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7. SONUÇLAR VE ÖNERİLER

7.2. Öneriler

Após a escrita e apresentação da segunda parte de Henrique IV, provavelmente entre o fim de 1597 e início de 1598, Shakespeare escreveu a desaparecida Trabalhos de

Amor Vencedores e depois Muito Barulho por Nada. Em agosto de 1598, a Rainha

395 O sucesso e empatia de Falstaff são comprovados pela menção de seu nome na página de rosto das

inúmeras edições da primeira parte à época de Shakespeare, além do fato de ele aparecer em três peças do autor.

assinou novo tratado com as Províncias Unidas em que garantiu o direito de levar adiante as negociações pela paz com a Espanha, no que continuou a ser auxiliada por Henrique IV da França. Este assegurou que o Arquiduque Alberto de Áustria, enquanto estivesse em viagem para a Espanha para buscar a noiva, deixasse ministros aptos a tratar com Elisabete. A Rainha preferiu esperar o retorno do Arquiduque para continuar as negociações de forma mais segura. No entanto, um novo evento alterou a possibilidade de paz entre as duas monarquias: a morte de Felipe II em setembro de 1598. 396

Felipe III ascendeu à Coroa determinado a aprofundar as guerras em que a Espanha estava envolvida.397 Uma medida inicial foi a de confiscar os navios das Províncias Unidas em portos sob seu domínio, golpe decisivo para acirrar a guerra contra essas. Destituídas de seus parceiros comerciais em Flandres, as Províncias decidiram romper o comércio com quaisquer portos espanhóis e levantar uma frota para incursão pela costa ibérica. Depois de passar ao largo de Coruña e Lisboa, o pequeno grupo de navios se dirigiu para as ilhas Canárias e América portuguesa com o propósito de tentar alguns ataques, mas diante da percepção de seu tamanho, a frota voltou para casa.Embora o resultado não tenha sido satisfatório para as Províncias, a incursão foi suficiente para que Felipe III voltasse sua atenção para elas e deixasse por algum tempo de planejar algo contra a Inglaterra. 398 Em conjunção, o Arquiduque Alberto de Áustria perseverava na esperança de mediar a paz entre Espanha e Inglaterra, ele havia recebido como dote pelo casamento com a Infanta a soberania sobre Flandres e a interrupção do auxílio dado pela Inglaterra aos rebeldes o favorecia. Bruxelas enviou, em janeiro de 1599, à Corte inglesa o agente Jerome Coomans, com a missão de iniciar as negociações por um tratado.399 No entanto, as Províncias estavam decididas a rejeitar o governo de qualquer monarca, mesmo que fosse o Arquiduque, e também enviaram seu agente em fevereiro de 1599 para convencer Elisabete a continuar na guerra.

Enquanto as negociações com os agentes de ambos os lados se desenvolviam naquele início de 1599, Elisabete e o Conselho Privado decidiram colocar em marcha uma ação contra seus próprios rebeldes irlandeses, cada vez mais resistentes. A trégua

396 R. B. Wernham. The Return of the… Op. cit. pp. 242-248.

397 Alexandra Gajda. ‘Debating War and Peace in Late Elizabethan England’. In.: The Historical... Op. cit.

p. 856.

398 R. B. Wernham. The Return of the… Op. cit. pp. 251-264.

399 Alexandra Gajda. ‘Debating War and Peace in Late Elizabethan England’. In.: The Historical... Op. cit.

havia expirado em junho de 1598 e os revoltosos entraram logo em ação. Em agosto houve um embate com a perda de três mil soldados ingleses, muitos foram mortos, outros ainda debandaram para o partido irlandês. A rebelião passou a ser vista como uma guerra, a Coroa considerou urgente a necessidade de um fortalecido exército inglês na região para estacar a revolta. Cogitou-se o Conde de Essex para o comando, mas ele estava ressentido pelo tapa que recebera e ausente da Corte desde junho. A despeito das opiniões obcecadas do Conde acerca da intensificação do conflito, Elisabete considerou a necessidade de tê-lo no Conselho Privado para ajudar nas decisões em relação à Irlanda, assim como percebeu o perigo que representava seu ressentimento e popularidade junto à plebe. Essex enviou cartas cheias de ressentimento, a Rainha negava-se a atender seu pedido por uma conferência privada. O Conde foi tomado de febres e a Rainha enviou-lhe um médico. Ele ainda resistia encontrar-se com ela em público, pressionada pelo Conselho, ela cedeu e o convidou para voltar à Corte para a desejada audiência particular, ao que foi atendida. Em setembro, Essex assumiu novamente seu lugar ativo no Conselho Privado.400

