos investimentos feitos na assistência social em 2009/2010, esses números são irrisórios se comparados aos valores arrecadados pelo superávit e o valor da dívida pública. Salientando que, em 2012, está prevista a destinação de mais de 1 trilhão para o pagamento de juros e abatimento da dívida pública. Assim, essa expansão, anunciada aparentemente com “forte entusiasmo” não se torna tão expressiva, principalmente, se pusermos na balança outros critérios, como a oferta e qualidade dos serviços socioassistenciais.
Após, tecermos algumas considerações importantes e inerentes ao tema dessa pesquisa retornamos a questão da interseção entre a assistência social e trabalho informal. Para tanto, reportamos aos estudos de Sitcovsky (2010), no qual verificamos que a inserção do trabalho informal na área assistencial não é uma constatação nova. Esse autor vai afirmar que desde os anos 1980, o Banco Mundial promovia e investia em práticas assistenciais que estimulavam a reprodução do trabalho informal no desenvolvimento dos serviços, programas e projetos da assistência social. A referida estratégia instigou-nos a investigar se o trabalho informal se desloca, de fato, do âmbito econômico para a área social, e assim, firma bases na Política de Assistência Social, conforme sinaliza Tavares (2006).
Na realidade presente, inferimos que as armadilhas do neoliberalismo estão “em toda parte e em todas as relações da vida humana”, até mesmo na condução e execução das políticas sociais. A assistência social, por exemplo, desde sua gênese é marcada por traços que a caracteriza como iniciativa estatal, permeada por conflitos, contradições e interesses divergentes.
Nessa direção, no contexto atual, cada vez mais se solidifica no cenário da assistência social, o oferecimento de cursos profissionalizantes, os quais veem se fortalecendo e se materializando nas ações da assistência social pela via da modalidade de “inclusão produtiva”. Cursos como os de manicure, cabeleireiro, corte e costura, bijuterias, camareira dentre outros, ganham destaque dentre as ações dos programas e projetos assistenciais.
Curiosamente, essas atividades se inserem na área dos serviços, os quais têm como pano de fundo à reprodução do trabalho informal, e, por conseguinte, culmina por estimular a criação de “pequenos negócios” ou
“microempreendedor”, porém, sob formas de trabalho precárias, sem nenhuma proteção social e com remuneração ínfima.
Aqui é pertinente trazermos para o debate, às condições de trabalho das entrevistadas da pesquisa empírica. Para tanto, partimos do âmbito nacional, em que o Censo do IBGE (2010a) revela que o número de trabalhadores com carteira de trabalho assinada aumentou de 54,8%, em 2000, para 63,9% em 2010. Quanto ao conjunto de dados inerentes ao Nordeste, o referido Censo, também mostrou que no Brasil existem mais de 6 milhões de trabalhadores com carteira assinada, contrastando com os mais de 5 milhões que não possuem registro empregatício em “carteira”, o que se traduz em prejuízos nas garantias e benefícios trabalhistas que foram conquistadas, a duras penas, pelo conjunto da classe trabalhadora.
Ainda nessa perspectiva, dados do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE, 2007) revelam que do total de 1,26 milhões de ocupados no Rio Grande do Norte, mais da metade estão empregados, o que representa 54% ou 657 mil pessoas. É importante pontuar que do total de empregados, 40% ou 263 mil são empregados como carteira de trabalho assinada, contrastando com 41% ou 269 mil trabalhadores que são assalariados sem carteira de trabalho ou estão empregados em outras formas de trabalho precário e sem nenhuma proteção social. Ao considerarmos a realidade de Natal, o mapeamento das condições de vida, desse município, revela que dos 5.723 entrevistados, 86,62% estão inseridos no mercado sem a carteira de trabalho assinada (OLIVEIRA et al, 2012).
Em fase do referido cenário, constatamos a insuficiência de postos de trabalho para absorver a mão-de-obra disponível no mercado de trabalho. E desse modo, acentuam-se as formas de inserção concatenadas a ocupações precárias e informais como o emprego doméstico, o trabalho autônomo e o trabalho familiar, em pequenos pontos comerciais situados na própria residência, em pequenas atividades produtivas domésticas, em oficinas e ateliers de produção de confecções, dentre outras formas de espoliação e precarização do trabalho.
Ao considerarmos a realidade dos sujeitos dessa pesquisa, em âmbito local, as condições de trabalho também se apresentam surpreendentes, degradantes e angustiantes. Conforme nos apresenta a tabela 6, que segue:
Tabela 6: Formas de inserção no mercado de trabalho
Especificidade Quantidade dos
entrevistados Porcentagem Trabalho formal 1 10% Trabalho informal 3 30% Aposentado (a) 0 0 Pensionista 0 0 Desempregado 6 60% Total 10 100%
Fonte: Elaboração própria, com base na pesquisa de campo realizada em março e abril de 2012.
