• Sonuç bulunamadı

7. SONUÇLAR VE ÖNERİLER

7.2. Öneriler

Algumas reflexões avaliam que as transformações contemporâneas estariam tensionando ou tornando inadequado o formato atual da representação. Para Aires (2009, p. 20), essa “crise do conceito convencional” vincula-se a fatores como: a emergência de “atores transnacionais, extraterritoriais e não-territoriais” com novas demandas e funções representativas; a diversificação dos espaços de tomada de decisões coletivas, com uma luralização dos atores que exercem funções representativas e uma diversificação dos espaços nos quais ela é exercida; a crise da representação política nas democracias contemporâneas;

ao declínio do comparecimento eleitoral; a ampliação da desconfiança em relação às instituições; e ao esvaziamento dos partidos políticos.

Nesse contexto, Urbinati e Warren (2008) destacam a existência de “formas complementares de representação” que contemplam “novas demandas e grupos que não se adequam aos mecanismos clássicos de representação territorialmente limitados”. Tratam-se de representantes não autorizados, um formato institucional que poderia também se acoplar a uma segunda proposta dos autores, a dos “cidadãos representantes”. Também deve ser destacada a recuperação do conceito de “representação virtual”, de Edmund Burke, por Lavalle, Houtzager e Castello no sentido de:

(...) manter o núcleo normativo mínimo da representação, a saber, atuar em favor do representado, e avaliar as novas práticas de representação sem condená-las a priori à ilegitimidade, em decorrência da ausência de mecanismos formais clássicos, buscando avaliar seus efeitos de inclusão sem, contudo, suspender “as exigências normativas próprias de toda representação política democrática, o que inclui dispositivos de expressão de preferências e sanção sobre o representado” (LAVALLE et. al., 2006, p. 88).

No contexto do debate contemporâneo, Young (2006, p. 142) fornece uma chave analítica importante ao defender a não contraposição entre representação e participação, reconhecendo a sua importância visando o fortalecimento da democracia na sociedade contemporânea. Neste sentido, enfatiza as questões da temporalidade e da espacialidade, conceituando a “representação como um relacionamento diferenciado entre atores políticos engajados num processo que se estende no espaço e no tempo”. Nessa perspectiva, Young (2006, p. 151) afirma:

A representação consiste num relacionamento mediado entre os membros de um eleitorado, entre este e o representante e entre os representantes num organismo de tomada de decisões. Na qualidade de um relacionamento prolongado entre os elei- tores e seus agentes, a representação oscila entre momentos de autorização e de prestação de contas: é um ciclo de antecipação e retomada entre os eleitores e o representante, no qual seus discursos e ações devem carregar vestígios de um momento a outro.

(...) num processo de autorização eficaz, uma esfera pública de discussão define uma agenda de questões e os principais pontos de disputa ou de luta. Para que os processos parlamentares sejam efetivamente representativos, e não meramente uma etapa em que as elites desempenhem seu papel conforme seus próprios roteiros, o processo democrático da autorização de representantes deve ser tanto participativo quanto inclusivo em sua deliberação.

Além disso, Young (2006, p. 158) indica três elementos que caracterizariam o “sentir- se representado”: 1) “quando alguém está cuidando de interesses que reconheço como meus e

que compartilho com algumas outras pessoas”; 2) “os princípios, valores e prioridades que penso deveriam nortear as decisões políticas sejam verbalizados nas discussões que as deliberam”; 3) “quando pelo menos algumas dessas discussões e deliberações sobre políticas captam e expressam o tipo de experiência social que me diz respeito, em razão da minha posição num grupo social e da história das relações desse grupo social”.

Pinto (2004, p. 97) também defende a articulação entre participação e representação, visando efetivar uma radicalização dos princípios da democracia, a partir de uma perspectiva:

(...) em que a participação deve estar ao mesmo tempo suficientemente independente do campo da política institucional, para estabelecer com ela uma relação calcada na autonomia e não caudatária de interesses construídos no seu interior, e inserida o bastante nesse campo para que não ocorra uma espécie de divisão de trabalho entre sociedade civil e a esfera propriamente política.

Ao mesmo tempo, analisando quatro experiências concretas de lutas e movimentos participativos, na Índia, na África do Sul e no Brasil, Pinto (2004, p. 102) avalia o quanto é difícil estabelecer essa relação entre participação e representação, posto que em nenhum dos casos analisados “a participação reforça a representação ou busca melhorar sua qualidade; ao contrário, procura isolá-la ou reduzir seu poder, caracterizando-se como um pólo de tomada de decisão e de iniciativa política independente, que pressiona de fora”. Pinto (2004, p. 111) ressalta a importância de articulação entre participação e representação, tendo em vista que a “solução que considera a utilidade da democracia de tipo participativa somente para determinados espaços pode facilmente levar a uma espécie de divisão de trabalho, que manteria intocadas as esferas de poder das instituições geridas pela representação”. Posta esta questão, cabe mencionar Urbinati (2005, p. 18-19), que refletindo sobre uma “teoria democrática da representação”, refere-se ao “poder negativo”, evidenciando a importância das articulações entre a participação e diferentes tipos de representação:

Esse poder é negativo por duas importantes razões: sua finalidade é deter, refrear ou mudar um dado curso de ação tomado pelos representantes eleitos; e ele pode ser expresso tanto por canais diretos de participação autorizada (eleições antecipadas, referendo, e ainda o recall*, se sensatamente regulado, de modo que não seja imediato e, acima de tudo, rejeite o mandato imperativo ou instruções) quanto por meio dos tipos indiretos ou informais de participação influente (fórum e movimentos sociais, associações civis, mídia, manifestações). Esse poder popular negativo não é nem independente da nem antitético à representação política.