As relações entre o Conde e a Rainha continuariam tensas, mas em dezembro ela decidiu conferir-lhe o comando da campanha na Irlanda. Essex ressentia-se da frieza com que ela o tratava nas cartas e considerava alguns membros do conselho como seus piores inimigos. Elisabete, por um lado, graças às falhas nas campanhas de 1596 em Cádiz e de 1597 em Ferrol, duvidava da aptidão do Conde no comando militar, por outro lado, temia sobre o que lhe poderia acontecer se ele retornasse vitorioso, estava velha e sem herdeiros. Em janeiro de 1599, ordens foram enviadas para novo recrutamento nos condados, Essex a cada carta aumentava suas exigências e o número de soldados pedido. Começou a se debater entre a nobreza sobre uma possível loucura do Conde, mas ainda assim ele foi atendido na maior parte de suas exigências. Em março, ele partiu para a Irlanda com ordem expressa de verificar fraudes e corrupção nas tropas, assim como a dedicação destas; nas instruções que recebeu afirmava-se que a Rainha estava pagando soldados e não sombras.401 Simão Sombra e os outros miseráveis recrutados na segunda parte de Henrique IV, encenada apenas poucos meses antes, podem ter provocado profunda impressão na Corte, senão na própria Rainha, para que ela cobrasse a transparência e combate à corrupção no exército, assim como o

400 R. B. Wernham. The Return of the… Op. cit. pp. 284-289. 401 R. B. Wernham. The Return of the… Op. cit. pp. 291-5.

alistamento de soldados saudáveis para o serviço.

Uma peça pela guerra

Em uma das últimas cenas da segunda parte de Henrique IV, o rei moribundo lembra a príncipe Hal que chegou à Coroa por caminhos tortuosos, e que os mesmos membros da nobreza que o apoiaram, se viraram depois contra ele. Henrique aconselha o filho herdeiro a entreter a nobreza em uma guerra fora do reino, assim poderia manter a paz doméstica:

Por isto, meu Harry, tem por política ocupar esses espíritos inquietos em guerras estrangeiras, de sorte que a atividade deles, exercida longe daqui, possa apagar a recordação dos dias passados.

(Henrique IV – parte II, Ato IV, cena iv, ref. versos 212-215) É exatamente da realização deste conselho que trata Henrique V.

A peça começa com discussões sobre o direito de Henrique V ao trono francês, de acordo com a lei sálica. Depois de instruído, o rei decide partir com seus homens para guerrear na França. Enquanto isso, na taverna Cabeça de Javali, o grupo de Falstaff recebe a notícia de que ele morreu da tristeza gerada pelo desprezo de Hal, agora rei. Com exceção da hospedeira, a viúva Quickly, todos eles se alistam para a guerra. Rei e tropas desembarcam no continente e as batalhas começam. Henrique e seu exército composto por irlandeses, ingleses, escoceses e galeses, conseguem tomar Harfleur sem derramamento de sangue. Em seguida, o rei inglês e seus soldados mal alimentados, doentes e exaustos, atravessam o território em direção a Calais e são surpreendidos por robustas tropas francesas em Agincourt. Os dois exércitos travam uma batalha violenta, os ingleses sob o comando de Henrique obtêm uma vitória esmagadora com pouquíssimas perdas, mas milhares no partido inimigo. Sob mediação do duque de Borgonha, a paz é alcançada com a promessa de união dinástica entre Henrique e a princesa francesa Catarina, a cessão de alguns territórios e o reconhecimento do rei inglês como herdeiro do trono francês. Enquanto as batalhas são encenadas, os antigos companheiros de farra de Henrique V enfrentam tristes destinos, dois são enforcados por furtos, o antigo pajem de Falstaff é assassinado, a senhora Quickly morre de sífilis e Pistola volta miserável para a Inglaterra para se dedicar aos pequenos crimes.

tentativa de Shakespeare em empreender paralelos entre a empresa de Henrique V na França e a de Essex na Irlanda para “trazer a revolta espetada em sua lança” (V, 0, 32). Como em Trabalhos de Amor Perdidos e Muito Barulho por Nada, novamente Robert Devereux parece ser o personagem central em uma obra do poeta. A escrita parece ter sido feita sob medida para convergir com os argumentos do Conde em seu Apologia, o texto em que defendeu a continuidade da Guerra Anglo-Espanhola.402 Além da menção a Essex na referida passagem do Coro, possivelmente a única referência tópica direta à política inglesa em todo o cânone, as convergências entre ele e Henrique V parecem perpassar toda a peça.403