Sob o prisma da tabela anterior, constatamos que 06 das entrevistadas não têm ocupação, 03, o que representa 30% das entrevistadas, estão inseridas em atividades informais, e apenas 01 (uma) se encontra engajada no mercado formal de trabalho. Além disso, os dados nos trazem elementos bastante reveladores, sobre os quais sublinhamos a predominância do desemprego em 60%. O que justifica a busca, cada vez mais acentuada dos usuários, pelos cursos profissionalizantes, no âmbito dos CRAS em Natal, sendo isso visto e apreendido como o horizonte que se abre na superação do desemprego. Muito embora, como as próprias falas dos sujeitos revelaram os efeitos desses cursos não se sustentam quanto a sua eficácia e efetividade, mas têm ainda um grande poder de convencimento e de expectativas, dentre à população usuária. Além disso, diante da situação de desemprego presente, não lhes parece haver outra opção, a não ser capacitar-se para tentarem conseguir trabalho.
Destacamos ainda a linha tênue que se firma entre os usuários do CRAS e o trabalho informal, ratificado pelo número de sujeitos entrevistados que afirmou desenvolver algum tipo de atividade informal, a fim de complementar a renda familiar para o provimento de suas necessidades. Atentamos para o fato que são - os „disponível ao mercado‟ e que estão em busca de profissionalização - os mais cotados a desenvolverem atividades informais, portanto, sem proteção social, sob formas de ocupações precárias, super-exploradas e submetidas a remunerações ínfimas.
Ainda em se tratando da realidade do CRAS-Pajuçara, a partir das idas e vindas ao real, inferimos que apesar desses cursos serem apontados e buscados como uma tentativa de enfrentamento ao desemprego, esse “ideal” de
empregabilidade não supera o seu aspecto ideológico, quando esses cursos não conseguem ao menos inserir os sujeitos no trabalho informal. O máximo que consegue é conformar os usuários dos serviços do CRAS, a condições de subalternidade e resignação.
O estímulo ideológico estatal, parte do discurso que “é preciso desenvolver o capital humano do pobre“, mas para isso funcionar, tende a direcionar esses sujeitos, a possibilidades de trabalho precário, residual, sem garantias de direitos sociais, ou seja, ao caminho da informalidade.
Sobre a referida questão, Sitcovski (2010) adverte-nos que a realidade social é mais complexa e culmina por nos revelar que o discurso que está sendo apregoado como a saída e proteção via o trabalho informal, na verdade responde aos interesses do capital em crise, o qual constantemente busca reinventar formas de exploração da força de trabalho. Configurações disso podem ser exemplificadas pelo trabalho por peça, part time e as mais variadas formas de atividades informais, e ainda “reconcilia-se com as modernas formas de proteção social - os programas de transferência de renda” (SITCOVSKY, 2010, p. 220).
Aqui, cabe-nos retomar a análise Marxiana, para entender como ocorre à exploração da força de trabalho via o trabalho por peça:
O salário por peça não passa de uma forma a que se converte o salário por tempo, do mesmo modo que o salário por tempo é a forma a que se converte o valor ou preço da força de trabalho. O salário por peça dá à primeira vista a impressão de que o valor-de- uso vendido pelo trabalhador não é a função de sua força de trabalho, o trabalho vivo, mas o trabalho já materializado no produto, e de que o preço desse trabalho não é determinado, como no salário por tempo, pela fração valor diário da força de trabalho [...] (MARX, 1888, p. 636).
E assim complementa:
No salário por tempo, o trabalho mede-se diretamente por sua duração; no salário por peça, pela quantidade de produtos em que o trabalho se materializa num dado espaço de tempo (MARX, 1888, p. 638).
Partindo desse entendimento, o tempo continua sendo o parâmetro para se medir ou mensurar o valor da força de trabalho. De maneira que a “forma de salário por peça é tão irracional quanto à de salário por tempo” (MARX. 1888, p.
638). Assim, para a valorização do capital não importa a modalidade do trabalho (formal ou informal), importa que ambos são mercadorias, funcionais a sua reprodução ampliada e possuem o mesmo parâmetro para determinação de seu valor: o tempo (TAVARES, 2004).
Ao considerarmos o trabalho por peça, como trabalho que nele está corporificado, exploração da forma de trabalho e desproteção social, esse não garante uma estabilidade de renda, o que impulsiona os trabalhadores por peça, a intensificarem a produção em altas temporadas, para compensar os períodos de pouca ou quase nenhuma produção (RODRIGUES, 2010). Além disso, encobre do trabalhador, o verdadeiro sentido da sua remuneração, a qual, na verdade, não é pela quantidade de peças que produz, mas pelo dispêndio de sua força de trabalho - isso implica que o trabalhador tem que intensificar o processo da produção para compensar futuros imprevistos e indesejáveis -, e ainda obscurece o rebaixamento do valor do seu trabalho. Trata-se, portanto, de um sistema funcional ao modelo de acumulação capitalista, pautado na exploração da força de trabalho e no rebaixamento dos salários do trabalhador.
Partimos também do entendimento que no cerne da sociedade capitalista,