Lüchmann (2007, p. 140), em um cenário de “incremento de experiências participativas no Brasil”, avalia as relações entre participação e representação no interior

dessas experiências, “sugerindo que, muito menos do que oposição, estes instrumentos estabelecem combinações e articulações que desenham um processo de concomitante inovação e reprodução das práticas e orientações político-institucionais”. Lüchmann (2007, p. 144) indica que no modelo representativo, a “participação restringe-se ao momento da escolha dos representantes na ocasião do processo eleitoral”, enquanto nos modelos participativos, “as decisões políticas devem ser tomadas por aqueles que estarão submetidas a elas por meio do debate público”. Destaque-se que, de forma geral, as experiências participativas, mesmo quando representam ou expressam iniciativas estatais e transferências ou partilhas do poder político, caracterizam-se como programas de governo e atingem somente políticas setoriais, subordinando-se, portanto, à estrutura e aos sistemas institucionais hegemonicamente demarcados por práticas, mecanismos e processos de representação eleitoral. Ao mesmo tempo, fortes demandas pela institucionalização da participação, caracterizam a atuação de um conjunto de agentes sociais na contemporaneidade (Lüchmann, 2007, p. 144).

Nessa perspectiva, ao mesmo tempo, “as experiências participativas inauguram novos mecanismos e relações de representação política que apresentam especificidades e diferenças substantivas com o modelo da representação eleitoral”, inclusive “por combinarem, em seu interior, mecanismos de representação com participação direta”, ou “por articularem, de forma imediata, participação com representação da sociedade civil” (Lüchmann, 2007, p. 145). Avritzer (2007, p. 458), por exemplo, elabora uma tipologia, com três tipos diferentes de representação política – eleitoral, advocacia e da sociedade civil –, cada uma com formas e modos diferentes de relação com o(s) representado(s) e de legitimação e com sentidos diferentes para a representação, como indicado no Quadro 1.

QUADRO 1 – Formas de Representação na Política Contemporânea

A representação eleitoral, com autorização através do voto, abrange monopólio territorial, enquanto a representação da advocacia envolve identificação com a condição e caracteriza representação de discursos e idéias. Caracterizando o que denomina de representação da sociedade civil em distinção com a representação parlamentar, Avritzer (2007, p. 444) afirma que a “representação exercida pela sociedade civil é pluralista” e, além disso, “na maior parte das vezes, a representação da sociedade civil é um processo de superposição de representações sem autorização e/ou monopólio para o exercício da soberania”. Lavalle, Castello e Houtzager (2006 a, p. 43), destacam como a “representação política realizada por organizações civis” vêm tornando-se um fenômeno social presente em diferentes países, avaliando que essas organizações civis são investidas como “representantes de determinados segmentos e interesses da população”, intervindo no âmbito das políticas públicas, muito embora sem possuir mecanismos eleitorais ou de filiação para justificar sua legitimidade.

Na ausência de referenciais teóricos e de modelos empíricos, Lavalle, Castello e Houtzager (2006, p. 46) trabalham com uma abordagem onde a representação das organizações civis estaria assentada na “autodefinição do compromisso explícito e público de representar os beneficiários, membros ou públicos”. Desta forma, Lavalle, Castello e Houtzager (2006 b, p. 88) evidenciam a “ausência de mecanismos generalizados, formais e estáveis de ordenação da relação entre atores da sociedade civil e seus públicos, beneficiários ou comunidades – notadamente mecanismos de autorização, prestação de contas, responsividade e sanção”. A partir das pesquisas desenvolvidas em São Paulo, Lavalle, Castello e Houtzager (2006 a, p. 59) advogam que as “organizações civis desempenham um papel ativo – embora não necessariamente positivo – na reconfiguração da representação tanto nos circuitos tradicionais da política como nos âmbitos inaugurados pelas inovações institucionais participativas”. Desta forma, Lavalle, Castello e Bichir (2007, p. 466), através de uma visão mais crítica, permitem perceber como os “consensos largamente difundidos sobre as potencialidades da sociedade civil” são, para dizer o mínimo, “consensos pouco sensíveis às diferenças internas, conflitos, afinidades, hierarquias e modalidades de articulação próprias ao universo das organizações civis reais”. A partir de pesquisa realizada na cidade de São Paulo, avaliam que o “universo das organizações civis é hierárquico e desigual quanto às capacidades de ação e de interlocução” (Lavalle, Castello e Bichir, 2007, p. 466).

A partir dessa postura metodológica, esses autores, questionando-se sobre as “diferentes lógicas de atuação e dinâmicas internas de interação que organizam o universo desses atores societários”, utilizam a “estratégia de análise de redes” para uma compreensão crítica do que denominam de organizações civis (Lavalle, Castello e Bichir, 2007, p. 466). Nessa perspectiva:

Organizações populares, articuladoras e ONGs são os grandes protagonistas da rede, com padrões de centralidade diferenciados, quer dizer, os atores que, por motivos diferentes, se apresentam como referência para entidades menos centrais ou francamente periféricas. Por sua vez, as organizações civis mais centrais são simultaneamente aquelas com investimentos maiores na construção de relações com seus próprios pares, e aquelas mais procuradas pelas próprias entidades centrais, bem como pelas entidades periféricas e intermediárias (Lavalle, Castello e Bichir, 2007, p. 466).

Benzer Belgeler