O cerco de Harfleur pelo temível monarca inglês certamente evocaria na memória de muitos presentes na audiência as campanhas militares de Essex na França, sobretudo o cerco de Ruão em 1591. Shakespeare alterou as fontes utilizadas na composição, omitiu o saque feroz que Henrique fez com suas tropas em Harfleur para mostrá-lo generoso com a cidade, proibindo os soldados de maltratarem a população. 404 Esta alteração parece apontar a intenção do poeta em evocar a mesma postura que os ingleses gabavam ter assumido no saque de Cádiz, também comandado pelo Conde em 1596. Se a audiência tivesse alguma dúvida sobre as alusões, a menção a Essex esclareceria a intenção do dramaturgo. No trecho, o Coro narra como Henrique foi recebido em Londres com honras e entusiasmo popular pela vitória na guerra contra a França, semelhante a um “César conquistador” na Roma antiga, em seguida deseja que Essex tivesse o mesmo destino quando retornasse de sua empresa:

Assim, para escolher um exemplo mais humilde, mas que nos toca o coração, seria recebido hoje (e pode chegar o dia em que o seja) o general de nossa graciosa imperatriz de regresso da Irlanda, trazendo a rebelião espetada em sua espada. Quantas pessoas sua pacífica cidade deixarão para desejar-lhe as boas vindas!

(Henrique V, Ato V, cena 0, ref. versos 29-34)

A discussão sobre guerra e paz se intensificou após a agressão recebida por Essex pela Rainha no verão de 1598, ao que ele de forma indireta respondeu em Apologia, como

402 Alexandra Gajda. 'Debating War and Peace in Late Elizabethan England' In.: The Historical... Op. cit.

pp. 862-867.

403 Taylor afirma que muitas devem ser as reflexões sobre a história contemporânea inglesa na obra de

Shakespeare, mas esta alusão seria a única referência direta e extra-dramática. Gary Taylor. 'Introduction'. In.: William Shakespeare. Henry V... Op. cit. p.7.

vimos no capítulo anterior. Durante o referido embate entre manuscritos e panfletos, as negociações com os representantes de Espanha e Províncias Unidas seguiam na Corte inglesa, resultando posteriormente em uma conferência feita em Bolonha-sobre-o-Mar em 1600 entre agentes ingleses e espanhóis. 405

Essex realmente necessitava de todo apoio que Shakespeare pudesse oferecer. Sobre sua ação na Irlanda, ele ainda mantinha uma relação estremecida com a Rainha enquanto a rebelião mostrava-se prestes a ser apoiada pela Espanha, o futuro do Conde era incerto. Ele partiu no fim de março, e durante o verão já corriam rumores de que seu desempenho estaria sofrendo grande revés. Gary Taylor utiliza a referência elogiosa à empresa de Essex para datar a escrita de Henrique V justamente neste intervalo entre a esperança e a desilusão militar. 406 No que se refere à guerra contra a Espanha, qualquer suporte que o dramaturgo pudesse oferecer pela continuidade seria bem vindo. Ao que tudo indica, Shakespeare decidiu auxiliá-lo e encampar seu partido nos palcos. Em favor de ambos, havia os rumores de que a Espanha intentava atacar a Inglaterra. Embora o Arquiduque Alberto insistisse nas negociações pela paz, e apesar do fato de que desde 1598 Felipe III estivesse entretido no conflito com as Províncias Unidas, a postura do monarca sinalizava que ele poderia se levantar contra a Inglaterra em algum momento.407 Não era apenas o Conde quem precisava de apoio para estimular confiança no desempenho militar inglês. Embora desejasse a paz, a difícil decisão que a Rainha tomou em renovar a aliança com as Províncias Unidas no verão de 1598 abriu precedente para uma possível retaliação de Felipe III. A despeito das intenções do Rei, havia também contínuos rumores sobre novo ataque espanhol, o que estremecia os ingleses. Shakespeare, como partidário de Essex e da própria Rainha, necessitava em nome de ambos justificar a possível continuidade da Guerra Anglo-Espanhola.

Benzer Belgeler